




Giselle - A amante do inquisidor
Autor: Esprito Leonel
Mdium: Mnica de Castro
Pginas: 384


Sinopse:

Na Espanha, no tempo da Inquisio, quando o poder da Igreja era quase absoluto, um inquisidor, em sua luta para obter mais poder, e a pretexto de "salvar as almas
do pecado", pratica toda sorte de crimes. Sua amante, uma linda e ambiciosa mulher, une-se a ele, urdindo ciladas para as pessoas a quem ele deseja condenar.
Assim tornou-se cmplice dos crimes que o amante praticava. Encontrou, porm um homem que a despertou para um grande amor, inspirando-a a mudar de vida.
Haveria tempo para ela fazer isso ou seria tarde demais?
Voc encontrar a resposta na emocionante histria de Giselle (a amante do inquisidor).


PREFCIO

Todos ns temos algo de bom. Por pior que algum possa parecer, basta que lhe prestemos ateno para descobrirmos que ningum  totalmente despido de bondade. Alguns 
se afeioam apenas aos animais, outros amam to somente os filhos, outros ainda procuram proteger seus comparsas. Todo sentimento sincero, ainda que direcionado 
aos mais empedernidos, revela a semente de bondade latente dentro de ns.
No existe no mundo quem no tenha praticado uma ao digna, por menor e mais insignificante que possa parecer. No h aquele cujos pensamentos e sentimentos, por 
uma frao de segundo que seja no se tenha voltado para seu irmo com uma pontinha de piedade ou arrependimento.
E isso porque todos ns, sem exceo, somos dotados da centelha divina que nos acompanha desde a nossa criao. Alguns, mais vidos e mais corajosos, aprendem com 
maior rapidez essa verdade e logo alcanam a paz interior, alando planos mais elevados de compreenso. Outros, mais embrutecidos, teimam em persistir apegados a 
falsos valores de felicidade e se perdem nas vias do terror, infligindo-se sofrimentos e vicissitudes que poderiam ser contornados.
Mas todos, inexoravelmente, estamos caminhando em direo ao mesmo objetivo. Todos almejamos crescer, aprender, ascender ao invisvel de uma forma plena e segura, 
mais consciente, menos sofrida, mais verdadeira e amorosa.  para isso que lutamos, camos e nos levantamos.  com esse objetivo que enveredamos pelo espinhoso caminho
da descrena, da culpa, do orgulho, do desamor, da crueldade. No so esses sentimentos aspectos negativos do carter humano. So meras etapas necessrias  compreenso
do verdadeiro amor. Muitas vezes,  preciso conhecer o mal para que possamos valorizar o bem e aceit-lo como verdade absoluta em nossos coraes.
Assim  a vida, desde seus primrdios. Em todos os tempos, todas as eras, todos os lugares, o homem vem travando furiosa batalha consigo mesmo, contra seus instintos,
seus temores, seu orgulho.  uma luta constante, porque o maior inimigo do homem  ele mesmo, contra quem precisa constantemente lutar para impor, no pela fora,
mas pelo amor, a compreenso verdadeira da vida.
 com esse sentimento que devemos entender as pocas mais negras da Histria, aquelas cuja lembrana nos causa arrepios e em que pensamos nada existir de bom. Em
tudo na vida h um bem, ainda que s aparea o mal, porque o mal  mera iluso. O que vulgarmente chamamos de mal no passa de uma falsa compreenso das verdades
divinas. Quando realmente conseguirmos alcanar a magnitude dos desgnios de Deus, estaremos prontos para olhar o mal como algo que ainda  necessrio, ao menos
por enquanto, para que possamos realmente compreender o bem. Porque o bem nada mais  do que uma singela consolidao das leis da natureza. A natureza no erra nem
 m. Ela simplesmente existe, simplesmente acontece. Assim tambm o bem. Ele existe dentro de ns desde a nossa criao e est apenas  espera do momento em que
o faamos acontecer.
Deus est sempre conosco, ainda que no o desejemos, ainda que no acreditemos nele. Porque  infinito em amor e sabedoria, em compreenso e benevolncia, sabe de
tudo o que necessitamos, antes mesmo que pensemos em lhe pedir. E sabe que no somos, em essncia, nem maus, nem cruis. Somos ignorantes e imaturos, mas inteligentes
o bastante para reconhecermos quando  chegada  hora de abandonar a infncia das trevas e aprender.

Leonel



PRLOGO


 medida que a chuva desabava pesada e grossa, Giselle subia a colina verdejante e escorregadia, parando por vezes para enxugar as pequeninas e abundantes gotas
de suor, misturadas aos pingos da chuva que desciam pelo seu rosto cansado. O vento soprava insistente e veloz, fazendo com que o corpo de Giselle envergasse para
trs, dificultando-lhe a caminhada. Ao longe, troves ribombavam furiosos, acompanhando os raios que faiscavam no cu tempestuoso. Efetivamente, Giselle estava no 
meio de uma tormenta e no tinha certeza se conseguiria seguir adiante.
Em dado momento, parou e olhou para baixo, espantada com o tanto que j havia subido, sem nem se dar conta. Suas pernas comeavam a doer, talvez em funo do sofrimento 
que lhes fora impingido, e uma forte exausto comeou a tomar conta de todo o seu corpo. S agora seus msculos e ossos se ressentiam de tudo por que j haviam passado.
Mas no podia desistir. No agora. Diego lhe dissera que aquele era o caminho. Do outro lado da colina, o mar lhe acenaria com a liberdade. Abaixou a cabea, contendo 
as lgrimas, e avanou mais um pouco. No faltava muito, agora, e tinha que prosseguir. J perdera muito em sua vida, mas precisava viver. Devia isso a Ramon, que 
morrera para no ter que mat-la.
Parou por instantes, olhos enevoados pelo pranto e pela chuva, e tornou a subir. Sentia-se s e desamparada. Mais at do que quando estivera presa. Ramon estava 
morto, e ela no podia mais contar com Esteban. Ele a abandonara. O homem que fora o primeiro amante em sua vida, e a quem chegara a amar como pai, virara-lhe as 
costas covardemente. Ou ser que ele tinha algo a ver com tudo aquilo? Teria sido Esteban quem a delatara e depois, por medo e covardia, no ousara mais encar-la? 
No sabia ao certo. Por diversas vezes Esteban a alertara de que, se ela fosse presa, nada poderia fazer para salv-la. No. Ele no a trara. Acovardara-se, temendo 
manchar seu nome e sua reputao. Mas no acreditava que houvesse sido ele o autor daquela denncia infame.
Finalmente, alcanou o topo da colina e ficou estarrecida com a viso do outro lado. Era uma encosta ngreme e rochosa, nada parecida com a grama verdejante por 
onde acabara de subir. Ao fundo, um imenso mar de guas revoltas se chocava contra as pedras, jogando a espuma branca a muitos metros de distncia. A mar ia e vinha 
numa cadncia aterradora, como se quisesse sugar todos os gros de areia, as pedrinhas e as conchas que, inutilmente, lutavam para se agarrar s pedras incrustadas 
no cho arenoso.
Por alguns momentos, Giselle ficou parada no alto da colina, paralisada ante aquela viso. Como  que Diego pretendia que ela entrasse naquele mar? O tempo no a 
estava ajudando e havia encapelado o mar de tal forma que seria praticamente suicdio aventurar-se por aquelas ondas. As vagas eram gigantescas e se chocavam com 
violncia contra as pedras, arrastando qualquer coisa que se insinuasse por ali.
Durante alguns minutos, permaneceu estudando o local. As ondas no conseguiam chegar at o p do rochedo, perdendo fora poucos centmetros antes. Mas seria uma 
travessia arriscada at a ponta do promontrio, onde Diego lhe dissera que haveria um barco  sua espera. Giselle teria que conter o medo ante as gigantescas muralhas 
de gua que as ondas formariam bem diante de seus olhos.
Inspirou profundamente, tomando coragem, e ps-se a descer, quase que rastejando pelas rochas. Ao menos, parar de chover. Apesar de ngreme, a descida no era to 
difcil como pensara, pois havia uma espcie de trilha natural marcando o caminho por onde deveria passar. Em poucos instantes, alcanou a praia. No era propriamente 
uma praia, mas uma estreita faixa de terreno arenoso e, mais  esquerda, as pedras que separavam a terra do mar. Subindo por elas, chegava-se a um caminho apertado 
e pedregoso, ladeando o penhasco e protegido pelas rochas  frente, que terminava num cabo largo e alto, fazendo como uma plataforma adentrando o mar. Se conseguisse 
chegar ao final da montanha, teria que dar um jeito de subir pelas pedras e se abrigar na plataforma, onde ento ficaria  espera do barco que a iria resgatar.
De um lado e de outro, imensas paredes de pedra, com uma espcie de gruta mais ao fundo. Aquilo mais parecia uma garganta. Giselle ficou pensando que seria muito 
fcil armar-se uma emboscada ali e comeou a sentir medo. Por que  que Diego a enviara para um lugar to perigoso? No teria sido mais fcil marcar o encontro numa 
praia mais afastada? Mas ele dissera que no, que seria arriscado. Miguez ento j teria descoberto a fuga e teria colocado todos os soldados em seu encalo. E depois, 
como poderia ele prever aquela tempestade?
Mesmo assim, algo no lhe soava bem. Olhando para a ponta do cabo, ficou pensando no barco que conseguiria chegar at ali com aquele tempo. O mar estava muito revolto, 
era mesmo uma ressaca impiedosa. Que embarcao se atreveria a aproximar-se das pedras com aquelas ondas, arriscando-se a ser atirada contra as rochas e naufragar?
Apurou os ouvidos, tentando escutar algum som. Nada. No ouvia nada, a no ser o barulho do vento e das ondas estourando com violncia nas pedras. Comeou a ficar 
nervosa, pensando no que deveria fazer. Subitamente, a ponta de um barco surgiu por detrs do morro, e Giselle suspirou aliviada. Era um barco pequeno, e ela imaginou 
que a nau que a levaria embora devesse estar ancorada um pouco mais alm, fora da influncia daquela mar traioeira. No sabia como faria para alcanar o barquinho, 
mas imaginou que algum deveria lhe jogar uma corda ou algo parecido, puxando-a a bordo antes que as vagas a atirassem contra as rochas do cabo. De qualquer forma, 
teria que saltar ao mar.
No teve tempo de pensar em muita coisa. Enchendo-se de coragem, deu dois passos em direo s pedras. Ia comear a subir quando ouviu um estalido do outro lado. 
Olhou na direo daquele rudo e estacou abismada. Do fundo escuro da gruta, dezenas de homens apareceram, apontando para ela suas espadas ameaadoras.
Giselle no teve dvida. Agarrou-se s pedras o mais que pde e comeou a subir, rezando para chegar ao barco antes que os soldados a alcanassem. Quando ergueu 
os olhos, outra surpresa. Ao invs de o barco se aproximar do promontrio, comeou a se afastar em direo ao alto-mar, e foi ento que ela compreendeu tudo. Diego 
a trara. Esperara at que ela lhe revelasse onde escondera seu tesouro, facilitara-lhe a fuga e a entregara a Miguez.
Ficou desesperada. No havia para onde fugir. Pensou em voltar pelo mesmo lugar por aonde viera, mas no havia tempo. Os homens se aproximavam cada vez mais e conseguiriam 
facilmente det-la naquela subida ngreme. No tinha escolha. Ou ia avante, ou seria capturada e morta.
Comeou a subir pelas pedras, em direo  parede do penhasco, rumo  ponta do cabo. Quem sabe no poderia atirar-se ao mar e nadar at o outro lado da montanha? 
No sabia o que encontraria l, mas deveria haver uma praia ou uma baa. Quando atingiu o caminho que circundava o morro, ergueu o corpo e levantou os olhos mais 
uma vez. Sentiu medo. Tanto medo que pensou que fosse desmaiar. Vistas de baixo, as ondas pareciam ainda maiores e engoliam as pedras com uma fria sem igual, respingando 
o caminho por onde ela teria que passar. Se fosse apanhada por uma onda, ser-lhe-ia impossvel escapar.
Mesmo apavorada, seguiu em frente. Era sua nica sada. Os homens de Miguez tambm j comeavam a subir nas pedras e logo a alcanariam. Uma onda estourou a poucos 
centmetros e o repuxo quase a arrastou, mas ela conseguiu se sustentar e correr. Giselle deu um passo trpego para junto da parede de pedras, a colando seu corpo 
e experimentando nas pernas a friagem da gua. Corao aos pulos sentiu na pele a iminncia da morte.
Os soldados pareciam temerosos e recuaram, hesitando em seguir avante. Era loucura demais. Estacaram onde estavam e ficaram apenas olhando, como se esperassem que 
algo acontecesse e a levasse de volta para eles. Sem lhes prestar mais ateno, Giselle, corpo ainda colado nas pedras frias do penhasco, foi-se arrastando lentamente, 
sentindo as pernas tremerem com o estrondo das vagas diante de seus olhos.
J ultrapassara a metade do caminho quando ouviu um novo alvoroo. Olhou novamente para a praia e notou que os homens haviam recuado e que outros se aproximavam. 
Giselle percebeu que eram arqueiros. Iam atirar nela! Com o corpo trmulo, comeou a chorar e continuou a arrastar-se, tentando no encarar as ondas que se agigantavam 
diante de seus olhos, avanando cada vez mais por cima das pedras  frente, que agora comeavam a declinar para dentro da gua cinzenta.
A primeira flecha passou zunindo pelo seu ouvido e quase a acertou, mas foi desviada a tempo pela ventania. Os arqueiros, porm, no se deram por vencidos. Armaram-se 
novamente e tornaram a atirar, mas as flechas no conseguiam alcan-la, perdendo fora ante o vento que soprava em direo contrria. Sua pele j estava ferida 
e sangrando, esfolada que fora pelas rochas pontiagudas do penhasco. Giselle parecia nem sentir a dor. Depois de tudo por que passara, at que aquilo no era to 
mau. Apesar das feridas que trazia e do corpo dolorido, ainda conseguira juntar foras para fugir e chegar at ali. No iria desistir agora.
Cada vez mais se afastava dos homens. As flechas no a atingiam, e Giselle pensou mesmo que estivesse fora de seu alcance. De repente, cessaram por completo. Os 
arqueiros pareciam haver desistido e aguardavam em posio de ataque. Mas algum no desistira. Giselle j o havia visto uma vez, h muito tempo, quando ele a fora 
buscar para ir  masmorra ver Manuela. Era homem da confiana de Esteban, estava certa. Aquilo a encheu de tristeza. Ento, aqueles soldados estavam ali no a mando 
de Miguez, como a princpio pensara, mas do prprio Esteban.
O soldado olhou para onde Giselle estava, estudando rapidamente o local, e soltou a armadura e a espada no cho. Comeou a subir pelas pedras, com habilidade e destreza, 
esgueirando-se com cuidado e evitando o encontro com as ondas, logo chegando  encosta por onde ela se arrastava. Sem nem olhar para o mar, encostou-se  parede 
e comeou a arrastar-se tambm. Giselle se apavorou. Estava claro que ele a alcanaria em pouco tempo, antes mesmo que ela pudesse atingir a ponta do promontrio 
e subir na plataforma. Tentou andar mais rpido, mas as ondas a detinham. Elas pareciam estourar cada vez mais perto agora, e no foram poucas s vezes em que tivera 
que parar para no ser atingida pela sua fria incontida.
Quase no final, estacou novamente. As pedras adiante, que protegiam a pequenina trilha encostada na montanha, praticamente desapareciam sob a gua, e as ondas ganhavam 
fora, chocando-se contra o promontrio com mais violncia. Se conseguisse ultrapassar esse ponto, poderia comear a subir para a plataforma, de onde se atiraria 
ao mar. Seria preciso esperar o repuxo e atravessar depressa. Giselle parou. As ondas espocavam com furor, arrastando tudo, e ela voltou a tremer. Sentia o perigo 
bem abaixo de seus ps e se deu conta de que no havia nada que a sustentasse se casse.
Ela olhava do homem para as pedras, enquanto ele ia se aproximando cada vez mais. Comeou a se desesperar. As vagas no davam trgua, estourando uma atrs da outra, 
e o intervalo entre elas no era suficiente para que atravessasse. Seria atingida em cheio e arrastada antes que pudesse comear a subir para a plataforma.
Foi quando o homem chegou mais perto. To perto que seus dedos roaram nos dela, e Giselle no teve mais dvidas. Ou atravessava, ou ele a agarrava. De qualquer 
forma, iria morrer. Tomou uma deciso. Esperou at que a ltima onda explodisse contra a rocha e recuasse, e avanou rapidamente. Mas no to rpido a ponto de evitar 
o choque com a nova onda que estourou em seguida  primeira, to grande que logo a encobriu.
Apesar de atirada contra a parede com fora descomunal, Giselle ainda teve foras para se segurar nas pedras. Mas o repuxo foi to violento que ela no conseguiu 
manter-se agarrada, sentindo-se arrancada do cho e envolvida pela espuma branca e gelada da onda. Subitamente, seu corpo todo estremeceu como se estivesse sendo 
embrulhada e sacudida por imensa massa cinza. Estendeu os braos para frente e percebeu que no alcanava nada alm da parede lquida e cinzenta que a ia tragando. 
Sentiu-se arrastada esticou ao mximo a ponta dos ps, tentando tocar algo slido. Em poucos instantes, viu-se coberta pelo mar, sendo levada cada vez mais fundo. 
Seu corpo, apanhado pela correnteza, era agora levado para longe.
No teve tempo de chorar. J havia engolido muita gua e comeou a sufocar. No lutava mais. Era intil. Seu corpo continuava sendo arrastado pela correnteza, e 
ela sabia que o fim era inevitvel. Tentou no abrir a boca, para no engolir gua. Em dado momento, sentindo-se asfixiar, inspirou profundamente pelo nariz e sentiu 
a corrente de gua invadindo os seus pulmes, ao mesmo tempo em que fragmentos de sua vida lhe vieram  mente em questo de segundos.
A ltima coisa em que pde pensar foi na solido. Nunca antes, em toda a sua vida, Giselle havia se sentido to s. Deixou-se dominar por profunda tristeza, vendo-se 
na iminncia da morte, sozinha no fundo do oceano, sem ningum com quem compartilhar a sua dor. As testemunhas silenciosas de seu suplcio jamais poderiam atestar
a dor daquele momento. Giselle sentiu-se morrer em completa solido, o corpo livre e solto no mar, distante de tudo o que um dia representara a sua vida.
Com um movimento mecnico, parou onde estava e ficou olhando seu corpo sendo arrastado para o fundo do oceano. Como  que aquilo podia estar acontecendo? No havia 
morrido? Morrera. Giselle no sabia explicar, mas estava quase certa de que havia morrido. Seu corpo, provavelmente, se fora, e o que permanecia ali era to somente 
o seu esprito. Desgrudara-se da matria e continuava boiando na gua, ainda imersa, confusa demais para entender o que estava acontecendo. Ser que ainda respirava?
Aterrada, balanou a cabea de um lado para outro e percebeu que ainda continuava no fundo do mar. Corpo ou esprito, o fato  que no estava mais sendo arrastada. 
Teria tudo sido iluso e ela ainda permanecia viva? Subitamente, sentiu que o ar lhe faltava. Estava viva! Os mortos no precisavam respirar. Ento, no morrera. 
Desmaiara, talvez, mas estava viva. Viva...!



CAPTULO 1


J passava j das oito da manh quando Esteban acordou. Tinha tido um dia cansativo na vspera, foram muitos os interrogatrios que tivera que presidir. O ltimo, 
de um campons acusado de pacto com as trevas, deixara-o particularmente esgotado. Fora difcil fazer o homem confessar, mas Esteban acabara convencendo-o. No conseguira, 
porm, misericrdia para o seu crime. O homem seria executado na fogueira dali a alguns dias, como forma de purificao de sua alma possuda.
Inspirou profundamente o ar da manh e deixou que o sol atingisse seu rosto. Gostava de sol. Passava grande parte do tempo no calabouo, interrogando os prisioneiros, 
e sua vista j comeava a se ressentir da escurido. Esperou mais alguns minutos at se levantar. Em breve teria que acompanhar o arcebispo de Madri em uma importante 
visita s masmorras de Sevilha.
Havia terminado de se vestir quando ouviu suaves batidas na porta, que se abriu devagarzinho. Um rapaz entrou e falou baixinho:
- Sou eu, monsenhor, Juan. No queria acord-lo. Mas  que est a a senhorita Giselle...
Esteban no lhe deu tempo de terminar e respondeu apressadamente:
-  Diga-lhe que me encontre na antiga capela.
Juan saiu sem dizer nada. Era apenas um menino de seus dezoito anos, salvo pela bondade e generosidade de Esteban Navarro. Os pais haviam morrido quando ele tinha 
apenas trs anos, vtimas do Santo Ofcio, acusados de bruxaria. Navarro, por piedade, havia intercedido pelo menino e pedido para tomar a frente em sua educao, 
o que lhe foi permitido graas ao enorme prestgio de que gozava na Igreja. Criou o menino como se fosse seu filho, dedicando-lhe um amor sincero e paternal.
A passos rpidos, Juan correu a avisar Giselle e seguiu a seu lado, em silncio. Giselle era uma moa muito bonita, e Juan estava apaixonado, embora no ousasse 
partilhar seus sentimentos com ningum, principalmente com monsenhor Navarro. Se ele soubesse, era bem capaz de castig-lo. Em silncio, abriu a porta para que Giselle 
pudesse passar e tornou a fech-la. A moa se virou lentamente, sem lhe dirigir a palavra, e foi andando em direo ao altar de imagens velhas e descascadas. Fitou 
o semblante suave da Virgem Maria, ajoelhada aos ps da cruz, e desviou o rosto, acabrunhada. No queria nada com santos e virgens.
Esperou por cerca de vinte minutos at que Esteban aparecesse. Ele entrou apressado, e Giselle logo se atirou em seus braos, beijando-o com impetuosidade. Esteban 
correspondeu ao beijo sem muito ardor, mas, ainda assim, amaram-se ali mesmo, no cho, sob os olhos marejados da Virgem. Depois que terminaram, Giselle vestiu-se 
s pressas, de costas para a imagem, e esperou at que ele falasse:
- Lamento t-la feito vir aqui, mas espero a visita do arcebispo de Madri e no pude me ausentar. Tenho uma nova misso para voc.
- De quem se trata? - tornou ela sem muito interesse.
- Dom Ferno Lopes de Queiroz.
- O comerciante de sedas?
- Esse mesmo. Desconfio de seu envolvimento com uma descendente de mouros.
Envolvimento com mouros era considerado uma alta traio  Igreja. Os mouros eram hereges, uma vez que no professavam os sacramentos romanos, mesmo aqueles que 
haviam se convertido ao cristianismo, os chamados mouriscos.
- O que quer que eu faa?
- O de sempre. No ser muito difcil. Ouvi dizer que dom Ferno, apesar de apaixonado pela tal moura, tem uma queda especial por mulheres bonitas.
- E a moa?
- Quero-a tambm. Prendendo-o, no ser difcil chegar a ela. Afinal, foi ela quem o seduziu com suas heresias e costumes profanos.
Esteban se retirou, e Giselle esperou cerca de cinco minutos para sair tambm. Do lado de fora, oculto atrs do muro, Juan j a aguardava. Depois que ela saiu, foi 
trancar a porta. Do alto das escadas, ficou vendo-a afastar-se, pensando em como seria bom poder estar com ela, fazer com ela as coisas que monsenhor Navarro fazia.
J em sua casa, Giselle ps-se a pensar. O que faria para se aproximar de dom Ferno? Giselle era o que se poderia chamar de espia. Amante de Esteban Navarro, cardeal 
inquisidor do Santo Ofcio, tornara-se sua delatora oficial. Monsenhor Navarro, como era conhecido pelos fiis, era ardoroso defensor da f catlica e no permitia 
que ningum a ela se opusesse, lutando com todas as suas armas e foras contra o que ele chamava de herege. Qualquer um podia ser herege. Qualquer um que no professasse 
a ideologia catlica da poca incorria no grave crime de heresia: judeus, mouros, feiticeiros, sodomitas, bruxos, qualquer um.
Esteban envidara as mais ferrenhas perseguies contra os hereges, acreditando estar defendendo e preservando a verdadeira f crist. Julgava-se juiz da vontade 
divina, a quem fora outorgado o direito de reprimir e punir todo aquele que tentasse macular os dogmas catlicos. Seus mtodos, embora cruis, eram considerados 
adequados para a salvao das almas cadas no pecado, e a tortura nada mais era do que instrumento divino de purificao. Essa era sua crena. Os artifcios utilizados 
para prender os hereges, por mais desleais e srdidos que pudessem parecer, eram justificados pelo bem que ele julgava fazer queles apanhados em pecado.
Para prender os hereges, Esteban contava com o concurso dos delatores. Qualquer um podia denunciar uma heresia, sendo mesmo um dever de todo cidado temente a Deus. 
E era exatamente isso que Giselle fazia. Dona de uma beleza extica, alm de profunda conhecedora de magia negra, era-lhe muito fcil atrair e seduzir os suspeitos 
indicados por Esteban, deles obtendo as duvidosas confisses que serviam de base  instaurao dos processos.
Os hereges, em sua maioria, eram pessoas muito ricas, cujos bens eram logo confiscados pela Igreja. Como prmio ao delator, cabia-lhe metade do patrimnio do acusado, 
ficando a outra metade em poder do clero. Nessas circunstncias, Giselle enriqueceu. Juntou uma boa soma em ouro e jias e comprou uma bonita e confortvel manso 
nos arredores de Sevilha, onde vivia em companhia de duas escravas negras, Belita e Belinda, compradas de um mercador portugus.
Entrando em casa, Giselle seguiu direto para o poro. Abriu a pesada porta e entrou. Era ali que se dedicava  arte da magia. Havia vidros com lquidos estranhos, 
razes de plantas desconhecidas, caixas com insetos e aranhas, ossos e caveiras, sangue de diversos animais engarrafado em pequenos frascos e cuidadosamente dispostos 
sobre uma prateleira. Mais ao fundo, encostado  parede, uma pesada estante de livros, repleta de volumes sobre magia e conhecimentos ocultos.
Tudo ali tinha sua serventia. Sempre que se deparava com um caso importante ou difcil, recorria a seus apetrechos de bruxaria. Era o caso de dom Ferno. Embora 
Esteban lhe garantisse que o homem tinha l as suas fraquezas por mulheres bonitas, era bom no facilitar. Ele podia estar muito apaixonado pela tal moura, e ela 
talvez encontrasse alguma dificuldade para seduzi-lo.
Juntou alguns ingredientes, apanhou um livro de capa negra e abriu-o sobre a mesa. Escreveu o nome completo de dom Ferno com sangue de bicho e ps-se a preparar 
seu feitio. Ela no tinha nenhum objeto que lhe pertencesse, o que teria facilitado as coisas, visto que dele poderia extrair sua prpria energia. Mesmo assim, 
preparou tudo. Invocou os espritos das trevas, ofereceu-lhes presentes e sangue de animais, prometendo-lhes carne fresca de bode, caso conseguisse alcanar o seu 
intento.
Depois que terminou, saiu e foi para a floresta, onde costumava colocar essas oferendas. Escolheu um canto mais escuro e afastado e depositou tudo no cho, invocando 
novamente os espritos das trevas, que logo acorreram sequiosos de sangue. Recitou algumas palavras extradas do livro, espargiu p de ervas e minerais poderosos 
pelo cho e voltou para casa. J estava pronta para se encontrar com dom Ferno.



CAPTULO 2


Lucena pousou o bordado que tinha nas mos sobre o colo e olhou para o porto. Uma carruagem acabara de atravess-lo. Vinha calma e serena, e ela sorriu para si 
mesma. Levantou-se apressada, depositou o bordado sobre a cadeira e ajeitou o vestido, preparando seu melhor sorriso para receber o visitante.
A porta da carruagem se abriu e um jovem extremamente atraente desceu, estirando as mos para a moa.
- Minha doce Lucena - disse ele em tom jovial.
- Ah! Ramon - respondeu ela lacrimosa -, por que demorou tanto? Quase morro de preocupao e saudade! 
Ele deu um sorriso maroto e apertou sua bochecha, acrescentando com compreenso:
- Eu sei, mas os negcios me impediram de partir mais cedo. E depois, sabe como so os compromissos sociais.
- Espero que nenhuma portuguesa tenha se engraado com voc.
- Minha querida, o que  isso? - gracejou. - Sabe muito bem que s tenho olhos para voc.
- Assim espero...
- E seu pai, onde est?
- Foi a uma reunio com Monsenhor Navarro.
- Monsenhor Navarro? Por qu?
- No sei. Coisas das quais no devo me ocupar, segundo ele.
- Ento, no se ocupe com elas. Temos coisas mais importantes em que pensar.
-  verdade. Nosso casamento, por exemplo. J pensou numa data?
Ramon tossiu meio sem jeito e tentou desculpar-se:
- Sabe que ainda  cedo para isso...
- Por qu? Voc j me faz a corte h quase um ano. No sei por que esperar mais. Ms que vem completo dezoito anos. J estou ficando velha.
- Deixe de tolices, Lucena, voc ainda  muito jovem.
- Mas vou acabar ficando velha se voc no se resolver logo.
- Voc sabe que no quero me precipitar. Seu pai  um homem rico e poderoso, e eu jurei a ele que no deixaria faltar nada a voc. Enquanto no me igualar a ele 
em fortuna, no poderemos nos casar.
- No acha que est exagerando? Voc tambm  rico. No precisa ter a fortuna de meu pai.
Com um sorriso forado, Ramon no respondeu. Puxou-a pelo brao e saiu caminhando com ela pelo jardim, pensando que no tinha mais nenhuma desculpa para dar. Homem 
rico? S podia ser piada. H muito Ramon deixara de ser rico. Seu patrimnio estava praticamente dilapidado, comprometido pelos vcios e exageros. Aos poucos ia 
vendendo suas propriedades, sem que Lucena ou seu pai soubessem. Se dom Ferno descobrisse, era bem capaz de obrig-lo a terminar tudo com ela. No podia permitir 
isso. Precisava dar um jeito de salvar alguma coisa antes que ele percebesse.
- E o romance de dom Ferno? - mudou de assunto. - Como vai?
- Voc sabe to bem quanto eu que papai evita falar nisso. S o que sei  que est apaixonado.
- Quando  que vamos ter o prazer de conhecer a felizarda?
- Isso eu no sei. Papai faz tanto mistrio que, se Consuelo no a tivesse visto, eu no acreditaria.
- Estranho, no , Lucena? Por que ele no lhe contou? O que tem de mais um homem vivo contrair novas npcias?
- No sei.
- Ser que ela no  de boa famlia? Ser alguma pobretona ou cortes?
- Que horror! Deus me livre de tamanha desgraa!
- Tratando-se de seu pai, tudo  possvel. Sua fama de conquistador  bastante conhecida.
- No fale assim - tornou amuada. - Respeite meu pai.
- Desculpe-me, minha querida, no quis ofender. Vinham voltando para casa quando Consuelo os interpelou:
- Senhorita Lucena, quer que mande tirar o jantar?
- Meu pai j chegou?
- Ainda no.
Lucena inspirou profundamente, olhou para Ramon, que permaneceu impassvel, e respondeu:
- Agora no, Consuelo. Vou esperar por papai.
A criada fez uma reverncia e voltou para dentro.
- Acho bom entrarmos tambm - sugeriu Ramon. - J est escurecendo.
- Voc sabe que papai no gosta que nos encontremos a ss dentro de casa. No fica bem.
- Mas Consuelo no est?
- Consuelo est ocupada com suas obrigaes. No vai ficar nos vigiando.
Virou-lhe as costas e comeou a caminhar em direo ao banco em que estivera sentada antes que ele chegasse, mas Ramon segurou a sua mo e a puxou.
- Espere... - balbuciou a voz trmula demonstrando emoo. - Para onde vai?
- Vamos para o jardim, esperar...
No lhe deu tempo para concluir. Tapou sua boca com um beijo ardoroso, que ela correspondeu a princpio. Aos poucos recobrando o domnio sobre si mesma, afastou-se 
dele e empurrou-o com brusquido, ao mesmo tempo em que censurava:
- Por quem me toma Ramon? Por alguma ordinria?
- Minha querida, no diga isso. Voc sabe o quanto a amo...
- Mas no devia ter feito isso. No fica hem. 
- No tem ningum olhando. Que mal pode haver?
- No est direito.
- Somos noivos, vamos nos casar. Isso no conta?
Ela hesitou. Seu pai vivia lhe dizendo que no deixasse nenhum homem encostar-lhe a mo. Mesmo Ramon. Os homens eram todos iguais; s pensavam em sexo. Se algum 
homem a desonrasse antes do casamento, estaria perdida.
Lucena no respondeu e afastou-se dele acabrunhada, indo sentar-se no banco e apanhando o bordado.
- Est escuro para bordar - ponderou Ramon. - Por que no conversamos?
Ela tornou a pousar o bordado no colo, encarou-o com olhos penetrantes e retrucou friamente:
- S se voc prometer que no vai mais me beijar.
Ramon engoliu a raiva. Gostava de Lucena e pretendia se casar com ela. Contudo, todas as vezes que tentava se aproximar, ela o repelia, sempre com a mesma desculpa: 
no ficava bem. Aquilo o irritava deveras. Ainda que Lucena resistisse em se entregar a ele, podia ao menos permitir-lhe beijos e carcias, mas at isso ela lhe 
negava.
- Creio que j  hora de ir - tornou de m vontade. - Est ficando tarde e seu pai pode no gostar...
Fingindo no perceber a ironia em seu tom de voz, Lucena segurou-lhe as mos e considerou:
- No fique bravo, Ramon. Eu o amo.
- Mas voc me trata como se eu fosse um aproveitador! Faz com que eu me sinta mal.
- Perdoe-me, mas  que no tenho mais me. Temo no saber me conduzir adequadamente pela vida.
- Mas no tem pai, ora essa? E ele no a orienta? No cuida para que nada de mal lhe acontea? - Ela assentiu. - Pois . Tanto que deu permisso para que eu lhe 
fizesse a corte. J estamos noivos, Lucena, noivos!
- Eu sei...
- E depois, no estamos fazendo nada de mais.
- Por favor, perdoe-me. No falemos mais sobre isso. Tente entender. Eu o amo e quero que tudo d certo entre ns.
Fitando-a com um misto ele paixo e raiva, ele acabou por concordar:
- Est certo, no vamos mais discutir. Mas  que tambm a amo e quero-a s para mim.  natural...
- Sei que . Mas podemos esperar at o casamento, no podemos?
Ele assentiu contrariado. Nesse instante, a carruagem de dom Ferno cruzou os portes e, em poucos segundos, parava defronte a eles. Dom Ferno saltou e os cumprimentou 
formalmente:
- Est tudo bem, papai? - arriscou Lucena.
Apesar do ar de preocupao, Ferno conseguiu responder com aparente naturalidade:
- Est tudo bem, minha filha.
- O que monsenhor Navarro queria com o senhor?
- Nada de mais. Queria tratar de uma doao.
- Se puder ajud-lo em alguma coisa, dom Ferno... - acrescentou Ramon com fingido interesse.
- No, meu jovem, obrigado. Deixe que eu mesmo cuido disso. E depois, como disse, no  nada de mais. Monsenhor Navarro espera mais dinheiro. Como se o que lhe dou 
fosse pouco...
Passou por eles cabisbaixo e foi subindo as escadas do alpendre.
- J jantou papai? - era Lucena novamente.
- Ainda no.
- Quer que mande servir?
- Por favor. - Virou-se para Ramon e indagou de forma corts - Acompanha-nos ao jantar, Ramon?
- Se no for incomodar...
- No  incmodo algum. A propsito, chegou hoje de viagem?
- Sim.
- E como foram os negcios?
- Bem...
- Excelente. Folga-me saber que o futuro marido de minha filha  um rapaz sensato e comedido.
Ramon deu um sorriso amarelo e no disse nada. Acompanhou Lucena at o interior da casa e aguardou at que desse as ordens a Consuelo. Ela daria uma excelente esposa. 
Era linda e culta, e sabia lidar com os empregados muito bem. Que homem no ficaria feliz em t-la por mulher?
Durante todo o jantar, dom Ferno permaneceu calado e pensativo. O dilogo que tivera com Navarro no fora dos mais animadores. Ele no falara claramente, mas viera 
com uma estranha conversa sobre hereges muulmanos. Dissera-lhe que qualquer um que se associasse a um mouro seria considerado herege tambm, e dedicara grande parte 
de sua entrevista a digresses sobre o Santo Ofcio.
Embora a conversa no encerrasse nenhum tipo de ameaa, Ferno achou tudo muito estranho. Inspirou profundamente e fitou a filha e o futuro genro. Estava apenas 
 espera que eles se casassem para se casar com Blanca. Seria mais fcil para Lucena aceitar seu casamento se j estivesse casada. S que Ferno no sabia que foras 
ocultas j se haviam derramado sobre ele. Sem que percebesse, duas sombras haviam se postado a seu lado, prontas para executar o trabalho pelo qual haviam sido pagas. 
Muito bem pagas por Giselle.



CAPTULO 3

 

Sentado  sombra de uma figueira, Juan pensava em sua vida. Estava prestes h fazer dezenove anos e ainda no conhecera mulher. Mas no queria uma mulher qualquer. 
Queria Giselle. Aquilo j estava virando uma obsesso. Giselle era seu ltimo pensamento  noite e o primeiro pela manh. Dormia e acordava com Giselle todos os 
dias, sentava-se  mesa ao lado dela, beijava o espelho imaginando beij-la. Mas Giselle, alm de mais velha, era concubina de monsenhor Navarro. Isto sim  que 
era um empecilho. Esteban jamais permitiria que ele se aproximasse da amante.
- Juan! - o grito repentino despertou-o de seus devaneios, e ele se empertigou, respondendo apressado:
- Sim?
- Monsenhor Navarro o est chamando - um dos padres veio avisar. - Disse para ir agora!
Juan ajeitou o hbito e tomou o caminho da abadia, rumo aos aposentos particulares de Esteban. Bateu  porta e entrou, indagando de forma humilde:
- Mandou chamar, monsenhor?
- Onde estava, Juan? Por que no atendeu ao meu chamado?
- Desculpe, eu estava l fora...
- Bem, bem, no importa. Tenho uma tarefa para voc - foi at a mesa e retirou um papel, colocando-o na mo do rapaz.
- Quero que leve isso  senhorita Giselle.
Esteban nem notou o ar de felicidade de Juan, que retrucou com jovialidade:
- Devo ir  sua casa?
- No. Giselle est na taverna.
Para encobrir seus negcios escusos, Giselle comprara uma taverna do outro lado da cidade, onde costumava se apresentar danando. A clientela era muito boa. Vinha 
atrada no s pelo excelente vinho que se servia, mas tambm pelas apresentaes de Giselle.. Muitas pessoas acorriam a sua taverna apenas para v-la danar, e 
ela se deliciava com o efeito que a sua figura causava, principalmente nos homens.
Quando Juan chegou, ela estava danando sobre uma mesa, rodeada de vrios homens. Ele ficou admirado. Alm de linda, ela parecia despida de qualquer tipo de pudor. 
Enquanto danava, Giselle levantava a saia at a altura dos joelhos, levando os homens ao delrio. Como  que monsenhor Navarro no se importava com aquilo?
Monsenhor Navarro no era um homem ciumento. Podia ser possessivo e orgulhoso, mas no sentia cimes de nada. Por isso, no se importava que Giselle danasse. At 
gostava. Agradava-lhe ver que outros cobiavam o que era dele. E depois, ela trabalhava para ele. J dormira com vrios homens, e at com algumas mulheres, para 
atender aos seus propsitos.
Juan sentou-se a uma mesa e ficou esperando at que ela terminasse o seu nmero, encantado com sua graa e beleza. Giselle era uma mulher exuberante, de formas perfeitas, 
tez morena clara e cabelo negro, olhos de um verde escuro e penetrante. No havia quem no se interessasse por ela. Ela percebia isso, porque tambm se deliciava 
em provocar os homens e coloc-los a seus ps. S no dormia com ningum. Alm de Esteban, Giselle s se deitava com os suspeitos de heresia que ele lhe indicava.
Quando terminou de danar, desceu da mesa e foi na direo de Juan. O rapaz sentiu que o corao disparava, mas tentou se controlar.
- Boa tarde, Juan - cumprimentou ela, com um sorriso malicioso.
Ele sorriu de volta, embevecido, e no conseguiu responder. Percebendo o seu embarao, Giselle puxou-o pela mo e levou-o para um pequeno aposento situado na parte 
de trs da taverna, que servia de escritrio e gabinete particular. Trancou a porta e f-lo sentar-se.
- Muito bem - prosseguiu ela. - O que o traz aqui?
Voltando de seu devaneio, Juan se ajeitou na cadeira, retirou a carta do bolso e estendeu-a para ela. Giselle desenrolou o papel e ps-se a ler, seu semblante se 
contraindo de vez em quando. Terminou de ler e guardou a carta entre os seios.
- Diga monsenhor Navarro que est tudo acertado. J dei incio aos preparativos e estou pronta para agir.
Juan memorizou o recado e se foi, ainda sob o efeito que a viso estonteante de Giselle lhe havia causado. Depois que ele saiu, ela pegou novamente a carta e a releu. 
Esteban lhe dizia que havia tido uma conversa com dom Ferno e que o homem parecia assustado. Era hora de agir. Havia lhe pedido, como um favor especial, que fosse 
 taverna buscar um pequeno donativo de Giselle para a igreja. Dissera-lhe que, como o lugar no era bem freqentado, no podia, ele mesmo, comparecer, mas no seria 
direito ignorarem-se as contribuies de pessoas simples, mas de boa f. Por isso lhe pedira que fosse. Dissera-lhe que a moa estivera doente e fora curada pelas 
suas oraes, e que agora pretendia retribuir a graa obtida com uma pequena doao particular.
Giselle riu e rasgou a carta. Aquele Esteban era um demnio. Inventava as histrias mais estapafrdias s para conseguir o que queria. Ainda que ningum acreditasse 
nelas, no ousariam contest-lo. Quem se atreveria a questionar a palavra do inquisidor?
Ela deu ordens para que mantivessem tudo em ordem e foi para casa. Precisava se aprontar. Tinha em mente algo especial. Em casa, trancou-se no poro e foi mexer 
com seus feitios. Nada poderia dar errado, ou Esteban ficaria furioso.
Por volta das oito da noite, voltou  taverna. Estava linda em seu vestido vermelho, que realava ainda mais a sua tez morena. Pouco depois, dom Ferno entrou. Ela 
no o conhecia, mas praticamente adivinhou que era ele. De onde estava ele no podia v-la e se encaminhou diretamente para o balco.
- Onde posso encontrar a senhorita Giselle? - perguntou, passando os olhos pelo recinto.
Sanchez, empregado que servia as bebidas, apontou com o queixo para um canto da taverna, onde Giselle estava sentada em companhia de um homem, fingindo prestar ateno 
a sua conversa enfadonha. Viu quando dom Ferno se aproximou e olhou para ele.
- Senhorita Giselle? - indagou, com visvel admirao.
- Sim? - tornou ela, com voz aucarada.
- Meu nome  Ferno...
Ela fez um gesto com a mo, fazendo com que ele se calasse, levantou-se e disse bem baixinho:
- Aqui, no. Siga-me.
Saram pela porta dos fundos, onde uma carruagem os aguardava. Giselle entrou com dom Ferno e deu ordens para que o cocheiro seguisse.
- Para onde vamos?
-  minha casa. No posso arriscar-me a comprometer o bom nome de monsenhor Navarro. Algum poderia ouvir, e isso no seria bom. Nos dias de hoje,  bom no facilitar, 
no  mesmo?
Ferno deu um sorriso sem graa e no respondeu. Fizeram o resto do percurso em silncio, at que a carruagem parou alguns minutos depois. A casa de Giselle no 
ficava longe da taverna, e Ferno achou-a muito grande e bonita para uma simples dona de taverna. Pensou que talvez Giselle possusse algum amante rico, mas no 
disse nada. No era problema seu e no queria se meter nos assuntos alheios.
Ela abriu a porta da frente e chegou para o lado, dando-lhe passagem. Ele entrou primeiro e estudou a sala, admirado com o bom gosto da decorao.
- Devo confessar que estou impressionado, senhorita Giselle. Alm de linda, a senhorita  muito fina e requintada. Veja essas obras de arte!
Giselle deu um sorriso maroto e foi apanhar duas taas de vinho, servindo dom Ferno e postando-se ao lado dele, diante de um pequeno vaso que ele admirava.
-  chins?
-  sim.
- Como o conseguiu?
Ela deu de ombros e voltou para ele os olhos escuros, que a luz das tochas tornava quase negros, e ele sentiu estranha emoo. Nem percebia que duas sombras de mulher 
haviam se colado a ele, inspirando-lhe toda sorte de pensamentos lbricos. Os espritos chegavam mesmo a masturb-lo, e, embora ele no sentisse os toques fisicamente, 
foi sendo invadido por um desejo incontrolvel e, em poucos instantes, j estava excitado aos extremos. Sentindo a proximidade do corpo de Giselle, soltou a taa 
sobre o aparador e fixou os seus olhos nela.
- Senhorita Giselle... - balbuciou aturdido.
Ela colocou sua taa ao lado da dele, aproximou bem o rosto do seu e, com os lbios quase roando os dele, sussurrou:
- Giselle... Para voc, sou apenas Giselle.
Ferno no resistiu. Dominado pelo desejo, tomou-a nos braos e beijou-a ardentemente. Ela correspondeu ao beijo com ardor, fazendo-lhe carcias nunca antes experimentadas. 
Em poucos minutos estavam na cama. Amaram-se loucamente, e Ferno chegou mesmo a se assustar com algumas prticas de Giselle. Embora perplexo, ficou encantado. Aquela 
mulher no tinha pudor algum, e apesar do medo que isso lhe causava, dava-lhe tambm imenso prazer.
Dom Ferno s saiu da casa de Giselle altas horas da madrugada, sem levar a pequena doao, que havia at ficado esquecida. Depois que ele se foi, Giselle desatou 
a rir. Fora muito mais fcil do que imaginara. O homem no oferecera nenhuma resistncia. No primeiro impulso, cedera. Pensou no quanto ele era idiota e se felicitou. 
Naquela noite, no havia perguntado nada. Era preciso primeiro ganhar a sua confiana para s ento iniciar a investigao.
Na manh seguinte, Esteban foi bater  sua porta. A casa de Giselle ficava do outro lado da cidade, longe das residncias nobres e bem distante da abadia. Navarro 
tinha medo de ser visto em sua companhia e costumava visit-la disfarado. Apenas seu criado Juan sabia e o ajudava. Era ele quem dirigia a carruagem, certificava-se 
de que Giselle estava sozinha e ficava  espera do lado de fora, alerta a qualquer movimento suspeito.
- E ento, minha querida? - perguntou ele, assim que entrou. - Como foi com dom Ferno?
- Melhor do que o esperado. O homem caiu direitinho na armadilha.
- Vocs dormiram juntos?
-  claro! No perco tempo com tolices.
Esteban sorriu vitorioso. Giselle sempre se saa bem em suas misses.
- Ele j confessou alguma coisa?
- Ainda no toquei nesse assunto. Mas no se preocupe. Tenho certeza de que logo vai falar.
- Teve que utilizar algum artifcio?
- Voc sabe que no fao nada sem os meus amigos das trevas. Como pensa que consigo tudo?
Navarro sentiu um calafrio e no respondeu. No queria se envolver com bruxaria. Aquelas prticas herticas eram duramente combatidas, e a punio, por demais severas. 
Giselle no devia mexer com aquelas coisas, mas ele acabou tolerando-as em razo de sua finalidade. No as estimulava, mas tambm no as reprimia. Tudo era permitido 
para prender um herege.
Dom Ferno voltou para casa sentindo o arrependimento corroer-lhe a alma. Trara sua Blanca com aquela ordinria, sem pensar nas conseqncias. Aquela mulher era 
terrvel. Envolvera-o com seus gestos sensuais e atrevidos, e ele acabara caindo em sua armadilha. Por que fizera aquilo? Fora a sua casa buscar uma doao que ela 
faria a monsenhor Navarro. E onde estava a doao? Ela no lhe dera nada, e ele se esquecera de pedir. Esteban ficaria furioso ao descobrir que ele no cumprira 
a misso para a qual fora destinado.
E Blanca? Se soubesse, ficaria arrasada. Ela era to linda e to pura... No merecia ser trada. Mas no lhe diria nada. Ela nem desconfiaria. No pretendia tornar 
a se encontrar com Giselle, e no haveria com o que se preocupar. Mas, e a doao? Pensando melhor, voltaria  taverna na noite seguinte, apenas para apanhar o dinheiro, 
e nunca mais apareceria.
Ao entrar em casa, Lucena veio logo ao seu encontro, exclamando alarmada:
- Papai! Onde passou a noite? Fiquei preocupada.
Ele sorriu meio sem jeito. No podia lhe dizer que passara a noite nos braos de uma cortes, mas tambm no podia deixar que pensasse que dormira em casa de Blanca. 
No queria lhe dar a idia de que sua noiva era uma mulher qualquer.
- Dormi em casa do senhor Valncia - mentiu. - Ficamos conversando sobre negcios, tomamos muito vinho e, quando dei por mim, j estava adormecido sobre as almofadas.
- Ah! Pensei que tivesse passado a noite com a moa...
- No passei a noite com moa nenhuma.
Ela fez silncio durante alguns segundos, at que indagou cautelosamente:
- Ser que j no est na hora de apresentar-me sua noiva?
Tomado de surpresa, dom Ferno virou as costas para a filha e cerrou os olhos, tentando pensar em algo. No havia nada a dizer, porm. Consuelo os havia visto juntos 
e contara a Lucena. Todos sabiam de seu romance com Blanca, e sua filha no compreendia por que ele a mantinha em segredo.
- Quando  que voc e Ramon vo se casar? - desconversou.
- Casar...? - confundiu-se a moa. - No sei ao certo. Ramon ainda est preso aos negcios...
- Pois quero falar com ele ainda hoje. Ou marca logo a data do casamento, ou eu mesmo rompo esse noivado de vocs.
- Papai! No pode fazer isso.
- Posso, sim. Esse noivado j est se demorando demais. Faz quase um ano que ele me pediu para lhe fazer a corte, com promessas de casamento. Ficaram noivos h seis 
meses. Por que no se casaram ainda?
Lucena no sabia o que dizer. Tambm ela no entendia por que Ramon adiava tanto o casamento. No fundo, at que apreciara a impacincia do pai. S assim Ramon seria 
forado a tomar uma deciso.
 - No sei por que Ramon insiste em no marcar a data. Confesso que tambm eu j lhe fiz essa mesma pergunta.
- Pois vou mandar cham-lo aqui agora mesmo. Depois que vocs se casarem, tambm eu e Blanca nos acertaremos.
- Blanca?  esse o nome da moa?
Ferno hesitou. Havia deixado escapar o nome de sua noiva e agora no tinha mais como esconder. Pensando bem, que mal haveria se a filha soubesse o nome de sua futura 
madrasta? J era mesmo hora de se conhecerem. Por quanto tempo mais poderia ocultar de Lucena a origem de Blanca? Ela era filha de um mouro e de uma espanhola, ambos 
j falecidos. Blanca crescera entre a f catlica e a muulmana, mas, aps a morte dos pais, acabara por se decidir pela Igreja.
Ele encarou a filha com ternura, segurou as suas mos e acabou por revelar:
- Sim, minha filha, o nome dela  Blanca. Blanca Vadez.  uma moa honesta e de boa famlia, e penso em apresent-la a voc o mais breve possvel.
- Fico muito feliz com isso, papai. Tinha medo de que ela no fizesse parte da boa sociedade.
- No precisa se preocupar com isso. Blanca  pessoa da mais alta distino.
Lucena pareceu feliz. Finalmente ia conhecer a noiva do pai. Alm disso, Ramon receberia um ultimato. Ela estava certa de que ele no teria como fugir e ver-se-ia 
forado a marcar a data do casamento.
Ramon chegou pouco depois da hora do almoo. O mensageiro apenas lhe dissera que dom Ferno o chamava a sua casa com a mxima urgncia, sem declinar, contudo, o 
motivo de tanta pressa. Acomodado no imenso salo da casa de dom Ferno, ficou  espera que lhe dissessem o motivo daquele chamado sbito.
- Muito bem, Ramon - comeou Ferno -, o assunto que me fez cham-lo aqui  deveras grave. Trata-se de seu noivado com minha filha.
- Ah! Dom Ferno, no precisa se preocupar. Nosso noivado vai indo muito bem...
- No se trata disso. E que penso que j est na hora de oficializarmos o matrimnio.
- Mas j? Ainda  cedo.
- No  no. Minha Lucena j esperou demais. Ou vocs se casam logo, ou o compromisso entre vocs est desfeito. A escolha  sua.
Notando a indeciso nos olhos de Ramon, Lucena ps-se a chorar.
 Voc no me ama, Ramon?
- No  isso... - balbuciou. -  que considero essa deciso prematura. Ainda temos tanto que fazer...
- No h nada que fazer - cortou Ferno impaciente. - Lucena no pode esperar mais. Ou ser que existe algo a seu respeito que eu no saiba?
Ramon sentiu o rosto arder e abaixou os olhos, confuso e envergonhado. Se dom Ferno soubesse que estava praticamente falido, jamais permitiria que aquele casamento 
se concretizasse. Mas j que as coisas estavam tomando aquele rumo, era melhor mesmo casar-se logo, antes de ficar inteiramente arruinado. Ao menos ainda possua 
alguns poucos imveis para apresentar, alm de algumas jias que herdara da me. Em breve, porm, com os cobradores batendo  sua porta, no lhe sobraria mais nem 
sombra de sua fortuna.
Ele fitou Lucena discretamente, pigarreou e comeou a dizer:
- O senhor tem razo, dom Ferno. J est mesmo na hora de marcarmos a data. Por que no escolhe o senhor?
O brilho nos olhos de Lucena o comoveu, e ele foi a sua direo, tomando as suas mos e beijando-as delicadamente. Gostava da moa. Podia ser interesseiro e quase 
um pobreto, mas nutria uma afeio sincera por Lucena.
- Muito bem - alegrou-se Ferno. - Escolho eu, ento. Que tal dia 30 de julho? Ainda estaremos no vero e poderemos organizar uma bonita festa ao ar livre.
- Para mim est timo - concordou Ramon com alegria. - E para voc, Lucena?
Mal contendo a felicidade, Lucena concordou:
- Para mim, tambm. Quanto antes, melhor.
- Excelente! Deixem tudo por minha conta. Eu mesmo tratarei a igreja e providenciarei os convites para a festa. Vai ser um banquete luxuoso, como nunca antes visto 
em Sevilha.
Dom Ferno sentiu-se mais animado. Depois do casamento da filha, trataria de arranjar o seu. Blanca j no era mais nenhuma menina, mas ficaria feliz com um casamento 
no estilo tradicional. Afinal, optara por seguir a religio da me, deixando de lado os velhos costumes da crena paterna. No merecia a pecha de moura. Blanca era 
crist e merecia integrar-se no seio da comunidade catlica, e era o que ele pretendia ajud-la a fazer.



CAPTULO 4



Era quase meia-noite quando Giselle fechou a porta de casa e tomou a direo da floresta. Envolta em seu manto negro, caminhou evitando os raios da lua, ocultando-se 
na escurido da noite. Foi andando apressadamente, arrastando um bode que mandara comprar logo pela manh. Finalmente, atingiu uma clareira, o local aonde sempre 
ia para fazer seus sacrifcios, sem que ningum a visse. As pessoas eram muito impressionveis e tinham medo da floresta  noite, o que conferia a Giselle certa 
aura de proteo.
No centro da clareira havia uma pedra grande e muito lisa, que servia de altar. Arrastando o animal, Giselle se dirigiu para l. Amarrou-o num galho de rvore que 
descia ao cho e ajoelhou-se diante do altar de pedra, proferindo estranhas palavras em latim. Abriu um pano negro aos ps da pedra, nele depositando algumas moedas 
de prata, um punhal e uma pequena bacia. Em seguida, continuou a fazer suas evocaes, chamando os espritos que a haviam ajudado para o banquete que lhes oferecia.
Pouco depois, apanhou o animal. O bode tremia todo, talvez ciente do destino que lhe fora reservado. Giselle ergueu-o cuidadosamente e deitou-o sobre a pedra, segurando-o 
firmemente pelo pescoo com uma das mos. Com a outra, levantou o punhal, sempre proferindo palavras estranhas, encostou-o na carne do animal e, num gesto rpido 
e preciso, cortou sua garganta, mantendo-o preso de encontro  pedra, enquanto seu corpo estremecia sob o estertor da morte.
Giselle parecia em transe. Revirava os olhos e cantarolava baixinho, chamando aqueles que costumavam servi-la. Os espritos das trevas, que aguardavam ansiosamente 
por aquela oferenda, logo se aproximaram. Alguns encostaram a boca na ferida do bode, sugando-lhe o fluido vital, enquanto outros disputavam o sangue derramado na 
bacia.
Quando o animal soltou seu derradeiro estertor, e a ltima gota de sangue pingou na bacia, Giselle abriu os olhos com um sorriso de triunfo. Acomodou o corpo do 
bicho morto sobre a pedra, espargiu sobre ele uma mistura de ervas e apanhou a bacia. Levou-a aos lbios vagarosamente, sorvendo o sangue do bode em pequenos goles. 
Em seguida, depositou-a novamente aos ps do altar de pedra, sobre o manto negro, e terminou com uma frase:
- Deliciem-se, meus servos. Vocs mereceram.
Jogou o manto novamente sobre os ombros, virou as costas ao pequeno altar e tomou o caminho de volta. No dia seguinte, apanharia o corpo do bode, as moedas e a bacia, 
e jogaria tudo no rio mais abaixo, onde ningum poderia lig-los a ela. Por ora, tudo pertencia aos espritos das sombras, que retirariam o mximo da energia que 
pudessem extrair daqueles elementos.
Quando j estava quase em casa, viu uma pequena claridade perto de uma rvore e se voltou assustada. No meio da escurido, um homem a fitava com olhar triste, envolto 
num halo de luz.
- Pai...? - balbuciou ela, assustada.
- Giselle - respondeu o esprito -, o que  que est fazendo com o conhecimento que lhe dei?
Giselle levou a mo  boca, aterrada, e, na mesma hora, a imagem se desvaneceu. Completamente aturdida, desatou a correr. Como aquilo fora acontecer com ela? Seu 
pai estava morto. Por que aparecia na sua frente de uma hora para outra? Era a primeira vez que o via. Sabia que possua uma sensibilidade acima do normal, mas nunca 
antes havia visto qualquer esprito, nem mesmo aqueles que trabalhavam para ela.
O pai, contudo, no s se aparecera diante dela, como lhe falara tambm. Parecia no zangado, mas triste. Por mais que dissesse no entender a razo de sua tristeza, 
Giselle sabia. Sabia que estava utilizando os conhecimentos que ele lhe dera de forma inadequada. Antes de morrer, o pai a fizera prometer que jamais se utilizaria 
da sabedoria para destruir.
- O conhecimento deve ser usado na prtica do bem - dizia ele. - Jamais permita que a ganncia, o orgulho e a vaidade afastem voc do caminho da retido.
Giselle ouvia seus conselhos sem lhes dar ateno. Em seu ntimo, sabia que faria exatamente o contrrio do que o pai lhe dizia. Para que tantos conhecimentos se 
no podia utiliz-los em benefcio prprio? Quem era ela para se preocupar com o bem-estar alheio? A Virgem Maria? No, pensava. Deixaria aquelas tarefas para os 
santos e anjos. Ela precisava cuidar de sua prpria vida, e foi exatamente o que fez depois que o pai morreu.
O pai de Giselle, Ian MacKinley, era um druida escocs, que veio parar na Espanha fugindo da perseguio crist aos praticantes da antiga seita da deusa-me. No 
tencionava fixar residncia na Espanha, temendo a Inquisio, mas, de passagem por Cartagena, acabou conhecendo Pilar, por quem se apaixonara e com quem se casara. 
Dessa unio, nasceu-lhes a nica filha, batizada com o nome de Giselle, que era a alegria do pai.
Desde a mais tenra infncia, Ian ensinou a Giselle os mistrios da sabedoria druida. A menina demonstrava grande interesse por aquela magia, embora no comungasse 
dos ideais do pai. Podia am-lo profundamente, mas tencionava usar aqueles conhecimentos para conseguir algumas vantagens pessoais. Sua famlia era pobre, e ela 
pretendia enriquecer.
Quando Ian morreu, Giselle contava apenas quinze anos e j era uma bruxa praticamente feita. A me morria de medo, temendo que algum a denunciasse aos padres, mas 
Giselle a tranqilizava, dizendo que ningum sabia nada de sua vida.
Um ano depois, a me contraiu novas npcias. O padrasto de Giselle era um bbado preguioso, que ficava em casa enquanto a me se matava de trabalhar para sustentar 
a famlia. Giselle o odiava. Um dia, quando ele tentou estupr-la, decidiu-se. No podia mais viver ali. Precisava partir o quanto antes. Arrumou suas trouxas e 
fugiu, levando livros perigosos e proibidos na bagagem.
Foi para Sevilha. Apesar do Tribunal do Santo Ofcio, a cidade a atraa. Por uma estranha razo, Giselle no acreditava que tivesse sado de sua terra para cair 
nas garras de algum inquisidor idiota. No tinha medo, e foi a sua audcia que a aproximou de monsenhor Navarro. Esteban era ento um jovem padre, recm-nomeado 
inquisidor para atuar no Tribunal de Sevilha. Giselle no o conhecia, mas sabia que muitos inquisidores tinham suas concubinas particulares, e o que ela mais queria 
era tornar-se amante de um inquisidor. Ps-se  espera da melhor oportunidade.
Desde que chegara, havia se hospedado em uma estalagem ftida e pouco iluminada, com carrapatos na cama e ratos que passeavam pelo quarto logo que a vela se apagava. 
Era um horror. No quarto ao lado, viviam duas moas que se diziam irms. Uma noite, Giselle ouviu um estranho rudo. Do outro lado da parede, algum gemia. Encostou 
o ouvido  parede e escutou. Efetivamente, eram gemidos que escutava. Levantou-se na ponta dos ps e foi para o corredor, na esperana de ver alguma coisa. Espiou 
pelo buraco da fechadura, mas no conseguiu ver nada.
No dia seguinte, foi direto ao Tribunal do Santo Ofcio. Naquela poca, Navarro era apenas um padre em incio de carreira como inquisidor e integrava as Mesas Inquisitoriais. 
Embora hesitante Giselle se aproximou.
- O que deseja senhorita? - indagou Esteban, fixando-a admirado.
Assumindo um ar inocente, Giselle tornou com voz melflua:
- Com quem poderia falar sobre... Bem, sobre algo que vi?
- O que foi que viu? - tornou Esteban interessado. - Vamos, pode falar. Voc est diante de um juiz investido de autoridade divina pelo Criador.
Ela fez ar de dvida. Na verdade, todos os seus gestos eram estudados e cuidadosamente preparados para impressionar o inquisidor. Ela queria parecer ingnua e preocupada 
com a moral crist, e no ser tomada por uma devassa invejosa ou algo parecido.
- Bem... - continuou ela em tom hesitante - no sei se  apropriado falar.
- Pode falar criana. No tenha medo. Estou aqui para ajud-la. Diga-me: o que foi que viu?
- Bem, padre,  que no sei se o que vi  pecado.
- Mas o que  menina? Do que se trata?
Esteban j estava ficando impaciente, e ela achou que j era hora de contar. Chegou o corpo para frente, expondo os seios mal cobertos pelo vestido, e comeou a 
sussurrar:
-  que onde moro h duas moas que... Bem... O senhor sabe... - calou-se envergonhada.
- O qu? - tornou Esteban, j dominado pelas entidades que acompanhavam Giselle. - Pode falar senhorita...
- Giselle.
- Pode falar Giselle. Lembre-se de que est num lugar santo. Pecado  calar sobre algo que pode ser uma heresia.
Giselle inspirou profundamente, chegou o rosto bem perto do seu e tornou a sussurrar:
- Bem, padre, como eu ia dizendo, moro numa pequena estalagem nos arredores da cidade. Nada de luxo, porque no posso pagar. Acontece que, na outra noite, ouvi um 
gemido estranho. Fiquei assustada, pensando que as moas que vivem no quarto ao lado estivessem passando mal. Pensando em oferecer-lhes ajuda, fui at seu quarto. 
Bati na porta, mas ningum respondeu. Ento, fiz algo que nunca antes havia feito: olhei pelo buraco da fechadura. Sei que  errado, padre, mas minha inteno era 
ajudar. As moas podiam estar doentes, impossibilitadas de abrir a porta.
- Sei, sei - tornou Esteban, cada vez mais impaciente. - Mas, e da? O que foi que viu?
- Jura que nada vai me acontecer se falar?
Ela fingia to bem que Esteban realmente acreditou na sua inocncia e no seu medo. J magnetizado por ela, respondeu com doura:
- Um padre no precisa jurar minha filha, pois sua palavra j  a palavra de Deus. Contudo, se isso a faz sentir-se melhor, juro, no s que nada lhe ir acontecer, 
mas que irei ajud-la no que for preciso.
Ela sorriu intimamente, exultando com sua vitria. Sabia que o havia conquistado e falou bem baixinho:
- Quando espiei pelo buraco da fechadura, vi que estavam nuas, agarradas, fazendo coisas estranhas na cama, esfregando seus corpos, tocando-se de maneira pouco digna 
- o padre abriu a boca, estupefato, e ela prosseguiu: - Fiquei apavorada. Nunca antes havia visto nada semelhante. Sufoquei um grito de pavor e voltei ao meu quarto, 
pensando no que deveria fazer. Aquilo no estava nada certo. Foi ento que me ocorreu procurar o Tribunal. No sei se isso  heresia, mas achei que era minha obrigao 
contar o que vi.
Giselle no havia visto nada. Mas mentia to bem que qualquer um acreditaria. Contudo, tinha certeza de que as moas estiveram mesmo se amando. Escutara aqueles 
gemidos muitas vezes, quando sua me e o padrasto faziam sexo. No tinha dvidas.
Esteban tomou nota de tudo o que ela dizia e logo procedeu  abertura do processo inquisitorial. Giselle no sabia o nome das moas, mas deu o endereo a Esteban 
e voltou para a estalagem. Naquela mesma noite, soldados invadiram o quarto ao lado do seu, e as moas foram surpreendidas nos braos uma da outra. Giselle escutou 
barulho de luta, gritos desesperados, choros convulsos. A voz de Esteban se elevava furiosa, excomungando as moas. Riu vitoriosa.
Voltou para sua cama e aguardou. Poucos minutos depois, ouviu batida na porta. Levantou-se e foi abrir.
- Senhorita Giselle - comeou Esteban a dizer -, tinha razo. O demnio habita o corpo daquelas duas.
- Elas foram presas?
- A essa altura, j devem estar nas masmorras.
- Pobres moas...
- No se lamente. Voc fez o que era certo. Deus deve estar muito satisfeito com voc - fez uma pausa e ficou olhando para ela, at que acrescentou embevecido: - 
Voc  to linda...
Ela abaixou os olhos, fingindo-se envergonhada, e retrucou com voz sumida:
- Padre... Nem sei o seu nome...
- Esteban. Esteban Navarro.
         Ela soltou um suspiro e deixou que duas lgrimas cassem de seu rosto. Esteban estava encantado. Ela era uma jovem muito sensvel e atraente, e no merecia 
viver naquela espelunca.
- Onde esto os seus pais? - tornou ele com genuna preocupao.
- Morreram.
- E voc ficou s?
- Sim, meu senhor. No tenho ningum por mim.
- Pois agora tem. No se preocupe, vou ajud-la.
- Vai? Por qu?
- Porque sou um homem generoso, e voc, uma criana desamparada.  meu dever cuidar de voc.
Era tudo o que Giselle esperava ouvir. No dia seguinte, Esteban tirou-a da estalagem e acomodou-a numa pequenina casa, um pouco afastada da cidade. Logo a tomou 
por amante e ficou encantado com o fato de ela ainda ser virgem. Aquilo era uma prova de que ela era uma criana inocente e pura, assustada com o mundo ao seu redor.
Com o tempo, o romance entre os dois foi se intensificando. Sempre que aparecia, Esteban lhe contava sobre seus casos, falando que havia muitos hereges que ainda 
conseguiam escapar do poder do Santo Ofcio. Foi quando a idia lhe surgiu, e Giselle se ofereceu para ajudar. Era uma mulher bonita e no lhe seria difcil obter 
uma confisso dos suspeitos ou reunir elementos que os incriminassem. Bastava que os seduzisse, e eles acabariam por se entregar.
Foi exatamente o que aconteceu. Utilizando-se de seus conhecimentos de magia das trevas, Giselle atraa os suspeitos, ganhava sua confiana e fazia com que lhe contassem 
tudo sobre suas vidas. Diante das informaes que ela lhe passava, Esteban avaliava se havia algo hertico na vida dos suspeitos, e todos eram conduzidos ao calabouo, 
torturados, espoliados e mortos.
Esteban sentiu-se gratificado. Logo honrado com o ttulo de monsenhor, em breve foi sagrado bispo, para depois receber o ttulo de cardeal, e passou a presidir os 
processos de inquisio, abandonando as Mesas Inquisitoriais e dedicando-se  prtica da tortura para obter a confisso. Giselle tambm foi gratificada.
Tornou-se uma mulher rica, e Esteban lhe comprou a taverna, para acobertar o seu ofcio.
Aos poucos, Esteban foi tomando conhecimento das prticas de magia de Giselle. Embora assustado a princpio, acabou se acostumando. Era graas aos conhecimentos 
de Giselle que conseguiam prender muitos hereges. Poucos eram os que lhe escapavam, e quando isso acontecia at Esteban os acreditava inocentes, desistindo de persegui-los 
e acus-los.
Ele no sabia o quanto estava certo. Por mais que Giselle soubesse manipular os espritos das sombras, nada do que fizesse surtiria efeito nas almas dignas, ntegras 
e bondosas. Os trabalhadores do mal, muitas das vezes, nem conseguiam chegar perto dessas pessoas, barrados que eram antes mesmo de adentrarem suas casas, pelos 
espritos de luz encarregados de zelar pela sua segurana. Outras vezes, as vtimas chegavam a titubear. Mas a f em Deus e a orao sincera acabavam por reequilibrar 
os seus pensamentos, e os espritos das trevas eram afastados aps curto perodo de perturbao.
Giselle sabia que seu maior inimigo era a f que algumas pessoas possuam em Deus. A princpio, sempre que encontrava resistncia de algum, desdobrava-se em oferendas, 
certa de que acabaria conseguindo minar a fora do inimigo. Mas o amor e a f em Deus se sobrepem a todo e qualquer malefcio, por mais poderoso e sombrio que seja, 
e Giselle acabou se convencendo de que no possua poder algum contra os mais religiosos, como ela, em sua ignorncia, os compreendia e os chamava.



CAPTULO 5



Os sinos da abadia acabavam de dobrar, anunciando s seis horas da tarde, quando Esteban e Miguez cruzaram a imensa porta de cedro que dava acesso aos aposentos 
particulares dos padres.
- Meu caro Esteban - disse Miguez vagarosamente - sabe que no tenho nada com a sua vida nem pretendo me intrometer em seus assuntos. Mas no acha que seu romance 
com Giselle est indo longe demais?
- Por que diz isso? - tornou Esteban assustado, certo de que era discreto o bastante para no permitir falatrios.
- Porque j esto comeando a comentar.
- Comentar o qu? Quem?
- Outro dia mesmo ouvi uma conversa entre padre Valentim e padre Donrio. Diziam que voc deveria ser mais cauteloso e no trazer a moa aqui.
- Mas eu no a trouxe!
- No  o que dizem. Vocs foram vistos saindo da antiga capela.
Esteban fez um ar de contrariedade e desabafou:
- Por que no cuidam de suas prprias vidas?
- No que isso v prejudic-lo... No creio mesmo nisso.
Afinal, que inquisidor no possui a sua amante, no  mesmo? - deu um sorriso mordaz e prosseguiu: - Eu mesmo tenho l os meus encontros.
Haviam alcanado o corredor principal, onde ficavam os aposentos mais luxuosos, e Esteban parou. Fitou o interlocutor com ar maroto e indagou:
- Suas virgens?
Miguez olhou de um lado a outro e falou bem baixinho:
- S gosto das virgens. E assim mesmo, das bem novinhas. Pode ser uma preferncia um tanto quanto bizarra, mas depois que as defloro, perco o interesse por elas. 
O que me agrada, meu caro,  o medo das meninas, a sensao de poder ao senti-las trmulas sob o meu corpo, a dor da penetrao, as lgrimas de desespero, o sangue 
jovem a lhes escorrer do sexo. Est certo que fao tudo isso em nome do Senhor... - elevou as mos aos cus e fez o sinal da cruz, logo retomando seu discurso: - 
Mas no  pecado ter prazer com o prprio trabalho, ?
- Por que est me dizendo isso, Miguez?
- Nunca me envolvi com nenhuma dessas mocinhas. Mas voc... Est por demais envolvido com Giselle.
- Giselle trabalha para mim. Foi graas a ela que consegui prender e acusar tantos hereges.
- Sei disso e no quero que pense que o estou recriminando. Como disse voc no  o primeiro nem ser o ltimo a ter uma concubina. Mas sou seu amigo e sinto-me 
no dever de alert-lo. Giselle ainda pode lhe causar problemas.
- No vejo que problemas ela possa me causar.  apenas uma mulher...
- Uma mulher  sempre perigosa.  atravs delas que o diabo costuma tentar os homens.
- Giselle  diferente.  muito dedicada a mim e s faz aquilo que eu mando.
- Ainda assim, meu amigo, tenha cuidado. Se o Tribunal se voltar contra ela, no a defenda. Deixe que a acusem.
- O que voc sabe que eu no sei?
- Nada. No sei de nada. Mas algo me diz que ela ainda vai acabar mal.
- No entendo por que a preocupao, Miguez. Giselle no representa nenhuma ameaa.
- Eu no teria tanta certeza. Ela  traioeira e perigosa.
- Est enganado. Giselle me  extremamente fiel.  voc que no gosta dela, embora ela nunca lhe tenha feito nada. E voc sabe o quanto eu gosto dela.
- Por isso mesmo. No me agradaria nada v-lo s voltas com os inquisidores.
- Est se preocupando  toa. No h nada contra mim. E, mesmo que houvesse, ningum ousaria me acusar. Seria uma vergonha para a Igreja. Tenho certeza de que o arcebispo 
logo daria um jeito de acobertar tudo, como j fez outras vezes. E depois, sempre cumpri fielmente a minha misso. Devo ser o inquisidor com o maior nmero de confisses 
e condenaes. Ningum se atrever a me acusar de nada.
Miguez suspirou profundamente e deu-lhe uma tapinha nas costas, seguindo para seus aposentos. Deitado em sua cama, ficou pensando no amigo. Ele e Esteban eram amigos 
h muitos anos. Juntos, j haviam feito centenas de condenaes, presidido muitas torturas, presenciado vrias execues. Miguez sabia que Esteban era muito bem 
conceituado na Igreja, tinha fama de excelente inquisidor. Assim como ele. Miguez ansiava ser sagrado bispo, o que no deveria tardar.
Mais tarde, em seu quarto, Esteban apagou a vela, mas no conseguiu dormir. Pensava nas palavras de Miguez. No acreditava que algum tivesse algo contra ele ou 
Giselle. A no ser o prprio Miguez. Desde que a conhecera o amigo no simpatizara com ela.
Ouviu um ressonar e espiou. No aposento contguo, Juan dormia a sono solto, despreocupado da vida. Seria uma pena despert-lo, mas precisava dele naquela noite. 
Era imperioso que fosse ver Giselle ainda hoje. A conversa com Miguez o deixara preocupado, e ele queria se certificar de que tudo estava bem.
- Juan - chamou baixinho, cutucando o novio.
- Hum...? O que ?
- Acorde, Juan, precisamos sair.
O rapaz se empertigou e esfregou os olhos, tentando espantar o sono e fitando o interlocutor:
- Monsenhor Navarro! Aconteceu alguma coisa?
- Preciso sair. Vamos, levante-se.
Rapidamente, o rapaz se levantou e vestiu-se s pressas. Em silncio, saram para o ptio da abadia, dirigindo-se para a cavalaria.
- Aonde vamos? - indagou, enquanto abria a porta da carruagem para Esteban entrar.
Ele se sentou rapidamente e disse com voz rouca:
- A casa de Giselle. E rpido.
O corao de Juan estremeceu. O que ser que Navarro iria fazer em casa de Giselle quelas horas? No perguntou nada, porm. Era seu dever obedecer, no fazer perguntas.
Quando chegaram, Juan bateu  porta e esperou. Poucos minutos depois, uma das negras veio atender, e Esteban entrou apressado, ordenando ao novio que o esperasse 
na carruagem.
- V chamar  senhorita Giselle - ordenou de m vontade.
A escrava no disse nada. De olhos baixos, saiu e foi buscar sua senhora. Voltou cerca de cinco minutos depois e, parada diante dele, sem ousar levantar a cabea, 
falou com voz humilde:
- A senhorita Giselle no est em seu quarto.
- Onde est?
- No sei senhor. Talvez esteja no poro.
Sem dizer nada, Esteban dirigiu-se para l. No gostava daquele poro cheio de ervas e coisas esquisitas, com cheiro de enxofre e inferno, mas estava com pressa. 
Escancarou a porta com estrondo. Giselle estava parada em frente a uma espcie de fogo a lenha, mexendo um caldeiro, e levantou os olhos assustada:
- Esteban! - exclamou surpresa. - O que faz aqui h essas horas?
Encarando-a com desconfiana, ele redargiu em tom de censura:
- O que est fazendo a, Giselle? Outro de seus feitios?
- Nada de mais - tornou ela, dando de ombros. - Apenas uma infuso para aborto. Por qu?
- Est grvida de novo?
-  o que parece.
 Vendo-a ali parada, mexendo o caldeiro feito uma bruxa, o corao de Esteban se apertou. Ainda a amava. No sentia mais arder em seu corpo o fogo da paixo, mas 
gostava dela o suficiente para tentar proteg-la. Ela se arriscava demais, guardando em sua prpria casa aqueles objetos profanos e demonacos. Se algum descobrisse, 
seria o seu fim.
Giselle soltou a colher com que mexia o caldeiro e aproximou-se dele, tentando beij-lo na boca. Ao ver que ele se esquivava, perguntou com voz amuada:
- O que h Esteban? No me deseja mais?
- No se trata disso. Mas  que vim aqui para falar de um assunto importante.
- Que assunto?
- Essas prticas nefastas.
- Por que est dizendo isso agora? Nunca se queixou quando elas o auxiliaram.
- Isso  bruxaria.
- Chame como quiser. Mas  com essa bruxaria que consigo praticamente tudo o que quero. E depois, se quer mesmo saber, acho que no tem nada de mais nisso que fao. 
Os druidas, de quem aprendi esses segredos, tratavam esses mistrios com muita naturalidade. Meu pai dizia que eles estavam acostumados a utilizar as foras ocultas 
da natureza, manipulando energias e fazendo contato com os espritos...
- Isso  blasfmia!  coisa do diabo!
- Que eu saiba voc tambm j andou estudando essas blasfmias.
- No nego. Mas foi apenas para conhec-las e poder combat-las. No me dedico a essas prticas. E voc tambm deveria parar com isso.
Giselle abraou-o e beijou o seu rosto, acrescentando com voz melflua:
- Quer mesmo que eu pare Esteban? Sem a minha magia, talvez voc no fosse o homem poderoso que  hoje. Quer jogar tudo isso para o alto?
Ele a encarou confuso e comeou a dizer:
- No... No se trata disso.
- De que se trata, ento? Nunca vi voc preocupado com minha magia.
- Voc sabe que eu jamais gostei dessas prticas.
- Mas nunca as condenou nem me pediu que parasse. Por que isso agora? Por que se deu ao trabalho de vir at aqui no meio da noite, s para me alertar sobre algo 
que voc j est cansado de saber?
- No sei. Estou confuso. Miguez veio com uma conversa estranha hoje. Algo sobre voc ser acusada de heresia.
- Padre Miguez no sabe de nada. No fundo, est  com inveja, porque voc subiu mais rpido do que ele.
- No creio. Miguez e eu sempre fomos muito amigos.
- Est certo, Esteban - assentiu Giselle, tentando desviar o assunto. - Mas no se preocupe. Se depender de mim, ningum nunca vai ficar sabendo de nada. Vou tomar 
mais cuidado. Escolherei at outro local para minhas oferendas. Est bem assim?
Ele sorriu meio sem jeito e assentiu. Em seguida, Giselle terminou de preparar a infuso e bebeu a goles largos. J estava acostumada quilo. Sempre que engravidava, 
preparava o ch abortivo e se livrava da criana. No queria filhos. Nem Esteban. Ele tremia s de pensar que pudesse vir a ser pai. Ainda mais porque o filho poderia 
no ser dele. Do jeito que Giselle trabalhava para ele, aquela criana bem poderia ser de qualquer um. Ainda assim, a presena de uma criana s serviria para atrapalhar 
os seus planos e os de Giselle, e era de comum acordo que os abortos eram realizados.



CAPTULO 6



Em seu gabinete particular, Esteban ouvia as explicaes de dom Ferno, que no tivera ainda tempo de buscar a tal doao que Giselle pretendia fazer  igreja.
- Pois  monsenhor Navarro - ia se desculpando -, ainda no pude encontrar a senhorita Giselle.  que andei ocupado, muitos negcios a resolver, o senhor entende. 
E depois, tem a minha filha. Lucena est noiva, e foi preciso ter uma conversa com o rapaz. Sabe como so os jovens, no  mesmo? Ramon de Toledo, um bom rapaz, 
embora um tanto quanto imaturo. Mas no se preocupe. Voltarei hoje mesmo  taverna da senhorita Giselle e resolverei tudo.
Esteban batia com os dedos na mesa e o fitava com ar incrdulo. Dom Ferno mentia descaradamente, mas ele no diria nada. Era preciso dar-lhe bastante corda para 
que se enforcasse. Quando ele terminou de falar, Esteban, olhando diretamente em seus olhos, tornou em tom veladamente ameaador:
- Dom Ferno, no quero que pense que o estou obrigando a abandonar suas obrigaes para me prestar esse favor. Pensei no senhor para essa misso porque  meu amigo 
e sei que tem prazer em ajudar a Santa Madre Igreja, principalmente nas tarefas mais difceis. Mas se no puder ir, deixe por minha conta. Arranjarei outra pessoa. 
- No, no,  claro que poderei ir. Como lhe disse ainda hoje me desincumbirei dessa misso.
Naquela mesma noite, dom Ferno voltou  taverna. Giselle estava danando sobre a mesa, como sempre fazia cercada de homens que a admiravam. Dom Ferno pretendia 
ser rpido. Escolheu uma mesa mais ao fundo e sentou-se, aguardando at que ela terminasse o seu nmero.
Giselle o havia visto entrar, embora fingisse no ter visto nada. Terminou a dana e desceu da mesa, encaminhando-se diretamente para onde ele estava sentado, com 
uma caneca de vinho  frente.
- Boa noite, dom Ferno - cumprimentou com um sorriso sedutor. - Pensei que no viesse mais.
Ferno pigarreou meio sem jeito e retrucou encabulado:
- Perdoe-me, senhorita Giselle, mas  que nosso encontro passado foi... Um tanto quanto incomum... E, por isso... Bem, esqueci a misso que me foi confiada.
Com um riso maroto, ela se sentou ao lado dele, pedindo que lhe trouxessem uma caneca de vinho tambm. Apanhou-a e bebeu avidamente, estalando a lngua ao final.
- Excelente vinho o meu! - disse ela com entusiasmo. - No concorda dom Ferno?
- Sim... - balbuciou ele - Muito bom, realmente.
- E francs; excelente safra. Doce, puro, aromtico. Uma beleza!
- Senhorita Giselle, perdoe-me... Mas no foi para falar de vinho que vim aqui.
Ela colocou a caneca sobre a mesa, passou a lngua nos lbios e tornou com suavidade:
- No. Foi para falar de sua misso. Contudo, o que o impede de saborear um bom vinho?
- Nada me impede. Mas  que no posso me demorar. Minha famlia me aguarda.
- Ah! A famlia. Essa nobre instituio criada por Deus...
Havia tanta ironia em sua voz que Ferno se assustou. Por que ela estava falando daquele jeito? Precisava logo apanhar o dinheiro e sair dali. Tentando ignorar o 
seu sarcasmo, replicou:
- Perdo novamente, senhorita...
- Pensei que tivssemos dispensado essas formalidades. J no somos ntimos?
Sem que ele tivesse tempo de responder, ela se levantou de onde estava e se abaixou perto dele, deixando os seios na altura do seu rosto. Na mesma hora, Ferno comeou 
a sentir que a excitao o dominava. Ela se abaixou ainda mais e tocou sua orelha com os lbios, soprando com voz doce e suave:
- Por que no vamos a minha casa cumprir... A sua misso?
Ao sentir o hlito quente de Giselle em seu ouvido, Ferno teve um arrepio de prazer. O peito da moa subia e descia, acompanhando a respirao que ela, propositadamente, 
tornara ofegante, o que foi instigando-o ainda mais. Ainda assim, ele tentava resistir:
- Eu... No posso... Gostaria, mas preciso apanhar o dinheiro...
Sem lhe dar tempo de concluir, Giselle tapou a sua boca com um beijo, e ele foi se levantando vagarosamente, apertando seu corpo contra o dela. Em seguida, saram 
pela porta dos fundos e tomaram a carruagem, indo direto para sua casa. Amaram-se a noite toda. Giselle j estava cansada, mas ele parecia tomado de uma disposio 
fora do comum. Mesmo assim, no o rejeitou. Quanto mais ele se prendesse a ela, mais cedo alcanaria seu objetivo.
Depois que ele se saciou, recostou a cabea sobre o seu colo e pareceu adormecer. Giselle esperou alguns minutos e, acariciando seus cabelos, comeou a indagar:
- Ferno... 
- Hum?
- Est dormindo?
- No.
Ela deixou escapar um suspiro de prazer e acrescentou com voz estudadamente carinhosa:
- H pouco falou em famlia. Voc  casado? Ele se empertigou na cama e fitou-a espantado.
- Por que pergunta?
- Por nada. Gosto de conhecer os homens com quem me relaciono.
- Perdoe-me, Giselle, mas no creio que nos relacionemos. Voc  uma mulher muito bonita e sensual, mas no pretendo tornar a v-la.
- No? Por qu?
- Por que... Porque no. Como disse, tenho a minha famlia e no posso me afastar dela.
- Ento voc  casado...
- O que h? Por acaso sou o nico homem em sua vida?
- No. Mas  que gostei de voc. Ao contrrio dos outros,  gentil, carinhoso, educado. A maioria dos homens que conheo  arrogante e grosseira.
Sentindo o peito inflamado de orgulho, Ferno retrucou:
- Sou um cavalheiro. Jamais trataria mal uma mulher.
- Eu sei, e foi por isso que me interessei por voc. Hoje, quando o vi entrar na taverna, senti uma enorme alegria. Gosto de voc e ficaria feliz se nos vssemos 
mais vezes.
Ferno estava confuso. Gostava de Giselle, mas amava Blanca. Giselle era uma rameira, ao passo que Blanca era uma mulher pura e virtuosa, aquela que escolhera para 
ocupar o lugar de sua falecida esposa. No entanto, por que no poderia ter Giselle como amante? Blanca, apesar de mais velha, ainda era uma moa solteira, e ele 
no poderia contar com suas carcias. Mas era homem. No era obrigado a satisfazer o seu desejo nos leitos das meretrizes? Giselle no era propriamente uma meretriz, 
mas era quase isso. Mulheres feitas Giselle no serviam para esposas. S serviam para concubinas. Que mal poderia haver se a tomasse por amante enquanto no se casasse?
Ele beijou os seus cabelos e tornou com doura:
- Tambm gosto de voc. Por isso, no vejo mal algum em que nos encontremos de vez em quando.
- Que maravilha! - exclamou ela, beijando-o de leve na boca. - E sua mulher? No vai desconfiar de nada?
- Quem foi que lhe disse que sou casado?
- No ? Mas eu pensei...
- Pensou errado. Eu no disse que era casado. Disse que tenho famlia.
- No estou entendendo...
- Sou vivo e tenho uma filha, que est noiva. Alm disso, tambm tenho uma noiva, e  com ela que pretendo me casar logo aps o casamento de minha filha.
Era agora. Ele ao menos j confessara que estava noivo, coisa que ningum antes conseguira apurar. Mais um pouco e ele falaria sobre a f que a moa professava.
- Voc est noivo? - tornou ela, fingindo-se surpresa. - E vai se casar?
- Sim. Lamento se a decepciono, mas no posso engan-la. Voc perguntou se eu era casado, e estou lhe dizendo que no. Mas no posso fingir que no h ningum em 
minha vida.
- E claro que no.
- No est zangada?
- Por que estaria? S o conheci outro dia. No podia esperar que fosse exclusividade minha.
- Quer dizer que no se importa?
- No  bem assim - fez uma pausa estudada e prosseguiu: - S duvido que sua noiva possa fazer o que eu fao por voc.
- Minha noiva ainda  virgem.
- Foi o que pensei... E sua filha? Como se chama?
- Lucena.  uma linda moa.
- Imagino. Se sair ao pai, deve ser mesmo muito bonita. Ele a abraou e replicou com ternura:
- Bonito, eu? Imagine...
- Pois fique sabendo que eu o acho muito atraente. E sua noiva tambm deve achar, ou no teria aceitado a sua corte.
Ferno no respondeu.
Por mais que puxasse assunto, ele nada dizia sobre a moa, e Giselle no quis pression-lo muito.
Ele deu por encerrado o assunto e comeou a acarici-la novamente. Giselle estava cansada. No sentia a mnima vontade de fazer sexo com ele mais uma vez. Contudo, 
era preciso fingir e se submeter. Precisava acabar com aquele caso o mais rpido possvel. Quanto antes ele revelasse a heresia da moa, mais cedo ela se livraria 
dele. Dom Ferno no era um homem feio, mas ela no sentia a menor atrao por ele. Seu nico desejo era fazer com que ele confessasse. Nada mais.



CAPTULO 7



Nada do que Ramon fizesse poderia convencer Lucena a adiar o casamento. Ela estava decidida, no podia mais esperar. Alm disso, j estava passando da hora, e acabaria 
se tornando uma solteirona ranzinza. No. Decididamente, o momento era aquele. O pai o estava pressionando, e Ramon tambm no encontrava mais desculpas para dar.
Sentados lado a lado no imenso jardim da casa de dom Ferno, Lucena, com o bordado no colo, ia dizendo:
- Hoje teremos visita para o jantar. Papai, finalmente, decidiu-se a nos apresentar sua noiva.
-  mesmo? O que o fez mudar de idia? 
- Ns.
- Ns? No entendi.
- Ele quer que nos casemos para se casar logo em seguida. Por Isso, vai trazer a moa hoje.
Ramon guardou silncio. No tinha mesmo como adiar aquele casamento. Dom Ferno parecia decidido, e Lucena, mais decidida ainda. O jeito era rezar para que o futuro 
sogro no descobrisse nada sobre sua real situao financeira. Se isso acontecesse, Ramon se sentiria extremamente humilhado e teria que enfrentar a repulsa de dom 
Ferno e de toda a sociedade espanhola.
 Os dois estavam sozinhos no jardim, e nuvens cinzentas comearam a se formar no cu. De vez em quando, um raio caa  distncia, e troves estouravam enfraquecidos.
- Acho que vai chover - observou Lucena displicente.
Sem prestar ateno a suas palavras, Ramon tentou nova investida. No havia nenhum empregado olhando, e o momento era propcio. J no agentava mais. Lucena sempre 
o evitava, o que o deixava louco. Quanto mais ela o repelia, mais ele a desejava. Com gestos delicados, segurou a sua mo e beijou-a com gentileza, fitando-a com 
um ar proposital de adorao.
- Lucena - comeou a dizer com voz aucarada -, sabe o quanto a amo, no sabe?
Ela retirou a mo e respondeu as faces coradas:
- No recomece Ramon.
- Mas Lucena, no entendo voc. Seu pai quer que nos casemos logo. Por que no posso toc-la?
- Por que no podemos esperar at a noite de npcias?
- Porque voc me enlouquece.
- No diga essas coisas. Voc sabe que no gosto de atrevimentos.
- No  atrevimento. E amor. Eu a amo, Lucena. Deixe-me provar isso.
Tornou a beijar sua mo, olhando para os lados para ver se havia algum observando. Levantou-se e puxou-a vagarosamente, e puseram-se a caminhar de braos dados 
pelas alamedas do jardim. Lucena sabia onde ele a estava levando, mas no disse nada. Pensou em contestar e exigir que voltassem, mas desistiu. Que mal faria? Iriam 
apenas conversar. Se Ramon pensava que iria conseguir alguma coisa, estava muito enganado.
Mais um pouco e alcanariam o caramancho. Foi quando comeou a chover. Era vero, e grossos pingos despencaram do cu, obrigando-os a correr para se abrigarem. 
Entrou ofegante no caramancho, Lucena toda encharcada, o peito arfante, quase sem conseguir respirar. Vendo-a parada, toda molhada, o vestido colado ao corpo, a 
mo suavemente pousada sobre o seio, que se insinuava alvo sob o decote, Ramon no conseguiu se conter. Arrebatou-a com furor e beijou-a com paixo.
 Assustada, Lucena tentou lutar. Dava-lhe tapas e tentava empurr-lo, mas Ramon a prendia com fora. J no conseguia mais raciocinar. Deitou-a no cho e ps-se 
a acarici-la, sussurrando-lhe palavras de amor, carregadas de desejo. Aos poucos, Lucena deixou de resistir. O contato de Ramon despertara-lhe sentimentos nunca 
antes experimentados, e ela foi se entregando. Que mal haveria? No ia mesmo se casar?
Amaram-se com loucura. Ramon parecia um animal, tamanho o desejo reprimido. Ao final, ele a beijou nas faces, feliz e extasiado, e declarou solenemente:
- Oh! Lucena, no sabe como a amo. Juro que farei de voc a mulher mais feliz e realizada do mundo.
Lucena exultou. Entregara-se antes do casamento, mas no estava arrependida. Ramon a amava e se casaria com ela, e tudo ficaria em seu devido lugar. Ningum precisaria
ficar sabendo do que acontecera, e o casamento trataria de colocar uma camada de tinta sobre aquela mcula.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Blanca foi apresentada a Lucena e a Ramon. Era uma moa fina e delicada, embora no muito bonita, j perto da casa dos trinta anos.
Apesar de no ser mais nenhuma jovenzinha, parecia perfeita para seu pai. Era prendada, recebera boa educao e se mostrava cordata e gentil com todos, at mesmo 
com os serviais. J no tinha pais. Eles haviam falecido havia cerca de dois anos, e Blanca vivia s, em companhia de alguns poucos empregados.
A nica coisa que no haviam contado a Lucena fora acerca de sua origem. Dom Ferno temia que a filha no a aceitasse ou ficasse preocupada, e no julgou conveniente 
revelar a verdade naquele momento. Contaria mais tarde, aps o casamento, se Blanca insistisse.
Depois que o jantar terminou, dom Ferno pediu licena para lev-la em casa. J era tarde, e Blanca no estava acostumada a ficar acordada at altas horas.
- Voc tambm, Ramon - acrescentou. - No se demore muito. J est na hora de Lucena se recolher.
- No se preocupe papai. Ramon j estava mesmo de sada, no estava?
- Estava sim
Blanca se despediu dos dois. Simpatizara muito com Lucena, e a moa ficou satisfeita com a futura esposa do pai. Temia que fosse alguma doidivanas ou interesseira, 
mas Blanca era uma moa fina e educada, o que a agradou bastante. Assim que eles saram, Lucena virou-se para Ramon e considerou:
- Lembre-se do que papai falou. J est na hora de me deitar.
Corpo ardendo de desejo, Ramon puxou-a para si e pousou-lhe um delicado beijo nos lbios, que ela correspondeu com frieza. Aos poucos, porm, aquele beijo foi se 
intensificando, at que Ramon passou a beij-la com ardor, tentando acariciar seu corpo. Ela, assustada, deu-lhe um empurro e uma leve bofetada no rosto, dizendo, 
coberta de horror:
- O que deu em voc, Ramon? Enlouqueceu?
- No, Lucena. O que deu foi em voc? Por que agora me repele? H pouco no concretizamos o nosso amor?
- J no chega?
- Por qu? No gostou? No quer mais? Confusa e envergonhada, Lucena objetou:
- Aquilo no deve se repetir. Precisamos esquecer o que houve.
- Como posso esquecer o seu corpo, os seus beijos, o seu sexo?
- No fale assim - retrucou indignada, cheia de pudor. -  pecado.
- Mas que pecado? Eu a amo e vamos nos casar em breve. Que mal h em nos amarmos?
- Podemos esperar.
Ramon abaixou os olhos, contrariado, tentando conter o mpeto de jog-la ao cho e possu-la novamente. A muito custo, refreou o desejo e saiu, dando-lhe um boa 
noite carregado de frustrao. Do lado de fora dos imensos jardins da manso, foi caminhando a passos vagarosos, pensando aonde ir. Ouviu o rudo de cascos de cavalo 
estalando no cho de pedras e parou, meio encoberto pelas sombras. Era a carruagem de dom Ferno. A carruagem freou em frente aos portes, mas, ao invs de entrar, 
o cocheiro deu meia-volta nos cavalos e tornou a descer a rua, passando por Ramon sem notar a sua presena.
Num impulso, Ramon correu atrs da carruagem e agarrou-se a ela, prendendo ps e mos nas ferragens traseiras. Aonde ser que dom Ferno ia quelas horas? Durante 
cerca de uma hora, Ramon permaneceu agarrado  traseira da carruagem, as mos e os ps j dormentes, esforando-se ao mximo para no cair. Se no chegassem logo 
ao seu destino, no saberia mais o quanto poderia se segurar.
Quando a carruagem parou em frente  casa de Giselle, Ramon deu um salto de felino e foi para o outro lado. Protegido ainda pelas sombras, abaixou-se o mais que 
pde, colocando-se fora das vistas do cocheiro. O homem desceu e abriu a porta para dom Ferno, que saltou apressado.
Ferno caminhou a passos largos para a porta da frente e bateu. Minutos depois, uma negra veio atender e f-lo entrar. Cada vez mais curioso Ramon esperou at que 
o cocheiro cochilasse no assento, para s ento sair de onde estava. Vagarosamente, foi caminhando para a casa, na esperana de encontrar alguma janela por onde 
pudesse espiar. Mas a casa estava s escuras, e no havia janelas abertas no andar de baixo.
Ramon escondeu-se entre os arbustos do pequeno jardim da casa de Giselle. A fama de dom Ferno j era conhecida, e o rapaz estava certo de que ele possua uma amante 
secreta. Duvidava muito que aquela Blanca fosse uma mulher despojada. Mais parecia uma freira, assim como Lucena, e Ramon podia entender muito bem o gesto de dom 
Ferno.
Do lado de dentro, dom Ferno envolvia Giselle num abrao lbrico, levando-a para a cama sem dizer nada. Precisava desesperadamente de seu corpo. Rasgou sua camisola 
com fria e jogou-a na cama, possuindo-a com um quase desespero. Em silncio, Giselle se submeteu, tentando no pensar na repulsa que aquele homem comeava a lhe 
causar, resfolegando sobre ela feito um animal. Quando ele terminou, ela deu um sorriso e acariciou o seu rosto, empurrando-o gentilmente de cima de seu corpo.
- O que foi que houve? - indagou, tentando parecer interessada e carinhosa. - Por que no avisou que vinha?
- No pude. Nem eu sabia. Deixei Blanca em casa e senti o desejo a me consumir. Por isso, resolvi vir v-la.
- Blanca?
- Minha noiva...
Sorrindo intimamente, ela fingiu-se compreensiva e tornou com doura:
- No lhe disse que ela no lhe pode dar o que lhe dou?
-  verdade, Giselle. Ningum ama feito voc. Mas tambm, voc h de convir que, aos olhos de Deus,  um erro entregar-se antes do casamento.
- Sua noiva  muito religiosa? - ele no respondeu. - Deve ser. Mulheres beatas s pensam em Deus e acham que sexo  pecado.
- O que no  o seu caso, no  mesmo?
Ela riu e considerou:
-  claro que sou temente a Deus, como todo mundo. Mas se ele me reservou esse destino, o que fazer? Melhor aproveitar os atributos que ele me deu, no acha?
Ele sorriu e a beijou. Gostava de Giselle. Alm de excelente amante, ela era inteligente e tinha senso de humor.
- Voc vai  igreja? - perguntou ele, s agora se lembrando da doao que tinha que levar para monsenhor Navarro.
- s vezes. Vou escondida. As pessoas no gostam muito de mulheres como eu, voc sabe.
- Ainda assim, voc conheceu monsenhor Navarro.
- Conheci. Ele me salvou. H alguns meses, estive muito doente, e foi graas a suas oraes que me curei. Monsenhor Navarro me encontrou sozinha na igreja e me ofereceu 
ajuda. Foi a sua f que me salvou, e, por isso, eu lhe serei eternamente grata.
- Grata ao ponto de lhe oferecer uma pequena doao...
- Que voc ainda no levou para ele, no  mesmo? - Giselle riu e continuou: - Daqui a pouco, ele vai comear a desconfiar.
-  verdade. Foi at bom nos lembrarmos. No saio hoje daqui sem a sua doao.
Giselle se levantou e foi apanhar uma bolsinha com algumas moedas de ouro, que colocou nas mos de dom Ferno.
- Aqui est. H muito reservei essa quantia para a igreja. No se esquea de lev-la.
 Ferno apanhou a bolsinha, experimentou-lhe o peso e foi amarr-la na cinta de sua cala. Voltou para a cama em seguida e beijou Giselle novamente. A moa observou:
- Apesar de tudo, sou muito grata a Deus. Posso no ser um exemplo de virtude feito a sua Blanca, mas sou uma mulher de f.
- Blanca  uma moa muito virtuosa,  verdade. E tem muita f, embora...
Parou de falar abruptamente, j arrependido de ter comeado. Mas Giselle atenta a todas as suas palavras viu ali a oportunidade que h tanto esperava.
- Embora o qu? - redargiu com fingida inocncia. - No v me dizer que ela pensa em ir para algum convento e deix-lo!
- No... No... Ela... Bem... Blanca  uma boa crist agora...
Calou-se. No sabia se podia confiar em Giselle e temia pela vida de Blanca. Giselle, por sua vez, no queria pression-lo muito. Ele era inteligente e acabaria 
suspeitando de algo. Pensou em insistir para que ele continuasse a frase, mas sentiu o seu ar de desconfiana.
- Isso no importa - arrematou Giselle, dando-lhe um beijo na boca. - O que importa somos ns.
Ferno suspirou aliviado. No lhe agradava muito ver o nome de sua noiva nos lbios de uma meretriz. Depois do beijo, levantou-se e aprontou-se para sair, e Giselle 
foi lev-lo at a porta.
Do lado de fora, Ramon se impacientava. O cocheiro agora dormia a sono solto, e ele perdera a conta do tempo em que ficara ali esperando. Finalmente, depois de quase 
duas horas, a porta tornou a se abrir, e Ramon encolheu-se todo atrs dos arbustos. Dessa vez, porm, no foi  escrava que abriu, mas uma moa linda, envolta apenas 
numa manta de l que lhe deixava  mostra os ombros morenos e bem torneados. Ramon fixou o seu rosto e ficou impressionado com a sorte de dom Ferno. Como conseguira 
uma amante daquela? Na certa, dava-lhe muito dinheiro.
Rapidamente, Ferno voltou para a carruagem e acordou o cocheiro, dando-lhe ordens de ir para casa. Giselle ficou vendo a carruagem afastar-se e s ento fechou 
a porta, nem percebendo que havia algum a espreit-la. Ramon voltou para casa com os pensamentos voltados para ela. Quem seria? Provavelmente, alguma meretriz de 
luxo que dom Ferno descobrira. Sentiu-se tomado de imensa curiosidade e no conseguiu dormir o resto da noite. A imagem de Giselle no lhe saa do pensamento e, 
no dia seguinte, bem cedo, partiu de novo para a sua casa.
Parou do outro lado da rua e ficou  espreita. Viu quando as janelas se abriram e as escravas comearam a limpar a casa. Uma das moas saiu para fazer compras, e 
ele pensou em abord-la quando voltava. Mas o que iria dizer-lhe? Que vira sua senhora na noite anterior e queria saber se ela era amante de dom Ferno? At porque, 
isso parecia bvio.
Giselle s saiu de casa depois do meio-dia, e Ramon foi atrs dela. Viu quando ela entrou na taverna e entrou atrs. O lugar no lhe causou muito boa impresso. 
No era o tipo de lugar que Ramon costumasse freqentar. Apesar de tudo, era um nobre. Podia estar falido, mas tinha bero e no estava acostumado a tavernas feito 
aquela.
Ainda assim, procurou uma mesa e sentou, acompanhando Giselle com o olhar. Ela sumiu por uma porta atrs do balco, e ele pediu vinho e um assado. Ainda no havia 
se alimentado e estava com fome. Pouco depois, Giselle reapareceu. Vinha passando por entre as mesas, falando com um ou outro freqentador, at que deu de cara com 
Ramon, que a fitava pelo canto do olho.
A figura de Ramon no passou despercebida a Giselle, e ela deteve o olhar nele por uns instantes. De onde surgira aquele rapaz to bonito e distinto? Bem se via 
que no era dali. Talvez fosse algum viajante. J estava se encaminhando para sua mesa quando sentiu que algum a segurava pelo brao.
- Ei, Giselle! - era um dos homens. - Dance um pouco para ns.
- Agora no - respondeu ela, sem tirar os olhos de Ramon.
- Ora, vamos, Giselle - pediu outro. - Estamos esperando.
-  isso mesmo, Giselle - concordou um terceiro. - Por que acha que viemos aqui?
O homem a puxou, enquanto outros limparam a mesa do centro do salo e a ergueram, colocando-a gentilmente sobre a mesa. Giselle no contestou. Seria at bom exibir-se 
para o desconhecido. Ergueu as mos acima da cabea, preparando-se para comear, e lanou-lhe um olhar penetrante. Ramon sentiu um arrepio e se empertigou todo na 
cadeira, agora vidrado na figura esguia de Giselle.
Comeou a movimentar os dedos com agilidade e destreza, estalando-os com graciosidade e ritmo. Com movimentos cadenciados e sensuais, ps-se a executar sua dana. 
Danava especialmente para ele, fazendo propositalmente a saia levantar, deixando  mostra seus tornozelos e joelhos. De vez em quando, olhava em sua direo, para 
se certificar de que ele acompanhava os seus passos. Quando terminou, explodiram palmas ao seu redor, e os homens comearam a bater nas mesas, elogiando com entusiasmo:
- Muito bem, Giselle!
- Foi perfeita, Giselle!
- Caprichou dessa vez, hein?
Sim, Giselle havia caprichado. Mais do que o habitual. Desceu da mesa e, sob os aplausos dos fregueses, caminhou em direo  mesa de Ramon. Parou em frente a ele 
e, depois que os homens silenciaram e voltaram suas atenes para a bebida, curvou o corpo e indagou com voz sonora:
- Voc  novo por aqui? - ele assentiu. - Est de passagem?
Ramon no respondeu. Seu olhar no se desviava de Giselle, e ele chegou a sentir uma pontinha de inveja de dom Ferno. Notou os seus seios subindo e descendo sob 
o vestido, o peito ainda arfante dos movimentos que executara. Em sua testa, algumas gotculas de suor emprestavam  sua pele um brilho especial, e os olhos verdes 
e profundos pareciam penetrar at o fundo de sua alma.
- O que h com voc? - tornou ela. - Por acaso  mudo?
Ramon sacudiu a cabea e sorriu, levantando-se e puxando a cadeira a seu lado, ao mesmo tempo em que dizia:
- Perdoe-me a indelicadeza, senhorita. A fascinao diante de to linda dama tirou-me os gestos e a educao e, por instantes, s o que pude foi admirar a sua beleza.
Pela primeira vez em sua vida, Giselle corou. Ningum nunca havia lhe dito palavras to doces. Aquilo a encantou, e ela se sentou na cadeira que ele lhe oferecia.
- Muito bem, senhor...
- Ramon de Toledo, sem o senhor.
Giselle riu encantada com o seu charme natural, e retrucou:
- Muito bem, Ramon, pode-se saber de onde  que veio?
- De onde vim? Na verdade, daqui mesmo.
- E de Sevilha?
- Sou.
- E o que faz por estas bandas? Na certa, no mora por aqui.
- No. Estou apenas de passagem.
- Entendo...
- E voc  Giselle...
Ela deu um sorriso encantador e completou:
- Giselle Mackinley - ante o seu ar de espanto, ela esclareceu:
- Meu pai era escocs.
Ramon e Giselle ficaram toda  tarde na taverna, conversando. A curiosidade do rapaz logo cedeu lugar ao encantamento, e ele percebeu que relutava em deix-la. Pensou 
em Lucena e sentiu uma pontada de remorso. Sua noiva, to pura, esperando-o em casa para salvar-lhe a honra maculada. E ele ali, preso ao magnetismo daquela mulher 
vivida e experiente. J no estava mais curioso para saber sobre a relao de Giselle com dom Ferno. Pensava mesmo em t-la em seus braos. Ao menos uma vez. Depois, 
satisfeito o desejo primitivo, voltaria para Lucena.



CAPTULO 8



O Tribunal do Santo Ofcio realizava outro auto-de-f, encerrando mais um dos muitos processos de heresia. O acusado no ousava levantar os olhos para seus inquisidores.
J quase no tinha mais conscincia de si mesmo, tamanho o estado de flagelo em que foram colocados seu corpo e sua mente. A morte, naquele momento, seria para ele
uma bno.
O processo havia transcorrido rapidamente. Alinhados  pesada mesa que formava a tribuna, os padres escutaram as acusaes contra o ru. Era um homem ignorante,
iletrado e nem sabia por que estava ali. Na verdade, o motivo era que olhara de forma comprometedora para uma freira. A religiosa, sentindo-se ofendida com os seus
olhares lbricos, tratara de denunci-lo s Mesas Inquisitoriais, e logo o processo fora aberto por padre Miguez, que cuidara pessoalmente do interrogatrio do acusado.
- Senhor Julio Ortiz - comeara ento padre Miguez -, no  verdade que o senhor, possudo pelo demnio, ousou conspurcar a imagem imaculada de irm Maria? - o 
homem no respondera. - Pois foi isso mesmo o que aconteceu. Como podem ver, tenho aqui um documento assinado pelo acusado, reconhecendo-se presa de espritos infernais, 
que dele se utilizaram para tentar violar a castidade de irm Maria, uma freira cuja vida sempre foi dedicada a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Exibira o papel aos outros padres, que o leram atentamente, passando-o de mo em mo. Efetivamente, o acusado havia confessado o seu crime, e a heresia estava mais 
do que provada. As marcas em seu corpo davam provas da eficcia do interrogatrio a que fora submetido, e a sentena fora prolatada sem qualquer tipo de controvrsia. 
O homem havia sido condenado a morrer queimado na fogueira, e, agora, o pblico que assistia ao auto-de-f era levado ao delrio.
Imediatamente, o homem foi levado para o lugar da execuo. Comeou a chorar, sentindo a iminncia da morte, embora ainda sem entender o que havia feito para merecer 
to duro castigo. Foi amarrado ao poste, e os carrascos, com as tochas na mo, atearam fogo  palha cuidadosamente disposta a seus ps. Na mesma hora, as chamas 
o consumiram, e ouviram-se seus gritos agudos e desesperados.
O inquisidor-geral estava muito satisfeito, e Padre Miguez foi parabenizado pelo excelente trabalho que realizara. Obtivera a confisso do homem aps longas sesses 
de tortura. Terminada a execuo, os padres comearam a se retirar, e o auto-de-f foi dissolvido. Os espectadores retornaram a seus lares, felizes com o espetculo 
macabro que haviam acabado de presenciar.
Esteban desceu da tribuna e foi juntar-se a Miguez, que recebia os cumprimentos dos demais padres. Um pouco mais atrs, Juan o seguia, atento a todos os seus gestos.
- Est de parabns, como sempre, Miguez - elogiou Esteban. - Em breve ser sagrado bispo.
- Acha mesmo?
- Ouvi algo a respeito. O arcebispo tem andado muito impressionado com a sua atuao.
Miguez sorriu intimamente orgulhoso de si mesmo. Apanhou o brao de Esteban e foi caminhando com ele em direo  abadia, seguidos por Juan, que vinha em silncio 
mais atrs.
- E voc, meu caro Esteban? Como vai indo o caso de dom Ferno?
- Por enquanto, no temos nenhuma novidade. Giselle ainda no conseguiu apurar nada.
- Acha mesmo necessrio utilizar Giselle? Poderamos mandar prend-lo e fazer uma acusao formal.
- Como? Ningum o denunciou, no h testemunhas. Com que elementos podero instaurar a denncia?
- Voc  muito meticuloso. Eu, no seu lugar, no me preocuparia tanto com isso.
- Voc sabe que no gosto de cometer injustias.
- Mas afinal, quem lhe contou que dom Ferno anda metido com uma moura?
- Ningum me contou. Fui eu que, ao acaso, o vi saindo furtivamente da casa de uma moa, que eu no conhecia. Indagando aqui e ali, descobri que ela se chamava Blanca 
Vadez e que os pais morreram h cerca de dois anos. Aquele nome ficou ressoando na minha cabea, e fiquei tentando lembrar onde j o havia escutado. Foi quando me 
lembrei que dom Ferno tinha negcios com um comerciante em Granada, que lhe vendia peas de seda trazida do oriente.
- E da?
- E da que ele era muulmano. Ele e a mulher morreram quando a Espanha reconquistou o Reino de Granada, h pouco mais de dois anos.
- E o que isso tem a ver com Blanca?
- Desconfio que esse homem fosse seu pai. Chamava-se Hamed Kamal e era casado com uma espanhola, de nome Engrcia Vadez. Os dois eram muito ricos, e o av de Engrcia 
foi um grande comprador de indulgncias. Mas Kamal era muulmano e no pde salvar-se, nem a esposa, quando o exrcito espanhol retomou Granada.
- Como foi que conseguiu descobrir tudo isso?
- Tenho amigos em Granada. Contaram-me que Hamed e Engrcia possuam uma filha, embora desconhecessem o seu paradeiro. E, por coincidncia, pouco depois da morte 
de ambos, Blanca apareceu por aqui...
- Tem certeza de que ela veio de Granada?
- No. A no ser pelo nome, nada sei a seu respeito. Ela  muito reservada, quase no sai de casa. E,  exceo de dom Ferno, ningum vai visit-la. No  estranho?
- Deveras...
- A moa, provavelmente com medo de ser descoberta, adotou o nome da me e passou a chamar-se Blanca Vades, em lugar de Blanca Kamal. Creio que isso tudo foi idia 
de dom Ferno. A essa altura, j apaixonado por ela, deu um jeito de tir-la de Granada e traz-la incgnita para c.
- Voc tem certeza disso? Pode ser mera coincidncia.
-  por isso que preciso reunir elementos.
- E acha que pode conseguir esses elementos atravs de Giselle?
- Ora, vamos, Miguez, sei que no gosta de Giselle, mas tem que concordar que ela  eficiente.
- Ela  uma meretriz, isso sim.
- E da? Desde quando voc se importa com isso? Voc no  o primeiro a se deitar com qualquer moa?
- Com qualquer moa, no. S gosto das jovens virgens. No ousaria macular o meu corpo santo no leito de uma meretriz.
- Est bem, no falemos mais nisso. E depois, no sou o nico.
- Sei que no . Mas  que no gosto de Giselle. No confio nela.
- Voc no tem motivo nenhum para no gostar dela. Ou ser que a cobiou tambm?
- Eu?! J lhe disse meu amigo, que no me interesso por meretrizes.
- No entanto, Giselle veio a mim quando era jovem...
- Giselle veio a qualquer um. Por acaso, foi voc quem a atendeu. Mas poderia ter sido eu, ou Valentim, ou Pedro, ou Donrio. Qualquer um.
- Est certo, Miguez, perdoe-me. No quis ofend-lo. Sei que voc  meu amigo e no sentiria cimes de Giselle. Mas  que essa sua antipatia por ela me deixa inquieto.
- No. Sou eu que devo lhe pedir perdo. No tenho nada com a sua vida e no tenho o direito de me intrometer em seus assuntos pessoais.
- Voc  meu amigo, e eu sempre respeitei muito a sua opinio. Mas est enganado sobre Giselle. Ela me ama, fui eu quem cuidou dela praticamente a vida inteira. 
Desde que ela chegou aqui, com pouco mais de dezesseis anos, tenho sido a nica pessoa a cuidar dela. Sou seu amante e um pouco seu pai tambm.
- Giselle no precisa mais de pai. J est com trinta e dois unos.
- Mas  uma mulher solitria. Conhece muitas pessoas, mas amigo mesmo, no tem nenhum.
Alcanaram os aposentos pessoais de Esteban, e Juan abriu-lhes a porta. Os dois padres entraram e foram para o gabinete, onde se sentaram, um defronte do outro. 
Juan correu a servir-lhes vinho e foi sentar-se numa poltrona perto da porta, permanecendo o mais quieto possvel.
- Miguez - comeou Esteban -, est enganado sobre Giselle. Ela  uma mulher muito eficiente.
- No digo o contrrio. Mas tanta eficincia d para desconfiar.
- Por que diz isso? Com que direito a acusa?
- Com o mesmo direito que voc acusa Blanca Vadez. Veja bem. No quero defender ou acusar Blanca. Se ela  culpada, tem que pagar. Assim como Giselle. No  porque 
 sua amante que vamos fechar os olhos ao que ela faz.
- Mas o que ela faz, alm de me servir? Giselle me  fiel. Voc  que anda cismado com ela.
Miguez preferiu no dizer nada. Nem ele saberia explicar por que no simpatizava com Giselle. No se sentia atrado por ela, nunca se sentira. Desde que ela aparecera 
nas Mesas Inquisitoriais pela primeira vez, no gostara dela. No era cime ou despeito. Giselle poderia aparecer nua para ele, que ele no se interessaria. Ela 
era ordinria, vulgar, sem classe. Muito diferente das moas a que estava acostumado.
Miguez procurou mudar o rumo da conversa, e Esteban deu graas a Deus por no precisar mais falar de Giselle. Apenas Juan no parava de pensar no que ouvira. Ser 
que padre Miguez tinha razo, e Giselle andava metida com heresias? Se assim fosse, seria muito perigoso. Monsenhor Navarro gostava dela e parecia querer proteg-la. 
Mas o que faria se ela fosse presa e acusada?
No dia seguinte, logo aps servir o desjejum de Esteban, Juan selou um cavalo  foi sozinho ter com Giselle. Precisava alert-la. Bateu  sua porta e esperou. Belita, 
uma das escravas, veio abrir e se surpreendeu imensamente com a presena de Juan. Era a primeira vez que o via desacompanhado de monsenhor Navarro.
- O que deseja? - indagou desconfiada.
- Sua senhora est? Tenho urgncia em falar-lhe.
Belita chegou para o lado, dando-lhe passagem. Mandou que ele se sentasse e foi ao quarto de Giselle, que ainda no havia despertado. Bateu  porta gentilmente, 
e ela abriu os olhos, piscando-os diversas vezes para espantar o sono e entender o que estava acontecendo.
- Senhora Giselle! Senhora Giselle! - chamava Belita do lado de fora.
- Hum... - espreguiou-se Giselle. - Pode entrar.
Belita abriu a porta vagarosamente e entrou. Giselle, nua sob os lenis, a fitava sonolenta, com Ramon a seu lado, dormindo a sono solto.
- Senhora Giselle - falou Belita em tom de desculpa -, Juan est a e pede para falar-lhe. Disse que  urgente.
Mais que depressa, Giselle se levantou. Se Esteban mandara Juan at ali, era porque o assunto deveria ser muito grave. Vestiu-se s pressas, lavou-se correndo na 
bacia e, enquanto penteava os cabelos, disse para Belita:
- No deixe que o senhor Ramon desa. Juan no pode v-lo aqui.
A escrava assentiu, sentou-se em uma poltrona, em frente a ele, e Giselle saiu. Juan estava sentado na sala, olhos fechados, parecendo adormecido. Ela chegou vagarosamente 
e o tocou de leve nos ombros.
- Juan...
Ele abriu os olhos lentamente, fixando-os nos dela por alguns instantes. Sentiu o corao disparar e teve um estremecimento, ainda sentindo as mos de Giselle sobre 
os seus ombros.
- Senhorita Giselle - falou meio sem jeito -, perdoe-me a intromisso h essas horas. Sei que a senhorita trabalha at tarde, mas precisava falar-lhe.
- Algum recado de Esteban?
 Ele pareceu engasgar e respondeu hesitante:
- No... Monsenhor Navarro nem sabe que estou aqui. Giselle ergueu as sobrancelhas e sentou-se a seu lado.
- No? Por que foi ento que voc veio?
Pouco  vontade, Juan remexeu-se na poltrona, pigarreou e, olhos pregados no cho, comeou a dizer:
- No quero que pense que sou atrevido, mas  que ontem ouvi uma conversa...
Calou-se, temendo a sua reao. Tinha medo de que ela se zangasse e o expulsasse dali sem nem lhe dar chance de contar o que havia acontecido.
- Que conversa? - tornou Giselle, j demonstrando impacincia.
- Uma conversa entre monsenhor Navarro e padre Miguez.
- Padre Miguez no gosta de mim. No  segredo nenhum.
- Por isso mesmo. Padre Miguez pode causar-lhe algum tipo de... Embarao.
- Como assim? Seja mais claro, Juan, no estou entendendo aonde quer chegar.
Embora envergonhado, Juan narrou-lhe toda a conversa que ouvira entre os dois padres, culminando com as desconfianas de padre Miguez. Giselle ouviu tudo atentamente. 
Se ele descobrisse as suas magias, no hesitaria em denunci-la.
- Padre Miguez  perigoso - completou Juan. - Pode prejudic-la seriamente, e tenho medo de que monsenhor Navarro no faa nada para impedir.
- Por que est me contando isso? - o rosto de Juan se avermelhou, e ele sentiu as faces em fogo. - Por acaso voc no  fiel a Esteban?
- Sim, senhorita - respondeu ele com voz sumida. - Mas  que lhe sou fiel tambm.
Giselle riu intimamente. O tolo do rapaz estava apaixonado por ela. No podia descartar-se dele. Viviam em um mundo perigoso, os tempos eram difceis e ningum era 
digno de confiana. Ainda mais com aquele Miguez sempre a acus-la. Por isso, precisava de Juan. O rapaz seria seu informante e a manteria a par de tudo o que acontecesse 
na abadia e no Tribunal.
-Juan - sussurrou ela com voz doce e melosa -, voc foi muito corajoso, vindo aqui para contar-me isso. Nem sei como poderei retribuir esse favor.
Apanhou a sua mo e colocou-a sobre o seio, e o rapaz, rosto ardendo de desejo e vergonha, puxou-a apressadamente, com medo at dos pensamentos que o assaltavam 
naquele momento.
- Senhorita, eu... - balbuciou.
Giselle colocou os dedos sobre seus lbios, chegou mais para perto dele e ciciou em seu ouvido:
- Voc pode me chamar de Giselle. De hoje em diante, seremos amigos.
Deu-lhe um beijo na ponta da orelha, e ele se arrepiou todo, levantando-se apressado e aproximando-se da parede.
- Giselle... Eu... No sei o que dizer... Estou confuso... Perdoe-me...
Ela se levantou e acercou-se dele, segurando novamente sua mo e levando-a aos lbios. Juan sentiu que o corpo todo tremia e foi acometido de um desejo louco de 
arrebat-la em seus braos e beij-la, mas conseguiu se conter.
- No precisa ficar confuso - tornou ela com voz sensual. - No vou lhe fazer nenhum mal.
- No... Sei que no... Como poderia? Uma moa to linda...
- Gosta de mim, no , Juan? - ele assentiu. - Tambm gosto de voc.
- Voc gosta?
-  claro. Voc  um rapaz bonito, inteligente, corajoso. E demonstrou ser meu amigo. Por isso, quero ser sua amiga tambm.
- Jura?
- Ser que preciso jurar? Voc no v? - ele assentiu novamente. - timo. E como amigos, voc tem que me prometer que vai me manter informada de tudo o que acontecer 
naquela abadia. Absolutamente tudo o que me disser respeito. Voc promete?
-  claro. No gosto que padre Miguez fale aquelas coisas de voc. No so verdades, so?
Ela sorriu sedutoramente, tornou a beijar suas mos e retorquiu:
- E se fossem? Tambm me acusaria por isso?
 Juan abriu a boca, estupefato, e asseverou:
- Nunca! Sei que voc no est envolvida com nada de bruxaria, mas, se estivesse, eu no a acusaria.
- Ficaria do meu lado?
- Sempre.
Com um sorriso vitorioso, Giselle pousou de leve os seus lbios sobre os de Juan, e o rapaz recebeu o beijo entre atnito e extasiado, sem conseguir articular nenhum 
som ou esboar qualquer reao. Depois disso, despediu-se. No podia se demorar muito, ou Esteban acabaria desconfiando de algo. Giselle abriu-lhe a porta e apertou 
a sua mo.
- Adeus, Juan, e obrigada. Venha quando quiser.
Juan sorriu meio sem jeito, virou-lhe as costas e foi apanhar seu cavalo, certo de que havia percebido em seu olhar uma sombra de reconhecimento e paixo.
- O que foi que houve? - quis saber Ramon, assim que ela voltou para o quarto.
Desde aquele dia em que ele a seguira at a taverna, havia se tornados amantes, e o que deveria ter sido apenas uma aventura passageira logo passaram  paixo, da 
 afinidade e, pouco depois, ao amor verdadeiro. Aos pouquinhos, o sentimento de Ramon para com Giselle foi se intensificando, e Lucena passou a ser uma sombra em 
seu corao. Agora reconhecia que nunca a havia amado. Impressionara-se com a sua beleza, a sua juventude, a sua elegncia. Deixara-se levar pelo desejo, mas no 
a amava.
Ramon e Giselle tinham muitas afinidades. Companheiros de outras vidas, suas almas logo se reconheceram e se aproximaram. Agora encarnados em sexos diferentes, podiam 
dar vazo a um sentimento antigo, que tanto os atormentara em existncias passadas. Ramon e Giselle h muito se conheciam e se amavam, mas jamais haviam conseguido 
manter uma relao considerada normal para os padres da poca. Ou eram ambos homens, ou ambos mulheres, e um encontro sexual entre os dois jamais foi permitido. 
Por essa razo, muitas vezes amaram-se platnica ou secretamente, remoendo no ntimo a autocensura e o remorso.
Em vista disso, agora, reconhecendo-se livres das amarras do medo e do preconceito, aproximaram-se naturalmente, ansiosos por poderem viver tudo aquilo que lhes 
fora anteriormente vedado. Consideravam-se isentos de quaisquer compromissos, pois suas mentes estreitas, naquele momento, somente conseguiam enxergar a anterior 
barreira do sexo, esquecendo-se da srie de equvocos e desenganos com os quais se haviam comprometido em suas sucessivas encarnaes.
Giselle despediu a escrava e sentou-se ao lado dele na cama. Precisava contar-lhe tudo sobre sua vida, inclusive sobre Esteban e at sobre dom Ferno. Inspirou profundamente 
e comeou a dizer:
- Sabe Ramon, no sou exatamente como voc pensa que sou.
- Como assim? Voc no me ama?
- Amo. E talvez seja essa a nica coisa verdadeira em mim.
- No estou entendendo Giselle. Aonde quer chegar?
Ela tornou a suspirar e continuou:
- Voc sabe que sou uma mulher livre, no sabe? - ele fez que sim. - Pois . H muitos anos, quando cheguei a Sevilha, conheci monsenhor Navarro, cardeal do Santo 
Ofcio...
- Sei quem  monsenhor Navarro.
- Pois . Monsenhor Navarro e eu somos... Bem... Amantes...
Ele a fitou deveras espantado. Julgava-a amante de dom Ferno, e no de monsenhor Navarro.
- Amantes? - tornou perplexo. - Mas eu pensei...
- O que voc pensou?
- Pensei que voc fosse... Que voc fosse... Amante de dom Ferno.
Giselle recuou, cheia de horror e indignao.
- Como  que sabe de dom Ferno?
Lembrando-se da noite em que o seguira, Ramon contou tudo a Giselle, sem omitir nenhum detalhe. Ela o escutou em silncio, espantada demais para falar.
- Por que no me disse antes? - indagou amuada.
- Tive medo de que voc me repelisse. Afinal, sou noivo da filha de dom Ferno.
- Noivo...
 Era a primeira vez que Giselle sentia cimes de algum. No que no sentisse cimes de Esteban. Mas ele era um cardeal e nunca tivera outras amantes alm dela. 
O que Ramon lhe dizia era diferente. Outra mulher o tocara, outra mulher o beijara. Sentiu a fragilidade que a acometia. Se Ramon a deixasse, seria bem capaz de 
se matar. J o amava com todas as suas foras e sabia que no poderia viver sem ele.
- Ramon - choramingou -, voc no pode se casar. Amo voc. No posso mais viver sem voc.
- Eu sei Giselle. Tambm no penso mais em me casar.
- Verdade?
- Sim. Pensei um dia que amasse Lucena. Mas hoje sei que jamais poderei ser feliz ao lado de outra mulher.
- Mesmo que sua noiva seja uma moa jovem, fresca e pura?
- Amor nada vem a ver com juventude, frescor e pureza. Amamos aqueles por quem bate o nosso corao. E hoje posso lhe assegurar que o meu bate apenas por voc.
Ela o fitou emocionada, cada vez mais envolvida pelo seu romantismo e pelas palavras doces que dizia. Com os olhos midos, indagou apaixonada:
- Est dizendo a verdade? No diz isso s para me agradar?
- Por que faria isso? Ser que no percebe o quanto j a amo? Tambm eu no poderia viver sem voc.
- Tem certeza?
- Tenho. Voc vai ver. Hoje mesmo, vou terminar tudo com Lucena e vou me casar com voc.
- No posso me casar.
- Por qu? J  casada? - recordando de dom Ferno, mudou o tom de voz e observou com ironia: - Ou ser que no quer perder a boa vida que seus amantes lhe do? 
Sim, porque, pelo visto, voc  amante de muita gente...
Giselle a fitou magoada e retrucou com voz sentida:
- Voc est sendo injusto. Por que no me deixa falar sobre a minha vida?
Giselle contou tudo. Falou de seu pai, de sua me, de seu padrasto. Contou-lhe de quando chegara a Sevilha e de como granjeara a confiana e a proteo de monsenhor 
Navarro.
 Contou-lhe dos servios que lhe prestava e de como dom Ferno passara a ser alvo das desconfianas de Esteban. Contou-lhe que s se tornara sua amante para poder 
denunci-lo. Contou-lhe at de suas bruxarias. Ao final, havia lgrimas em seus olhos e, com voz cansada, argumentou:
- Percebe por que no posso me casar? Estou presa a Esteban e creio que ele jamais permitiria.
Ramon balanou a cabea, pensativo. No podia esconder a decepo. Esperava que se casassem e fossem felizes juntos. Nem ligava mais para o dinheiro e sua posio 
social. Estava disposto a abrir mo de tudo s para poder ficar com ela. Passaria por cima de qualquer coisa, at da repulsa que lhe causava aquele ofcio.
- Sei que no tenho o direito de lhe pedir isso - prosseguiu Giselle. - Mas gostaria que entendesse e aceitasse.
- Eu entendo. Quanto a aceitar, no tenho alternativa.
Ela o beijou apaixonadamente e, aps alguns minutos, tornou a perguntar:
- Voc no sabe nada sobre a noiva de dom Ferno? Afinal,  noivo de sua filha.
- No. Ele nos apresentou a moa outro dia, mas nada disse sobre sua vida. E depois, se voc no se importa, preferia no me envolver nesse assunto. Causa-me calafrios.
Ela silenciou. Em seguida, levantou-se da cama e fez sinal para que ele a seguisse:
- Venha comigo.
De mos dadas, desceram as escadas e foram at o poro. Giselle empurrou a porta e Ramon passou, impressionado com a quantidade de coisas que havia ali.
-  aqui que faz suas magias? - indagou curioso.
- Sim - ela seguiu direto at outra porta, na parede oposta, e a abriu, desvendando uma escada estreita e escura, ao final da qual havia outra pesada porta. - Por 
aqui.
Saram para a floresta. Ainda de mos dadas, foram seguindo por uma trilha, at que alcanaram a rua, um pouco mais abaixo.
- Onde estamos? - tornou ele, olhando ao redor.
- Na rua onde moro. Como pde perceber, no h muitas casas por aqui. A vizinhana  escassa e ningum vem muito por essas bandas. Basta voc entrar na floresta 
e pegar a trilha que lhe mostrei, e ela o conduzir direto a minha casa. Entendeu?
- Entendi.
- Ento vamos voltar.
Fizeram o caminho de volta e tornaram a entrar pela pesada porta. Desceram a escada e alcanaram o poro.
- A partir de agora, voc deve sempre entrar e sair por essa porta. No quero correr o risco de voc se encontrar com Esteban ou dom Ferno.
Naquele mesmo dia, Ramon rompeu seu noivado com Lucena. Chegou a sua casa logo depois do almoo, quando sabia que dom Ferno no estaria, levou-a para o jardim e 
terminou tudo, sem dar maiores explicaes. Lucena ficou indignada a princpio. Mas, depois, sentiu-se dominada por uma raiva imensurvel.
- Voc tem outra mulher? - perguntou furiosa. -  isso, Ramon? Existe outra mulher em sua vida?
- Lucena, por favor, no se trata disso.
- Trata-se de qu, ento? Voc me usou, abusou de mim e agora me joga no lixo? E isso o que sou para voc? Lixo?
- No dificulte as coisas. Nosso casamento jamais daria certo.
- Por qu? Porque voc j conseguiu o que queria? J se deitou comigo, e agora no sirvo mais? E isso?
- Sinto muito se a deflorei...
- Sente muito? Voc me desonrou. Como espera que eu me case daqui para frente? Que homem acha que ir me querer?
- Sei que isso  difcil, mas eu tambm no planejei nada. Simplesmente aconteceu.
- Aconteceu o qu? Voc me desonrou e depois perdeu o interesse por mim? Por qu? Quem foi  meretriz que o atraiu?
- No h meretriz alguma. No h outra mulher.
- No acredito! Seu verme! Bastardo! Cretino!
Estava descontrolada. Partiu para cima dele com fria e ps-se a arranh-lo. Ramon defendeu-se o melhor que pde. Podia ser um canalha, mas no era covarde e no 
pretendia bater em uma mulher. Segurou -  pelos punhos com fora e, olhando fundo em seus olhos, disparou:
- Perdoe-me pelo que lhe fiz Lucena. Pensei que a amasse, mas estava enganado. No posso me casar, voc no  a mulher da minha vida.
Soltou os seus pulsos e rodou nos calcanhares. Lucena sentiu vontade de mat-lo. Tivesse uma arma ao seu alcance, teria atirado nele. No conseguia chorar. A raiva 
era tanta que lhe toldava a viso. Em silncio, ficou vendo-o afastar-se, remoendo seu dio, pensando num jeito de fazer com que ele lhe pagasse a vergonha e a humilhao 
que a fizera passar.
Quando Ferno chegou a casa naquela noite, encontrou Lucena envolta numa aura negra de raiva e despeito.
- O que houve minha filha? - perguntou alarmado.
- Ramon rompeu o noivado.
- Como assim? J no havamos marcado a data do casamento?
- Parece que isso o intimidou. Ele veio aqui e terminou tudo.
- Mas por qu?
-  o que gostaria de saber. Desconfio de outra mulher.
- Outra mulher?
- Sim. Algum deve estar lhe dando certas facilidades que comigo no obtm.
- Isso no  motivo para romper com voc. Meretrizes h muitas por a, mas ningum desfaz um noivado por causa disso. Deve ter havido alguma coisa.
- No houve nada, j disse.
- Mas nenhum cavalheiro pode voltar assim com a palavra empenhada. Ramon se comprometeu.
- Ramon  um canalha. S eu que no consegui ver isso.
- Ah! Mas isso no vai ficar assim. Vou apurar essa histria direitinha. Seja o que for que tenha acontecido, Ramon vai me pagar. Ningum descarta a filha de Ferno 
Lopes de Queiroz e sai impune para contar vitria. Vou descobrir o que aconteceu, minha filha, no se preocupe. E Ramon vai ter que pagar por toda a humilhao que 
a est fazendo passar.
 Lucena estava com tanta raiva que nem conseguia chorar. Tinha como certo que a causa daquele rompimento fora outra mulher. Mas aquilo no ficaria assim. Seu pai 
era um homem extremamente influente e daria um jeito de se vingar. S que Lucena nem de longe imaginava que o pai estava sendo investigado justamente pela mulher 
que lhe arrebatara o homem amado...



CAPTULO 9



Ao final da missa de domingo, Juan estava calado e pensativo, o que chamou a ateno de Esteban. Fazia j alguns dias que o rapaz andava estranho, cabisbaixo, sempre
com olhar perdido. At mesmo os outros padres j haviam notado, e muitos chegaram a indagar a razo daquele ar taciturno.
- No  nada - respondeu Juan, tentando mudar de postura. - Ando um pouco cansado.
- No est doente, est? - tornou Esteban com visvel preocupao, o que encheu Juan de remorso.
- No, senhor.  apenas cansao mesmo.
- Olhe l, hein, rapaz? No me v ficar doente. Se estiver sentindo alguma coisa, fale.
- No se preocupe monsenhor, no  nada. Passa logo.
A afeio de Esteban por Juan era legtima. Afinal, recolhera o rapaz ainda em tenra idade e, desde ento, passara a ser a nica famlia que possua. Juan tambm 
gostava dele. Navarro sempre o tratara bem e cuidara para que nada lhe faltasse. Tinha-o em conta de verdadeiro filho.
No comeo, Juan no simpatizara muito com Giselle. Ela era uma moa arrogante e no gostava de crianas. No que o tratasse mal. Mas nunca lhe fizera um afago ou 
lhe dirigira uma palavra de carinho.  medida que ele foi crescendo, Giselle comeou a dispensar-lhe um pouco mais de ateno, o que foi despertando no menino uma 
paixo muda e cada vez mais intensa. Ela era linda, e ele no podia deixar de pensar nela. Ainda mais agora, que ela lhe acenava com a possibilidade de um romance. 
Na cabea de Juan, Giselle estava interessada nele, e ele nem de longe imaginava que o nico interesse que ela possua era nas informaes que ele poderia lhe dar.
quela hora da manh, Giselle, provavelmente, ainda estaria dormindo. Pensou em fazer-lhe uma surpresa.
- Aonde vai? - indagou Esteban, desconfiado.
- Se no se importa, gostaria de dar uma volta.
O cardeal fitou-o com curiosidade, mas no o questionou. Limitou-se a assentir com a cabea e concluiu:
- No, meu filho. V.
Juan se despediu com um aceno e saiu. Quando chegou  casa de Giselle, ela ainda estava dormindo, mas ele no quis ir embora sem falar com ela.
- Vou esperar - disse a Belita.
A escrava fitou o novio com certa contrariedade. Sabia que sua ama estava no quarto com o senhor Ramon e no ficaria nada satisfeita em v-lo ali outra vez. Pediu 
licena e foi direto ao quarto de Giselle. Bateu de leve algumas vezes, mas ningum respondeu. Vagarosamente, abriu a porta e entrou. Giselle e Ramon dormiam abraados, 
e Belita tocou-a de leve no ombro.
Aos poucos retornando do sono, Giselle esfregou os olhos e piscou vrias vezes, encarando Belita como se ela fosse uma assombrao. Quando finalmente a reconheceu, 
ergueu-se na cama e indagou num sussurro:
- Belita! O que h?
- Perdoe-me, senhora, mas est a novamente aquele moo, o senhor Juan.
- O que ele quer?
- Pede para falar-lhe. Eu disse que a senhora estava dormindo, mas ele no quis ir embora.
-  algum recado de monsenhor Navarro?
- No sei senhora. Ele no quis dizer.
- Diga-lhe que j vou.
Depois que Belita saiu, Giselle virou-se para Ramon. Ele dormia despreocupadamente, e ela sentiu o corao disparar. Como ele era bonito! Pela primeira vez olhava 
para um homem que achava bonito sem pensar em sexo. Pensava em amor. Giselle amava Ramon verdadeiramente. Por mais que dormisse com outros homens, nenhum seria igual 
a Ramon. Nem Esteban, que fora sua primeira paixo e seu primeiro amor.
Como que sentindo o corao de Giselle, Ramon despertou. Espreguiou-se gostosamente e sorriu para ela.
- Essa  a melhor viso que um homem pode ter na primeira hora do dia - disse galante.
Giselle puxou o seu rosto e beijou-o de leve nos lbios.
- Preciso descer - retrucou. - Juan est a novamente.
- Quem  Juan?
- O pupilo de Esteban.
- O que ele quer?
-  o que vou descobrir - levantou-se, lavou o rosto na bacia e vestiu-se. - Por favor, Ramon, no saia daqui.
Atirou-lhe um beijo da porta e desceu as escadas, indo encontrar Juan sentado na sala, dedilhando uma pequena citara que encontrara a um canto. Giselle aproximou-se 
em silncio e postou-se defronte a ele. Na mesma hora, Juan largou o instrumento, levantou-se e pigarreou, desculpando-se meio sem jeito:
- Senhorita Giselle... Perdoe-me.  que vi a citara ali no canto e...
- No precisa se desculpar, Juan. Gosta de tocar? - ele assentiu. - Quem o ensinou?
- Padre Donrio me d aulas ao rgo. O resto  fcil.
- Sei...
- E voc, Giselle? Tambm toca?
- No. A citara era de um antigo trovador, que Esteban j executou faz tempo. Ele a esqueceu em minha taverna. Gostaria de ficar com ela?
- Srio? - ela balanou a cabea, e ele exclamou radiante: - Muito obrigado. Adorei o presente.
Juan no estava propriamente interessado na citara. Havia algumas na abadia que ele poderia usar se quisesse. Embora preferisse o rgo, aquele era um presente de 
Giselle, e ele tencionava guard-lo pelo resto de sua vida.
- Muito bem - continuou Giselle, sentando-se a seu lado.
- O que o traz aqui no domingo, logo pela manh? Algum recado de Esteban?
Juan enrubesceu. No sabia o que dizer. Fora at ali atendendo a um impulso de seu corao, mas agora se sentia um verdadeiro idiota. Rosto ardendo em fogo, ele 
abaixou os olhos e balbuciou:
- Eu... Vim aqui por que... Porque precisava lhe dizer uma coisa -        fez uma pausa, inspirou profundamente e prosseguiu: - E que h muito... H muito tempo 
no consigo... Parar de pensar em voc... Voc... Voc ... Quero dizer, eu...
No conseguiu concluir. Percebendo o que ele queria dizer, Giselle ficou alguns instantes pensativa. No tinha interesse no rapaz, mas no podia repeli-lo. Precisava 
dele para mant-la informada. Fazendo ar de compreensiva, ela se aproximou e segurou a sua mo, acrescentando num sussurro:
- O que foi Juan? O que est tentando me dizer?
Cada vez mais vermelho, Juan sentiu vontade de fugir correndo dali. Estava confuso, embaraado com os gestos despojados de Giselle. A presena dela lhe causava arrepios, 
e ele s conseguia pensar no seu corpo de encontro ao dele. Horrorizado ante aqueles pensamentos pecaminosos, tentou se levantar, mas Giselle segurou-o pela mo 
e f-lo sentar-se novamente, encarando-o com seus olhos verdes penetrantes. Juan no se conteve. Num mpeto desesperado, atirou-se nos braos de Giselle e buscou 
a sua boca, beijando-a com sofreguido.
- Giselle, eu... - sussurrava baixinho, ao mesmo tempo em que lhe beijava a boca e o pescoo - sinto que a amo...
Soltou-a apavorado e saiu correndo. Era tanto o seu desejo que tinha medo at de pensar. Se monsenhor Navarro descobrisse, acabaria com ele. Mas o que poderia fazer? 
Passara anos vendo Giselle nos braos de monsenhor. Vira-os at mesmo na cama, se amando, embora fingisse nada ver. E ela sempre linda, exuberante, sensual. Era 
praticamente impossvel para algum no se apaixonar por Giselle.
 Quando chegou de volta  abadia, Esteban se encontrava no jardim, cuidando de algumas flores que plantara. Viu quando Juan passou apressado e chamou-o diversas 
vezes, mas o rapaz no respondeu. Preocupado, largou o que estava fazendo, limpou as mos e foi atrs dele.
Juan entrou no quarto feito um furaco e se atirou sobre a cama, queimando de febre e de desejo. Quando Esteban chegou, estava deitado de costas, olhos fechados, 
rosto afogueado e vermelho. Experimentou-lhe a testa. Estava ardendo em febre.
- Juan! - chamou alarmado. - O que voc tem?
Como o rapaz no respondesse, saiu a chamar o mdico da abadia. Padre Valentim entrou, seguido por padre Miguez, e foi examin-lo.
- O que foi que aconteceu? - perguntou Miguez espantado.
- No sei meu amigo. Ele me pediu para sair e voltou nesse estado. Ignoro o que tenha acontecido.
Silenciaram. Padre Valentim o examinava superficialmente. Abriu os seus olhos para ver-lhe as pupilas, colou o ouvido em seu peito, apalpou sua garganta. No encontrou 
nada de anormal.
Mas Juan, ao sentir as mos de padre Valentim sobre ele, julgando tratar-se das mos de Giselle, girava a cabea de um lado para o outro, enquanto murmurava delirante:
- Giselle... Giselle... Amo...
Ao ouvir o nome da amante, Esteban e Miguez arregalaram os olhos, ao mesmo tempo em que Valentim, virando-se para eles, falou abruptamente:
- O rapaz est enfeitiado. Isso  obra dos scubos. Esteban levou a mo  boca, aterrado.
- Tem certeza?
- Tenho. Veja como ele est. Balbuciando o nome daquela mulher blasfema!
Percebendo o mal-estar de Esteban, Miguez tratou de intervir. Podia no gostar de Giselle, mas sua afeio por Navarro era genuna, e pretendia ele mesmo, resolver 
aquele assunto sem precisar recorrer ao Santo Ofcio.
- Obrigado, padre Valentim, sua ajuda foi muito til. Pode deixar que cuidaremos dele agora.
 Padre Valentim deu de ombros, recolheu o seu material de mdico e se foi. Juan, alheio ao que acontecia, continuava delirando, falando coisas sem nexo, suspirando 
e gemendo, por vezes chamando o nome de Giselle.
- Acha que ela o seduziu? - perguntou Miguez.
Esteban trincava os dentes. Recusava-se a crer que Giselle fosse capaz de tamanha baixeza.
- Miguez - ciciou em tom de splica -, peo-lhe, por favor, que no leve esse caso ao conhecimento de ningum. Deixe que resolva isso  minha maneira.
- Voc sabe que sou seu amigo e que tudo farei para proteg-lo.
- Eu sei.
- Por que Giselle tinha que se envolver com Juan? Ser que j no tem homens suficientes?
- No fale assim de Giselle - revidou Esteban, entre zangado e magoado.
- Est certo, perdoe-me. Mas  que me preocupo. Voc sabe o quanto  invejado pelos outros padres. Muitos gostariam de estar no seu lugar. Voc  um dos melhores 
inquisidores que o Santo Ofcio j teve, e isso causa despeito em muita gente.
- Voc tem razo, mas no sei o que fazer. No posso simplesmente entregar Giselle s Mesas Inquisitoriais.
- No estou dizendo para fazer isso. Mas voc precisa tomar alguma providncia. No pode mais continuar a v-la.
- J no a vejo mais com tanta freqncia.
- Ela ainda est trabalhando para voc, no est?
- Sim. Est investigando dom Ferno.
- Deixe dom Ferno para l. Suas suspeitas no so do conhecimento de ningum.
- Mas ele  muito rico... Pense no bem que a sua fortuna faria  Igreja.
Um gemido mais alto de Juan chamou sua ateno, e Esteban aproximou-se dele. Experimentou-lhe a testa novamente e percebeu que a febre ainda no havia cedido.
- Pobre rapaz - lamentou-se. - Eu deveria ter percebido o que estava se passando. Devia ter imaginado que isso acabaria acontecendo algum dia.
- Aquela mulher  um demnio! - esbravejou Miguez, com tanto dio que Esteban se assustou.
- No entendo voc, Miguez. Por que a odeia tanto? O padre deu de ombros e balanou a cabea, declarando desanimado:
- No sei dizer. Ela no me agrada. A presena dela me faz mal.
- No pode negar a sua beleza.
- No consigo v-la bela. Para mim, ela  e sempre foi uma bruxa. Aposto como tem pacto com as trevas.
Esteban no disse nada. No pretendia agora expor as habilidades de Giselle com o mundo das sombras. J bastavam os problemas que tinha no mundo visvel.
- Ser que dormiram juntos? - retrucou, apontando para Juan.
-  bem possvel. Pelo estado em que ele se encontra algo de muito grave deve ter acontecido.
Ante o silncio do outro, Miguez prosseguiu:
- Sei que no  agradvel, mas ser que no est na hora de voc considerar a hiptese de padre Valentim? Talvez ele tenha razo.
- No v me dizer que voc tambm acha que Giselle est possuda por algum demnio.
- Os scubos podem se manifestar de diversas formas. Ser que no a utilizam para seus propsitos? Giselle tem muitos amantes. No estaria servindo de instrumento...?
- O diabo no precisa de instrumentos. ncubos e scubos agem a seu bel-prazer. No tm necessidade de se utilizar de ningum.
- Mas podem faz-lo, no podem?
- Sim... Creio que sim.
- Pois ento?
- No  o caso de Giselle. Voc sabe to bem quanto eu que Giselle s se deita com quem eu ordeno.
- Deita-se at com mulheres, se for necessrio. Nem o diabo faz isso, Esteban! Voc no v? Todos os demnios abominam o ato sexual antinatural. No percebe o quanto 
 grave o pecado de Giselle? At os demnios consideram uma vergonha pecar contra a natureza!
- Pare! No posso acusar Giselle! Ser que voc  que no consegue perceber?
- Voc a ama...!
- No da forma como voc pensa. Sinto-me grato e responsvel por ela. No posso agora me voltar contra quem me serviu fielmente durante tantos anos.
- No quero que pense que estou contra voc. No estou. Estou do seu lado, sou seu amigo. E  por isso que insisto com Giselle. Ela ainda vai acabar prejudicando 
voc.
- Em nome da nossa amizade  que lhe peo: no faa nada contra Giselle. Deixe-me resolver isso  minha maneira.
- Que maneira?
- Vou encontrar um jeito.
Com um gesto de mos, deu por encerrado o assunto e foi postar-se  cabeceira de Juan. O rapaz agora parecia mais calmo, a febre comeara a ceder. Ajeitou-lhe as 
cobertas e foi para a igreja. Precisava rezar, pedindo a Deus foras e inspirao para ajudar Giselle. Para ajudar a si mesmo.



CAPTULO 10



Andando de um lado a outro no imenso salo de sua casa, Lucena esbravejava. Desde que Ramon a abandonara, seu humor havia se alterado consideravelmente.
- Como ainda no descobriu nada? Que espcie de pai  voc?
- A nica coisa que consegui apurar  que Ramon est quase falido.
- Mais um motivo para querer se casar. Voc  um homem rico. Poderia ajud-lo.
- Talvez ele estivesse envergonhado.
- Envergonhado? Ramon? No acredito. Quero saber o que houve papai. Exijo que voc descubra o nome da sem-vergonha que o tomou de mim!
- O que voc quer que eu faa?
- Mande algum segui-lo! No deve ser assim to difcil.
Dom Ferno suspirou desanimado. Desde que descobrira que Ramon perdera todos os seus bens em dvidas, deixara de ter interesse nele. Lucena que o perdoasse, mas 
ele no poderia permitir que sua filha se casasse com um pobreto. Sua famlia podia ser tradicional e nobre, mas Ramon estava falido. Aos poucos ia vendendo suas 
propriedades. Perdia tudo no jogo de dados, gastava fortunas em jias e roupas, e descuidava das terras. Em breve no teria mais nem onde morar.
- Minha filha, pense bem. Ramon est falido. Esquea-o. Posso arranjar-lhe coisa melhor.
- Quem foi que disse que ainda quero Ramon?
- No quer? - tornou, com genuno assombro.
- No. No quero mais um homem que se suja com meretrizes. Quero vingana. Ramon me usou, tentou abusar de minha pureza. E tudo isso para qu? Para acabar me trocando 
por uma vagabunda, ordinria!
- Acalme-se, Lucena. Voc no sabe se ele tem outra mulher.
- Tem! Tenho certeza de que tem. E voc vai descobrir. Vai descobrir e me contar. Eu exijo! Voc prometeu!
Dando-se por vencido, dom Ferno saiu, deixando Lucena entregue a seu dio. Ela no podia se controlar. Ramon a seduzira num dia para, poucos dias depois, terminar 
tudo com ela. Era um canalha. Dizia-se apaixonado, jurara-lhe eterno amor, prometera torn-la a mulher mais feliz do mundo. Tudo mentira. S o que queria era engan-la 
para seduzi-la. Agora que j conseguira o que queria, ela no tinha mais serventia.
Por que se deixara convencer? Tornara-se, ela tambm, uma das vagabundas com quem ele se deitava. Ramon lhe dissera que no a amava mais e que, por isso, no podia 
se casar com ela. Mas aquilo no ficaria assim. Vingar-se-ia dos dois. Descobriria quem era a mulher e daria um jeito de vingar-se. Seu pai tinha dinheiro, no lhe 
seria difcil arranjar algum que os matasse.
Enquanto isso, dom Ferno seguia em silncio para a casa de Blanca, mas no a encontrou. Precisava se consolar nos braos de algum e pensou em Giselle. J no tinha 
mais motivos para procur-la, pois entregara a Esteban a doao que ela fizera. Ainda assim, sentiu que s ela poderia confort-lo naquele momento. Depois de refletir 
por alguns segundos, deu ordens para que o cocheiro o levasse at a taverna.
Giselle, como sempre, danava sobre a mesa e sorriu quando ele entrou. Ao final da dana, foi ter com ele.
- Que prazer, dom Ferno! Estava com saudades!
 Ele sorriu e sentou-a em seu colo, beijando o seu pescoo.
- Vamos sair daqui.
Ela se levantou e foi puxando-o pela mo. Saram, tomaram a carruagem e, dentro em pouco, estavam nus sob os lenis. Giselle j no agentava mais aquele porco 
resfolegando sobre ela, mas tinha uma tarefa a cumprir. Seria a ltima. Depois diria a Esteban que era hora de parar. J estava ficando velha demais para aquilo.
Dom Ferno no tocou no assunto da filha. Giselle no tinha nada com aquilo, e ele no fora ali em busca de conselhos. S o que queria era sexo. O sexo que Blanca 
ainda no podia lhe dar.
Passando os dedos sobre seu peito, Giselle observou com fingido ressentimento:
- Pensei que no o veria mais...
- Na verdade, no veria mesmo. Afinal, j cumpri a misso que monsenhor Navarro me confiou e no tinha mais motivos para procur-la.
- Ainda assim, voc veio.
- Senti a sua falta.
Ela o acariciou novamente e indagou em tom casual:
- E o casamento? J marcou a data?
- Ainda no. Mas vai ser para breve.
Giselle suspirou fingida e acrescentou com ar sonhador:
- Vou sentir saudades.
- Virei v-la vez por outra - mentiu.
- Gostaria de conhec-la.
- Minha noiva? - ela assentiu. - Isso  impossvel.
- Por qu?
- Blanca  uma moa direita. No vai aos lugares que voc freqenta.
Giselle ficou indignada. O cretino ainda a humilhava. Bem merecia a fogueira.
- Sei que Blanca no  como eu - revidou, tentando conter a raiva. - Deve ser uma moa bastante prendada, para conquistar o seu afeto assim dessa maneira.
Percebendo que a havia ofendido, Ferno deu-lhe um beijo na testa e ponderou:
- No se ofenda Giselle, no  nada pessoal. Gosto de voc, mas voc  uma mulher da vida.
- No precisa lembrar-me disso. Sei muito bem o que sou e conheo o meu lugar. S falei que gostaria de conhecer Blanca por curiosidade, para ver a mulher que arrebatou 
o seu corao.
Com um sorriso maroto, ele a abraou e prosseguiu:
- Blanca  uma boa moa, mas no sai muito.
- J sei. S sai para ir  igreja.  beata mesmo, no ?
- Mais ou menos - respondeu cauteloso.
Ela fez uma pausa estudada e prosseguiu em tom de confidncia:
- Sabe Ferno, resolvi me afastar da igreja. No gosto dos olhares que as mulheres me lanam. S porque no sou feito elas, pensam que so melhores crists do que 
eu.
- Entendo o que quer dizer.  muito ruim ser diferente, no ? Ser incompreendido.
- Isso tambm acontece com voc?
- Mais ou menos. ... Pode-se dizer que sim.
- Por qu? O que foi que aconteceu?
- No aconteceu nada - respondeu cauteloso. -  que Blanca...
- O que tem Blanca?
- Nada... Nada que lhe interesse.
- Por que no se abre comigo? Talvez possa ajud-lo.
- No pode.
No estava funcionando. Giselle precisava mudar de ttica. J estava ficando cansada de se deitar com aquele porco, que s a usava sem nada dizer. Comeou a acarici-lo 
novamente e foi falando em seu ouvido:
- Posso fazer por voc muito mais coisas do que imagina.
Continuou a acarici-lo e a beij-lo, deixando-o louco de desejo.
- Voc  uma mulher e tanto, Giselle - murmurou ele, quase explodindo de prazer.
- No entanto, voc no confia em mim - disse ela com voz sedutora, sem parar de acarici-lo.
- Confio...
- Ento, por que no me fala de Blanca?
- Por que insiste tanto em falar de Blanca?
- Porque quero conhecer melhor a mulher que vai tir-lo de mim.
- Ela no vai me tirar de voc...
Giselle intensificou seus movimentos, levando-o quase  loucura. Ele, j no agentando mais, tentou acarici-la tambm, mas ela se esquivou e continuou a falar:
- No  o que parece. Voc dorme comigo, mas no confia em mim o suficiente para me contar seus segredos. Ser que tudo o que fao no demonstra o quanto gosto de 
voc?
Louco de vontade de acabar com aquela conversa e possu-la, Ferno no se conteve. A mente toldada pelo desejo deixou escapar a confisso:
- Blanca  uma moa honesta e pura. S que  metade moura.
 isso, Giselle. Est satisfeita? Blanca  filha de um mouro.
Esforando-se para no dar a perceber seu ar de satisfao, Giselle continuou a conversa, tentando fazer com que ele lhe contasse tudo.
- Como assim, filha de um mouro? Seus pais no so daqui?
- Sua me era espanhola, mas seu pai era mouro. Durante a guerra pela retomada de Granada, que era onde ela vivia, os mouros foram executados ou expulsos. Seus pais 
foram mortos, mas eu consegui traz-la para c.
- Quer dizer que voc lhe salvou a vida? - arregalou os olhos, dando mostras de profunda admirao. - Trouxe-a para c, arriscando-se a ser descoberto e preso? Ferno, 
voc  um heri!
Cheio de si, dom Ferno inflamou o peito e contou-lhe tudo, at o nome dos pais de Blanca. Giselle exultou. Conseguira, finalmente! Aquele porco nojento havia confessado 
que sua querida Blanca era moura, dando-lhe os elementos com que faria a denncia contra ambos. Bem feito. J no suportava mais v-lo babando atrs dela. Ele lhe 
dava nojo, e s o que pensava agora era em sua liberdade. A liberdade que Esteban lhe daria.
Quando dom Ferno chegou a casa naquela noite, Lucena estava sentada na sala,  sua espera, e se levantou apressada, logo que o ouviu entrar.
- Lucena! - exclamou ele assustado, levando a mo ao corao. - Quase me mata de susto!
- J  tarde, papai. Onde esteve?
- Vai tomar conta da minha vida agora, vai?
- No se trata disso. Mas o senhor sumiu... At Blanca estava preocupada.
- Blanca esteve aqui?
- Veio  sua procura.
- O que disse a ela?
- O que poderia dizer? Que no sabia onde estava.
Ele balanou a cabea e foi caminhando em direo ao corredor. J passava da meia-noite e, no dia seguinte, precisaria levantar-se cedo.
- Vou me deitar. Boa noite.
- No vai me dizer onde esteve?
Ferno parou no meio do corredor e olhou para ela com ar enigmtico, dizendo com voz de cansao:
- Estive em reunio com umas pessoas. Negcios...
- At a essa hora?
- Por que est me vigiando?
- Por causa de sua promessa. Quero saber se j descobriu alguma coisa sobre Ramon.
- No acha que est sendo muito insistente? No tive nem tempo de tomar as devidas providncias.
- De quanto tempo ainda vai precisar? At que eu morra, consumida pelo dio?
Fitando-a com ar de espanto, Ferno se aproximou e perguntou perplexo:
- dio...  isso que no entendo. Por que todo esse dio?
- J no lhe disse?
- Ramon tentou alguma coisa com voc?
- Como assim?
- Voc sabe. Tentou alguma intimidade?
Coberta pelo rubor, Lucena escondeu o rosto entre as mos e virou-se de costas para ele, sentindo o rosto arder diante da chama que bruxuleava na tocha presa na 
parede.
- No, pai... Odeio Ramon porque ele me enganou. Sei que tem outra mulher.
Havia tanto dio na voz de Lucena que Ferno titubeou. Parecia-lhe mesmo que algo havia acontecido. A transformao da filha fora muito rpida, e Ferno sabia que 
s um motivo muito poderoso poderia causar tanta mudana. Ele inspirou profundamente, deu-lhe uma tapinha no ombro e finalizou:
- V dormir minha filha. Deixe Ramon comigo.
Foi para seu quarto, bocejando, os olhos j pesados de tanto sono. S muito depois Lucena o seguiu. O dia estava quase amanhecendo quando ela conseguiu pegar no 
sono. Mal conseguira fechar os olhos quando pesadas batidas na porta a despertaram. Ouviu quando a criada foi abrir, e o rudo de botas batendo no cho irrompeu 
na casa. Vozes se altearam, vindas da sala, e o pai acordou. Lucena escutou quando ele saiu do quarto e foi para a sala, e ainda pde ouvir suas palavras de indignao:
- Mas o que  que est acontecendo aqui?
No mesmo instante, foi agarrado por dois homens, que o prendiam com fora, enquanto um terceiro desenrolava um pergaminho e comeava a ler:
- Por ordem de sua eminncia, o cardeal Esteban Navarro, inquisidor do Tribunal do Santo Ofcio de Sevilha, fica dom Ferno Lopes de Queiroz, neste dia de 28 de 
maio de 1495, intimado a comparecer  sua presena no Tribunal, onde ser recolhido  masmorra por tempo indeterminado, at que sejam apurados os fatos da mais alta 
heresia contra ele denunciados...
- O que... - balbuciava dom Ferno -... O que est acontecendo? Heresia? Como se atrevem?
Parada na porta da sala, Lucena os fitava sem nada entender, tentando imaginar o que estaria sucedendo. Como  que monsenhor Navarro ousava acusar seu pai de heresia? 
Pensou em intervir, mas o medo a paralisou. E se a ordem tambm a alcanasse? Indignada com o que se passava, ficou olhando sem nada dizer, respirao suspensa, 
 espera que o homem desenrolasse outro pergaminho e lesse o seu nome tambm. Mas isso no aconteceu. A ordem se referia apenas a seu pai, e ele foi sendo levado 
sob protestos. Em meio ao medo e ao desespero, Lucena ainda conseguiu perguntar: 
- Do que acusam meu pai?
- Lamento senhorita, mas no posso dizer mais nada. Seu pai  acusado da prtica de atos herticos, e isso  s o que sei.
Empurrou-a para o lado e os homens passaram, arrastando dom Ferno, que esbravejava e reagia.
- Isso no vai ficar assim! - vociferava. - Monsenhor Navarro vai me pagar! Soltem-me! No fiz nada! Soltem-me!
De nada adiantaram suas splicas. Ferno foi arrastado e levado  fora para a masmorra, sem nem saber do que estava sendo acusado. Somente dois dias depois, quando 
j havia sido submetido a toda sorte de torturas, foi que Esteban apareceu.
- Monsenhor Navarro - suplicou humilde. - Por que esto fazendo isso comigo? O que foi que fiz?
- Dom Ferno - declarou o outro, solene -, est sendo acusado da mais alta heresia por se envolver com uma mulher que adota prticas contrrias aos costumes de f 
da Igreja.  de nosso conhecimento que sua noiva, Blanca Vadez,  filha de um mouro nojento, chamado Hamed Kamal. A limpeza de sangue  necessria, e no podemos 
permitir que a descendncia moura continue a espalhar seu sangue profano por nossa terra santificada...
Apavorado, dom Ferno comeou a chorar e a gemer em desespero:
- Onde est Blanca? O que fizeram com ela? Blanca! - ps-se a gritar. - Blanca! Onde est? Pode me ouvir?
Na mesma hora, sentiu uma dor aguda nos ps e soltou um grito de pavor. O carrasco acabara de queimar a sola de seus ps, causando-lhe imenso sofrimento.
- No adianta gritar, dom Ferno. Blanca no pode ouvi-lo de onde est. Por que no confessa logo o seu crime, como Blanca j o fez, e acaba logo com o seu suplcio?
- Blanca confessou?
-  claro. Arrependeu-se e quis salvar sua alma. Por que no faz o mesmo?
Embora seu sofrimento fosse imenso, dom Ferno no se deu por vencido. Se confessasse, a sim  que estaria tudo acabado.
- No tenho o que confessar. No fiz nada.
- No  o que parece. A denncia contra o senhor foi bastante clara.
- Que denncia? Quem fez essa denncia?
- Isso no importa. Seus atos foram testemunhados por algum que veio s Mesas Inquisitoriais e o denunciou. E o quanto basta.
Tentando imaginar quem teria sido capaz de uma coisa daquelas, dom Ferno ps-se a pensar. At que a imagem de Giselle surgiu espontnea em sua mente. Teria sido 
ela? Seria possvel? Na vspera, contara-lhe sobre Blanca, confessando que ela era filha de um muulmano. Giselle teria sido capaz de tra-lo? Mas por qu? No dizia 
que o amava? Ou tudo no teria passado de um embuste?
Pensando melhor, fora monsenhor Navarro quem os aproximara, mandando-o a sua taverna para buscar a tal doao. E Giselle parecera mesmo muito receptiva, apaixonando-se 
por ele logo de incio. Como  que uma mulher linda feita Giselle, com todos os homens a seus ps, fora se apaixonar logo por ele? S ento compreendeu. Quando ela 
se confessara apaixonada, seu orgulho e sua vaidade no deixaram que percebesse que aquilo no passava de fingimento. Giselle queria iludi-lo para conseguir fazer 
com que ele lhe desse informaes sobre Blanca. E conseguira. Ele, tolamente, contara-lhe tudo. Ela era uma mulher sensual e ardilosa, e no fora difcil arrancar-lhe 
a confisso sob os lenis de sua cama. Como fora estpido!
- Foi Giselle, no foi? - tornou com raiva. - Aquela vagabunda, meretriz, ordinria! Como se atreve a dar ouvidos a uma vadia feito Giselle, em lugar de acreditar 
na palavra de um nobre honrado feito eu?
- A palavra de um nobre de nada vale se fere as leis de Deus.
- No devia fazer isso, monsenhor. Sou um homem rico, influente. Giselle... No  nada.  uma vagabunda delatora.
- Qualquer vagabundo pode ser testemunha de heresia. E  dever de todo homem ou mulher temente a Deus denunciar os delitos de que tenha conhecimento, sob pena de 
tornar-se cmplice do crime.
- Giselle  uma meretriz. Isso no  crime tambm?
Esteban no respondeu. Com um aceno de cabea, chamou o carrasco, para dar incio a nova sesso de torturas. Dessa vez, participaria, ele mesmo, do processo inquisitorial. 
Precisava arrancar a confisso daquele herege, para depois purificar sua alma. Era seu dever de ofcio.
Em outra masmorra, Blanca era tambm supliciada. Logo aps a priso de dom Ferno, ela fora presa tambm e levada ao calabouo, onde fora interrogada e torturada. 
Ainda no vira monsenhor Navarro, mas sabia que ele apareceria. Haviam- lhe dito que Ferno a trara e a delatara, mas ela no acreditara. Pois se fora ele mesmo 
quem a tirara de Granada, por que agora a entregaria aos padres? No. Ferno nada tinha a ver com aquilo. A no ser pelo fato de que a amava, Blanca no podia ver 
nele nenhuma ofensa s leis da Igreja.



CAPTULO 11



Giselle sentiu imensa alegria ao ver Esteban descer da carruagem, diante de sua casa. Fazia j algum tempo que no o via e sentia sua falta. Seus sentimentos para 
com ele eram puros e verdadeiros, e, por mais que estivesse apaixonada por Ramon, amava Esteban como se fosse seu pai.
- Agiu muito bem com dom Ferno, Giselle - elogiou-o, aps abra-la. - Sua confisso  questo de tempo.
- E a tal de Blanca? Tambm j confessou?
- No. Blanca parece uma moa ingnua, mas confia no tolo. Se ela soubesse...
Giselle deu de ombros e foi puxando-o pela mo em direo a seu quarto. No tinha muito interesse em dom Ferno ou qualquer outro acusado. Executava sua misso sempre 
da melhor forma possvel, mas o destino daqueles a quem delatava no lhe interessava muito.
Esteban deixou-se conduzir passivamente ao quarto da moa, embora no houvesse ido ali para aquilo. Giselle j no lhe despertava tanto desejo. Apesar de bonita 
e esbelta, no tinha mais o frescor da juventude, e seu corpo tambm no guardava mais a rigidez da mocidade. Ainda assim, seguiu-a sem dizer nada e aceitou o amor 
que ela lhe oferecia.
- Por que est to calado? - a indagou, logo aps se amarem.
Ele a olhou mansamente, tentando encontrar um jeito de lhe dizer o motivo que o levara at ali.
- Estou cansado - deixou escapar num suspiro.
- De mim?
- Da vida.
- Da sua vida ou da minha?
- Da de ns dois.
- No estou entendendo, Esteban. Pensei que voc me amasse.
- Gosto de voc, mas acho que j est na hora de pararmos com isso.
- Por qu? - tornou ela, entre decepcionada e contente.
- J estou ficando velho, e voc tambm no  mais nenhuma garotinha. Voc tem me servido com extrema fidelidade e eficincia durante todos esses anos, mas agora, 
no preciso mais desses servios.
- Como assim? Quer dizer que no lhe sou mais til?
- No  isso. Mas creio que, hoje, posso prender os suspeitos de heresia sem o seu concurso.
- Como fez com dom Ferno? - ironizou.
- Dom Ferno foi o ltimo.
Giselle silenciou. Por que estava discutindo com ele? No era isso mesmo o que queria? Sua liberdade? Encerrar sua carreira de delatora e meretriz? No pretendia 
agora se dedicar exclusivamente a Ramon? Pensando nele, considerou:
- Acho que est certo Esteban. Tambm estou ficando cansada.
- E j est rica, no ? No precisa mais de mim nem do dinheiro que lhe dou. O que juntou durante todos esses anos  o suficiente para levar uma vida tranqila 
e sem preocupaes, no  mesmo?
Algo no tom de voz de Esteban chamou sua ateno. Ele devia saber de alguma coisa que ela no sabia. Cuidadosamente escolhendo as palavras, redargiu:
- Est acontecendo alguma coisa que eu no saiba?
 Ele soltou um profundo suspiro, alisou os seus cabelos e respondeu com fingida displicncia:
- No est acontecendo nada. O que eu quero  evitar que venha a acontecer. Miguez est me pressionando...
- Miguez, Miguez... Sempre Miguez. Aquele padre me odeia. No entendo o que ele tem a ver com isso.
- Nada. No se impressione. Miguez apenas se preocupa demais. Tem medo dos comentrios dos outros padres.
-  s isso?
- O que mais poderia ser?
- Sei que muitos delatores acabaram tambm sendo delatados. Acha que corro esse risco?
- Voc est sob a proteo de Esteban Navarro. Ningum ousaria toc-la.
- Tem certeza?
- Absoluta. Nem sequer se cogita de uma coisa dessas. O que acontece  que estou preocupado com a minha imagem. No fica bem para um cardeal ser alvo dos comentrios 
alheios. Sossegue minha querida, ningum jamais ousaria associar o seu nome  heresia. Sou um inquisidor influente, talvez o melhor que Sevilha j tenha visto. Ningum 
tem tantas condenaes como eu, esteja certa. Meu nome goza de prestgio e respeito por toda a Espanha, at mesmo pela Europa. Quem pensaria em me enfrentar?
As meias verdades de Esteban acabaram por tranqiliz-la. Do jeito como falava, parecia que ele estava acima de qualquer suspeita e jamais constituiria alvo do Santo 
Ofcio. Realmente, seria muito difcil provar algo contra ele. Mas aqueles que o serviam poderiam facilmente ser atingidos.
Embora Navarro tivesse esse medo, no deixou transparecer nada a Giselle. Sabia que ela corria grandes riscos, mas no queria alarm-la. Se tudo corresse bem, conseguiria 
contornar aquela situao e controlar o dio de Miguez. E ela estaria a salvo. Ao menos, era o que esperava.
- E voc? - prosseguiu Giselle. - No o verei mais?
- Acho que voc deve se afastar de Sevilha.
- Ficou louco? Sevilha  o meu lar. Para onde espera que eu v?
- Estive pensando... Creio mesmo que j chegou a hora de voc se casar.
- Casar...? - tornou sonhadora, j antevendo sua felicidade ao lado de Ramon.
- Sim, casar. Ser o melhor para voc e para mim. No concorda?
- Concordo... Sim, casar... Um homem maravilhoso, um lar de verdade... O respeito da sociedade...
- Que bom que concorda, porque j escolhi o seu noivo.
- Como assim, escolhi o seu noivo. O que quer dizer?
- Exatamente o que voc ouviu. J escolhi um noivo para voc.
- Mas Esteban, voc no pode... No quero... Isto , eu nem o conheo!
- Mas vai conhecer. Creia-me, ele  o melhor para voc nesse momento.  um senhor vivo muito rico, que mora em Cdiz. E aceitou despos-la. J est ficando velho 
e ficou feliz em poder ter uma esposa mais jovem.
- No, Esteban, no quero me casar...
- Voc acabou de concordar que seria o melhor.
- Mas no com esse noivo que voc escolheu. Posso eu mesma, escolher o meu marido.
- Sinto, mas j est tudo acertado.
- Tudo acertado? Quer dizer que voc tramou isso pelas minhas costas?
- Fiz o que era melhor para voc.
- No vou me casar com esse velho, no vou!
- O nome dele  Solano Daz e  muito rico...
- No me interessa! No vou me casar com ele e pronto!
- No entendo por que a recusa. H pouco concordou que o casamento seria uma boa idia. Pareceu-me mesmo bastante feliz.
- A idia  excelente, mas quero me casar com o homem que eu escolher.
- Quem poderia ser esse homem? Que eu saiba voc no tem ningum... Ou ser que tem?
Ela ficou confusa. E se lhe contasse sobre Ramon? Talvez ele aceitasse. J que estava tentando arranjar-lhe um marido, no lhe custaria nada cas-la com o homem 
que ela amava.
- Esteban... - comeou a balbuciar - h pouco conheci um homem... Ele  maravilhoso...  tudo com que sempre sonhei...
- Um homem...? - tornou desconfiado. - Voc conheceu? Onde?
- Na taverna.
- Quem  esse homem?
- Chama-se Ramon de Toledo.
Durante alguns minutos, Esteban permaneceu remoendo aquele nome, tentando se lembrar de onde  que o conhecia. Por fim, deu um sorriso sarcstico e desdenhou:
- Ramon de Toledo  um vagabundo falido.
- Isso no me importa. Eu o amo.
- Ama? Ser que foi por isso que trabalhou to bem com dom Ferno? Queria o caminho livre para voc?
- Se est se referindo ao fato de que ele e a filha de dom Ferno foram noivos, saiba que est enganado.
- Ser mesmo? Foi o prprio dom Ferno quem me disse que eles iam casar-se.
- Iam, mas no se casaram. Ele me ama e, por isso, rompeu o noivado.
- Ramon de Toledo... Quem diria?
- Por favor, Esteban - suplicou Giselle, atirando-se a seus ps -, deixe que me case com Ramon. Prometo que voc nunca mais ouvir falar de mim.
Naquele momento, Esteban sentiu imensa piedade de Giselle. Sentia-se responsvel por ela, fora por ele que ela ingressara naquela vida. Que culpa tinha de ser uma 
mulher bonita e ambiciosa? Quando chegara a Sevilha, Giselle era quase uma menina, pobre e inexperiente, cheia de sonhos e fantasias. Vivera na pobreza durante muitos 
anos, era natural que almejasse uma vida melhor.
O casamento com Ramon talvez resolvesse seus problemas. Solano era um homem idoso e no saberia satisfaz-la. Quanto tempo decorreria antes que ela arranjasse um 
amante?
Ele alisou os seus cabelos e ergueu-a pelos ombros. Ela estava chorando, e ele enxugou as suas lgrimas. Apertou o seu queixo e concluiu:        
- Est certo, Giselle. Se for o que quer, que seja.
- Oh! Esteban! Nem posso acreditar que seja verdade!
- Aguarde alguns dias at que dom Ferno seja executado. No quero que a filha dele cause problemas. Depois, eu mesmo providenciarei tudo. Como um presente de casamento.
- Por que no a prende tambm?
- No temos nada contra Lucena. Mas no se preocupe com ela. O processo de expropriao de bens no  demorado e logo, logo, ela no ser ningum.
Depois que ele se foi, Giselle ps-se a gritar pelas escravas. Belinda correu a atender, e Giselle foi logo perguntando:
- O senhor Ramon j chegou?
- J, senhora. Belita est l no poro com ele.
- Pois o que est esperando para cham-lo? V, v!
Aos tropees, Belinda saiu em busca de Ramon. Quando monsenhor Navarro chegara, Belita, j orientada por Giselle, correra ao poro para esper-lo. Assim que ele 
entrou, contou-lhe que o cardeal se encontrava em companhia de sua senhora, e Ramon foi obrigado a esperar. J estava impaciente quando Belinda entrou.
- Senhor Ramon, a senhora Giselle o chama com urgncia.
- Monsenhor Navarro j se foi?
- J, sim.
De um salto, Ramon correu ao quarto de Giselle. Escancarou a porta e, sem lhe dar chance de dizer qualquer coisa, apertou-a de encontro a si e beijou-a sofregamente. 
Ao saber que Esteban estava com ela, tinha-se visto dominado por louco cime, imaginando-a nos braos do outro.
- Tolinho - gracejou Giselle, percebendo o seu cime. - Esteban agora  como um pai para mim.
- Pai... Sei. Que pai dorme com sua filha?
- Deixe de bobagens e sente-se. Tenho algo importante a lhe contar.
Curioso, Ramon sentou-se na cama, com Giselle a seu lado. Ela tomou a sua mo e acariciou-a, levando-a aos lbios e fitando-o com ar enigmtico.
- O que houve? - tornou Ramon. - Por que tanto mistrio?
- O que acha de se casar comigo?
- Casar-me com voc? Seria a felicidade suprema.
- Pois pode ir-se acostumando a essa felicidade. Em breve, estaremos casados.
- Como assim?
Em mincias, Giselle contou-lhe a conversa que tivera com Esteban, e Ramon exultou. J estava comeando a gostar dele.
- Esteban  um homem maravilhoso - elogiou Giselle. - S o que quer  o meu bem. Voc e eu vamos ser muito felizes, voc vai ver.
- No vai mais dormir com ningum, vai?
Ela riu gostosamente e apertou suas bochechas.
- S com voc, meu amor. De hoje em diante, serei exclusivamente sua.
Entregaram-se ao amor. Estavam realmente felizes, certos de que poderiam levar uma vida tranqila e sem preocupaes. Naquele momento, era o que mais desejavam: 
viver em paz, um para o outro.
 

 
CAPTULO 12



Com a chegada do inverno, as ruas de Sevilha comearam a esvaziar-se, e as pessoas evitavam sair e enfrentar os ventos frios que sopravam com a nova estao. J 
passava de meio-dia, e Giselle deixara Ramon em casa, adormecido, partindo apressada para a taverna. Agora, mais do que nunca, precisava cuidar dos negcios. Ramon 
dissera que iria ajud-la, mas ficara dormindo em seu primeiro dia de trabalho. Agora viviam juntos. Desde que contara a Esteban sobre seu envolvimento, no tinham 
mais por que esconder que estavam apaixonados. Esperariam at que dom Ferno fosse executado e se casariam de verdade.
O dia estava escuro, e as nuvens cinza anunciavam que uma tempestade em breve iria desabar. Giselle saltou da carruagem em frente  porta da taverna e, envolta em 
grosso manto de veludo, ps-se a caminhar apressada, tentando fugir da ventania. Foi quando algo lhe chamou a ateno. Toda encolhida num canto da parede, uma mulher 
chorava baixinho. Giselle parou por alguns segundos e olhou para ela. A moa estava de cabea baixa, mas percebeu que algum a observava. Ao levantar o rosto, Giselle 
se surpreendeu. Jamais havia visto uma mulher to bonita. Sua pele morena parecia de veludo, seus cabelos negros eram como seda, seus olhos escuros brilhavam feito 
duas contas de bano. Ficou impressionada. Curiosa para saber o que uma moa to bonita fazia atirada na calada, aproximou-se.
A outra se encolheu toda  sua chegada. Tentou levantar-se e fugir correndo dali, mas Giselle a deteve com um aceno de mos.
- Por favor, espere - disse em tom cordial. - No vou lhe fazer mal.
A moa foi se levantando vagarosamente, apoiada  parede, e parou de frente para ela. De perto, era ainda mais bonita.
- O que faz a? - tornou Giselle interessada. Como a outra no respondesse, prosseguiu: - Est ferida? Algum lhe fez algum mal? No pode falar?
A moa balanou a cabea e respondeu entre soluos:
- Perdoe-me, senhora.  que estava com fome...
Desatou a chorar descontrolada, ameaando tombar no cho novamente. Foi ento que Giselle percebeu o quanto ela devia estar fraca e com frio. Com cuidado, ajudou-a 
a erguer-se novamente e levou-a para dentro. Fazia muito frio, e a coitada estava quase congelando.
Do lado de dentro da taverna, Giselle levou-a para perto da lareira, j acesa para espantar o frio.
- Sanchez! - gritou para o empregado. - Traga uma caneca de vinho e um bom assado para a moa comer.
Logo a comida e a bebida chegaram, e a moa devorou a perna de cordeiro que Sanchez lhe estendera. Bebeu o vinho a grandes goles e, aos poucos, foi sentindo que 
recobrava foras. Lambia os dedos de satisfao e virou-se para Giselle, acrescentando com timidez:
- Nem sei como lhe agradecer, senhora. Giselle sorriu e retrucou:
- Qual  o seu nome?
- Manuela.
- De onde voc vem, Manuela?
- De Madri.
- Bem se v que no  daqui. Tem um jeito de falar diferente.
Manuela deu um sorriso encantador e, j mais refeita, acrescentou:
- E voc, como se chama?
- Giselle. Sou a dona deste lugar.
Rapidamente, Manuela passou os olhos pelo interior da taverna e considerou:
- Ser que no est precisando de uma ajudante?
- Depende - respondeu Giselle, j imaginando onde gostaria de coloc-la. - O que sabe fazer?
Ela deu de ombros e respondeu timidamente:
- Posso arrumar as mesas.
- Sanchez j faz isso.
- Posso ajudar Sanchez.
Giselle balanou a cabea negativamente e continuou:
- Sabe danar?
- Sei, sim.
- Poderia danar para mim?
- Agora?
- Por que no? A taverna est vazia.
Meio sem jeito, Manuela postou-se no meio do salo.
- E a msica?
- Sanchez, cante uma cano para a moa danar.
O empregado soltou uma risada debochada e ps-se a cantar com sua voz de bartono desafinada, fazendo com que Manuela levasse a mo aos ouvidos e fizesse uma careta.
- Pode deixar que me arranjo sozinha - protestou.
Sanchez deu de ombros e foi lavar as canecas. Quando Manuela comeou a danar, ficaram admirados. Ela danava to bem quanto Giselle. Ao final da apresentao, Manuela 
olhou para Giselle e indagou com um sorriso, j sabendo o efeito que havia causado sobre ambos:
- E ento? Gostaram?
Sanchez bateu palmas e assobiou, enquanto Giselle fazia com que ela se sentasse a seu lado.
- Gostei muito, Manuela. O que acha de um emprego de danarina?
- Fala srio?
- Falo, sim. Quem dana aqui  eu, mas j estou ficando cansada. No sou mais nenhuma menininha e quero me dedicar a outras coisas. Quando a vi, fiquei impressionada 
com a sua beleza e imaginei se no poderia me ajudar. Agora, vendo-a danar, tive certeza de que voc  a pessoa ideal para me substituir. Ento? O que acha? Aceita 
o emprego?
- Se aceito? E claro que aceito!
- Enquanto no estiver danando, voc pode auxiliar Sanchez com as mesas - ela concordou e Giselle prosseguiu: - Tem algum lugar para ficar?
- No. Acabei de chegar de Madri.
- Vou lhe indicar uma estalagem. Chama-se O Mascate.  bem perto daqui.
Giselle apanhou uma pena e escreveu o endereo num pequeno pedao de papel, estendendo-o para Manuela, que o leu e retrucou emocionada:
- Obrigada.
Giselle limitou-se a sorrir e continuou:
- Por que voc veio para Sevilha?
Ela abaixou os olhos, olhou de um lado para outro e confessou:
- Tive que fugir. Estava sendo perseguida.
Giselle sobressaltou-se. A ltima coisa que queria era uma fugitiva da Inquisio.
- Quem a estava perseguindo?
- Andei me metendo com gente importante em Madri. Um jovem conde, muito rico e bonito. S que era casado...
- E a mulher dele descobriu e quis matar voc - completou Giselle, num gracejo.
- Pior. Ela se suicidou, e o pai dela colocou todos os seus homens atrs de mim. O jeito foi fugir.
- E o tal conde?
- Sofreu muito... Ele me amava realmente, sabe?
- E voc? Tambm o amava?
Ela deu de ombros e respondeu com certo alheamento:
- No sei. Ele era bom para mim, tratava-me feito uma rainha. Dava-me jias e sedas, que tive que deixar para trs. No tive nem tempo de apanhar minhas coisas. 
Ou voltava para buscar minhas jias, ou salvava a pele. Preferi salvar minha vida. Posso comear de novo do nada. Homens h muitos por a.
Giselle se calou. Manuela tinha um jeito doce e meigo, mas parecia j haver sofrido bastante na vida. Contudo, sua beleza ser-lhe-ia muito til naquele momento. 
Ela precisava descansar e dedicar mais tempo a Ramon. Mas no podia abandonar os negcios. Muitos homens iam ali para v-la danar e acabariam se afastando se ela 
simplesmente parasse. Mas se lhes apresentasse outra moa, linda e mais jovem, sensual e excelente danarina, tinha certeza de que conseguiria manter a clientela. 
Afinal, no fora por outro motivo que a tirara do frio.
Realmente, Manuela agradou. No dia seguinte, quando os clientes comearam a chegar  taverna, ficaram impressionados com tanta graa e beleza. Ainda gostavam muito 
de Giselle, mas no foi difcil faz-los acostumarem-se a Manuela. Alm de danar muito bem, ela possua um encanto natural que cativava os homens. Nas horas vagas, 
auxiliava Sanchez com as mesas, para alegria dos fregueses, que lhe davam palmadinhas e belisces, sem que ela reclamasse, coisas que jamais ousariam fazer com Giselle.
At ento, Ramon ainda no havia aparecido. Por mais que Giselle insistisse, ele no se animava a ir  taverna.
- Ramon, meu querido - disse ela certa vez. - No se esquea de que agora teremos que viver dos meus negcios. A taverna ser minha nica fonte de renda. E sua tambm. 
Voc j vendeu tudo o que possua, no tem mais nada. No acha que j est na hora de se interessar pelo que  seu tambm?
Com um profundo suspiro, Ramon a abraou e acabou concordando:
- Tem razo.  que no estou acostumado a trabalhar.
- Pois trate de ir se acostumando. A taverna at que  divertida. E depois, tem a Manuela. Quero que voc a conhea. Vai ver se tenho ou no razo quando digo que 
ela  linda e que foi a pessoa ideal para me substituir.
No dia seguinte, ao meio-dia, Ramon entrava com Giselle na taverna. Sanchez arrumava as mesas, enquanto Manuela limpava o cho. Ramon cumprimentou Sanchez e foi 
apresentado a
Manuela.
- Tem razo, Giselle - concordou admirado. - Manuela  mesmo uma moa muito bonita.
Ela deu um sorriso brejeiro e continuou a trabalhar, fingindo que no lhe prestava ateno. Ramon a observava atentamente, com olhar embevecido, acompanhando o molejo 
do seu corpo enquanto esfregava o cho. Essa admirao no passou despercebida a Giselle. Queria apresentar-lhe Manuela para que ele visse como era bonita. No para 
que ficasse cado por ela. Ramon, percebendo o seu cime, puxou Giselle e sentou-a em seu colo, beijando-a com paixo.
- No h mulher feito voc, Giselle. Por mais linda que sejam as outras, jamais sero como voc.
Ela sorriu satisfeita e apertou-se a ele. Entretanto, algo em seu olhar lhe dizia que tomasse cuidado, embora Giselle soubesse que jamais permitiria que Manuela 
lhe tomasse Ramon. Nem Manuela, nem qualquer outra mulher. Porque Ramon lhe pertencia. Somente a ela.



CAPTULO 13



Sentado diante da janela, Juan lia um trecho da bblia para monsenhor Navarro, sem prestar a menor ateno a suas prprias palavras. Sem que percebesse, Esteban
o observava. Desde o dia em que chegara com febre e delirando, chamando o nome de Giselle, no haviam conversado sobre o ocorrido. Juan no se lembrava de nada do
que dissera no delrio, e Esteban achara melhor no tocar no assunto.
Juan, em seu mutismo, pensava numa maneira de rever Giselle. No sabia que Esteban havia terminado tudo com ela e pretendia cas-la com Ramon. O cardeal, no querendo 
faz-lo sofrer, nada dissera a respeito, e o novio alimentava a iluso de que Giselle tambm gostava dele e que sentia a sua falta.
- Juan! - chamou Esteban. - Juan! Onde est com a cabea, menino?
O rapaz havia interrompido a leitura e perdera-se em sua saudade. Precisava ver Giselle o quanto antes ou acabaria adoecendo.
- O qu...? - respondeu ele, em tom apalermado. - Chamou monsenhor Navarro?
- Por que parou de ler?
Juan olhou para a bblia pousada sobre seu colo e segurou-a novamente, recomeando a leitura. Se Juan no prestava ateno no que lia, Esteban tambm no entendia 
o que ouvia. Ambos estavam com o pensamento preso na mesma pessoa, embora por motivos diferentes.
Subitamente, algum bateu  porta. Era outro novio, que vinha chamar monsenhor Navarro, dizendo que uma dama estava ali para v-lo. Seria Giselle? No, pensou Esteban. 
Giselle podia ser tudo, menos uma dama. Mandou que Juan continuasse a leitura e foi atender o chamado da tal dama. Ela havia sido introduzida em seu gabinete particular 
e, assim que ele entrou, correu ao seu encontro e beijou-lhe o anel, fazendo profunda reverncia.
- Monsenhor Navarro - disse com voz sonora -,  um imenso prazer conhec-lo.
Esteban recolheu a mo gentilmente e foi sentar-se em sua poltrona, mandando que ela se sentasse  sua frente.
- Em que posso servi-la, senhorita...?
- Lucena... Lucena Lopes de Queiroz.
Ele levou um susto, mas conseguiu controlar-se. Conhecia-a apenas de nome; jamais a havia visto pessoalmente. Ela era uma moa muito bonita, o que o deixou surpreso. 
Ramon trocara uma moa to linda e fresca por Giselle. Por mais bela que Giselle fosse j no era mais uma mocinha.
- Muito bem, senhorita Lucena - prosseguiu ele, sem demonstrar surpresa -, o que posso fazer pela senhorita?
- Monsenhor Navarro, no quero que pense que sou atrevida ou desrespeitosa. Mas gostaria de saber o que foi que meu pai fez para ser preso.
A moa tinha coragem, era preciso reconhecer. Ir at ali, correndo o risco de ser acusada tambm, era realmente um ato de bravura. Esteban se levantou da poltrona 
e dirigiu-se para a janela, respondendo sem se virar:
- Seu pai  acusado de heresia.
- Isso, eu j entendi. Mas o que foi que ele fez?
Voltou-se para ela abruptamente e respondeu incisivo:
- Andou conspirando contra a Igreja, senhorita Lucena, envolvendo-se com uma mulher moura.
- Refere-se  Blanca Vadez?
- Ela mesma. No sabia?
- No, no sabia.
- Pois fique sabendo. E  muita sorte sua no estar ao lado dela no calabouo.
Lucena sentiu um arrepio de terror e quis fugir. Contudo, se sasse dali agora, deixaria a suspeita de que tambm estava envolvida com os mouros, se  que Blanca 
fosse moura, como ele dizia.
- Monsenhor Navarro, sou uma moa direita e temente a Deus, vou  igreja todos os domingos, fao minhas oraes e comungo regularmente. Que motivos teriam o senhor 
para me atirar no calabouo junto de hereges que no respeitam a palavra de Deus?
Ele a olhou perplexo. Ela era uma moa muito corajosa e atrevida, realmente. Fitando-a com ar ameaador, revidou austero:
- O que pretende senhorita Lucena? Libertar seu pai? Ou aquela mulher?
- Vim apenas lhe pedir, ou melhor, implorar pela vida de meu pai. Ele sempre foi um homem digno, no merece esse fim.
- Seu pai foi acusado de heresia.
- Quem o acusou?
- Isso no importa. O fato  que as acusaes contra ele so gravssimas e esto sendo devidamente comprovadas e apuradas. No h nada que eu ou a senhorita possamos 
fazer.
Ela comeou a chorar e atirou-se ao cho, beijando seus ps.
-Por favor, monsenhor Navarro - suplicou em lgrimas. - Eu lhe imploro. Tenha misericrdia. Meu pai  um homem digno.
- Ele foi denunciado.
- Quem o denunciou s pode ser seu inimigo.
- Engana-se. Ele foi denunciado por pessoa que nada tem contra ele. Ela apenas ouviu a sua confisso e nos contou. Era seu dever, assim como  o seu, no se intrometer 
nos assuntos da Inquisio.
- Por favor, reconsidere. Meu pai  um homem rico, pode recompensara sua misericrdia.
- Seu pai no  mais rico, senhorita Lucena, e nem voc. Seus bens esto sendo confiscados pela Igreja.
- O que foi que disse? - murmurou atnita. - Confiscados? No pode ser... O senhor... No pode fazer isso. O que ser de mim?
- Sinto muito, mas isso no  problema meu. D-se por satisfeita de no ter sido acusada tambm - Lucena chorava descontrolada, e ele aconselhou: - Quer ajudar o 
seu pai?
-  claro que quero. Diga-me o que  preciso, e eu farei.
- Pois ento, aconselhe-o a confessar.
-Isso salvar a sua vida?
- Salvar a sua alma. Sua vida j est condenada, mas sua alma ainda tem salvao.
Rosto ardendo em fogo, Lucena levou a mo aos lbios, sufocando um grito de angstia.
-Monsenhor... - implorou,  beira do desespero - no faa isso, eu lhe suplico. Meu pai  inocente.
- Sou um homem justo, senhorita. Se seu pai no se tivesse envolvido com aquela falsa crist, eu seria o primeiro a proclamar-lhe a inocncia.
Lucena silenciou. No sabia nada sobre Blanca ser moura, mas no queria acabar caindo na armadilha de Navarro. Se ele estava tentando us-la para que entregasse 
o pai, era preciso ter muito cuidado. Com os olhos vermelhos de tanto chorar, ela engoliu em seco e finalizou:
- Lamento t-lo incomodado. Vejo que o senhor est ainda bem longe de saber o que realmente significa justia.
Virou-lhe as costas abruptamente para sair. Quando ia abrindo a porta, algum a empurrou pelo lado de fora, e ela levou um tremendo susto ao sentir a batida da porta 
em sua cabea. Na mesma hora apareceu um galo em sua testa.
- Meu Deus! - exclamou Miguez com perplexidade. - Perdoe-me, senhorita. No sabia que estava do outro lado.
- No foi nada - contestou Lucena, esfregando a testa, ao mesmo tempo em que se dirigia novamente para a sada.
Passou por ele e saiu para o corredor, caminhando apressada, sem olhar para trs. Ainda atnito com o incidente, Miguez fitava Esteban, tentando adivinhar o que 
havia acontecido. Mas a imagem de Lucena ficou martelando em sua cabea, e ele foi atrs dela sem dizer uma palavra ao amigo.
- Senhorita! - chamou, vendo-a virar  esquerda, no fim do corredor.
Sem lhe prestar ateno, Lucena continuou caminhando a passos cada vez mais largos. Ser que aquele homem queria prend-la? Vendo que ela no parava, Miguez disparou 
a correr atrs dela, alcanando-a j no limiar do porto.
- Senhorita - falou ofegante, puxando-a pelo brao. - Um momento...
Ela foi obrigada a se voltar. Vendo os seus olhos inchados, o nariz vermelho, a testa ferida, Miguez sentiu que seu corao se apertava. Ela era linda e pura, exatamente 
como ele gostava.
- Perdo, padre - disse ela, entre um soluo e outro. - Preciso sair.
- Por que a pressa? - tornou Miguez, encantado com sua voz doce.
-  que tenho um compromisso...
- Ser que no pode esperar?
- Por qu?
- Para que possamos conversar.
- No tenho mais nada para conversar. Monsenhor Navarro disse tudo...
- No sou monsenhor Navarro. Talvez possa ajud-la. Por que no me conta o que a aflige?
Lucena podia sentir o seu olhar lbrico e pensou que talvez ele pudesse ser de alguma valia. Imediatamente mudou de postura. Fez um beicinho gracioso e ps-se a 
chorar de mansinho, agarrada  sua mo.
- Oh! Padre, no sei mais o que fazer! Estou desesperada!
Com os braos ao redor de seus ombros, Miguez foi conduzindo-a para o seu gabinete.
- Venha comigo, criana, e abra o seu corao. Deixe-me ser seu confessor.
Ela se deixou conduzir com passividade, a mente j tramando o que deveria-fazer. Entrou no gabinete de Miguez de cabea baixa, agarrada ao brao que ele lhe estendera, 
sentou-se na poltrona e ficou olhando para ele com ar de splica. Aquilo quase o levou  loucura. Seria ela virgem? S podia ser.
- Muito bem, minha filha, agora que estamos ss, por que no me conta o que a est perturbando?
- Padre... Nem sei o seu nome.
- Miguez. Miguez Ortega, a seu dispor.
- Padre Miguez, meu pai foi preso e atirado ao calabouo, mas sei que  inocente.
- Quem  seu pai?
- Dom Ferno Lopes de Queiroz.
Com ar compreensivo, Miguez fez com que ela lhe contasse tudo. Sabia que seria impossvel salv-lo, e ele no queria se indispor com Esteban, mas precisava conquistar 
a sua confiana. Pousou a cabea de Lucena sobre o seu colo e, acariciando seus cabelos, redargiu em tom paternal:
- No se preocupe criana. Verei o que posso fazer por voc.
- Vai me ajudar? - ele assentiu. - Promete?
- Prometo tentar. E agora vamos, pare de chorar.
Com o leno, enxugou as lgrimas de Lucena e apertou o seu queixo, forando-a a um sorriso. Ela sorriu meio sem jeito e sussurrou:
- Obrigada.
- Deixe tudo por minha conta - levantou-se e abriu a porta. Era perigoso demais investir contra ela ali, em seu gabinete, e quela hora. - Agora, v para casa e 
aguarde meu chamado. Quando voltar, terei notcias para lhe dar.
Mais animada, Lucena se foi. Sabia que impressionara o padre e estava disposta a us-lo e a deixar que ele a usasse para conseguir o que queria. Pretendia salvar 
o pai e, se possvel, Blanca tambm. E queria saber o nome de quem o havia delatado. Era o mnimo que poderia fazer para vingar o suplcio a que estava sendo submetido 
e a espoliao que ela mesma estava na iminncia de sofrer.
Quando Esteban chegou de volta a seus aposentos, Juan j no estava mais l. A bblia, pousada sobre a poltrona, continuava aberta na pgina onde haviam interrompido 
a leitura. Logo depois que Navarro saiu, Juan tomou uma deciso. Precisava ver Giselle o quanto antes. Saiu sem ser percebido e foi  casa da moa. Foi informado 
por Belinda que ela no estava que j havia partido para a taverna, e ele foi ao seu encontro.
Na taverna, procurou Giselle por todos os cantos. Ela no estava danando, e havia outra moa ajudando a servir as mesas. Ele se sentou a um canto, acabrunhado, 
e Manuela veio servi-lo.
- Ora, ora, ora - exprimiu em tom maroto. - No  um novio que temos aqui?
- Quero falar com a senhorita Giselle - anunciou Juan apressadamente, desviando o rosto das mos de Manuela, que tentava beliscar-lhe as bochechas.
Com um sorriso irnico, Manuela se afastou. Ser que Giselle andava seduzindo at novios imberbes? Deu de ombros e foi para o quarto atrs da taverna, que tambm 
servia de escritrio, onde Giselle fazia algumas contas em companhia de Ramon.
- O que  Manuela? - indagou, logo que a viu despontar na porta.
- Est a um padreco querendo falar-lhe.
- Quem? - interveio Ramon, com medo de que se tratasse de monsenhor Navarro.
- Um novio. No sei o nome.
- Deve ser Juan - esclareceu Giselle. - O que ser que quer dessa vez?
Levantou-se, e Ramon foi atrs dela. Saram abraados e foram em direo  mesa a que Juan estava sentado. Vendo-os juntos, o rapaz sentiu uma opresso no peito. 
Na mesma hora, o cime o corroeu, e ele pensou que fosse pular no pescoo de Ramon. Como aquele homem se atrevia a tocar o corpo de Giselle?
- O que faz aqui, Juan? - perguntou Giselle, tentando disfarar a m vontade. - Algum recado de monsenhor Navarro?
Encarando Ramon com raiva, Juan replicou entre dentes:
- Nenhum recado. Passei aqui apenas para buscar a citara que a senhorita me deu e que, na pressa, deixei em sua casa naquele dia.
Era verdade. Juan ficara to confuso com a proximidade de Giselle que fora embora, deixando  pequena citara que ela lhe dera cada no cho. Fora esse o pretexto 
que arranjara para procur-la novamente.
- Se  s isso, podemos ir busc-la agora - declarou Ramon.
- No precisa se incomodar, senhor. Voltarei outro dia. Levantou-se apressado para sair, e Giselle foi atrs dele. No podia perd-lo. Contava com ele para mant-la 
informada sobre os passos de Miguez.
- Juan - chamou-o, j na rua.
Reconhecendo a sua voz, o rapaz parou abruptamente.
- Giselle... - suspirou embaraado. - Desculpe-me...
- No precisa se desculpar. Voc no fez nada de errado.
- No devia ter vindo aqui.
- No devia mesmo. Isso no  lugar para voc. Se Esteban descobre que esteve aqui sem a sua ordem, vai ficar zangado.
- Eu... Vim aqui por que... Queria v-la...
Calou-se ruborizado, e Giselle tornou com ar sedutor:
- Est tudo bem, no precisa se explicar.
-  que naquele dia, sa correndo e...
- Eu compreendo. Voc se assustou.
Juan se aproximou dela e segurou a sua mo, levando-a aos lbios e beijando-a com paixo.
- Aquele moo l dentro... - balbuciou -...  seu amante?
- Por que quer saber?
- Porque eu o odeio.
- Deixe isso para l, Juan. Voc  apenas um garoto.
- Eu a amo, Giselle. No consigo mais parar de pensar em voc. Lembro-me daquele dia, do seu beijo, do seu corpo quente de encontro ao meu. Penso que vou enlouquecer.
- Pare com isso. Voc  apenas um menino.
- No me importo. Eu a amo, Giselle!
- Se me ama de verdade, ento tem que me prometer que no far mais isso. Pode acabar me comprometendo. Se algum descobrir que voc vem a minha taverna, posso ser 
acusada de estar aliciando um jovem novio e acabarei sendo presa.  isso o que voc quer?
- Meu Deus,  claro que no!
- Pois ento, no venha mais aqui. Pode ser perigoso para mim e para voc.
- Est bem, Giselle.
- E preste ateno a tudo o que acontece naquela abadia. Padre Miguez quer a minha caveira.
- No se preocupe. Se depender de mim, nada acontecer a voc.
Giselle beijou-o de leve nos lbios e o despachou. Podia ser que no precisasse dele, mas era bom no facilitar. Do jeito que Esteban falava, padre Miguez continuava 
instigando-o contra ela. Aquele padre era um demnio, e ela precisava de algum que lhe desse notcias, caso algo acontecesse.
Quando voltou para a taverna, Manuela estava sentada  mesa com Ramon, ambos s gargalhadas. Sentiu uma pontinha de cime, que procurou disfarar, e foi em direo 
a eles.
- Posso saber o que  to engraado? - perguntou, tentando parecer natural.
- Ah! Giselle - fez ele, olhos lacrimejantes de tanto rir. - Manuela estava me contando alguns casos. No sabia que era to engraada.
Giselle forou o riso e sentou-se no colo de Ramon, beijando-o com ardor.
- Agora chega de conversa - murmurou em seu ouvido. - Vamos para casa.
Sem responder, Ramon se levantou e foi embora com ela. J era noite, e o movimento na taverna havia aumentado. Ainda assim eles se foram. Em casa, Giselle explodiu:
- O que deu em voc, Ramon? Pensa que sou cega ou idiota? Fazendo ar de espanto, Ramon contestou com ingenuidade:
- Nossa, Giselle, por que est to zangada?
- Ento no sabe? -No.
- Voc e Manuela, contando historinhas engraadas!
- Ento  isso? - contestou Ramon num gracejo. - Est com cimes de Manuela? Ora, mas que tolice. Ento j no lhe disse que voc  a nica que me interessa?
- Seu cnico. Eu bem percebi os seus olhares para ela.
- E o que tem? Manuela  uma mulher bonita, e eu seria um louco se negasse. Nem voc acreditaria em mim. Mas isso no quer dizer que eu esteja interessado nela.
- No est?
- No - aproximou-se dela e tomou-a nos braos, beijando-a com paixo. - Quando  que voc vai compreender que eu jamais poderei amar outra mulher alm de voc?
As palavras e as carcias de Ramon a convenceram. Realmente, Ramon no poderia amar mais ningum. Manuela o impressionava pela beleza, sensualidade e graa. Mas, 
at ento, no havia nada que o fizesse trair Giselle. Seu amor por ela era forte e verdadeiro, e ele lhe garantiu que ela no tinha motivos para sentir cimes.
Manuela, contudo, no pensava assim. No que estivesse apaixonada por Ramon, mas estava acostumada a seduzir. Sua prpria me lhe ensinara. Filha de uma meretriz 
acostumara-se a ter todos os homens que desejava, e a indiferena de Ramon a incomodava. Por mais que ela se insinuasse, Ramon no a queria. S pensava em Giselle, 
s tinha olhos para Giselle. Por mais que Manuela fosse grata a Giselle, no conseguia parar de pensar em Ramon. Ao menos enquanto no conseguisse seduzi-lo.



CAPTULO 14


Estava ficando cada vez mais difcil para dom Ferno resistir s torturas que lhe eram impingidas. A dor, a humilhao, o medo, faziam-no enfraquecer a cada dia. 
Mas ele no confessava. Seu corpo j estava todo flagelado, ossos esmagados, costelas partidas. J nem conseguia mais falar direito. Contudo, ainda resistia. Apenas 
duas coisas o faziam no ceder: o amor por Blanca e o dio por Giselle. Monsenhor Navarro no falara claramente, mas dera a entender que fora realmente ela a responsvel 
por sua priso. Estava to certo da condenao de dom Ferno que nem se preocupava com uma possvel vingana. Mas para este a vingana era certa. Fosse vivo ou morto, 
vingar-se-ia de Giselle com todas as foras de seu dio.
Enclausurado entre as frias paredes de pedra da masmorra, no sabia se era dia ou noite. Podia supor quando anoitecia, porque o movimento de torturadores diminua 
bastante, e os guardas cochilavam em seus postos. Ele tambm sentia as plpebras pesarem. Naquele dia, o corpo todo lhe doa, aps intensa sesso no balco de estiramento, 
ao qual permanecia ainda amarrado, braos e pernas dormentes.
Aps breve cochilo, foi despertado pelo ranger da porta de ferro, que se abriu vagarosamente. Com extrema dificuldade, viu quando dois vultos cobertos de negro entraram. 
Um deles permaneceu parado perto da porta, enquanto o outro se acercou do balco. Na mesma hora, lgrimas comearam a escapar de seus olhos. Ser que iriam iniciar 
uma nova sesso de torturas?
O vulto vestido de negro se aproximou, e Ferno sentiu duas mos macias apertarem a sua, presa s correntes que a atavam ao balco. O vulto se curvou sobre ele e 
beijou de leve o seu rosto, e o capuz que lhe encobria as faces deslizou por seus ombros, revelando o rosto de Lucena, lvido e coberto de lgrimas.
- Lu... Lu... Lucena... - foi somente o que conseguiu balbuciar, o pranto dominando o seu peito.
- Oh! Papai! - gemeu ela baixinho, tomada pela dor. - O que foi que lhe fizeram?
Dom Ferno no conseguia falar. A emoo, as lgrimas, o desalento haviam embargado a sua voz de tal forma, que s o que podia era chorar. Somente depois de muito 
tempo, em que ele permaneceu chorando, com Lucena a seu lado, a chorar junto com ele, foi que conseguiu dizer:
- E... E... Blanca...?
- Ainda no pude v-la. Quis primeiro vir at voc.
Ferno fechou os olhos e soltou diversos soluos doloridos, fazendo com que Lucena tambm chorasse ainda mais.
- Salve... Por favor... Salve-a...
- No posso. Se pudesse, salvaria voc.
Juntando ao mximo as foras, dom Ferno conseguiu retrucar com certa clareza:
- Minha filha... J estou... Estou perdido... Sei que vou... Morrer...
- No diga isso!
-  verdade... Ningum poder me tirar daqui... Mas Blanca... Faa o que for necessrio... Salve-a...
- Vou tentar.
- E Giselle...
- Quem  Giselle?
- A mulher... Que me colocou aqui...
- Que mulher  essa?
- Giselle... Mac... Mackinley... Tem uma taverna... Do outro lado da cidade... A dama... Da noite... Foi ela... Ela me traiu... Denunciou-me...
- Por qu? Como? O que fazia o senhor com essa Giselle?
- Isso... No importa... Mas voc... Voc deve prometer... Que ir vingar a minha morte... Voc tem que me prometer... Salvar Blanca... Vingar-me... Destruir Giselle...
Os olhos de dom Ferno comearam a revirar nas rbitas e sua boca comeou a espumar, enquanto balbuciava coisas sem sentido. Lucena afastou-se horrorizada. Sentiu 
que uma mo a tocava no ombro, mas no conseguiu tirar os olhos do pai.
- Venha, Lucena - disse Miguez com piedade. - Ele est delirando.
Coberta de pavor, Lucena levou a mo aos lbios e sufocou o grito, enquanto Miguez a puxava para fora. Amparando-a, foi com ela para seus aposentos. Era alta madrugada, 
e no havia ningum nos corredores. No corriam o risco de ser surpreendidos. Rapidamente, Miguez abriu a porta de seu quarto e empurrou-a gentilmente para dentro. 
Lucena desabou sobre a cama e chorou por quase meia hora, sem que Miguez ousasse interromp-la. Ao final, indagou em desespero:
- Por que no o deixam logo morrer?
- No podemos. H um mdico que acompanha as sesses de tortura, para assegurar que ele viva. O suplcio  que est depurando a sua alma.
Totalmente transtornada, Lucena enxugou os olhos, encarou Miguez e disse com dio:
- Quero encontrar essa tal Giselle Mackinley e destru-la.
Quero faz-la sofrer tudo o que meu pai est sofrendo nesse momento.
Miguez exultou. Tudo o que mais queria era uma aliada. O dio de Lucena bem poderia ajud-lo a acabar com Giselle.
- Minha querida - tornou ele com ternura -, Giselle  uma mulher difcil de apanhar.  protegida de monsenhor Navarro.
- Protegida? Como assim?
- Bem - prosseguiu ele, aproximando-se dela na cama e acariciando a sua mo -, ela , ou melhor, ela foi amiga ntima de nosso bom cardeal, se  que me entende.
- E da? Quando foi que ela conheceu meu pai?
- Seu pai e ela eram amantes.
- Amantes? Mas papai estava noivo de Blanca Vadez... Iam se casar!
- Seu pai ia se casar com Blanca, mas dormia com Giselle. Isso no  nada de mais, minha querida. Giselle  uma meretriz,  para isso que serve.
- Mas como foi que papai foi se envolver com uma mulher dessas? Espere... Ele falou numa taverna. Como era mesmo o nome?
- Dama da Noite.
- Isso, Dama da Noite. Voc conhece? Pode me levar at l?
- O que voc poderia fazer indo at l?
- Vou mat-la.
- Quer ser presa? Quer juntar-se a seu pai e a Blanca? - ela no respondeu, mordendo os lbios, de dio. -  claro que no quer, no  mesmo? Quer vingana, mas, 
para se vingar, deve ter pacincia e esperar. O tempo ir nos ajudar.
- Nos ajudar! O que quer dizer?
- Vou ajud-la, minha querida. Sozinha, ser praticamente impossvel conseguir atingi-la. Navarro a apanharia antes disso. Mas com a minha ajuda, tudo ser mais 
fcil. Vou ajud-la a se vingar de Giselle de tal forma que voc se sentir no apenas vingada, mas compensada de todos os seus sofrimentos. Giselle  uma vagabunda 
e no merece viver. Nem morrer. Merece sofrer, agonizar...
- O que voc tem contra ela?
- Eu? Particularmente, nada.  que no gosto de ordinrias. Gosto de moas puras e castas feito voc.
Com a respirao ofegante, Miguez aproximou o rosto do de Lucena, quase roando seus lbios, mas ela se levantou apressada, suando frio e sentindo falta de ar. Levou 
a mo ao peito e, sem coragem de encar-lo, disse com voz mida:
- Padre Miguez, por favor...
Ele no a seguiu. Permaneceu sentado onde estava olhando para ela com ar de paixo. O corpo todo ardia de desejo, e ele mal podia esperar a hora de toc-la, de beij-la, 
de possu-la. Quanto mais pensava em seu corpo virgem tremendo sob o seu, mais o desejo o consumia. Contudo, tinha que admitir que ela fosse diferente das outras. 
As moas com quem se deitava eram acusadas de heresia, e ele apenas cumpria a sua funo de verificar se eram virgens ou no. Jamais mantivera qualquer conversa 
com nenhuma delas. Deitava-se com elas por uma noite e enviava-as de volta para as masmorras, onde os carrascos cuidariam delas.
Mas seu interesse por Lucena ia, alm disso. Chegou mesmo a pensar se j no estava na hora de ter sua amante particular, como muitos outros inquisidores faziam. 
Lucena seria uma excelente concubina. Pura, prendada, culta, sozinha no mundo. E grata. Muito grata a ele pelo apoio que lhe estava dando para enfrentar a priso 
do pai.
Lucena, por sua vez, sabia no que ele estava pensando. Ele era como todos os outros, que s pensavam em sexo. O fato de ser padre no o eximia daquele desejo imundo. 
Entretanto, precisava dele e faria o que ele quisesse. Ao contrrio do que ele pensava, ela no era nem pura, nem casta. S que ele no sabia. No sabia nada de 
seu envolvimento com Ramon. Pensava que ela era virgem, e ela saberia muito bem se aproveitar daquela situao.
- Perdoe-me, Lucena - redargiu-o em tom de desculpa.
- No foi minha inteno ofend-la. Sei que voc  pura, e eu no deveria ter feito isso. No quero que esse infeliz episdio estrague a nossa amizade.
Suspirando aliviada, Lucena retorquiu:
- No se preocupe padre. Sua amizade j  para mim de grande valia.
Deu-lhe um sorriso sedutor, e ele quase saltou sobre ela, mas conseguiu se conter. Precisava ter cuidado ou estragaria tudo. Lucena era uma dama e no estava acostumada 
a ser tratada como uma ordinria feito Giselle.
- Sente-se aqui a meu lado - chamou ele, disfarando os pensamentos lbricos.
Lucena se aproximou e sentou-se, mantendo cautelosa distncia. Olho pregado no cho implorou sentida:
- No h meios de salv-lo?
- Infelizmente, minha querida, no h nada que eu possa fazer. Se houvesse, creia-me que o faria sem titubear. Lucena engoliu os soluos e continuou:
- E Blanca?
- Ela  a causa dessa situao. No se esquea de que seu pai s foi preso por se envolver com uma moura.
- Mas quem disse que ela  moura? De onde foi que surgiu essa histria?
Miguez suspirou e contou-lhe tudo o que sabia sobre a procedncia de Blanca, o que deixou Lucena deveras impressionada. Sabia que seu pai tinha negcios em Granada 
e at j ouvira falar num tal de Hamed Kamal. Mas jamais poderia suspeitar que ele tivesse uma filha, que essa filha fosse Blanca e que seu pai estivesse apaixonado 
por ela. Ainda assim, no via motivos para fazerem o que fizeram a ambos. No eram criminosos, e s porque Blanca provinha de uma linhagem oriental no significava 
que fosse ruim ou herege.
- No  possvel salv-la? - indagou com fraca esperana.
- Ao menos ela?
- Minha querida, se Blanca confessar, ser a primeira a morrer. No s porque descende de mouros, mas tambm porque aliciou seu pai para que trasse a verdadeira 
f catlica. Por isso, esquea Blanca. Ela no tem salvao.
- Mas prometi a meu pai...
- Concentre-se em Giselle.  atravs dela que poder vingar os dois. E estar cumprindo a sua promessa, de um jeito ou de outro.
- E os meus bens? Monsenhor Navarro est confiscando todas as minhas propriedades. Em breve, estarei na misria.
- No se preocupe com isso. Verei o que posso recuperar. E depois, Giselle  uma mulher rica.
- E da?
- Ao longo de todos esses anos, vem prestando valorosos servios a monsenhor Navarro, dividindo com ele o patrimnio dos condenados.
- E tudo poder ser meu! - um brilho estranho perpassou os olhos de Lucena, e ela se levantou excitada. - Depois que Giselle for presa, sob a sua orientao, voc 
poder dar um jeito de transferir-me tudo o que lhe pertence.
-  o que quer?
-  claro. Quero tudo o que  dela. Inclusive sua alma.
- Voc a ter. Farei o possvel e o impossvel para conseguir-lhe isso.
- E monsenhor Navarro? No disse que ela  sua protegida?
- Monsenhor Navarro nada poder contra as irrefutveis provas de heresia que apresentarei contra ela. Nem ele se atrever a defend-la diante de tanto sacrilgio.
- Em que est pensando?
- Sei que Giselle anda metida com bruxarias...
- Meu Deus, que horror!
- Sim,  um horror, mas vai nos ajudar. Quando descobrir onde  que ela faz os seus trabalhinhos de magia, tratarei de prend-la. No vai ser difcil, voc vai ver.
- Oh! Padre, nem sei como lhe agradecer!
Olhos brilhando de sensualidade, Miguez finalizou com voz vibrante de desejo:
- Volte amanh, minha querida. H mesma hora.
Quando Lucena saiu dos aposentos de padre Miguez, o dia j estava quase amanhecendo e, em breve, toda a abadia j estaria desperta. Ele se despediu dela a contragosto 
e foi deitar-se, pensando em dormir ainda por algumas poucas horas. Mas no conseguiu conciliar o sono, de tanto pensar em Lucena. Subitamente, percebeu que no 
ansiava s pelo seu corpo. Gostava de estar junto dela apenas para poder desfrutar de sua companhia. Aquilo era novo para ele. Miguez jamais havia sentido a falta 
de nenhuma mulher. Mas ento, por que pensava tanto em Lucena? A resposta deixou-o estarrecido. No queria apenas dormir com ela. Queria para sempre estar a seu 
lado. Porque a amava. Pela primeira vez em sua vida, Miguez sentiu que amava uma mulher.
O sol j ia alto quando Miguez escutou fortes batidas invadindo seu quarto. O som vinha  distncia, e ele pensou que ainda estava sonhando. Aos poucos, porm, as 
batidas foram se intensificando, e percebeu que havia algum  porta. Abriu os olhos lentamente e olhou para a janela. Apesar de fechada, podia ver o sol se insinuando 
pelas frestas. Pigarreou diversas vezes, cocou a barba por fazer e ergueu-se com dificuldade, caminhando para a porta a passos vagarosos.
- J vou, j vou! - esbravejou, ante as batidas cada vez mais insistentes.
Abriu a porta de chofre e deu de cara com Juan, que o olhava espantado.
- Padre Miguez, perdoe-me.  que monsenhor est preocupado. O senhor no apareceu ao desjejum, e ele mandou-me para ver se est tudo bem. Est tudo bem?
Juan tentava olhar por cima de seus ombros, para ver se havia alguma mocinha ali com ele. Mas Miguez se colocou  sua frente, impedindo-lhe a viso, e retrucou de 
mau humor:
- Diga a monsenhor Navarro que j irei ter com ele.
Fechou a porta na cara de Juan e voltou para dentro. J eram quase nove horas, tarde demais para a abadia. Precisava arranjar uma desculpa para seu atraso. Arrumou-se 
s pressas e foi ter com Esteban, que j o aguardava para irem juntos ao Tribunal.
- Miguez! - exclamou o outro, com genuna preocupao ao ver as profundas olheiras que lhe sulcavam a face. - O que houve meu amigo?
Miguez sentiu uma pontada de remorso. Esteban gostava muito dele e era realmente seu amigo. Sua aflio era sincera, e ele quase desistiu de seu plano de apanhar 
Giselle. Mas logo se recuperou. A viso de Lucena e a certeza de que faria um bem ao outro lhe deram nimo, e ele tornou, ainda com certa sonolncia:
- Perdoe-me, Esteban, dormi demais.  que no passei bem  noite. Acho que foi algo que comi.
- Sente-se melhor agora?
- Sim... No foi nada, j passou. Apenas um leve mal-estar, uma indisposio. Nem consegui comer nada ao desjejum.
- No se esquea de que hoje teremos outro auto-de-f. Ser que conseguir comparecer?
-  verdade... Havia mesmo me esquecido.
- Hoje sero quatro executados. Trs homens e uma mulher. Todos de padre Valentim. O processo inquisitrio foi um sucesso, e os quatro confessaram...
Miguez j no ouvia mais o que ele dizia. Seu estmago doa, mas de fome, e ele teve que fingir que no sentia nada. Precisava sustentar sua mentira. Alm disso, 
pensava em Lucena. Ela era linda e pura, e ele se reconhecia apaixonado.
Enquanto conversavam, Juan no perdia uma palavra do que diziam. Padre Miguez estava muito esquisito, alheio, sonhador. Tinha certeza de que ele passara a noite 
com uma mulher. Mal-estar, pois sim! Podia apostar que padre Miguez estivera com algum. No vira nem ouvira nada, mas sua intuio lhe dizia que havia algo errado 
naquela histria.
Durante todo o dia, no voltaram a tocar no assunto. Era domingo, dia de execuo, e todos estavam por demais ocupados, principalmente Esteban. Recebera a incumbncia 
de substituir o inquisidor-geral, ausente em mais uma de suas muitas viagens a Madri. Ao final do auto-de-f, Miguez pediu licena para se retirar. Estava muito 
cansado e precisava de repouso. Dormiu o resto da tarde e no apareceu para o jantar.
- Quer que v cham-lo, monsenhor? - indagou Juan, todo solcito.
- No, Juan, deixe-o descansar. Ou melhor, prepare uma bandeja e leve a seus aposentos. Deve estar com fome.
Depois que terminou de comer, Juan fez como Esteban lhe ordenara. Preparou a bandeja e foi lev-la a padre Miguez. Como de manh, teve que bater diversas vezes at 
que ele viesse atender. Miguez abriu a porta com brusquido e j ia dar uma bronca em Juan, que tratou logo de se justificar:
- Perdoe-me, padre, mas foi o monsenhor quem me mandou aqui. Pensou que talvez estivesse com fome.
Estendeu-lhe a bandeja, e Miguez chegou para o lado, mandando-o entrar. Juan pousou a bandeja sobre a mesinha, fez uma reverncia e saiu. Miguez estava com fome. 
Por causa de sua mentira, fora obrigado h passar o dia praticamente em jejum. Nem sabia por que Esteban lhe mandara aquela comida, mas sentiu-se confortado e comeu 
tudo.
Como o dia fora particularmente exaustivo, Esteban apareceu mais tarde, apenas para ver como ele estava passando. Ficou alguns minutos e foi para seus aposentos. 
Tambm queria descansar. Por volta das dez horas, a abadia j estava em silncio. Juan esperou at ouvir os roncos de Esteban, que dormia no quarto contguo, levantou-se 
e foi espiar. O cardeal dormia a sono solto.
P ante p, abriu a porta e meteu a cabea para o lado de fora. Olhou de um lado para outro no corredor s escuras. Nem sabia por que estava fazendo aquilo, mas 
algo lhe dizia que alguma coisa iria acontecer. Os espritos a servio de Giselle o estavam intuindo e direcionando. Giselle precisava saber da nova amizade entre 
Lucena e Miguez, e Juan era o nico que poderia descobrir este fato.
Com a porta entreaberta, Juan sentou-se no cho e ps-se a esperar, cochilando de vez em quando. J era quase meia-noite quando sentiu, mais do que ouviu, algum 
chegar pelo corredor. Ergueu-se parcialmente e espiou. Viu quando um vulto negro se aproximou do quarto de padre Miguez, e a porta logo se abriu. Juan esperou alguns 
minutos e foi at l, sem fazer qualquer rudo. Ouvido colado  porta escutou vozes no interior. No conseguia perceber o que diziam, mas sabia que a outra voz era 
de uma mulher. De vez em quando, as vozes se elevavam, e ele ouvia algumas palavras soltas: meu pai... Vingana... Giselle...
Ao ouvir o nome de Giselle, Juan apurou ainda mais os ouvidos. Teria sido mesmo o nome de sua amada que ouvira dos lbios de outra mulher? Mas quem seria aquela 
mulher e por que falava em Giselle? Seria mesmo a sua Giselle ou outra? Cada vez mais curioso, tentou espiar pelo buraco da fechadura, mas,  meia-luz, era-lhe difcil 
identificar a mulher.
Depois de algum tempo, as vozes se aproximaram da porta, e Juan fez meno de fugir. Se padre Miguez o surpreendesse ali, seria o seu fim. Os espritos a seu lado, 
porm, cuidaram para que ele permanecesse, enchendo-o de coragem e determinao, ao mesmo tempo em que trataram de levar Miguez e Lucena para perto da porta, sem 
que ele a abrisse.
Agora mais confiante Juan encostou novamente o ouvido  porta. As vozes soaram mais ntidas, e o novio escutou claramente o que diziam:
- Voc prometeu ajudar!
- E o que estou fazendo.
- No est! No o bastante. Meu pai continua preso naquela masmorra infecta, enquanto Giselle anda por a, espalhando sua luxria para destruir homens de bem!
- Tenha calma, Lucena.
Do lado de fora, Juan afastou-se aterrado, abafando um grito de horror. Lucena? Ento aquela era a filha de dom Ferno e parecia estar de caso com padre Miguez! 
Aquilo era extremamente perigoso. Aquela moa, pelo visto, j descobrira quem delatara o pai e tinha fortes motivos para odiar Giselle. E fora aliar-se justo a padre 
Miguez, que vivia  espera de uma oportunidade para destru-la. Precisava apressar-se e contar tudo a Giselle.
Somente na noite seguinte foi que Juan conseguiu despistar Esteban e ir  casa de Giselle. Mas j era tarde, e foi informado por Belinda que Giselle estava na taverna 
e s voltaria ao amanhecer. No tinha remdio. Precisava ir ao seu encontro na taverna mesmo. Envergou um manto negro e partiu apressado.
Quando entrou, Manuela danava sobre a mesa, tendo a seus ps diversos homens, que gritavam e aplaudiam. No viu Giselle e sentou-se para esperar. Sanchez foi caminhando 
em sua direo, mas Manuela j havia parado de danar e descera da mesa, alcanando-o primeiro.
- Ol, rapazinho - cumprimentou ela, apertando-lhe o queixo. - O que faz aqui  uma hora dessas? No devia estar na cama?
Juan afastou a mo dela com irritao e indagou exasperado:
- Onde est  senhorita Giselle?
Encarando-o com certa ternura, Manuela respondeu com ar materno:
- Sabe mocinho, no tenho nada com sua vida, mas vou dar-lhe um conselho: esquea Giselle. Ela no  mulher para voc.
Juan sentiu o rosto arder, e a raiva foi tomando conta de seu peito. Encarou Manuela com dio e disparou:
- O que voc tem com isso? No tem nada com a minha vida nem com a de Giselle. Voc tem  inveja dela.
Manuela ergueu o corpo e deu de ombros, acrescentando com frieza:
- Pense como quiser. Mas depois, no diga que no avisei. Giselle s tem olhos para Ramon...
-  mentira!
Nesse momento, Giselle e Ramon vinham vindo l de dentro. Percebendo o ar exaltado de Juan, a moa fez sinal para Ramon, que se afastou, sob o olhar hostil do novio. 
Manuela, por sua vez, deu de ombros novamente e foi servir as mesas do outro lado.
- Muito bem, Juan - falou Giselle sedutora. - O que o traz aqui dessa vez?
Juan procurou Ramon com os olhos, mas no o encontrou e respondeu taciturno:
- Aquele  Ramon?
-  sim. Por qu? Quem foi que lhe contou?
- Sua nova danarina. A intrometida.
-  mesmo? - tornou Giselle irritada. - O que mais ela lhe disse?
- Disse que voc s tem olhos para Ramon.
- Ela deve estar com cimes. Afinal, voc  um rapaz bonito...
Sentou-se a seu lado e pousou a mo sobre o seu joelho, fazendo-lhe uma carcia discreta. Juan enrubesceu e quase caiu da cadeira, enquanto Giselle o fixava com 
um olhar cada vez mais sedutor.
- Giselle, eu... Eu...
- No precisa ficar nervoso. Agora me diga. Tem alguma novidade para me contar?
Rosto coberto de rubor, Juan aquiesceu, o que causou certo sobressalto em Giselle. Embora mantivesse o novio sob seu controle, confiava na palavra de Esteban de 
que nada lhe aconteceria. Em silncio, apanhou a sua mo e puxou-o para dentro, indo com ele para o quarto que ficava nos fundos da taverna. Acomodou-o numa cadeira 
e sentou-se na mesa, balanando as pernas diante dele e fazendo com que o vestido se levantasse propositalmente at a altura dos joelhos.
Juan no conseguia despregar os olhos das pernas de Giselle. Por mais que tentasse, havia nela um magnetismo que o atraa cada vez mais.
- Muito bem, Juan. Agora me conte o que aconteceu.
Prolongando-se o mais que pde, Juan lhe contou sobre a visita da mulher a padre Miguez, que descobrira ser Lucena, filha de dom Ferno. Giselle ficou alarmada. 
Todos os seus sentidos se aguaram, e ela teve certeza de que aquela amizade seria extremamente perigosa, no s para ela, mas tambm para Ramon. Se Lucena soubesse 
que Ramon a deixara por ela, seu dio seria ainda maior.
- Por favor - implorou Juan -, no diga nada a monsenhor Navarro. Se ele descobrir que fiquei escutando, vai me castigar.
- No se preocupe, no pretendo dizer nada. E agora v. Preciso pensar no que fazer.
Juan se levantou timidamente e ficou parado diante dela, pensando no que lhe dizer.
- Senhorita Giselle... - balbuciou.
- O que foi?
- Sabe o quanto gosto de voc, no sabe?
- Sei sim.
- E voc disse que tambm gostava de mim...
- Ah! Mas eu gosto.
- No est apenas me usando?
- Eu? Imagine Juan. Gosto de voc. S que no quero prejudic-lo.
- Ento, afaste-se desse tal de Ramon.
Aquele era um terreno perigoso. Juan morria de cimes de Ramon e, se descobrisse quem ele era, poderia tra-la e coloc-los em srio risco. Precisava fazer alguma 
coisa. Ao invs de responder, desceu da mesa e aproximou-se dele. No mesmo instante, o corao de Juan disparou. Calmamente, Giselle apanhou a sua mo e levou-a 
aos lbios, puxando-o para si com ar de paixo. Beijou-o com ardor, e Juan tentou fugir. Mas Giselle no permitiu. Com mos hbeis, ps-se a acariciar o seu corpo 
todo, at que ele no pde mais resistir. Juan agarrou-a com volpia e levou-a ao cho, desajeitadamente deitando-se sobre ela. Auxiliado por Giselle, Juan teve 
sua primeira noite de amor. Se antes j estava apaixonado por ela, agora, ento, sentia que no poderia mais prescindir de seu corpo.
- Agora volte, para a abadia - falou Giselle, ao mesmo tempo em que o beijava. - No queremos que Esteban d pela sua falta, no ?
- No... - calou-se envergonhado. - Posso vir v-la amanh?
-  perigoso.
- Darei um jeito.
- No sei se seria prudente.
- Por que no quer que eu venha?
- No  isso...
-  por causa de Ramon?
- Esquea Ramon. Ele  apenas um amigo.
- De onde foi que surgiu esse amigo to repentino?
- No interessa. Ramon  meu amigo e pronto. No  como voc.
- Como eu?!
- Voc  o meu menino, meu amor. Mas agora deve ir.
A muito custo conseguiu convenc-lo. Apesar de contrariado, Juan se foi, morto de cimes. Vendo-o afastar-se no fim da rua, Ramon voltou para a taverna. Ficara do 
lado de fora,  espera que o rapaz sasse, para no lhe despertar ainda mais cimes.
- Puxa! - exclamou, fechando a porta do pequeno gabinete onde Giselle se encontrava. - Pensei que ele no fosse mais embora!
Percebendo a cara de preocupao de Giselle, Ramon estacou alarmado.
- Voc nem pode imaginar o que aconteceu.
- O que foi?
Ao saber que sua ex-noiva estava se encontrando com padre Miguez e que pretendia vingar-se de Giselle, Ramon sentiu um frio na espinha. Sabia que ela no era mais 
virgem, e tornar-se amante de Miguez era apenas questo de tempo. Quando descobrisse a verdade, no hesitaria em liquid-los.
- Esteban est do nosso lado - Giselle procurou tranqilizar. - Eu acho...
- Ento, sugiro que v falar com ele.
- Farei isso.
Ainda que Juan lhe pedisse que no contasse nada a Esteban, ela no podia permitir que Miguez tramasse a sua destruio junto com aquela Lucena, que ela sequer conhecia. 
Precisava agir antes deles. Padre Miguez era influente, mas Esteban era muito mais. Encontraria um jeito de proteg-la.
 


CAPTULO 15



Esteban conversava animadamente com um rapaz recm-chegado. Alto, moreno claro, olhos castanhos suaves, tipo galante e sedutor. Tratava-se de seu sobrinho, Diego 
Morales, que acabara de chegar de Madri. Diego era filho de sua nica irm, Marieta, que o mandara para Sevilha devido a complicaes financeiras. O rapaz tinha 
um temperamento estouvado e vivia se metendo em encrencas. Marieta, uma respeitvel senhora viva, j no sabia mais o que fazer com ele, e uma viagem a Sevilha, 
aos cuidados do tio cardeal, pareceu uma boa sada para seus problemas.
- Ento, Diego - dizia Esteban, segurando nas mos a carta que a irm lhe enviara -, continua fazendo das suas, hein, meu rapaz?
- Pois , tio. Para o senhor ver.
- Quando  que vai tomar juzo? Sua me j no sabe mais o que fazer com voc.
- Na verdade, tio Esteban, mame se preocupa demais. No fiz nada.
- No  o que ela conta aqui na carta. Sua me diz que voc leva uma vida desregrada e est se enchendo de dvidas. O que espera da vida, meu filho?
- Minha me exagera. Eu apenas gosto de gozar a vida, e no h motivos para alarme. Meu pai nos deixou muito bem, embora minha me controle todo o nosso patrimnio.
- Tem se ausentado muito. Sua me se preocupa...
- Pois no devia. Ela sabe aonde vou.
Esteban balanou a cabea, contrariado. Aquele rapaz no tinha juzo algum. J estava beirando os trinta anos e no se emendava. Bem fizera o pai quando constitura 
aquele usus et fructus(1) em favor da esposa. No fosse assim, Diego, na certa, j teria dilapidado todo o patrimnio da famlia. Ao menos, com o gravame, ele s 
poderia livremente dispor dos bens aps a morte da me.

Usus et fructus = do latim, usufruto (N.A.)

- Voc no se emenda, rapaz - repreendeu Esteban severamente.
Diego j ia retrucar quando bateram  porta e Juan entrou a cara mais branca do que nunca.
- O que  Juan? Por que nos interrompe assim?
Sem que tivesse tempo de responder, Giselle empurrou-o para o lado e entrou apressada, postando-se diante de Esteban. Sem nem se dar conta do ar embasbacado de Diego, 
foi falando em tom nervoso:
- Preciso falar-lhe, Esteban.  urgente!
- Giselle! - tornou Esteban aparvalhado, com medo do que o sobrinho pudesse pensar. - Como se atreve?
S ento Giselle se apercebeu da presena do rapaz. Estacou abruptamente e olhou para ele. Na mesma hora, Diego se empertigou todo e foi logo dizendo:
- No se preocupe comigo, meu tio. J estava mesmo de sada.
Vou dar uma volta por a com Juan e depois conversaremos. Mas antes, por que no me apresenta a beldade?
Confuso, Esteban se levantou e apanhou Giselle pelo brao, conduzindo-a para a porta.
- Monsenhor! - a suplicou. - Espere! No faa isso! Preciso falar-lhe!  urgente!
- Ora, ora, meu tio, mas o que  isso? - ironizou Diego. - Isso no  jeito de tratar uma dama. Deixe que me apresente senhorita. Chamo-me Diego Morales, a seu dispor.
Fez uma reverncia galante, que Giselle teria at apreciado em outros tempos. Contudo, dada a gravidade da situao, no se podia dar ao luxo de reparar naqueles 
gracejos.
- Por favor, monsenhor - tornou ela, sem responder  apresentao de Diego.
- Ora, vamos, meu tio, fale com a moa. Como  mesmo o seu nome?
- Giselle - respondeu ela, timidamente.
- Giselle... Soa como nome de princesa. Lindo, tal qual a dona.
- Diego, por favor, pode nos deixar a ss? - tornou Esteban com voz grave. - Creio que a senhorita Giselle deve ter algo importante a me dizer.
- Pois no, meu tio. Seria mesmo muita indelicadeza de sua parte no atender ao apelo de to formosa dama.
Fez nova mesura e saiu, passando por Juan, que permanecia parado no mesmo lugar, sem dizer nada.
- E voc, Juan? - continuou Esteban, mal contendo o nervosismo. - O que est esperando?
Juan ainda lanou um ltimo olhar para Giselle, que no passou despercebido a Esteban. Desde aquela noite em que ele delirara, Navarro estava certo de seus sentimentos 
para com sua ex-amante. Ser que os dois andavam se encontrando? Mas Giselle lhe dissera que estava apaixonada por Ramon de Toledo. O que estaria acontecendo?
Depois que Juan e Diego se foram, Esteban soltou o brao de Giselle e indagou com extrema contrariedade e irritao:
- O que deu em voc, Giselle? J no disse que no viesse mais aqui? No quero que os padres comentem...
- Foi por isso mesmo que vim. Por causa de um padre. De padre Miguez!
- O que quer dizer?
- No sei se voc sabe, mas padre Miguez est se encontrando com Lucena Lopes de Queiroz, filha de dom Ferno.
Esteban abriu a boca, indignado, e retrucou sem acreditar:
- O que est dizendo, mulher? Por acaso voc enlouqueceu?
- No enlouqueci, no. Juan escutou tudo...
- Juan?
- Sim. Ele viu quando Lucena foi ao quarto de padre Miguez e ouviu os dois tramando contra mim.
- Tramando contra voc? Mas como?
- Ela me odeia Esteban. J deve saber que fui eu que delatei o seu querido paizinho. E est de caso com Miguez. Ele me odeia tambm. J pensou no que os dois podem 
fazer contra mim, ainda mais se descobrirem sobre meu envolvimento com Ramon?
Esteban silenciou. Fazia sentido. No dia em que Lucena fora procur-lo, implorando para que salvasse a vida de seu pai, Miguez quase a derrubara com a porta. Depois 
que ela se foi, ele saiu s pressas, provavelmente atrs dela. Navarro conhecia muito bem a fraqueza de Miguez. Lucena era uma jovem linda e fresca, provavelmente 
virgem, e era bem provvel que Miguez estivesse louco para se deitar com ela.
Pensando nisso, levou as mos  cabea e desabou sobre a poltrona, fitando Giselle com um misto de medo e piedade. Naquele momento, foi acometido de estranha sensao.
Sentiu um aperto no corao, um estrangulamento na garganta, e foi como se previsse o seu fim. Giselle estava condenada, ele sabia, embora relutasse em aceitar.
- Tem certeza disso? - tornou ele, aps o susto do primeiro impacto.
- Tenho. Foi o prprio Juan quem me contou.
- Por que ele fez isso? Por que Juan foi at voc? - como ela permanecesse calada, ele mesmo respondeu: - Porque o tolo est apaixonado, e voc sabe se aproveitar 
disso, no ?
- No  bem assim...
- Fique longe de Juan, Giselle, eu lhe imploro. O rapaz  inexperiente, pensa que est apaixonado.
- Mas eu no estou.
- Por isso mesmo. Por que engan-lo? Ele sabe que voc pretende se casar com Ramon?
- No.
- Tampouco desconfia que Ramon fosse noivo de Lucena, no ?
- No.
- S eu sei disso. Vocs dois correm srio perigo.  bom que se separem.
- No posso fazer isso! Voc prometeu Esteban. Prometeu que eu me casaria com ele.
- O que voc prefere? Casar-se com Ramon ou continuar viva? - ela abaixou os olhos e comeou a chorar. - Deixe tudo por minha conta e faa exatamente como eu mandar.
- O que vai fazer?
- O que j deveria ter feito h muito tempo. Arranjar o seu casamento com dom Solano Daz o quanto antes. Ele  um homem acima de qualquer suspeita.
- Por favor, Esteban, no faa isso. No posso me casar com outro homem que no seja Ramon.
- Ser que voc no entende? Est claro que Miguez e Lucena esto tramando contra voc. Se eles descobrirem sobre voc e Ramon, faro de tudo para destru-la. E 
se Miguez comear a investigar e acabar descobrindo o seu pequeno poro ser o seu fim. Nem eu, com toda a minha influncia, poderei ajud-la.
Giselle desatou a chorar descontrolada. No queria se casar com aquele Solano Daz, mas tambm no queria morrer. Precisava salvar-se e salvar Ramon.
- Est certo, Esteban - concordou em lgrimas. - Confio em voc e sei que far o melhor por mim.
- timo! Agora v para casa e aguarde at que eu mande cham-la. E diga a Ramon para desaparecer.
- Mas...
- Se voc o ama, faa isso. Diga-lhe para sumir e nunca mais tornar a v-la. Caso contrrio, ambos estaro perdidos.
Com o corao pequenininho, Giselle voltou para casa. Ramon ainda estava dormindo, e ela deitou-se a seu lado, completamente arrasada. Sentindo o calor de seu corpo, 
Ramon despertou e abraou-se a ela, tentando fazer com que se deitasse ao seu lado.
- Por favor, Ramon...
Ele esfregou os olhos e empertigou-se na cama, indagando entre bocejos:
- O que foi que houve? Voc est toda arrumada. Vai sair? Vai ver monsenhor Navarro?
- J fui.
- Falou com ele?
- Falei sim.
Minuciosamente, Giselle contou-lhe a conversa que tivera com Esteban. Apesar de no ficar nada satisfeito com o casamento, Ramon acabou concordando que, naquele 
momento, seria a melhor soluo.
- Como pode dizer isso? Vamos nos separar.
- Nada poder nos separar. Vamos continuar nos encontrando, s que s escondidas.
- Amante voc quer dizer?
- E por que no? No vai me dizer que adquiriu escrpulos, de uma hora para outra.
- Mas no foi isso o que planejamos!
- Tambm no estava nos nossos planos esses casinho entre Lucena e o tal padre - fez uma pausa e continuou em tom srio. - Muito menos planejamos morrer.
- O que faremos?
- Voc se casa com esse Solano, e eu continuo tomando conta da taverna com Manuela...
- Isso no! Vou despedir Manuela. No quero deix-la a ss com voc.
- No seja ciumenta. Sem voc e sem Manuela, por que acha que os homens continuariam indo  taverna? Para me ver?
- Manuela est interessada em voc, e sei o quanto voc tambm a admira. Sem mim por perto, no sei o que poder acontecer.
- Deixe de tolices. A taverna  uma excelente fonte de renda. No gostaria de perd-la.
- No precisaremos mais dela. Meu futuro marido  um homem rico...
- E da?  rico, mas o dinheiro  dele, no meu.
- Poder ser seu um dia.
- No vejo como... - calou-se, espantado com seus prprios pensamentos. - Pensando bem, homens ricos deixam vivas ricas, minha querida. No  verdade?
Uma nuvem de desconfiana passou pela cabea de Giselle, e ela rebateu curiosa:
- No que  que est pensando, Ramon?
- Tudo h seu tempo, meu bem. Por ora, case-se com Solano e deixe-me com a taverna. Mais tarde, depois que tudo se acalmar, daremos um jeito nele.
Daquele dia em diante, Ramon nunca mais apareceu na taverna. Ia  casa de Giselle pela floresta e entrava pelo poro sem ser visto. Seria assim at o casamento e 
depois dele. No podiam mais ser vistos juntos e no pretendiam deixar-se apanhar. Giselle estava esperanosa, confiante em Esteban. Mais um pouco e conheceria seu 
futuro marido, com quem se casaria e de quem, algum tempo mais tarde, se tornaria a infeliz viva.
Com tantas coisas acontecendo, Giselle no poderia permanecer inerte,  espera de ser presa ou surpreendida. Com cuidado, aprontou tudo de que precisava. Faria um 
poderoso trabalho de bruxaria, invocando os espritos das trevas para que cuidassem de tudo. Levava-lhes sete carneiros, que imolaria em seu novo altar, montado 
em um lugar ainda mais afastado da floresta, onde a mata se tornava mais densa e a lua mal penetrava.
Chamou Belinda e Belita e mandou que segurassem os cordeiros. Colocaram em uma bolsa vrios objetos, como razes, dentes de animais e at de pessoas, alm de alguns 
ossos e uma caveira, que guardava para ocasies especiais. Pena que no conseguira nada de uso pessoal de Miguez e de Lucena, para trabalhar bem com suas prprias 
energias. Mas no fazia mal. O resultado seria o mesmo.
As escravas a serviam sem dizer nada. Em sua terra, j haviam visto muitos feitios e conheciam bem aqueles procedimentos. Como das outras vezes, Giselle sacrificou 
os animais e chamou os espritos das sombras, que j estavam a postos, prontos para sugar o sangue dos cordeiros. Giselle matou seis carneiros e ajeitou-os em crculo, 
com as bacias na frente, colocando no meio a caveira com os demais objetos. Em seguida, tornou a evocar os espritos, proferindo os nomes de Miguez e Lucena vrias 
vezes. J quase em transe, apanhou o stimo carneiro e, auxiliada pelas escravas, sacrificou-o sobre a caveira e os ossos e, enquanto o sangue escorria, apanhou 
um pedao de papel e nele escreveu, com o sangue do animal, os nomes completos de Miguez e Lucena. Depois, retiraram de uma sacola dois bonecos de pano e colocou-os 
sobre cada um dos nomes que havia escrito, lambuzando-os de sangue tambm.
Os espritos ao redor exultavam. A matana instigara-lhes os instintos mais primitivos, e eles pareciam embriagados de tanto prazer. Giselle serviu-lhes rum tambm, 
e eles puseram-se a sugar a essncia da bebida, juntamente com a do sangue. Quem pudesse ver o mundo astral pensaria estar diante de tenebrosa orgia. Alguns espritos 
se entregavam mesmo a prticas lascivas, esfregando corpos, acariciando-se com euforia, fazendo sexo sobre o sangue derramado dos cordeiros.
Giselle podia sentir a poderosa energia que aflua para o ambiente e permanecia parada diante do altar macabro, proferindo estranhas palavras em uma lngua desconhecida. 
Belita e Belinda, embora nada dissessem, estavam apavoradas, sentindo que uma fora maligna tomava conta da floresta. Olharam para Giselle e perceberam que ela estava 
em transe, fazendo gestos vibrantes e obscenos.
Em dado momento, Giselle tombou ofegante, o corpo todo sacudido pelas ltimas vibraes dos espritos que para ali acorreram. Lembrava-se vagamente do que acontecera 
porque, nessas ocasies, sentia a mente tomada por estranha fora e parecia perder o domnio sobre si mesmo. Mas sabia que a oferenda havia sido bem aceita. Podia 
sentir a satisfao dos espritos das sombras.
- Se vocs fizerem o que pedi - fremiu Giselle, a voz vibrante de dio e excitao -, prometo-lhes muito mais! Prometo arranjar-lhes o sangue daqueles dois! De Miguez 
e de Lucena!
Belita e Belinda sentiram um calafrio e se encolheram sem coragem para dizer nada. Esperaram at que Giselle terminasse a sua magia e as chamasse, e as trs partiram 
para casa em silncio. Durante todo o caminho de volta, Giselle sentia que algum a observava. De vez em quando, parava e olhava para trs, pensando surpreender 
algum bandido ou malfeitor. Mas ningum apareceu, e ela chegou  casa assustada, presa de estranha sensao. As escravas pareciam no haver notado nada, porque no 
esboaram nenhuma reao, e Giselle achou melhor se calar. Devia ser impresso.
Foi para seu quarto, deitou-se e logo adormeceu. No mesmo instante, seu perisprito se desprendeu do corpo, e ela se surpreendeu com a presena do pai ali a seu 
lado. Envergonhada, no se aproximou, tentando retornar ao corpo e despertar.
- Por que faz isso, Giselle? - o indagou com profunda tristeza. - Por que no utiliza os seus conhecimentos na prtica do bem?
Coberta de vergonha, ela parou perto da cama e se voltou para ele bruscamente, os olhos rasos d'gua.
- Mas que bem  esse de que fala pai? Desde quando o mundo trabalha para o bem?
- Desde que existam pessoas amorosas e de boa-vontade.
- Isso no existe. O mundo  cruel, mesquinho, perverso. Voc sabe disso.
- No  verdade. O mundo nada mais  do que um reflexo dos espritos que o habitam. No momento em que os homens modificarem suas atitudes, o mundo tambm se modificar.
- O que voc fala  muito bonito. Mas acontece que ningum  desse jeito. At hoje, s conheci pessoas ms e egostas.
- Ser mesmo, minha filha? Ser que eu tambm sou assim?
- Voc no  mais ningum.  apenas uma sombra.
- Sou um esprito eterno, assim como voc.
- Voc no habita mais este mundo.
- Assim como voc, em breve, tambm no mais habitar.
- Est blefando! Nada vai me acontecer. Fiz um trato com os espritos das trevas.
- Os espritos das trevas nada podem contra a poderosa fora da vida e a escolha da morte.
- No quero morrer, pai.
- No momento em que se envolveu com toda essa magia, voc selou a hora de sua morte. Embora no saiba, sua alma j est cansada de tanta podrido.
- No fundo, voc tem razo. Estou mesmo cansada de tudo isso. Queria viver em paz com Ramon, mas aqueles dois cretinos no permitiram.
- Ningum pode viver em paz no tendo paz na conscincia.
- Minha conscincia no me acusa de nada.
- No? E os muitos que voc levou  morte?
- No fui eu. No matei ningum.
- Ser que os que morreram tambm pensam assim?
- Isso no me interessa.
- Eles esto por a, Giselle. A maioria desses espritos continua presa ao mundo corpreo, sem conseguir perdoar, em busca de vingana. E sabe o que vai acontecer 
quando voc desencarnar? Voc vai sintonizar com eles e ser arrastada para o astral inferior, sem nem perceber os espritos de luz  sua volta.  isso o que deseja?
- No me importo. Deve ser melhor do que o cu onde voc se encontra.
- Diz isso porque ainda no experimentou a verdadeira dor. Nada do que acontece nesse mundo pode se comparar s torturas que os espritos inferiores so capazes 
de infligir. E sabe por qu? Porque eles no tm limites. No mundo invisvel no h o limite da carne ou da morte, e por mais que se faa a um esprito, ele nunca 
poder morrer e se libertar. Mesmo que se desintegre enquanto ser humano, mesmo que perca as formas e se transforme numa massa disforme e sem conscincia, ainda 
assim estar em sofrimento, porque continuar vivo.
- Tenho amigos nas trevas, pai. Eles no permitiro que isso me acontea.
- Ningum tem amigos nas trevas. A amizade pressupe nobreza de sentimentos, e os que assim sentem j esto prontos para deixar o astral inferior. O que h nas trevas 
 interesses. Os espritos se ligam por afinidade de propsitos, por interesse, mas no pelo sentimento de amizade.
- Ainda assim. Posso mant-los presos aos meus interesses.
- At quando? At o momento em que no tiver mais como satisfaz-los.
- Isso no acontecer.
- Isso j est para acontecer.
- Pare com isso! Voc no sabe o que diz.
- Oua o que estou lhe dizendo, Giselle. No momento em que parar de satisfazer aos seus amigos das trevas, eles vo voltar-se contra voc...
- Deixe disso, pai. Voc no me impressiona.
- No quero impression-la. Quero que voc sinta o meu amor e desperte o amor que h dentro de voc. O meu amor no toca o seu corao?
Giselle comeou a chorar descontrolada. Encarou o pai e pensou em abra-lo, mas havia tanta luz emanando de seu corpo fludico que ela se sentiu ofuscada e recuou.
- Voc foi  nica pessoa no mundo que me amou de verdade. Por que teve que me abandonar? Se estivesse ao meu lado, talvez nada disso tivesse acontecido.
- No tente fugir a suas responsabilidades. No fui eu que a obriguei a enveredar pelo espinhoso caminho do mal.
- Nem eu. Foi o destino...
- O destino, minha filha, somos ns que fazemos, de acordo com aquilo que desejamos e em que acreditamos. E voc pode mudar o seu.
- No posso - retrucou-a em lgrimas, comeando a lhe dar razo. - J estou condenada.
- Quem a condenou? - ela no respondeu. - Voc mesma.  voc mesma quem est se condenando, porque sua alma tem conscincia da gravidade de seus atos. Mas no precisa 
ser assim. Voc pode endireitar a sua vida e deixar de lado essas prticas nefastas.
- No, pai. Estou por demais comprometida com as trevas para almejar a luz.
- No tem que ser assim, Giselle, acredite. Ningum se compromete a esse ponto com as trevas. Se voc demonstrar um arrependimento sincero e se voltar para Deus 
com o seu corao, as trevas no tero foras contra voc.
- Deus... No quero nada com Deus, nem ele comigo.
- No fale assim. Deus nos ama a todos com igualdade.
- Duvido. Deus jamais amaria uma criatura srdida feito eu.
- Se j tem conscincia de sua sordidez, por que no se prope a mudar? Renuncie a essa vida de prazeres e abra o seu corao para as verdades do esprito.
- No posso. No quero. Se mudar significa renunciar, muito obrigada. Estou feliz do jeito que estou, e esteja certo de que os espritos que me auxiliam no permitiro 
que nenhum mal me acontea, ao contrrio de voc e do seu Deus, que nunca esto presentes quando preciso!
Virou-lhe as costas furiosa e retornou ao corpo, que estremeceu levemente no sono. Giselle despertou suando frio. Corao descompassado levantou-se e foi beber gua. 
Ainda podia sentir a presena do pai a olh-la entristecido. Apanhou a gua e bebeu sofregamente. De repente, fixou os olhos num pequeno ponto luminoso perto de 
sua cama e deixou o copo cair ao cho, nem sentindo a ponta dos cacos que voavam sobre seus ps.
Do outro lado do quarto, uma claridade foi se formando, e Giselle viu nitidamente a figura paterna. Semblante triste, envolto num halo de luz, Ian balanou a cabea 
e voltou-lhe as costas, sumindo pela parede. Atrs dele, um rastro de luminosidade foi se esvanecendo no ar.
Aturdida, Giselle correu em sua direo. Tarde demais. A imagem j havia sumido por completo, e apenas o que restou foi  parede fria de pedra. Aos prantos, Giselle 
fechou as mos e comeou a dar murros na parede, ao mesmo tempo em que desabafava sentida:
- Pai! Pai! No me deixe! Por favor, pai, perdoe-me! Perdoe-me!
A voz foi morrendo na garganta, e Giselle deslizou at o cho, corpo sacudido pelos soluos, at novamente adormecer, encostada na parede, e esquecer o sonho e a 
oportunidade que o pai, to amorosamente, lhe oferecera.



CAPTULO 16


Naquela noite quando Lucena chegou  abadia, encontrou Miguez acabrunhado e triste, mal conseguindo levantar os olhos para encar-la.
- O que foi que houve? - a indagou preocupada.
Aps alguns breves minutos de silncio, Miguez fitou-a com profunda tristeza e deixou escapar num desabafo:
-  o seu pai...
- Est morto?
- Ainda no. Mas no tarda.
- Meu Deus, padre, o que foi que aconteceu?
- Foi difcil obter-lhe a confisso. Mas Esteban, finalmente, conseguiu. Seu pai j nem raciocina mais direito, fala coisas sem nexo. Acho que sua mente j no funciona 
direito, aps sucessivas sesses de tortura da gota (2).

(2) - Tortura da gota = espcie de caixa d'gua, sob a qual se prendiam as vtimas, e de onde caam gotas d'gua que acertavam sempre o mesmo ponto da nuca. (N.A.)


        Lucena comeou a chorar descontrolada, atirando-se nos braos de Miguez. Naquele momento, a compaixo do padre foi genuna, e ele, afagou os seus cabelos, 
sentindo-se inebriado pelo seu perfume. Como a desejava! Mais do que isso, sentia que j a amava e, pensando melhor, talvez a morte de dom Ferno fosse at providencial. 
Sozinha no mundo e sem dinheiro, Lucena precisaria de um protetor, e ele poderia ento tom-la livremente por amante.
- Oh! Padre, padre! Preciso v-lo.
- Voc no deve. Ele est condenado. Sua morte  questo de horas.
- Por qu? O que foi feito dele? Onde est?
Com imenso pesar, Miguez abaixou o tom de voz e sussurrou com certa vergonha:
- Esteban o colocou na Virgem (3). Seu pai est fraco demais para comparecer ao auto-de-f e acabaria morto antes da hora, o que poderia estragar o espetculo e 
provocar uma comoo na
turba sedenta de sangue.

Virgem de Nuremberg = espcie de sarcfago, cujo interior era repleto de lminas que perfuravam partes no vitais do corpo da vtima, levando-a a morte lenta por 
hemorragia e infeco. (N.A.)

Lucena levou as mos aos ouvidos, tentando no escutar aquelas atrocidades. Podia imaginar o suplcio de seu pai no interior daquela mquina, o que lhe causou um 
pranto sofrido e angustiado.
- Padre Miguez, por favor, preciso v-lo - suplicou em lgrimas.
- No, Lucena. Poupe-se desse sofrimento.
- Mas ele  meu pai! Preciso v-lo ao menos uma vez antes de sua morte.
- No h meios de v-lo. Ele est enclausurado dentro da Virgem. E, mesmo que isso fosse possvel, provavelmente, ele no poderia mais reconhec-la.
- Mesmo assim. Por favor, padre, no me negue isso. Farei o que voc quiser, mas, por favor, leve-me at meu pai.
Miguez suspirou profundamente. Apanhou a capa e saiu com Lucena pelo corredor s escuras, em direo s masmorras, que ficavam no prdio do Tribunal, contguo  
abadia. O ar era extremamente pesado e ftido, e Lucena sentiu-se mal. Parecia-lhe pior do que da outra vez em que ali estivera.
A um sinal de Miguez, o carcereiro abriu a pesada porta da masmorra e eles entraram. Passaram entre os vrios supliciados, presos aos mais variados instrumentos 
de tortura, at que alcanaram a Virgem. Ao ver o estranho sarcfago, Lucena engoliu em seco. No havia nenhuma fenda por onde pudesse ver o seu interior, mas ela 
notou o filete de sangue que escorria pelas frestas abaixo. Mal contendo o pranto, aproximou-se do sarcfago e ajoelhou-se diante dele, tocando-o de leve com as 
mos.
- Pai... - sussurrou num soluo angustiado.
No conseguiu dizer mais nada. O pranto a consumiu totalmente, e Lucena pensou que fosse desmaiar. Por cerca de dez minutos permaneceu ali, agarrada ao sarcfago 
macabro, at que escutou uma tnue voz vinda de seu interior. No era propriamente uma voz, mas um gemido agonizante, um murmrio de lgrimas, e ela percebeu que 
o pai chorava. Ainda vivia, mas, pela fraqueza daqueles soluos, tinha certeza de que no por muito tempo.
- Pai - continuou Lucena, a voz vibrante de dio e revolta - eu juro, pai, vou vingar a sua morte. Sei quem  Giselle. Ela no escapar. Nem ela, nem monsenhor Navarro. 
Vou ving-lo, pai, a voc e a Blanca.
Dom Ferno, em seus derradeiros momentos de vida, conseguiu escutar as ltimas palavras de Lucena que, poucos instantes depois, ouviram o seu estertor de morte. 
Em seguida, silncio. Lucena bateu de leve no sarcfago, mas nenhum som veio de seu interior. Ainda agarrada a ele, redobrou o pranto, at que foi amparada por Miguez, 
que, a muito custo, conseguiu arranc-la dali.
- Venha, Lucena - o chamouele com piedade -, vamos embora daqui. Ele j no pode mais ouvi-la.
Quase desfalecida, Lucena saiu apoiada nos braos de Miguez. O padre chamou uma carruagem e levou-a para casa. Entregou-a aos cuidados de Consuelo e voltou para 
a abadia. Na mesma hora, ela adormeceu. Havia sido tomada por profunda exausto e por imenso desgaste emocional em razo dos ltimos acontecimentos.



No dia seguinte, acordou com Consuelo a seu lado, chorando e gesticulando sem parar. Aos poucos retornando do sono, Lucena ergueu-se na cama e indagou o que estava 
acontecendo.
- Oh! Senhorita - respondeu a criada, completamente transtornada. - Esto a uns homens de monsenhor Navarro. Querem tomar a casa.
- Tomar a casa? Como assim?
- Disseram que a senhorita tem vinte e quatro horas para sair, levando apenas os seus pertences pessoais. Tem que deixar os mveis, a loua, a prataria...
Rapidamente, Lucena levantou-se e jogou uma capa sobre os ombros, saindo para a sala.
- Mas o que  que est acontecendo aqui? - perguntou furiosa. - Como ousam?
- Senhorita - falou um dos soldados -, so ordens de monsenhor Navarro. A senhorita tem vinte e quatro horas para desocupar a casa, levando apenas seus pertences 
pessoais, ou ento seremos obrigados a despej-la.
- Despejar-me? Como? Para onde  que irei?
O soldado deu de ombros e entregou-lhe um pergaminho, que ela desenrolou e ps-se a ler avidamente. Por aquele documento, todas as propriedades de dom Ferno passavam 
agora ao poder da Igreja, inclusive a casa em que ela sempre vivera. O homem aguardou at que ela terminasse de ler tudo, certificando-se de que compreendera bem, 
fez sinal para os demais e, com gestos bruscos, virou-lhe as costas e se foi.
-        Oh! Senhorita! - lamuriou-se Consuelo. - O que faremos agora?
Lucena nem ouvia o que a outra dizia. Voltou para o quarto e vestiu-se apressada, saindo em desabalada carreira para a abadia. Foi informada de que padre Miguez 
estava no Tribunal, em uma de suas sesses de tortura, e partiu para l s pressas. Atravessou os corredores sem se importar com as pessoas, muitas das quais tentavam 
impedi-la, e foi direto para a masmorra, cujo caminho j conhecia muito bem.
 entrada, um soldado a deteve, falando-lhe rudemente:
-        Aonde pensa que vai senhorita? No pode entrar sem autorizao.
-        Deixe-me passar! Preciso falar com padre Miguez! Exijo v-lo agora!
O homem segurava-a pelo brao e estava mesmo disposto a expuls-la dali, mas Miguez apareceu subitamente. Assim que o viu, ela comeou a esbravejar:
-        Miservel! Cretino! Pensei que fosse meu amigo!
O soldado fez meno de que ia bater-lhe, mas, a um gesto de Miguez, encolheu a mo e soltou o seu brao. Sem alterar as feies, Miguez passou por ela e chamou 
baixinho:
-        Venha.
Lucena seguiu-o em silncio, at que alcanaram seu gabinete particular.
-        Sente-se - ordenou ele.
A contragosto, Lucena acomodou-se na cadeira que ele lhe indicara.
Sentado defronte a ela, Miguez cruzou as mos sobre a boca e ficou a olh-la, esperando que ela falasse algo.
- Padre Miguez - comeou ela, lutando para conter a raiva -, pensei que quisesse me ajudar...
- E quero.
- No entanto, hoje fui despejada de minha casa. Monsenhor Navarro me deu um prazo de vinte e quatro horas para sair. Pensei que voc fosse impedir isso.
- Minha cara - lamentou-se o padre com profundo suspiro -, se pudesse, creia-me, eu o teria feito de muito bom grado. Mas no tive como intervir na deciso de Esteban. 
O mximo que consegui foi uma prorrogao do prazo.
- Uma prorrogao do prazo? Como assim?
- Esteban queria coloc-la para fora na mesma hora, apenas com a roupa do corpo. Consegui no s que ele lhe desse vinte e quatro horas, como tambm que lhe permitisse 
levar os seus pertences pessoais. Pode levar consigo roupas, jias, perfumes. O resto deve deixar.
Lucena abaixou os olhos e comeou a chorar, no sabia se de desespero ou de gratido.
-        O que farei padre Miguez? Para onde  que irei? No tenho mais ningum no mundo.
Aps um longo silncio de tortura, Miguez retomou a palavra:
- Vou ajud-la, criana, no se preocupe. Tenho uma propriedade aqui mesmo, nos arredores de Sevilha, num pequeno vilarejo chamado San Martin. Conhece? - ela meneou 
a cabea, e ele prosseguiu: - No faz mal. De qualquer sorte,  uma quinta grande e confortvel, e l voc ter tudo de que necessita.
- Poderei levar minha criada, Consuelo?
-  claro que sim. V para casa, junte suas coisas e aguarde. Mandarei uma carruagem apanh-las ainda hoje, no final da tarde.
- Obrigada, padre - disse ela, beijando-lhe o anel sacerdotal.
Tudo estava caminhando conforme o desejado. Dom Ferno morrera e Lucena acabara mesmo caindo em suas mos, tornando-se inteiramente dependente dele. Tinha certeza 
de que, em breve, tornar-se-iam amantes e planejariam junto o fim de Giselle.
Apenas uma coisa no lhe agradava: o dio da moa por Esteban. O cardeal era seu amigo e apenas cumpria seu dever de ofcio. No agia movido por sentimentos pessoais 
contra quem quer que fosse. Ao contrrio, orava com fervor, pedindo a Deus que livrasse as almas supliciadas da danao eterna. E conseguia. Cada vez que obtinha 
uma confisso, seguida da execuo do condenado, Esteban tinha certeza de estar salvando a alma do infeliz. No importava que enriquecesse com as expropriaes. 
Fazia parte do processo e era apenas um detalhe dentro da grandeza que significava a salvao das almas dos pecadores.
Miguez no podia permitir que Lucena voltasse sua vingana contra o amigo. Teria que convenc-la de que Esteban no fora responsvel pela morte de seu pai, como 
no o seria pela de Blanca, cuja execuo era apenas questo de dias. A culpada de tudo fora Giselle. Para todos os efeitos, fora ela que seduzira dom Ferno, com 
o nico propsito de tra-lo e delat-lo nas Mesas Inquisitoriais.
No seria difcil convencer Lucena. Miguez trataria de estimular nela o dio pela meretriz. E tinha certeza de que os dois juntos conseguiriam timos resultados.
Tudo correu conforme o planejado. Lucena mudou-se para a quinta de Miguez em San Martin e, na noite seguinte, o padre apareceu para ver como as coisas iam passando.
- E ento, Lucena, como se sente?
- Melhor, padre, graas ao senhor.
Os dois estavam sozinhos na sala, e Miguez aproveitou-se da ocasio para tentar aproximar-se. Envolveu-a num abrao delicado e pousou-lhe discreto beijo na testa. 
Na mesma hora, ela ruborizou e abaixou os olhos, observando com aparente resignao:
- Veio cobrar a promessa que lhe fiz?
- Que promessa? - rebateu Miguez, surpreso.
- Eu no disse que faria o que voc quisesse se me levasse at meu pai?
Ele se levantou indignado, as faces ardendo. Nem se lembrava mais do que ela havia dito e espantara-se com aquela pergunta.
- Assim voc me ofende, Lucena. No foi por outro motivo que a ajudei, seno por uma sincera afeio. Contudo, se me julga vil ao ponto de aproveitar-me de sua dor 
para conseguir lev-la
para o leito, no tenho mais nada que fazer aqui. Peo que me perdoe.
Voltou-lhe as costas, coberto de genuna perplexidade. Estava realmente gostando de Lucena e somente queria possu-la com o seu consentimento. Queria que ela o desejasse 
tambm, no que se entregasse a ele por um dever de gratido.
- Padre Miguez - chamou ela, antes que ele alcanasse a porta. - Sou eu quem deve lhe pedir perdo. No queria ofend-lo. Mas o senhor h de convir que, diante de 
tantos acontecimentos
funestos em minha vida, estou confusa e perdida. No sei o que pensar.
Comeou a chorar de mansinho, e Miguez correu em sua direo, abraando-a com paixo. Buscou a sua boca com furor e deu-lhe ardoroso beijo, que ela correspondeu 
receosa. Estranhamente, aquele beijo lhe causou prazer, e ela se sobressaltou ante seus prprios sentimentos.
- Padre... - tornou em tom de desculpa. - Sinto muito. No posso...
Levou a mo aos lbios, assustada, e afastou-se dele rapidamente.
- Perdoe-me novamente, minha criana - disse Miguez com compreenso. - Sei o quanto deve estar sofrendo, e seria muito egosmo de minha parte pensar em am-la depois 
de tudo. Demais
disso, sei que  pura, e o momento no  o mais adequado para despoj-la de tanta inocncia.
Cada vez mais envergonhada, Lucena no ousava encar-lo. Tinha medo de que seu olhar denunciasse que j no era mais virgem e o padre se desinteressasse dela. Precisava 
ocultar-lhe a verdade o mximo possvel e, com voz de desgosto e sofrimento, acabou por concluir:
- D-me um pouco de tempo, padre...
- No precisa mais me chamar de padre. De hoje em diante, para voc, sou apenas Miguez.
Com um sorriso forado, Lucena se despediu, e padre Miguez entrou na carruagem, tomado de profundo pesar. Lamentava imensamente o sofrimento de Lucena. Doa-lhe 
v-la triste e desesperada, arrasada com a morte do pai. Contudo, algo de bom lhe sobrara de tudo aquilo. Ela ia ser dele. Agora, mais do que nunca, tinha certeza 
de que Lucena acabaria por lhe pertencer. Quanto mais pensava nela, mais seu corao se comprimia. Miguez estava certo de que a amava. No apenas a desejava, mas 
amava-a cada dia mais e, por ela, seria capaz das maiores loucuras.
Menos trair seu amigo cardeal. Ele e Esteban eram amigos h muitos anos, e sua afeio por ele era tambm genuna. Esteban era como seu irmo, e ele jamais poderiam 
trair um irmo. Tampouco poderia permitir que Lucena o fizesse. Daria um jeito de desviar-lhe a ateno de Esteban, concentrando-a em Giselle. Ela fora a nica culpada. 
Esteban cumpria apenas o seu dever clerical, ao passo que Giselle era uma meretriz interesseira e sem escrpulos.
Quando chegou  abadia, j era tarde e todos dormiam. Apenas um pequeno lume se deixava entrever pela porta do quarto de Esteban. Seguindo um impulso de seu corao, 
Miguez se aproximou e bateu. Poucos segundos depois, o prprio Esteban veio atender.
- Miguez! - exclamou surpreso. - O que faz aqui h essa hora?
Miguez passou por ele e foi sentar-se em sua cama, fitando-o com certa angstia.
- Como est Blanca?
- Por que o interesse?
- Gostaria de saber como est passando.
- Est quase confessando tambm. Creio que conseguiremos lev-la ao auto-de-f.
Padre Miguez inspirou profundamente e tornou em tom de confisso, sem prestar muita ateno s palavras do outro:
- Estou apaixonado por Lucena Lopes de Queiroz...
- Voc o qu?
- Voc ouviu. Apaixonei-me irremediavelmente pela filha de dom Ferno.
- Voc  um tolo, Miguez. Eu devia ter imaginado, quando voc veio a mim, interceder por ela. Mas pensei que seu interesse fosse apenas porque ela  ainda jovem 
e virgem.
- Tambm pensei que fosse, mas hoje tive certeza de que no. Estou mesmo apaixonado por Lucena e gostaria de lhe pedir que no a incomodasse.
- No estou interessado nela, se  o que quer saber. No tenho nada contra ela. Temo apenas que ela o esteja enganando.
- Enganando-me? Por que ela faria isso?
- Vingana. As pessoas so muito rancorosas.
Miguez silenciou, lembrando-se das palavras de Lucena. Sabia que ela queria se vingar, mas no acreditava que houvesse se ligado a ele apenas por esse motivo. Quando 
a beijara, ela parecera gostar e dera mostras de confuso.
- No se preocupe com Lucena - considerou Miguez. - No permitirei que ela faa nada contra voc.
- No me preocupo. Lucena agora  apenas uma pobre moa abandonada, que nada pode contra ningum. A no ser,  claro, que voc esteja por trs de tudo...
Miguez sentiu um calor subindo-lhe pelo rosto e, fitando o amigo profundamente, respondeu cheio de sinceridade:





- Nem de longe diga uma coisa dessas. Sou seu amigo, e nada nem ningum poder me colocar contra voc.
- Diz isso porque ainda no experimentou as artimanhas de uma mulher. Depois que se vir completamente envolvido por Lucena, veremos se no ser capaz de tudo para 
satisfaz-la.
- Engana-se, Esteban, e vou provar isso. Lucena o odeia,  verdade. Que pessoa no odiaria o responsvel pela morte de seu pai?
- Dom Ferno era um herege!
- Mas era seu pai. E difcil para qualquer um aceitar isso.
Contudo, com o tempo, Lucena deixar de odi-lo, assim como passar a me amar. Eu estarei o seu lado e farei com que ela acabe por compreend-lo. Jamais permitirei 
que ela ou qualquer outra
pessoa erga a mo contra voc.
A sinceridade na voz de Miguez o emocionou, e Esteban abraou o amigo.
- Perdoe-me, eu no devia ter dito essas coisas. Foi apenas uma reao normal ante a revelao que voc me fez. Dom Ferno foi um caso difcil, e Giselle... - parou 
de falar abruptamente, fitando o amigo com certa desconfiana. - Vocs no esto tramando nada contra Giselle, esto?
- Contra Giselle? - repetiu Miguez, tentando parecer natural. - Por qu?
- Porque voc no gosta dela, e Lucena tm todos os motivos para odi-la tambm.
-  verdade... Sabemos o que Giselle fez, no , meu amigo?
- Deixe Giselle em paz. Sei que voc no gosta dela, mas ela nunca lhe fez nada. E depois, vou afast-la de tudo isso.
- Posso saber como?
- Casando-a com dom Solano Daz.
- Muito conveniente. Solano Daz  um velho e no trar problemas, no  mesmo?
- O que importa isso? Quero afastar Giselle disso tudo e de mim. Ela faz muitas bobagens, no pensa aonde vai parar.
- Se  assim, por que no deixa que eu cuide dela  minha maneira?
- No posso. Giselle  como uma filha...
- Ela sempre foi sua amante. Como pode agora dizer que ela  como sua filha?
- Voc no entende. Durante muitos anos, Giselle foi minha nica amante, e tenho para com ela um sentimento especial. Quero o seu bem.
- Ela sabe demais, Esteban,  perigosa.
- No . Giselle  confivel.
- At quando? At se envolver com o primeiro vagabundo e comear a sair por a, falando de voc.
- Ainda que fizesse isso... O que importa? Quem lhe dar ouvidos?
Esteban no podia permitir que Giselle fosse apanhada. Faria o possvel para mant-la longe daquilo tudo. Ele sabia que Miguez a odiava, e agora, com o dio de Lucena, 
os dois poderiam tramar alguma coisa contra ela. Se descobrissem ento que Giselle e Ramon de Toledo estavam apaixonados, no queria nem pensar. O dio de Lucena 
redobraria, e Miguez faria de tudo para facilitar a sua vingana.
- Miguez - tornou Esteban em tom de quase splica -, se voc  meu amigo como diz, escute o que lhe peo. No faa nada contra Giselle, assim como eu nada farei 
contra Lucena.  uma troca. Ela vai casar-se e vai para Cdiz. Nunca mais iremos v-la. Por favor...
O outro apenas balanou a cabea. Cdiz era muito perto para se considerar que nunca mais a veriam. No fundo, sentia pena de Esteban. Mas algo dentro dele fazia 
com que odiasse Giselle cada vez mais. No sabia o que fazer. Se, por um lado, seu dio por ela era imenso, sua afeio pelo amigo tambm era sincera. E ainda havia 
Lucena. Mas Esteban no tinha nada contra ela, ao passo que Giselle...
- No pense mais nisso, Esteban - finalizou Miguez. - Farei o que for melhor para todos.
A resposta de Miguez no o satisfez, mas Esteban no tinha mais o que dizer. Em seu ntimo, sabia que Giselle corria perigo, assim como sabia que, se ela fosse presa 
e acusada, no haveria nada que ele pudesse fazer. S o que lhe restava agora era rezar.



CAPTULO 17


        O casamento de Giselle e dom Solano Daz realizaram-se dali a um ms. Foi uma cerimnia discreta e ntima, e contou com a presena de pouqussimas pessoas, 
dentre as quais Esteban e seu sobrinho Diego. Giselle no parecia nada satisfeita. Solano era muito franzino e mais velho do que pensava. Esforava-se para ser gentil 
e sorrir para os poucos convidados. Notou que Diego no tirava os olhos dela, sorrindo com ironia.
Em dado momento, aproximou-se dele e falou entre dentes:
- Posso saber o que  to engraado?
- Nada - respondeu de um jeito mordaz. -  que vocs formam um lindo casal. O velho decrpito e a meretriz do inquisidor...
Indignada, Giselle ergueu a mo para esbofete-lo, mas Diego a segurou no ar e, olhos nos olhos, falou sem alterar o tom de voz:
- No faa isso, querida. Posso gostar e querer me tornar um de seus amantes tambm.
Ela puxou o brao, cada vez mais indignada. Jamais havia visto homem mais atrevido e arrogante. Mas Solano chegou, e ela no pde responder-lhe nada. No dia seguinte, 
partiriam para Cdiz, onde importantes negcios aguardavam seu marido.
A noite de npcias, para Solano, foi coroada de xito e paixo, ao passo que, para Giselle, foi aborrecida e at mesmo indigesta. Com gestos maquinais, cumpriu seu 
papel de esposa e esperou at que ele acabasse de se satisfazer, dando graas a Deus quando ele adormeceu ao seu lado. Giselle virou o rosto para a parede, tentando 
ocultar a cara de nojo, e pensou em Ramon. Como lhe doa aquela separao!
Tudo fora acertado. Ramon e Manuela ficariam tomando conta da taverna e, de vez em quando, eles iriam a Cdiz, onde ela daria um jeito de encontrar-se com ele. Sabia 
que seu marido era um poderoso navegador, dono de invejvel frota que empreendia intensa atividade comercial na costa africana. Essa profisso lhe demandava bastante 
tempo, pois eram muitos os navios e contratos que tinha que administrar o que acabara por torn-lo um homem incrivelmente rico.
No dia seguinte, quando Giselle despertou, Solano j no estava mais a seu lado. J passava das nove horas quando ela se levantou e chamou Belinda, que a ajudou 
a aprontar-se para a viagem. Levara uma das escravas, ficando a outra incumbida de tomar conta da casa e de Ramon.
Assim que desceu as escadas, encontrou o marido, que lhe deu um beijo na face e disse gentil:
- Apresse-se, minha querida. O sol j vai alto, e no quero pegar muito calor na estrada.
Com um sorriso forado, Giselle terminou de beber um copo de leite, apanhou um pedao de po de centeio e saiu apressada, dirigindo-se para a carruagem. Entrou esbaforida, 
desacostumada daquelas roupas luxuosas, e sentou-se no banco, de frente para Solano. Foi s ento que percebeu algum a seu lado, rindo para ela com ar debochado.
- Diego! - exclamou aturdida. - O que faz aqui?
- Perdoe-me, querida - apressou-se Solano em dizer. - Convidei Diego para passar uns dias em nossa casa, se no se importa.
- No sabia que vocs eram amigos - tornou acabrunhada.
- O tio de Diego e eu somos amigos de longa data. Vi Diego nascer, no  meu rapaz? - Diego assentiu, sem tirar os olhos debochados de Giselle. - E depois, creio 
que lhes far bem. Preciso fazer algumas viagens, e um homem em casa ser bom para defend-las.
- Defend-las, quem?
- A voc e a Rbia, minha filha.
- No sabia que tinha uma filha.
- Tenho. Vai gostar de Rbia.  uma boa moa.
Quando chegou ao castelo de dom Solano, Giselle ficou deveras impressionada com o seu tamanho. Quando a carruagem entrou no ptio principal, uma moa j os aguardava, 
sorridente, e ela imaginou que seria a tal de Rbia. Solano desceu na frente, seguido por Giselle e Diego. A moa abraou o pai e o rapaz, a quem j parecia conhecer 
de longa data, e depois se voltou para ela.
- E voc deve ser Giselle - disse com um sorriso encantador, estendendo a mo para ela.
Giselle apertou-lhe a mo e sorriu de volta, e uma natural simpatia fluiu entre elas.
- Muito prazer - respondeu Giselle.
- Espero que goste daqui. Sei que  diferente de Sevilha, ainda mais porque vivemos num castelo afastado, mas  divertido. Voc vai ver.
- Rbia toca harpa como ningum - elogiou Diego.
- Diego est exagerando.
- No est no - concordou Solano. - Nunca vi mos mais doces.
Solano beijou-lhe as mos, e Giselle percebeu o quanto pai e filha se gostavam. Entraram no castelo. Era uma beleza, e Giselle ficou cada vez mais impressionada. 
Solano chamou os criados e deu-lhes ordens para que levassem os bas de Giselle para seus aposentos. Ela ficou ainda mais deslumbrada. Teria um quarto s para ela, 
perto do de Rbia, o que a deixou satisfeita.
O castelo era muito diferente de sua casa. Embora vivesse numa manso confortvel, no tinha o luxo e a beleza que havia ali. Ainda assim, sentiu saudades do lar. 
Esperava que Belita cuidasse bem de tudo e que Ramon no levasse ningum para l.
Dali a dois dias, Solano partiu em viagem pela costa africana, e Giselle at que se sentiu satisfeita. Ao menos no precisaria mais dormir com aquele velho. Pensou 
em mandar um recado para Ramon ir v-la, mas achou que no seria prudente. Eles haviam combinado esperar um ms at tornarem a se encontrar.


A vida no castelo mostrou-se pacata demais para Giselle, acostumada ao barulho e  agitao da taverna em Sevilha. Alm disso, era obrigada a ouvir os gracejos de 
Diego e suas observaes infames, o que lhe causava indisfarvel desdm. Rbia, contudo, parecia gostar do rapaz, e Giselle pde perceber certa cumplicidade entre 
eles, o que a fez pensar se no seriam amantes.
- Voc e Diego so muito amigos, no , Rbia? - indagou Giselle displicentemente, enquanto passeavam a cavalo pela campina perto do castelo.
Rbia levantou os olhos para ela e sorriu ao mesmo tempo em que respondia com graa:
- Muito amigos. Diego vem visitar-nos constantemente.
- Confesso que fiquei surpresa com essa amizade.
- Monsenhor Navarro nunca lhe disse nada? - sentindo o seu constrangimento, Rbia tranqilizou: - No se preocupe. Entre mim e meu pai no existem segredos. Sei 
muito bem por que se casou com ele.
Giselle corou e abaixou a cabea, surpresa com as palavras de Rbia.
- No se importa? - tornou em tom hesitante.
- Por que deveria? Meu pai  muito grato a monsenhor Navarro. Deve-lhe muitos favores.
- Isso no a incomoda? Esse jogo de interesses?
- O que  a vida, seno um eterno jogo de interesses? As coisas so assim mesmo, Giselle. Um dia eu lhe sirvo, no outro,  voc que me serve.
Giselle limitou-se a acenar com a cabea e virou-se para o outro lado, enquanto os cavalos marchavam lentamente, lado a lado. Em dado momento, voltou a encarar Rbia 
e prosseguiu:
- Voc desconversou e acabou no me falando sobre Diego.
- O que quer saber?
- Nada, exatamente. Como disse, fiquei surpresa com tanta amizade.
- Pois no devia. Meu pai  amigo da famlia Navarro h muitos anos - abafou um risinho e continuou: - Queria at se casar com Marieta, irm de monsenhor.
- No diga! E por que no se casou?
- Naquela poca, meu pai no tinha nada. Era um jovem pobreto, e os pais dela no permitiram o casamento. Ainda assim, foram muito apaixonados e chegaram a manter 
um romance. Quando o pai dela descobriu, obrigou-a a casar-se com outro.
- Srio?  por isso que Diego  to seu amigo?
- Diego  meu irmo.
Giselle puxou a rdea do cavalo, fazendo-o estacar bruscamente.
- Diego  seu irmo? - repetiu atnita.
- Por que o espanto?
- Meu Deus! Jamais poderia imaginar uma coisa dessas.
- Para voc ver. Meu pai e a me dele tiveram uma nica noite de amor, e foi quando conceberam Diego.
- E o marido de Marieta? Sabia?
- Saber, no sabia. Ningum nunca soube de verdade. A no ser meu pai,  claro, que revelou suas dvidas a monsenhor Navarro. Monsenhor foi ter com a irm, e ela 
acabou confessando tudo.
- Mas que histria interessante!
-  sim. Depois do casamento de Marieta, meu pai jurou que iria tornar-se um homem rico. Ingressou na guerra pela reconquista da Espanha e lutou por terras e dinheiro. 
Ajudou a expulsar os muulmanos de nosso reino, o que lhe valeu muito ouro e um ttulo. Quando achou que j possua bastante, voltou para casa. Mas Marieta, agora 
casada com outro, no podia mais ser dele. Assim, acabou casando-se com minha me, e eu nasci, quando Diego j contava oito anos.
- E sua me, Rbia? Morreu h muito tempo?
- H pouco mais de trs anos.
- Por que seu pai no se casou com Marieta depois?
- O marido de Marieta morreu no ano passado.
- E Diego? O que diz disso tudo?
- Diego soube da verdade logo depois que minha me morreu. Ele nunca se deu bem com o pai, marido de Marieta, que talvez desconfiasse da verdade e, por isso, no 
se incomodava com os longos perodos que Diego passava aqui. Atravs de monsenhor Navarro, Diego foi introduzido em nossa famlia assim que eu nasci, a fim de que 
meu pai tambm pudesse acompanhar o seu crescimento. Esse envolvimento foi se acentuando, mas meu pai nunca disse nada a Diego, at minha me morrer. Creio que no 
queria mago-la.
- Por isso Diego  to sarcstico...
- Seu pai, antes de morrer, ps um gravame nos bens, e Diego s poder dispor deles quando a me morrer. Ele ficou furioso.
Chegaram de volta ao castelo, e o cavalario veio apanhar os cavalos. Diego estava adormecido no terrao, tendo ao lado uma taa e uma garrafa de vinho vazia. Giselle 
ficou olhando-o. Efetivamente, era um homem bonito. Se ela no estivesse to apaixonada por Ramon, talvez se interessasse por ele. Mas no. No trairia Ramon por 
nada no mundo.





CAPTULO 18





Desde que Giselle partira, a vida de Ramon parecia haver perdido o sentido. Passava os dias na taverna, fazendo contas e cuidando das despesas e dos fornecedores.
Depois ia para casa, altas horas da madrugada, e s reaparecia por volta do meio-dia. Aquela rotina j o estava cansando, e ele mal via a hora de ter Giselle em
seus braos novamente.
Havia Manuela. Ela era uma moa alegre e cativante, alm de extremamente linda. Ramon pensou que seria muito fcil amar Manuela, se j no estivesse to apaixonado 
por Giselle. Manuela tinha conscincia de sua beleza e sabia que chamava a sua ateno. Por isso, vivia a insinuar-se para ele, tentando lev-lo para a cama. Mas 
Ramon no cedia. Por mais que se sentisse tentado, a lembrana de Giselle dissipava qualquer desejo que pudesse sentir por outra mulher.
Ele estava sentado a um canto, calmamente bebericando uma caneca de vinho, enquanto Manuela danava sobre uma mesa colocada no centro do salo. A seu redor, os homens 
aplaudiam e deliravam, alguns at atirando-lhe algumas moedas. Ela parecia gostar daquilo, porque, quanto mais eles batiam palmas, mais sensualmente ela se remexia, 
deixando as pernas  mostra at a altura dos joelhos, como Giselle costumava fazer. Quando encerrou seu nmero, desceu da mesa e foi sentar-se junto a Ramon, pedindo 
a Sanchez uma caneca de vinho para ela tambm.
- O que h Ramon? - perguntou ela, roando a coxa na dele. - Parece triste. Est com saudade?
- Voc sabe que sim.
- Por que no deixa que eu o ajude? - falou em tom sensual, alisando sua mo com a ponta do dedo. Instintivamente, Ramon puxou a mo e fitou-a com ar de reprovao.
- No faa isso, Manuela. Giselle no vai gostar.
- Giselle no est aqui.
- Ainda assim. Eu a amo, e  s a ela que desejo. Ela deu de ombros e acrescentou com desdm:
- Que pena... Podia faz-lo muito feliz.
- Agradeo, mas no precisa.
Ela no disse mais nada. Levantou-se lentamente e foi caminhando pelo meio das mesas, requebrando as ancas ao passar por entre os homens. Alguns a beliscavam e lhe 
davam tapas nas ndegas, e ela ria com vontade. Aquilo deixava Ramon contrariado. No fundo, sentia-se provocado tambm, mas no podia aceitar ou admitir isso, ainda 
mais porque sabia que seu corao estava preso ao de Giselle, por mais que, inconscientemente, ansiasse pelo corpo de Manuela.
Ao mesmo tempo, Lucena tambm no conciliava o sono. Pensava em Giselle e em Ramon. Ainda no sabia que os dois havia se tornados amantes, mas o ex-noivo tambm 
estava nos seus planos de vingana. H muito no tinha notcias de Ramon. Soubera que ele perdera tudo, mas no fazia idia de seu paradeiro e nem de longe desconfiava 
que estivesse vivendo na casa de Giselle. Giselle havia se casado e partira para Cdiz, e no havia motivos para ir a sua casa ou  taverna.
Depois que Consuelo lhe serviu o jantar, ela se levantou e foi para o quarto. Acendeu uma vela e pousou-a sobre o criado-mudo, indo apanhar um livro para ler. Precisava 
ocupar a cabea, ou enlouqueceria. Por volta das nove horas da noite, algum veio bater  sua porta, e ela ouviu quando Consuelo foi abrir. Pouco depois, soaram 
batidas na porta de seu quarto, e ela perguntou com fingida sonolncia:
- Quem ?
- Sou eu - respondeu a voz num sussurro abafado -, Miguez. Ela ergueu o corpo na cama e ajeitou os cabelos, antes de responder:
- Pode entrar.
A porta se abriu lentamente e Miguez entrou, trazendo na mo um pequeno crio. Aproximou-se da cama de Lucena, colocou a vela ao lado da outra, sobre a mesinha, 
e sentou-se junto a ela.
- J ia dormir? - ela assentiu, e ele desculpou-se: - Lamento Lucena, no sabia que se recolhia cedo.
- No  cedo, Miguez. J so quase dez horas.
Ele abaixou os olhos, confuso. No sabia o que dizer. Estava apaixonado por ela, no pensava em outra coisa. Ela, por sua vez, convidava-o com o olhar. Ele ergueu 
os olhos para ela e no conseguiu se conter. Tomou-a nos braos e beijou-a ardentemente. Ela lhe correspondeu com volpia. Em poucos minutos, j estavam despidos 
e se amando, e Miguez sentiu imensa frustrao ao constatar que Lucena j no era mais virgem.
- Quem foi que lhe fez isso? - perguntou entre dentes. - Qual foi o cachorro que ousou macular a sua honra de moa?
Assustada, Lucena no respondeu. Tinha medo de que Miguez a mandasse embora. Se assim o fizesse, para onde  que iria? O que seria dela?
- Miguez... - balbuciou envergonhada. - Perdoe-me...
- Quem foi Lucena? Quem ousou toc-la antes de mim?
Sem coragem de encar-lo, ela apertou o lenol entre as mos e respondeu com voz sumida:
- Antes de isso tudo acontecer, eu fui noiva...
- Noiva de quem? Por que no me disse antes?
- Tive medo de que me deixasse.
Ele se levantou bruscamente e comeou a vestir-se, ao mesmo tempo em que a ia recriminando:
- Enganei-me a seu respeito, Lucena. Pensei que voc fosse virgem e pura, mas agora vejo que  to ordinria quanto Giselle.



- No diga isso, Miguez, no  verdade! Giselle  uma meretriz. Eu me entreguei por amor, porque fui enganada!
Lucena chorava descontrolada e tentou agarrar-se ao padre, mas ele a empurrou para o cho e desvencilhou-se de seus braos.
- Sua cadela! - vociferou. - Afaste-se de mim!
- Por favor, oua-me! No tive culpa do que aconteceu, e o que mais quero  vingar-me do homem que me desonrou.
- Quem  ele? Responda-me, vamos. Tenho o direito de saber.
- Seu nome  Ramon de Toledo.
- Aquele boa-vida, vagabundo, egosta? Ora, Lucena, francamente. Ramon de Toledo  um irresponsvel, que dilapidou a fortuna da famlia em poucos anos. Como pde 
envolver-se com ele?
Vendo-a jogada sobre a cama, rosto lvido, olhos inchados de tanto chorar, o corao de Miguez se apertou. Apesar de tudo, ela lhe parecia to indefesa!
- Ele me enganou. Iludiu-me com falsas promessas de amor. Ns estvamos noivos, amos nos casar, e ele prometeu que nunca me deixaria. Num impulso impensado, entreguei-me 
a ele, certa de que nosso casamento me restabeleceria a honra perdida. Mas no foi o que aconteceu. Pouco tempo depois, Ramon veio procurar-me e rompeu o noivado.
- Por qu?
- Ele nunca me explicou. Disse que no me amava, mas eu tenho certeza de que se envolveu com outra mulher. Por que outro motivo me abandonaria s vsperas do casamento?
- Porque j tinha conseguido o que queria.
- Oh! Miguez, no seja cruel! No tive culpa. Meu pai havia at marcado a data do casamento. Como poderia imaginar que ele fosse me abandonar de forma to vil?
- Cachorro! Ele bem merecia morrer.
-  o que penso tambm. Contudo, no sei por onde anda. Desde que me abandonou, nunca mais ouvi falar dele. Nem sei se est em Sevilha.
Ele a fitou enternecido, e a raiva foi cedendo lugar ao compasso de seu corao.
- Lucena - tornou com voz subitamente doce - tenha calma.
No se desespere. Estou aqui e vou ajud-la.
Ela ergueu os olhos, confusa, e balbuciou entre lgrimas:
- No est mais zangado?
Como poderia estar zangado com ela se j a amava loucamente? Ficara decepcionado, era verdade, mas no podia mais viver sem ela. Aproximou-se e tomou-lhe as mos 
entre as suas.
- Minha querida - disse emocionado -, peo que me perdoe.
Por um momento, deixei-me levar pela frustrao de no ter sido o primeiro e nico homem em sua vida. Mas isso no  o suficiente para afastar-me de voc, pois que 
j a amo mais do que a minha
prpria vida. No tema. Nada far com que eu me afaste de voc.
Quanto a seu ex-noivo, fique descansada. Darei um jeito de descobrir o seu paradeiro e envi-lo para a morte. Ele vai arrepender-se amargamente do mal que lhe fez 
um dia e da humilhao que a est fazendo passar.
Lucena chorou agradecida, agarrada s mos de Miguez. Tambm gostava dele, o que fez aumentar ainda mais o seu desejo de vingana. Ramon lhe roubara a virtude e 
a vida, mas no perdia por esperar. Mais cedo ou mais tarde, Miguez o encontraria, e ela mesma escolheria o castigo que gostaria de lhe impingir.





CAPTULO 19
                                                                                                                                                                 

Um ms havia se passado desde que Giselle se casara e, conforme o combinado, Ramon foi procur-la. Belinda, que a havia acompanhado em sua nova casa, facilitou a 
entrada de Ramon no castelo. Passava da meia-noite quando ele entrou em seus aposentos. Giselle o aguardava e atirou-se em seus braos logo que ele atravessou a 
porta.
- Meu querido... - sussurrou, entre beijos e lgrimas. - No agentava mais de tanta saudade!
Ele a abraou com ternura, inebriado com o perfume de seus cabelos.
- Tambm senti muito a sua falta.
Calaram-se com um beijo e se entregaram ao amor. Depois de saciados, permaneceram abraados, aquecidos pelo calor de seus corpos, sentindo o quanto se amavam. Ramon 
ia beijando-lhe os cabelos enquanto dizia:
- Amo-a demais, Giselle. No paro de pensar em voc. No consigo nem dormir direito.
- Tenha calma. Daqui a um ano ou dois, creio que as coisas estaro resolvidas. Padre Miguez estar se ocupando de outras coisas e j ter nos esquecido.
- Ser? E seu marido? Acha que a deixar partir? Voc est casada, e isso  um compromisso para toda a vida.
- Mas no depois da morte. Ou j se esqueceu de nosso plano?
- Que plano?
- No se lembra? Voc disse que daramos um jeito nele. Ramon pigarreou pouco  vontade e considerou:
- No sei se quero fazer isso. No sou assassino.
- Ora, mas que nobre! S que a idia foi sua.
- No  bem assim...
- Voc sugeriu que o matssemos. Pode no ter falado abertamente, mas eu compreendi muito bem o que quis dizer.
- Eu sei, mas falei isso sem pensar, num momento de insensatez. No poderia levar isso adiante. Como lhe disse, no sou assassino.
- Isso no importa. No estou disposta a viver para sempre com um velho. Se no quer me ajudar a mat-lo, tanto faz. Farei tudo sozinha.
- Como?
- Ainda no sei. Mas quando chegar  hora vai saber. O nico problema  que no herdarei nada.
- Por qu? Ele no  rico?
-  muito rico. S que tem uma filha legtima e um filho bastardo, que pode vir a criar problemas mais tarde.
- Deixe para l, Giselle. No precisamos desse dinheiro mesmo. Temos a taverna.
- E eu tenho um pequeno tesouro guardado.
- Um tesouro? Onde?
- Em minha casa.
- Mas voc nunca me disse nada!
- Estou dizendo agora. E digo por que confio em voc como jamais confiei em outra pessoa. Vou contar-lhe onde est escondido, para que voc possa us-lo, se precisar 
- ela fitou o seu rosto espantado e continuou: - Est no poro, no canto esquerdo de quem entra enterrado sob uma pesada estante de livros de magia. Sabe qual ? 
- ele assentiu. - Quando arrastar a estante, voc vai notar um mosaico de pedras no cho. Arranque a do meio e cave um pouco. Logo ir ver um pequeno ba. Dentro 
dele, encontrar uma pequena fortuna em prolas e pedras preciosas: rubis, esmeraldas, diamantes. Tudo o que consegui juntar em quinze anos de dedicao a Esteban.
- E o que fao com tanta riqueza?
- Nada. Como lhe disse, use-a se precisar. Mas cuidado, no v gastar demais. Esse tesouro  a nossa segurana de um futuro feliz. Depois que tudo estiver esquecido 
e que Solano morrer, vamos precisar. No vou entrar em nenhuma briga por herana. Quero voltar para minha casa e levar uma vida tranqila a seu lado. Talvez at 
possamos nos casar depois.
- Est certo, Giselle, no se preocupe. Pode confiar em mim. Do jeito que a amo, ficaria a seu lado mesmo que fosse para mendigar pelas ruas de Sevilha.
Ela o abraou apertado e mudou de assunto:
- E Manuela, como vai?
- Bem... Por que a pergunta?
-  natural que me interesse por quem trabalha para mim, no acha?
- No vai perguntar por Sanchez? Ele tambm trabalha para voc.
Ela deu uma gargalhada e tornou irnica:
- No seja debochado, Ramon. Sanchez no me preocupa.
- E Manuela a preocupa?
- Voc sabe que sim. Pensa que no noto o jeito como o olha?
- Manuela  uma menina...
- Manuela  uma mulher, e voc sabe disso to bem quanto eu, no sabe? - ele no respondeu. - No pense que s porque estou longe, voc poder fazer o que quiser. 
Se souber que voc e Manuela andaram tendo alguma coisa, vo se arrepender.
- Mas o que  isso agora, Giselle? Por que esse cime? J no disse que voc  a nica mulher que eu amo?
Estreitou-a com volpia e beijou-a com ardor, chamando-a novamente para o amor. No queria falar de Manuela. Ela estava tentando seduzi-lo de todas as maneiras, 
mas ele no queria que Giselle desconfiasse. Se ela descobrisse, mandaria a moa embora, e Manuela no tinha para onde ir.



Giselle esqueceu-se dela, perdida nos braos de Ramon. J quase ao amanhecer, Belinda veio busc-lo e levou-o de volta  estrada, em segurana. Com promessas de 
amor, Ramon partiu, para voltar dali a um ms.
Quando Giselle acordou, bem tarde naquele dia, Rbia no estava em casa. Havia sado para um passeio e no quis despert-la, deixando que dormisse o quanto quisesse.
- Boas tardes - disse Diego ironicamente, logo que a viu despontar no alto da escada.
- Onde est Rbia? - indagou Giselle, ignorando o seu sarcasmo.
- Rbia saiu para um passeio. Ao contrrio de voc, no tem motivos para dormir at tarde.
Giselle o fitou desconfiada. Ser que ele sabia de alguma coisa?
- Voc no tem nada com a minha vida. Durmo at a hora que quiser.
- Oh! Sim. Principalmente aps uma noite de excessos, no ?
- Por que no me deixa em paz, Diego? O que foi que fiz a voc?
- A mim, nada. Mas a dom Solano...
- O que quer dizer?
Diego se aproximou e encostou o seu corpo contra a parede, aproximando bem o rosto do dela. Quase lhe tocando os lbios, afirmou:
- Sei que havia um homem em seu quarto esta noite, e, com certeza, no era seu marido.
Ela enrubesceu imediatamente e desferiu-lhe sonora bofetada no rosto, acrescentando entre dentes:
- Canalha!
- No sou eu que estou traindo algum.
Giselle tentou fugir, mas ele a segurou pelo brao e tornou a encost-la na parede.
- No precisa fugir de mim, Giselle. Sou seu amigo.
- O que voc quer de mim? Se pensa que vou deitar-me com voc em troca de seu silncio, est muito enganado. Pode ir correndo contar tudo a dom Solano.
- Ora, ora, mas o que  isso? Por quem me toma? Por algum covarde? No vou me aproveitar de sua, digamos fraqueza, para dormir com voc. No estou interessado.
- No?
- No... Por enquanto. Mais tarde, no sei. Talvez. Voc me agrada, mas, no momento, no sei se seria oportuno.  que gosto de outra, sabe?
- Cachorro! - vociferou Giselle, cada vez mais indignada. - Voc no vale nada!
- No sou muito diferente de voc, no  mesmo?
Giselle se desvencilhou dele e correu para a porta, no mesmo instante em que Rbia vinha chegando.
- Giselle! - espantou-se. - O que foi que houve? Est lvida feita uma cera. Diego, o que foi que disse a ela?
- Nada, irmzinha. Giselle est um tanto quanto nervosa. Creio que no passou bem  noite.
Sem dizer mais nada, Diego passou por elas feito uma bala e sumiu no interior do castelo.
- No deixe que Diego a atormente, Giselle. Ele  um bom rapaz, apesar de um pouco doidivanas. Est com raiva porque a me no quer lhe dar mais dinheiro, e monsenhor 
Navarro o mandou para c para criar juzo.
- Ele  insuportvel.
- Nem tanto. Com o tempo, vai ver que pode tornar-se bastante agradvel.
Alguma coisa no tom de voz de Rbia a impressionou. Seria simples admirao fraterna ou havia algo nas entrelinhas que ela no conseguia ver? Mas no podia ser. 
Ela lhe dissera que eram irmos. No poderiam estar envolvidos amorosa ou sexualmente. Ou ser que podiam?
- Rbia - falou Giselle com certa hesitao -, o que h entre voc e Diego?
- Entre mim e Diego? Nada. Mas que idia. Ns somos irmos, no se lembra? Entre irmos no pode haver nada alm de uma afeio pura e fraterna.
Ela frisou demais aquele no pode o que deixou Giselle deveras cismada. Daquele dia em diante, passou a observar mais aqueles dois. Havia entre eles uma cumplicidade 
genuna; viviam se esbarrando, se abraando, sussurrando pelos cantos. Era realmente muito estranho. Com o passar do tempo, vieram s intimidades, e Giselle estava 
certa de que havia mesmo algo entre eles. Embora no se beijassem ou se tocassem de maneira ostensiva, seus gestos eram por demais reveladores para que Giselle no 
ficasse desconfiada.
No disse nada, porm. No era problema dela. Se Rbia e Diego eram amantes, ela no tinha nada com isso. S que gostava de Rbia e tinha medo do que Solano poderia 
fazer se descobrisse.
- Sabe Giselle - prosseguiu Rbia, com certa tristeza na voz -, quando Diego e eu descobrimos que ramos irmos, j era tarde demais.
- Como assim?
- Isso foi h trs anos, quando minha me morreu. Pode imaginar? Ele j era um homem feito, e eu, uma mocinha ingnua. Foi um choque para ambos.
Giselle silenciou. No queria se envolver naquela histria, ainda mais porque Diego lhe dissera aquelas coisas. Talvez Rbia ficasse com cimes, e ela no queria 
desagradar-lhe. Gostava da moa sinceramente, tinha-a como verdadeira amiga, talvez a nica que fizera em toda a sua vida. Se ela resolvera se envolver com o irmo, 
Giselle no queria se intrometer. J tinha problemas demais.



CAPTULO 20

 A vida de Ramon corria perigo, mas ele nem de longe desconfiava. O prprio Esteban no sabia de nada. Miguez, que desconhecia o romance entre Ramon e Giselle, no
partilhara nada com o amigo. Sabia que Esteban no aprovava seu envolvimento com Lucena e queria fazer tudo sem precisar contar com a sua ajuda.
Esteban, porm, percebia certa inquietao em Miguez. Ele continuava exercendo suas funes como sempre fizera. Talvez at com mais dedicao, chegando mesmo a demonstrar 
certos requintes de crueldade com homens de reputao duvidosa, os lascivos, os devassos. As mocinhas virgens j no o interessavam. Quando chamado para atestar 
a virgindade das meninas, Miguez se desculpava, alegando cansao, passando a vez para os carrascos encarregados de tal misso.
Tudo isso foi preocupando Esteban. Quando lhe perguntava o que estava acontecendo, Miguez sempre se desculpava com a justificativa de que estava trabalhando muito, 
embora Esteban soubesse que ele estava mentindo.
- Essa moa ainda vai acabar com voc - disse ao amigo, enquanto caminhavam pelas alamedas do Tribunal.
- Que moa?
- 

- 
- No se faa de desentendido, Miguez. Estou falando de Lucena.
- Ela no tem nada com isso.
- No tem? Ento, por que voc est to diferente? Nem parece mais o mesmo, no me procura mais para conversar. O que foi que houve? Ser que ela o enfeitiou?
- Meu amigo, no diga uma coisa dessas! Lucena  apenas uma criana e est sob a minha proteo.
- Voc  um homem apaixonado, Miguez. Tenha cuidado.
- No precisa se preocupar comigo. Sei o que estou fazendo.
- Espero que saiba mesmo - suspirou com tristeza e arrematou: - Mais uma coisa. Blanca, noiva de dom Ferno, vai ser executada domingo, no prximo auto-de-f. Conto 
com a sua presena.
- Ela confessou?
- Confessou.
Miguez balanou a cabea em assentimento, e os dois se separaram. Ambos tinham importantes interrogatrios a fazer.  noite, como de costume, Miguez foi ter com 
Lucena e participou-lhe a execuo de Blanca. Lucena chorou muito, triste por no poder cumprir a promessa que fizera ao pai de libertar sua noiva.
- No chore Lucena - tranqilizou Miguez, abraando-a com ternura. - A morte de ambos ainda ser vingada.
- Quando? Esteban  seu amigo. No vejo voc tomar nenhuma providncia contra ele.
- Minha querida - tornou quase em tom de desculpa -, no h nada que possamos fazer contra Esteban. Ele  cardeal, inquisidor conceituado e meu amigo. E depois, 
no tem culpa de nada...
- Como no tem? Pois se foi ele quem torturou meu pai e Blanca, quem o colocou naquele maldito sarcfago, quem vai mandar Blanca para o auto-de-f! Como voc pode 
dizer que ele no tem culpa de nada?
- Esteban  um inquisidor, est cumprindo seu dever. No fosse a acusao que fizeram contra seu pai e Blanca, ele jamais os teria mandado prender. Fez-se o que 
fez, foi porque algum o instigou algum inventou aquelas histrias todas, forjou provas, contou casos absurdos de heresia. Esteban, zeloso cumpridor das leis catlicas, 
s fez seguir o Manual dos Inquisidores e no teve outro remdio seno cumprir fielmente as suas determinaes. O que voc esperava que ele fizesse? Que ignorasse 
os mandamentos eclesisticos?
- Mas meu pai no fez nada...
- Aos olhos da Igreja, ele foi um grande pecador, pois se associou a Blanca, que  descendente de mouros. Mas quem o denunciou? Quem levou o seu nome s Mesas Inquisitoriais? 
No foi Esteban, porque ele nada sabia a respeito de seu pai - mentiu e olhou para ela, satisfeito por estar convencendo-a. - A nica culpada pela morte de seu pai 
e de Blanca  aquela ordinria da Giselle. Foi ela quem seduziu seu pai, sabe-se l com que propsitos, para denunci-lo posteriormente como herege.  ela que merece 
ser punida. Ela  a nica responsvel pelo que aconteceu a voc e a sua famlia. Pela morte dos seus, pela sua misria. Giselle  uma mulher demonaca, e  contra 
ela que voc deve voltar todo o seu dio.
Com os olhos injetados de sangue, Lucena fechou a mo e deu um soco na mesa, rugindo com todo o dio que era capaz de sentir:
- Quero v-la morta, Miguez! Quero a cabea de Giselle!
-  isso mesmo. Giselle h de pagar por todo o mal que lhe fez.
Lucena tremia de tanto dio, atraindo para si as mais variadas entidades das sombras, inclusive seu prprio pai. Os espritos sofredores, levados  morte pelas mos 
de Esteban, atravs da perfdia de Giselle, na mesma hora acorreram. Os pensamentos de Lucena, imediatamente, sintonizaram com o dio daquelas criaturas que, movidas 
pelo desejo de vingana, colaram-se a ela, lideradas por seu prprio pai, cujo dio chegava a fazer com que ela sentisse tonteiras. Dom Ferno estava to enfurecido 
que seria capaz de tudo para se vingar de Giselle. Queria-a morta. Queria-a nas trevas. Queria-a escrava dos espritos maus, para que ela sofresse e agonizasse nas 
cavernas mais profundas e ftidas do umbral.
Miguez sabia que seria difcil apanhar Giselle. Ela estava casada com Solano Daz, sob a proteo de Esteban. Precisava fazer tudo de forma a no provocar a ira 
do amigo. No queria perder a amizade de Esteban. Precisava encontrar um jeito de acus-la sem se sujar, sem ter que forjar provas ou testemunhas.
Alm disso, Miguez ainda tinha que se ocupar de Ramon. No sabia onde o rapaz se encontrava e considerava-o um problema menor, mas no podia se esquecer dele. No 
querendo mais conversar com Esteban sobre nada que atrasse a sua ateno para Lucena, Miguez comeou a investigar, por conta prpria, o paradeiro de Ramon. Indagou 
aqui e ali, mas ningum sabia nada a seu respeito. Ele no recebera nenhuma acusao, e seu nome sequer fora mencionado no processo movido contra dom Ferno.
Quando Esteban descobriu sobre suas investigaes, foi perguntar-lhe o que estava acontecendo:
- Miguez, meu amigo, por que agora est to interessado em Ramon de Toledo?
O outro tentou desconversar, mas viu-se encurralado e respondeu com aparente displicncia:
- Ele foi noivo de Lucena. No sabia?
- Sabia, sim, mas, e da? No temos nada contra ele. Ramon  apenas um folgazo. No tem interesse para a Igreja.
-  apenas curiosidade.
- Deixe Ramon de lado. Ele no tem nada que lhe interesse.
Por detrs de Navarro, os espritos das sombras, liderados por dom Ferno, comearam a agir. Enquanto Giselle estava a seu lado, manipulando os espritos a seu favor, 
ambos estavam como que protegidos. Mas agora, com Giselle longe, esses espritos deixaram abruptamente de receber os seus agrados, o que no os deixou nada satisfeitos. 
Giselle lhes prometera at o sangue de Lucena e de Miguez, o que j no era mais capaz de cumprir, deixando frustradas as suas expectativas. Tinham como certo que 
iriam sugar os fluidos vitais de pessoas encarnadas, em lugar de animais, e ficaram zangados e com raiva ao constatar que nada mais receberiam. Giselle agora estava 
casada e no podia mais invoc-los ou lhes oferecer presentes.
Giselle j no lhes interessava mais. Precisavam agora de outra fonte de energia e acabaram se associando aos espritos que haviam desencarnado sob a interveno 
de Giselle. Comearam ento a sugar as energias dos encarnados, principalmente de Esteban. Com isso, veio para eles tambm o desejo de vingana. Giselle os abandonara, 
suprimira o alimento que os mantinha vivos. Por isso, precisava pagar. Ningum se compromete com os espritos das trevas da forma como Giselle se comprometera, e 
simplesmente os abandona. Ela no tinha elevao moral para isso. Nem o seu pai, esprito de luz e esclarecido, poderia livr-la de sua perseguio. Porque Giselle 
no merecia. Sequer acreditava que pudesse merecer.
Esses espritos, com raiva de Esteban tambm, puseram-se a atuar sobre ele, e o cardeal, de uma hora para outra, comeou a sentir estranho mal-estar. Vivia com dores 
de cabea, tinha freqentes palpitaes, era acometido por inexplicveis tonteiras. Consultou o mdico da abadia, mas ele nada pde constatar. Receitou um xarope 
amargo e recomendou-lhe repouso. Esteban estava trabalhando demais.




CAPTULO 21

Mais um ms havia se passado, e Solano voltou de sua viagem  frica. Chegou cansado e logo foi recebido por Rbia, que correu a preparar-lhe um escalda-ps bem 
quentinho. Sentado confortavelmente entre almofadas macias, Solano se deliciava com a gua tpida que acariciava seus ps cansados. A seu lado, Giselle no fazia 
o menor esforo para aparentar alegria. Estava mesmo bastante contrariada. Ramon chegaria no dia seguinte e teria que voltar sem que se falassem.
- Como foram as coisas na minha ausncia? - perguntou de olhos fechados.
- Correu tudo bem, papai - apressou-se Rbia em responder.
- E voc, Giselle? Deu-se bem com minha filha?
- Otimamente. Rbia  uma moa gentil e muito agradvel.
- Fico feliz que se tenham entendido.
-  gentileza de Giselle, papai. Ela  que  uma pessoa maravilhosa.
Giselle sorriu carinhosamente para Rbia, que lhe devolveu o sorriso com outro, ainda mais encantador.
- Onde est Diego?
- Saiu a cavalo. No deve tardar.
Cerca de quinze minutos depois, Diego apareceu. Vinha esbaforido e suado, a pele morena tostada de sol. Aproximou-se do pai e estendeu-lhe a mo, cumprimentando-o 
com um formalismo disfarado:
- Dom Solano... Como est?
O velho soltou um sorriso prazeroso e convidou o filho a sentar-se ao seu lado. Durante as duas horas seguintes, distraiu-se a contar-lhes suas aventuras, s quais 
ningum prestava ateno,  exceo, talvez, de Rbia. Giselle se mostrava aborrecida, bocejando de vez em quando e fingindo cochilar na poltrona. Solano no lhe 
deu importncia e prosseguiu com sua conversa enfadonha.
 noite, Solano a procurou em seu quarto. Entrou afoito, louco para possu-la. Embora enojada, Giselle no teve sada. Foi obrigada a submeter-se passivamente, mas 
no fez o menor esforo para fingir que estava gostando. Solano, porm, nem se deu conta disso. Queria apenas satisfazer seus desejos e, depois que terminou, virou 
para o lado e dormiu.
Aproveitando que ele roncava, Giselle jogou um manto sobre os ombros e saiu em busca de Belinda. Precisava dar-lhe ordens para avisar Ramon que no entrasse. No 
podia arriscar-se. Ao passar pelo quarto de Rbia, ouviu vozes abafadas. Estacou abruptamente, indecisa, pensando no que fazer. Rapidamente, tomou uma deciso e 
foi encostar o ouvido  porta. Do lado de dentro, duas vozes se elevavam. Rbia conversava com Diego, e eles pareciam discutir. Em dado momento, fez-se silncio, 
Giselle no podia ouvir mais nada. Ficou ainda alguns minutos com o ouvido colado  porta, tentando escutar algum rudo, mas nada. S depois de muito tempo foi que 
lhe pareceu ouvir um gemido de prazer. No tinha mais dvidas. Rbia e seu irmo Diego eram amantes.
Em silncio, continuou seguindo pelo corredor, at alcanar a ala dos criados. Entrou no quarto em que Belinda dormia, ps a mo na sua boca, para que ela no gritasse, 
fazendo-a despertar assustada. Giselle fez-lhe sinal de silncio e mandou que se levantasse. Cuidadosamente, Belinda obedeceu e a seguiu. Foram para uma sala reservada 
e, aps certificar-se de que ningum a ouvia, Giselle disse rapidamente:
- Belinda, amanh, quando Ramon chegar, avise-o de que Solano voltou de viagem. Mande-o embora e diga-lhe para aguardar o meu chamado.
Voltou para seus aposentos, mas no escutou mais vozes no quarto de Rbia. Na certa, j deviam ter terminado. Pensando nos dois juntos, sentiu imenso desejo. H 
muito no se encontrava com Ramon, e o sexo mal feito de Solano s fez aguar-lhe ainda mais a volpia. Levou a mo  aldrava e quase a empurrou, mas mudou de idia. 
A porta deveria estar trancada e, mesmo que no estivesse, o que diria a Rbia e Diego? Que os ouvira se amando e se enchera de desejo?
Em silncio, retornou a seus aposentos e deitou-se ao lado de Solano. Ele havia ferrado no sono e dormira em sua cama, para seu desagrado. Ela passou a noite em 
claro, pois ele roncava feito um porco, e ela no conseguia dormir. Na manh seguinte, bem cedo, ouviu quando ele despertou e fingiu-se adormecida. Ele se levantou 
ruidosamente, apanhou as roupas e bateu a porta, e Giselle concluiu que ele seguira para seus aposentos. Pensou que agora conseguiria dormir um pouco, mas o odor 
ftido que ele deixara sobre seus travesseiros a enjoara. Solano cheirava a suor e bebida, o que a enojava ainda mais.
Furiosa, Giselle se levantou de um salto e arrancou os lenis da cama, atirando para longe os travesseiros. Tornou a deitar-se sobre o colcho nu, pousando a cabea 
sobre o brao e, finalmente, adormeceu. Quando despertou, o sol j ia a pino, e ela sentiu fome. Aprontou-se correndo e desceu para a sala, onde a famlia se encontrava 
reunida para o almoo.
- Acordou cedo hoje - ironizou Diego.
- Deixe-a em paz, Diego - repreendeu Rbia. - Vamos, Giselle, sente-se aqui.
Giselle sentou-se na outra cabeceira, do lado oposto de Solano, que no lhe prestou muita ateno. Deu-lhe um sorriso insosso e continuou comendo, e a criada ps-se 
a servir Giselle. Ao dar a primeira garfada, pensou que iria desmaiar. A cabea comeou a rodar, sentiu um forte enjo e teve vontade de vomitar. Levou a mo  boca 
e levantou-se apressada, correndo em direo  cozinha. Apanhou uma bacia e vomitou diversas vezes, espantada com tamanho mal-estar. Ainda estava ofegante quando 
ouviu voz de Rbia:   
- O que foi que houve Giselle? Est tudo bem?
Giselle no respondeu. A cabea toda rodava, seu estmago doa, e Rbia continuou:
- Foi algo que comeu?
- No... No sei... - Giselle forou a resposta, doida de vontade de sair correndo dali.
- No estar grvida?
- Grvida, eu?
- Se estiver, no diga nada a papai.
- Por qu?
- Ora, Giselle, meu pai no tem mais idade para engravidar ningum. Nem sei se consegue manter relaes com voc.
Com indescritvel assombro, Giselle contestou:
- Engana-se, Rbia. Seu pai ainda  um homem viril.
        Aquela revelao deixou Rbia surpresa e feliz, e ela auxiliou a outra a levantar-se. Giselle parecia satisfeita. Um filho at que no seria m idia. Herdaria 
tudo em igualdade de condies com Rbia, e ela se tornaria uma mulher extremamente rica. Ainda mais porque sabia que o filho no era de Solano, mas de Ramon. Estava 
certa disso. Se estiver grvida, Ramon era o pai da criana, e aquilo a encheu de felicidade. Pela primeira vez, acalentou a idia de ser me. Teria aquele filho. 
No propriamente para herdar os bens de Solano. Mas porque era fruto de seu amor e de Ramon, e ela no poderia matar uma parte deles dois.
De volta  sala, Solano se levantou e indagou com certa preocupao:
- Sente-se bem?
- Sim... Acho que sim...
- Ser que Rbia vai ganhar um irmozinho? - disparou Diego.
Giselle e Rbia fuzilaram-no com o olhar, enquanto Solano batia palmas de alegria.
- Ser? - exultou. - Ser que ainda poderei ser pai a essa altura da vida?
- No  nada disso, papai - cortou Rbia. - Giselle sentiu um passageiro mal-estar.
- Mas pode ser gravidez, no pode?
- Bem, tudo  possvel.
- Ento, vou mandar chamar um mdico para examin-la. Se voc estiver grvida, pode ir comeando a fazer repouso.
Giselle pensou em contestar, mas achou que havia algo de bom em tudo aquilo. Talvez assim Solano a deixasse em paz e no a procurasse mais. Ela teria sempre a desculpa 
dos enjos para dar, e ele, orgulhoso do filho de outro, no a aborreceria e acabaria procurando uma das criadas para se aliviar.
Com o auxlio de Rbia, Giselle voltou para seu quarto. Os lenis j haviam sido trocados, e ela se acomodou sobre os travesseiros, pousando a cabea para descansar. 
Realmente, sentia-se presa de um esgotamento sem igual.
- Por que disse aquelas coisas? - perguntou a Rbia, logo que esta se acomodou a seu lado.
- O qu?
- Por que acha que o filho no  de seu pai? 
- E ?
- No sei.
- No sabe ou no quer dizer?
- O que faria se no fosse?
- Nada. No tenho nada com isso.
Giselle fitou-a abismada. Rbia era uma moa muito madura para sua idade.
- No quero que voc pense mal de mim.
- No penso nada. Alis, no sou a pessoa mais indicada para julgar quem quer que seja.
- Por que diz isso?
- Conhece algum que seja amante do prprio irmo? Giselle abriu a boca, estupefata, mas acabou por confessar:
- Eu j desconfiava. Ouvi-os juntos a noite passada.
- Ouviu? 
- Sim.
- E no ficou chocada?
- Por que deveria? Como voc, tambm no posso julgar ningum. At j perdi a conta dos amantes que tive. Por que a julgaria pior do que eu?



Giselle nem sabia por que dizia aquelas coisas. Parecia-lhe que j conhecia Rbia h muitos anos e que podia contar com ela. De repente, viu-se lhe contando detalhes 
de sua vida que jamais revelara a ningum, nem a Esteban, nem a Ramon. Com Rbia era diferente. Era mulher e parecia dividir com ela a cumplicidade dos anseios femininos.
- Voc  uma pessoa especial, Giselle. Gosto de voc.
- Tambm gosto muito de voc, Rbia. Rbia apertou a mo da outra e continuou:
- Quando Diego e eu nos apaixonamos, no sabamos que ramos irmos. Ele vinha sempre com monsenhor Navarro, e ns acabamos sendo criados juntos. Para mim, ele era 
meu amiguinho mais velho, responsvel pelas brincadeiras mais fantsticas. At que os amiguinhos cresceram, e eu me tornei mulher. J no via mais em Diego o companheiro 
de folguedos. Via nele o homem viril e atraente em que se transformara. Um dia, o inevitvel aconteceu. Estvamos passeando a cavalo, fazia calor e fomos nadar. 
Imagine-se totalmente despida dentro de um riacho, em companhia de um homem maravilhoso! Pois foi o que aconteceu. A partir de ento, tornamo-nos amantes. Pensvamos 
at em nos casar. J amos falar com meu pai, quando minha me morreu, e ficamos sabendo da verdade. Foi um choque para ns. Cheguei a ficar doente. Meu pai ficou 
preocupado, mas jamais imaginou que ns estivssemos tendo um romance. Aos poucos, fui-me curando e tentei afastar-me de Diego. Mas no consegui. Assim como eu, 
ele tambm se apaixonara. Ficamos longe por cerca de dois meses. Depois disso, voltamos a nos encontrar. Papai nos revelara a verdade tarde demais. O inevitvel 
j havia acontecido, e sabermo-nos irmos no foi suficiente para sufocar o nosso amor e o nosso desejo. Assim, assumimos o pecado e a culpa, e continuamos nosso 
relacionamento.
- Isso  muito triste. Vocs devem ter sofrido bastante.
- Voc nem imagina o quanto. Sabemos que o que fazemos  errado e temos certeza de que iremos para o inferno. Mas no podemos mais nos afastar. No  justo. Papai 
deveria ter-nos contado a verdade h mais tempo. Teria evitado que nos atirssemos no pecado.
- Seu pai sabe?
- Deus me livre! Acho que papai morreria ou nos mataria. Ele nem desconfia, e  bom que continue assim.
- No que depender de mim, Rbia, ele jamais saber de nada.
- E quanto a seu amigo da outra noite, fique sossegada. - prosseguiu Rbia com ar maroto. - No precisa me olhar com essa cara de espanto. Diego me contou tudo.
Embora envergonhada, Giselle ficou feliz. Via em Rbia uma amiga sincera, algum em quem podia confiar. Ela no sabia como Rbia conseguia fazer aquilo. Manter um 
caso com seu prprio irmo, apoiar a gravidez adulterina da madrasta, guardar segredo sobre seu envolvimento com outro homem e, ainda assim, amar o pai. Rbia era, 
realmente, uma pessoa singular, e Giselle ficou feliz por t-la como amiga e aliada.
A gestao tambm a alegrara. Nunca antes pensara em levar avante nenhuma gravidez. Quanta e quanta poo no havia tomado para livrar-se dos fetos indesejados? 
Mas agora, sentia que no precisava mais disso. No precisava mais de nada nem de ningum. Mesmo seus amigos das trevas, que h anos a haviam servido, no lhe importavam 
mais. Desde que chegara a Cdiz, Giselle deixara de lado suas prticas de magia, com medo da reao de Solano. A princpio, ficara temerosa. Mas agora, segura do 
amor de Ramon, tinha certeza de que no precisaria mais deles. E nem de longe lhe passava pela cabea que no poderia abandon-los como se eles fossem trapos velhos. 
Os espritos das sombras, revoltados com o pouco caso e a ingratido de Giselle, cada vez mais se voltavam contra ela, tramando, sem que ela percebesse, os acontecimentos 
funestos com que pretendiam vingar-se.
Ao receber a notcia de que no poderia ver Giselle naquela noite, Ramon quase desesperou. Pensou mesmo em invadir o castelo e ir ao encontro de sua amada. A muito 
custo Belinda conseguiu cont-lo, e ele voltou para casa mais frustrado do que nunca.
No dia seguinte, entrou na taverna triste e cabisbaixo, sem falar com ningum. Apanhou sua costumeira caneca de vinho e foi sentar-se  mesa de sempre, nem ligando 
para as contas que precisava conferir. S pensava em Giselle. Passara o ms alimentando o desejo de v-la e de tom-la em seus braos, e partira para Cdiz com o 
corao aos pulos. E tudo para qu? Para ser despachado pela escrava, com a desculpa de que Solano havia voltado e era perigoso. Na certa, quela hora, Giselle estava 
deitada em seu leito, recebendo o amor que deveria ser dele.
Pensando no calor do corpo de Giselle, em seus beijos, seus cabelos macios, pensou que fosse enlouquecer. Ardendo de desejo, s pensava em t-la em seus braos novamente. 
Comeou a beber e bebeu alm da conta. J fragilizado, voltou  ateno para Manuela. Naquela noite em particular, ela estava deveras sedutora. Aproximou-se dele 
e danou do jeito mais sensual que podia, provocando-o com seu corpo firme e rijo.
Ele no resistiu. Puxou-a para si e beijou-a com volpia. Mal contendo o desejo, levou-a para a casa de Giselle e amou-a com ardor. Naquele momento, no pensava 
em Giselle. Sabia que tinha Manuela em seus braos. Mas a solido, a falta que a moa lhe fazia, o desejo incontrolvel, tudo isso hes facilitou a aproximao. Durante 
algumas horas, desligou-se de Giselle, feliz nos braos de Manuela. No estivesse to apaixonado, teria seguido com ela. Mas no podia. Era louco por Giselle e jamais 
permitiria que ela descobrisse o que havia acontecido.





CAPTULO 22


No sei o que est acontecendo comigo - queixou-se Esteban a Miguez. - H muitos dias no me sinto bem; a cabea me di, sinto um esmorecimento...
- O mdico disse que voc anda trabalhando demais - censurou Miguez com bonomia. - Deve descansar.
- Mas eu tenho que comparecer ao auto-de-f. Tenho trs condenados na execuo de hoje, incluindo Blanca Vadez.
- Pode deixar que eu mesmo cuide de tudo. Tambm tenho um condenado hoje. Coisa simples, mas estarei presente mesmo assim.
- Mas Miguez, o inquisidor-geral est em viagem a Madri. Era de se esperar que eu o substitusse.
- Eu mesmo o substituirei. Voc deve ficar e descansar.
- Padre Miguez tem razo - acrescentou Juan que, at ento, permanecera alheio  conversa. - O senhor precisa descansar.
Esteban soltou um suspiro profundo e resignado. Fitou Miguez e Juan, e deu de ombros, desanimado.
- Est certo. Convenceram-me. Mas Juan deve ir junto, para me representar.
- Irei monsenhor, se for de sua vontade.
Pouco depois, Miguez e Juan partiam junto rumo  praa onde havia sido montado o auto-de-f. O padre cumprimentou os demais, pediu licena e foi sentar-se na poltrona 
reservada a Esteban, anunciando que o representaria naquele dia. Juan sentou-se um pouco mais atrs, como de costume, e Miguez deu ordens para que se iniciassem 
as execues.
Eram cinco, no total. Trs de Esteban, um dele e outro de padre Donrio. Naquele dia, as execues seriam todas realizadas pelo machado. Os condenados j no estavam 
muito bem e poderiam acabar morrendo antes mesmo de chegar  fogueira, o que seria um desperdcio. Ao menos a lmina do machado era mais rpida e garantiria o espetculo 
da morte.
Blanca era a terceira na fila, ltima de Esteban. Vinha com sua veste branca, o crime que praticara estampado em vermelho na tnica, para que todos conhecessem a 
sua heresia. Ao olhar para ela, Miguez sentiu uma pontada de tristeza. Ao saber do acontecimento, Lucena se sentiria extremamente infeliz. Blanca estava muito ferida 
e fraca, mal se sustinha em p sem a ajuda dos carrascos. Ao chegar a sua vez, subiu ao cadafalso com passos trpegos e olhou para frente, tentando enxergar o caminho 
por onde deveria seguir. Mas os olhos feridos pela brasa do ao j no podiam ver mais nada, e ela tropeou e caiu, arrancando estrondosa gargalhada do pblico presente. 
Bateu com a cabea no cho e desmaiou, e o verdugo ps-se a cutuc-la com o p, a fim de se certificar de que ainda vivia.
Comearam ento os apupos. A multido, sedenta de sangue, queria ver o espetculo macabro, e a queda de Blanca os fizera pensar que ela havia morrido antes da hora. 
Por mais que o carrasco a chutasse, ela no se movia. Um filete de sangue escorria de sua testa, e o homem olhou para Miguez e deu de ombros, como a perguntar o 
que deveria fazer.
Na mesma hora, Miguez se levantou e se aproximou do corpo cado de Blanca. Ajoelhou-se ao lado dela e ps o ouvido em seu peito, a fim de escutar as batidas de seu 
corao. Efetivamente, podia ouvir seus fracos batimentos cardacos e certificou-se de que ela ainda estava viva. Tornou a olh-la, penalizado. Sentia muita tristeza 
por Blanca, no pelo seu sofrimento, mas por todo sofrimento que causara a sua Lucena. Olhando para ela com os olhos rasos d'gua, tomou uma deciso. No momento 
em que o mdico oficial da Inquisio se aproximava, Miguez levantou-se decidido e declarou com ar solene:
- No adianta mais. Esta aqui est morta.
Foi um desespero. O pblico gritava e vaiava, exigindo que fosse derramado o sangue da condenada. O mdico ainda tentou experimentar-lhe o corao, mas Miguez segurou 
o seu brao, afirmando com tanta convico, que nem o mdico teve dvidas:
- J disse que ela est morta.
Nova comoo tomou conta do pblico, e Miguez chegou a pensar que eles fossem tomar conta da praa. Rapidamente, deu ordens a um dos homens que tirasse Blanca dali 
e a levasse de volta ao calabouo.
- Padre - interveio o homem -, deixe que a ponha diretamente na carroa com os demais corpos.
De carroa, os corpos seriam levados para um local afastado, onde seriam cremados. Miguez no queria que Blanca fosse para l. Ela estava viva, mas apenas ele sabia 
disso. Contudo, no podia despertar a ateno de ningum. Com um aceno de cabea, concordou que o homem a levasse, e Blanca foi atirada na carroa juntamente com 
os demais corpos.
Em seguida, Miguez deu ordens para que prosseguissem com o espetculo funesto. Outro condenado foi trazido e executado, no sem antes ser levemente aoitado, a fim 
de que a turba se contentasse com o seu flagelo e no lamentasse tanto a morte intempestiva de Blanca. Ao final da carnificina, corpos e cabeas se amontoavam na 
carroa, numa massa disforme de carne, sangue e ossos.
Logo aps a cerimnia de encerramento, Miguez correu em direo  carroa, tomando cuidado para que ningum o visse, principalmente Juan. O ltimo corpo j havia 
sido atirado l dentro, e o encarregado se preparava para partir em direo ao campo de cremao quando Miguez o interrompeu.
- Espere um instante - falou apressado.
O homem apertou as rdeas, segurando os cavalos.
- Algum problema, padre?
- Sim. Esta aqui vai para outro lugar.
- 

- 
Apontou para Blanca e esperou. O homem, sem nada entender, quis protestar:
- Mas padre,  uma herege, no pode ser enterrada em campo santo.
- Faa o que eu disse homem! E depois, quem foi que disse que ela vai para campo santo?  apenas um favor que estou fazendo a alguns parentes.
O homem estacou indeciso.
- Tem certeza?
- No discuta comigo, rapaz. Faa o que estou mandando.
        Aproximou-se do homem e estendeu-lhe uma bolsinha, que ele apanhou com um sorriso de cobia, exibindo uns poucos dentes irregulares e amarelos.
- O senhor  quem manda padre. Aonde quer que a leve?
        Miguez olhou de um lado a outro, a fim de se certificar de que ningum estava olhando. No podia mandar Blanca para sua casa; ela j nem tinha mais casa. 
Alm disso, o homem podia dar com a lngua nos dentes, o que acabaria por compromet-lo. Mas ele estava com pressa. Blanca podia acordar e pr tudo a perder. Num 
gesto rpido e preciso, subiu na carroa ao lado do outro e ordenou incisivo:
- Toque os cavalos. Direi onde deve parar.
O homem ps os animais em movimento e seguiu adiante,  espera que Miguez lhe dissesse o que fazer. A certa altura do caminho, ouviram gemidos angustiados e olharam 
para trs ao mesmo tempo. Blanca acabara de despertar e tentava entender o que estava acontecendo. Cega, no sabia onde estava, mas sentia o cheiro e o visco do 
sangue dos executados colado em seu corpo.
- Ei! - exclamou o homem, atnito, freando os animais. - O que est acontecendo aqui?
Miguez fitou-o apavorado. O que deveria fazer? Pensou em saltar sobre ele e mat-lo, mas o homem era mais forte e, na certa, muito mais hbil do que ele. No tinha 
sada. Virou-se para ele e falou apressadamente:
- No diga nada. Se souber guardar segredo, farei de voc um homem rico.
O outro o fitava com um brilho estranho no olhar, j antevendo a fortuna que iria arrancar daquele padre.
- Olhe padre, no quero que pense que sou um homem ganancioso. Mas o meu silncio vai custar caro.
- No se preocupe. Posso pagar. Agora, faa exatamente como eu mandar.
Miguez deu-lhe ordens para deix-los prximo a sua casa em San Martin e depois seguir para o local onde os corpos seriam cremados, com a incumbncia de no dizer 
nada a ningum. Para todos os efeitos, apenas quatro pessoas haviam sido executadas naquele dia. Ningum de nada sabia e ningum nada iria perguntar.
- S uma coisa - alertou Miguez -, se disser uma palavra disso a algum, nosso trato est desfeito. Se, ao contrrio, mantiver a sua palavra, garanto que no ir 
arrepender-se.
- Pode deixar padre. No direi nada a ningum.
Soltou um riso sarcstico e tornou a olhar para Blanca, tentando imaginar que interesse um padre poderia ter numa esfarrapada moribunda feito aquela. No perguntou 
mais nada, porm. S pensava no ouro que iria tirar de Miguez. Em sua cabea j se via milionrio, chantageando o padre cada vez que precisasse de mais dinheiro. 
No diria nada a ningum. No queria compartilhar com outros a fortuna que merecia ser apenas dele.
Blanca, por sua vez, embora no visse nada, ouvia tudo o que eles diziam e, com medo do que estivesse acontecendo, encolheu-se toda na carroa e ficou chorando de 
mansinho. Cerca de uma hora depois, pararam alguns metros antes da casa de Lucena. Miguez saltou rapidamente e ajudou Blanca a descer, amparando-a para que no casse.
- Pode andar? - perguntou a ela.
Ela assentiu agarrada ao seu brao, e ele passou a mo ao redor de sua cintura, apertando-a de encontro a seu prprio corpo. Depois, virou-se para o homem e finalizou:
- Amanh receber seu pagamento. Encontre-me ao anoitecer, nas runas do velho moinho, perto do riacho Doce. Sabe onde fica?
- Sim.
- timo. V sozinho.
- 

- 
Deu-lhe as costas e foi amparando Blanca pela estrada, at que chegaram a sua casa. Bateu  porta e Consuelo veio abrir, exclamando com espanto:
- Minha Nossa Senhora, padre Miguez! O que  isso?
- Ajude-me, Consuelo, rpido!
Ouvindo aquela gritaria, Lucena veio correndo l de dentro. Mal podia acreditar que era Blanca quem estava ali, mais morta do que viva. Olhou para Miguez emocionada 
e atirou-se em seus braos, naquele momento acreditando no quanto ele a amava, sentindo que o amava tambm.
Levaram Blanca para um dos quartos e a acomodaram na cama, sob almofadas e lenis macios. Consuelo correu a preparar-lhe uma boa refeio, enquanto Lucena, em lgrimas, 
limpava-lhe o sangue e as feridas espalhadas pelo seu corpo esqulido. Os olhos baos pareciam vidrados, fitando o vazio, o que s fez aumentar o dio de Lucena 
por Giselle.
Blanca mal falava. Conseguia apenas balbuciar umas poucas palavras, mas reconheceu a filha de seu noivo e pde murmurar um obrigado quase inaudvel. Depois de limpa 
e alimentada, adormeceu instantaneamente, como h muito no fazia. Depois que ela dormiu, Miguez contou a Lucena tudo o que havia acontecido, e ela se emocionou 
ainda mais. S mesmo um amor verdadeiro para assumir os riscos que ele assumira.
- E o tal homem da carroa? - quis saber Lucena, depois que se acalmou.
- Amanh vou fazer o pagamento.
- Vou com voc.
- Isso  que no!  perigoso.
- Se voc pde se arriscar por mim, tambm posso me arriscar por voc. E depois, no se preocupe. No pretendo aparecer. Quero apenas estar ao seu lado.
Miguez sorriu agradecido. No dia seguinte, ao cair da noite, ele e Lucena partiram rumo ao local combinado para o encontro. O moinho estava abandonado e quase desabando, 
e ningum se atrevia a entrar ali, com medo de acabar soterrado. O homem ainda no havia chegado, e Miguez se acomodou sobre uma mureta de pedras, enquanto Lucena 
se ocultava nas sombras, do outro lado.
No tardou muito, e o homem apareceu.
- Boa noite, padre - cumprimentou irnico.
Sem lhe prestar ateno, Miguez tornou de m vontade:
- Trouxe algum com voc?
- No. Vim sozinho, conforme o combinado.
- E contou sobre isso a mais algum?
- A ningum.
- timo.
Miguez enfiou a mo dentro da capa e dela retirou outra bolsinha de couro, mais pesada e recheada do que a primeira. O homem experimentou-lhe o peso, fitou Miguez 
com olhos vidos e deu um sorriso que denotava toda a sua ambio. Ao abrir a boca para dizer alguma coisa, seus olhos se arregalaram e ele soltou uma tosse seca, 
parecendo sufocar. Pouco depois, cambaleou para frente, fitou o rosto espantado de Miguez, que recuou aterrado, sem entender o que estava acontecendo, e murmurou 
agonizante, no exato instante em que tombava bem diante de seus ps:
- Desgraado...
Miguez fitou primeiro o corpo inerte do homem e depois levantou os olhos lentamente, mal acreditando no que acabara de acontecer. Parada diante dele, Lucena segurava 
uma faca reluzente, ainda suja com o sangue do homem.
- Ele ia acabar nos entregando... - disse ela, com olhar febril.
Embora assustado, Miguez abaixou-se perto do corpo do homem e retirou-lhe a bolsinha, ainda presa entre seus dedos. Aquilo no estava nos seus planos, mas fora melhor. 
Livrara-se de um problema. E se o homem, mais tarde, comeasse a pedir mais e mais dinheiro em troca de seu silncio? Segurando firmemente a bolsinha, correu para 
Lucena, tirou-lhe a faca das mos e atirou-a sobre o corpo inerte do homem, abraando-a com ternura.
- Voc  muito esperta e corajosa, Lucena - disse cheio de admirao. - Estou orgulhoso de voc.
Voltaram para casa, pensando no que deveriam fazer. E se algum descobrisse Blanca ali? Agora que Lucena conseguira salv-la, no queria perd-la novamente. Quando 
j no tinha mais esperanas, acabara por cumprir parte da promessa que fizera ao pai. Ela prometera, em seu estertor de morte, salvar Blanca e vingar-se de Giselle. 
Blanca j estava salva. Giselle, em breve, estaria em seu lugar.
Lucena correu ao quarto de Blanca, para ver como estava passando. Apesar de bastante ferida e fraca, sua respirao parecia regular. Suspirou aliviada e ajoelhou-se 
aos ps da cama, mal contendo as lgrimas. A seu lado, dom Ferno tambm chorava. Auxiliado pelos espritos aos quais se associara, conseguira salvar Blanca da morte 
horrenda. Ela era muito pura para transformar-se num espectro feito ele. Precisava viver. Viver para presenciar de perto a vingana que ele e seus asseclas estavam 
tramando para Giselle.
Beijou Blanca e Lucena no rosto e saiu pela parede. Apesar de Lucena no lhe registrar a presena, sentiu imensa saudade do pai e viu-se preso de um pranto convulso 
e desesperado. Miguez, preocupado, abraou-a com fora e levou-a dali, e ela s conseguia dizer o quanto odiava Giselle e gostaria de v-la morta.
Embora desse pela falta de Miguez, Juan nem de longe desconfiou de que ele havia conseguido salvar a vida de Blanca. At porque, no estava interessado. Seus pensamentos 
ainda se voltavam para Giselle, e ele se roia, s de imagin-la dormindo com outro homem. Ao voltar para os aposentos de Esteban, viu que ele j estava melhor e 
havia at se levantado.
- Monsenhor Navarro - censurou com certo carinho -, no devia estar de p. Lembre-se do que o mdico disse.
- No se preocupe Juan, j estou melhor. E o auto-de-f, como foi? Correu tudo bem?
- Teria sido melhor se Blanca no morresse antes de pr a cabea no tronco.
- Blanca morreu antes?
- Sim. No agentou.
- A multido ficou furiosa?
- Ficou, mas padre Miguez contornou a situao. Mandou aoitar o prximo condenado antes da execuo, e a turba pareceu satisfeita.
- Sabia que poderia contar com Miguez. Quanto a Blanca, bem, isso j era esperado. Ela estava mesmo muito mal. S foi pena ter estragado o espetculo.
- Pois ...
Esteban ficou vendo Juan se movimentar pelos aposentos, arrumando as camas e os livros na estante. Em dado momento, sentou-se numa cadeira perto da janela e chamou 
o novio para junto de si:
- Sente-se aqui a meu lado, Juan. Quero falar com voc.
Juan obedeceu. Largou o que estava fazendo e sentou-se ao lado de Esteban, falando com extrema polidez:
- Pois no, monsenhor. Deseja alguma coisa?
- No exatamente. Quero saber de voc.
- De mim? Por qu?
- Tenho notado que voc anda um tanto estranho. Muito calado, triste, acabrunhado. Est acontecendo alguma coisa?
- No est acontecendo nada.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Eu o conheo desde pequenino, Juan. Sei quando algo de errado est acontecendo com voc.
- No h nada de errado comigo, monsenhor.
- Em que anda pensando, meu rapaz? Em mulheres? Sente o desejo tomar conta de voc? - Juan enrubesceu e sentiu o rosto arder, e Esteban prosseguiu: -  isso, no 
? Voc ainda  jovem, e seu corpo todo responde a tanta juventude. No estou certo?
- No... No, monsenhor... No  nada disso... Sinto-me feliz aqui...
- No foi isso o que perguntei, mas sei que seu coraozinho est dolorido.
- Dolorido? No, senhor...
- Ainda pensa em Giselle, no ?
A afirmao sbita e direta de Esteban o confundiu, e Juan sentiu-se corar ainda mais.
- No... No. Nem sei por que est falando isso. A senhorita Giselle...
- Giselle agora  uma senhora casada.
- Sei disso.
- 

- 
- E voc no deveria mais pensar nela.
- No penso nela, monsenhor. Por que haveria de pensar? Juan continuava sentado ao lado do cardeal, faces rubras, sem coragem de encar-lo, enquanto Esteban ia se 
lamentando:
- A culpa foi minha. No devia ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Devia ter tomado uma providncia logo que descobri essa sua paixo insana por Giselle.
- Monsenhor Navarro - objetou Juan, confuso e aturdido -, est enganado.
- No adianta tentar mentir para mim. Sei de tudo. No outro dia, quando chegou aqui com febre, delirando... S falava no nome de Giselle.
Juan sentiu que as lgrimas comeavam a deslizar de seu rosto e se atirou aos ps de Esteban, rogando em splica:
- Oh! Monsenhor, por favor, no me castigue! Eu tentei evitar, juro que tentei. Mas no consegui. Por mais que me esforce, no consigo parar de pensar em Giselle.
- Giselle no  mulher para voc. Gosto dela tambm, mas ela  uma meretriz.
- O senhor est enganado. Ela me ama...
- Giselle no o ama. Por que est se iludindo desse jeito?
- No estou me iludindo, ela me ama.
- Ela est casada com outro homem.
- Porque o senhor obrigou. Mas ela me ama, sei que me ama.
- Pare com isso, Juan! No v que assim s ir sofrer ainda mais? Giselle o ama... No sei de onde tirou essa idia!
- Ela me disse!
- Giselle disse que o ama?
- Disse e... - calou-se envergonhado, ocultando o rosto no colo de Esteban.
- E o qu? Vamos, Juan, conte-me. E o qu?
- Ela... Ela... Oh! Monsenhor...!
No parava de chorar. Embora impaciente, Esteban afagou os seus cabelos e fez com que ele se levantasse, sentando-o novamente na cadeira, de frente para ele.
- Ela o qu? Vamos, diga-me! Exijo que me conte a verdade.
Intimidado pela autoridade do outro, Juan fechou os olhos e acabou por confessar:
- Ela me fez homem, monsenhor!
- Ela o qu? - horrorizou-se, levando a mo ao peito.
- Ela me fez homem... - repetiu com voz sumida.
- Vocs... Vocs dormiram juntos? Mantiveram conjuno carnal?
- Sim...
- Meu Deus! Giselle foi longe demais.
- No fique zangado com ela, monsenhor. Ela no teve culpa. Sei que ela e o senhor eram amantes, mas no foi culpa nossa. Simplesmente aconteceu. Ah! Monsenhor perdoe-me, 
perdoe-me! Vivo aflito com essa traio. O senhor  como um pai para mim, e eu no quis tra-lo. Mas no consegui. Foi mais forte do que eu! Por favor, perdoe-me!
Ele estava totalmente descontrolado, e Esteban se aproximou dele, chamando-o  razo:
- Juan, contenha-se! Seja homem!
Ainda em lgrimas, Juan tentou conter o pranto e arrematou hesitante:
- Giselle me ama...
- Ela no o ama - disse em voz baixa, mais para si do que para o novio. - Giselle no ama ningum a no ser, talvez, aquele vagabundo do Ramon.
- No  verdade! - explodiu Juan, que ouvira nitidamente as suas palavras. - Ela me disse que no havia nada entre eles. Ela me disse!
Arrependido de haver deixado escapar o nome de Ramon, Esteban tornou confuso:
- Conhece Ramon?
- J o vi na taverna, em companhia de Giselle.
- Sabe quem ele ?
- No...
- Ramon  um vagabundo,  isso o que ele . E  por ele que Giselle est apaixonada.
- No ! Ela est apaixonada por mim!
- Voc  um tolo, Juan. Ento no v que Giselle o estava usando? Na certa para obter informaes sobre padre Miguez?
- No, no...
- Tanto que ela veio procurar-me, contando que voc a informara sobre o relacionamento de Miguez e Lucena. Naquele mesmo dia, pedi-lhe que no se envolvesse com 
voc... Sabe o que ela havia me pedido antes? Que a deixasse casar-se com Ramon de Toledo.  a ele que ela ama. Ser que voc no v? Nem a mim, nem a voc, mas 
a Ramon.
- Mas ela se casou com dom Solano. E s porque o senhor mandou...
- No  bem assim. Voc fala de coisas que no conhece. Giselle no ama voc. Isso eu posso assegurar-lhe.
- O senhor est querendo me punir, no  monsenhor?
- No tenho motivos para fazer isso. Estou tentando ajud-lo. Gosto de voc como se fosse meu filho, no quero que sofra por causa de Giselle.
- Oh! Monsenhor, eu a amo! O que posso fazer?
- Esquea-a. Para o seu prprio bem, esquea Giselle. Se quiser, posso arranjar umas mocinhas para voc, sem que ningum saiba.
- No quero mocinhas. Quero Giselle.
Esteban fitou-o penalizado. Jamais deveria ter permitido que as coisas chegassem quele ponto. Juan era um rapaz inexperiente e impressionvel, e se deixara envolver 
pela seduo de Giselle. Que jovenzinho no se envolveria com uma mulher vivida e sensual feito ela?
Sem ter mais o que dizer, afagou-lhe novamente a cabea e enxugou-lhe as lgrimas. Daquele dia em diante, tencionava no tocar mais no nome de Giselle na frente 
de Juan. Queria faz-lo esquecer da moa e, no a vendo nem ouvindo falar o seu nome, talvez ele parasse de pensar nela. Juan era extremamente jovem, e o tempo se 
encarregaria de amadurecer tanta juventude.




CAPTULO 23



A felicidade por ter em seu ventre um filho de Ramon encheu Giselle de esperanas. Aps o nascimento da criana, daria um jeito de livrar-se de Solano e casar-se 
com Ramon, e viveriam felizes para sempre, os trs, longe de toda aquela sordidez. Solano, por outro lado, acreditava que o filho era dele e vivia gritando aos quatro 
cantos que ainda traria ao mundo mais um herdeiro antes de morrer.
Giselle no tivera nem tempo de contar tudo a Ramon. Solano chegara e, por causa de sua gravidez, parecia que no iria mais embora. Ficou por duas semanas seguidas, 
at que resolveu partir. Depois que ele se foi, Rbia foi bater  porta do quarto de Giselle. Ela estava descansando, e a outra entrou bem devagarzinho.
- Giselle - chamou baixinho. - Est dormindo?
- No. Estava apenas descansando, fazendo planos.
- Que planos?
No podia dizer a Rbia que pensava em matar o seu pai. Por mais que a moa gostasse dela, ficaria com dio se soubesse.
- Planos para o meu filho - despistou, acariciando a barriga.
- O pai dele j sabe?
- Ainda no - suspirou ela, um tanto sem jeito.
- Quer que eu mande cham-lo aqui?
- 

- 
- Voc faria isso?
- E por que no? Por acaso, tambm eu no vivo um romance ilcito e obscuro? O amor  assim mesmo, minha amiga. No se pode ir contra ele.
No dia seguinte, Belinda apareceu em casa de Giselle para chamar Ramon. Ele estava dormindo com Manuela, e a escrava fez um ar de desagrado quando soube. Mas no 
disse nada. Tinha medo de Giselle e preferiu no se meter naquela histria, como Belita j fazia.
Ao saber que Giselle o receberia, Ramon largou Manuela e seguiu direto para Cdiz em companhia de Belinda. Foi discretamente introduzido nos aposentos de Giselle, 
e os dois se amaram loucamente. S depois que terminou ela lhe contou que estava grvida.
- Meu filho, Giselle? - exultou. - Voc est esperando um filho meu? Tem certeza? No  daquele porco do Solano?
- Tenho certeza, Ramon.  seu filho.
Giselle no queria lhe contar que pensava em dar cabo da vida de Solano. Ramon desistira da idia do assassinato, e ela sabia que ele no queria envolver-se em nenhum 
crime e ainda tentaria fazer com que ela mudasse de idia. Mas ela no permitiria que seu filho fosse criado por outro homem nem que desse a ele os carinhos que 
deveria reservar para seu verdadeiro pai.
- No momento oportuno, veremos o que fazer - disse ele, ainda em dvida.
- E Manuela, como vai?
- Bem...
Tamanha era a felicidade de Giselle que ela nem percebeu as reticncias de Ramon. Ele procurou desviar o assunto e ps-se a contar-lhe sobre os negcios, mantendo-a 
informada sobre o que acontecia na taverna.
- Teve notcias de Esteban?
- No. Nunca mais soube dele.
-  pena.
- Sente saudades?
- Na verdade, sinto sim. Voc sabe o quanto gosto dele.
Ramon no respondeu. Sentia um pouco de cimes de Esteban, mas no queria que ela soubesse. Ficou durante toda a noite. Na manh seguinte, Rbia veio cham-lo. Ele 
levou um susto ao ver a moa ali, parada diante dele.
- No se preocupe com Rbia - tranqilizou Giselle. -  minha amiga. Foi ela quem sugeriu traz-lo aqui.
- Mas agora j  tarde - observou ela. - Voc deve ir. Meu pai saiu, mas nunca sabemos quando ir voltar. Ainda mais agora, que pensa que vai ser pai.
- Por que est fazendo isso? - retrucou Ramon, sem nada entender. - No gosta de seu pai?
- Gosto. E muito. Por isso, serei eternamente grata a Giselle pelo bem que est fazendo a ele. Mas no posso fechar os olhos para a realidade. Meu pai  um homem 
velho e feio, ao passo que Giselle  uma mulher jovem e linda. Eu seria uma tola se pretendesse que ela o amasse e lhe fosse fiel. Alm disso...
- Alm disso...
- Sei o quanto  triste amar-se uma pessoa que no se pode ter.
- Como assim?
- Outro dia Giselle lhe contar essa histria. Agora venha. Meu pai pode voltar a qualquer momento.
Ramon no discutiu. Sentia-se grato quela jovem por permitir que ele encontrasse sua amada. Beijou Giselle apaixonadamente, deu-lhe outro beijo no ventre e se foi. 
Belinda j o aguardava e conduziu-o direitinho para fora do castelo.
-  um bonito rapaz - elogiou Rbia.
-  sim. E eu o amo muito.
Ramon no podia vir todo o dia. Alm da distncia, a prudncia aconselhava que no se expusesse tanto. Solano, preocupado com a gravidez de Giselle, afastava-se 
muito pouco, e era s nessas oportunidades que Ramon a via s pressas. Com isso, seu romance com Manuela foi se intensificando. Seu corao ainda pertencia a Giselle, 
mas Manuela era uma mulher ardente e sensual, e Ramon foi se envolvendo. Sempre que Belinda aparecia para cham-lo, ele largava Manuela e ia ao encontro de Giselle. 
Mas j no se consumia de paixo e desejo como antes, e a falta que Giselle fazia foi sendo suprida pelo calor do corpo de Manuela.
Com isso Giselle tambm foi se sentindo s. Parar de ter enjos, mas sua barriga ainda no comeara a crescer. Ainda assim, no permitia mais que Solano a tocasse. 
Sempre que ele a procurava, ela se desculpava com os enjos e as tonteiras, alegando que a gravidez lhe tirava o apetite sexual. Ele compreendia e no insistia, 
e Giselle passava as noites ardendo de desejo, pensando na falta que Ramon lhe fazia.
Comeou a perder o sono. Quanto mais ansiava por Ramon, menos conseguia dormir. Solano, em seu quarto, dormia de roncar, e Giselle, certa noite, irritada com a falta 
de sono, levantou-se na ponta dos ps. Sabia que Rbia e Diego deveriam estar no quarto ao lado e dirigiu-se para l. Colou o ouvido  porta, mas quase no escutava 
nada. De vez em quando, um gemido, um sussurro, risos... Aquilo a foi enchendo de desejo, e ela tomou coragem. Com a mo na aldrava, empurrou a porta e entrou.
O quarto estava s escuras, e ela foi se encaminhando para a cama de Rbia. Os dois estavam nus, se amando, e sorriram ao mesmo tempo quando ela se aproximou. Aquilo 
a espantou deveras. Pensava que Rbia iria expuls-la dali, mas, ao invs disso, ela lhe estendeu a mo, que Giselle tomou docemente, enquanto Diego a puxava pela 
outra mo.
Giselle deitou-se com eles. Daquele dia em diante, assim como Ramon procurava o corpo quente de Manuela, Giselle passou a consumir o seu desejo na cama de Rbia, 
ao lado dela e de Diego. Rbia no se importava de v-la e a Diego juntos. Ao contrrio, parecia at gostar. Os trs se tornaram amantes. Giselle no vinha sempre. 
Sabia o quanto eles se amavam e sabia que o que ela buscava neles era apenas sexo e conforto.
Solano de nada desconfiou. Para todos os efeitos, Giselle sentia enjos de gravidez. Muitas vezes, descobrira Giselle dormindo no quarto de Rbia, mas nem de longe 
lhe passou pela cabea o que estava acontecendo. Achava natural que a esposa buscasse a companhia de outra mulher naquelas horas, pois s outra mulher poderia ajud-la 
com seus problemas ntimos.
Giselle no teve coragem de contar nada a Ramon. Tinha medo de que ele no aceitasse. Casar-se com Solano fora uma questo de vida ou morte. Mas dormir com Diego 
e Rbia era uma traio inaceitvel. Por isso, no disse nada. Quando Solano viajava, Belinda o chamava, e ela no ia ao quarto de Rbia. Dedicava-se inteiramente 
a Ramon, e ele nem de longe desconfiava que ela tambm o estivesse traindo.


CAPTULO 24


Com o decorrer dos dias, Juan foi se sentindo cada vez mais inquieto. S conseguia pensar nas palavras de Esteban: Giselle no o amava. Amava Ramon, o vagabundo.
Mas como podia ser verdade? Ela estava em Cdiz, com dom Solano. E Ramon? Ser que continuava em Sevilha? Cada vez mais atormentado, resolveu sair. Esperou at que
monsenhor Navarro dormisse e ganhou a rua.
Em poucos instantes, adentrava a taverna de Giselle. Tudo parecia como antes,  exceo, talvez, de Manuela. Agora, era somente ela quem distraa os homens com sua 
dana. Em silncio, Juan se sentou a uma mesa no canto e ps-se a espiar. A taverna no estava muito cheia, e ele pde prestar ateno a cada detalhe.
Envolto em seu manto de veludo negro, Juan passou despercebido. Ningum conseguira ver-lhe o hbito sob o manto e ningum imaginou que ele era um religioso, a no 
ser Manuela, que j o conhecia. Ela terminou de danar e foi para onde ele estava um sorriso malicioso estampado no rosto.
- Ora, ora, ora - disse em tom de malcia -, se no  o novio por aqui novamente.
Juan sentiu o rosto enrubescer e teve vontade de se levantar e sair correndo dali, mas a curiosidade o deteve. No havia visto Ramon e queria saber se ele ainda 
continuava por ali.
- Boa noite, senhorita Manuela - respondeu com excessiva cerimnia.
- O novio sabe o meu nome!
- Por favor, senhorita, deixe de brincadeiras.
- Est bem - concordou ela, sentando-se a seu lado. - Mas diga-me: o que o traz aqui? Giselle no est mais  frente da taverna.
- Eu sei. No vim por causa de Giselle.
- No veio? E a que veio ento? No v me dizer que veio por minha causa...
Fingindo no ouvir os seus gracejos, Juan virou o rosto de um lado a outro, como se procurasse algum.
- Onde est Ramon? - indagou, com fingida naturalidade. - No trabalha mais aqui?
- Ramon? - tornou Manuela desconfiada, com medo de que ele fosse algum tipo de espia de Giselle. - No o vi hoje. Por qu?
- Por nada.
- Ora, vamos novio...
- Ser que no poderia me chamar pelo nome? - zangou-se.
Manuela deu uma gargalhada e acrescentou:
- Est bem, Juan. Mas voc ainda no me disse por que est atrs de Ramon. Ele est em dbito com a igreja?
Juan ignorou o sarcasmo e ficou olhando para o seu rosto, imaginando se poderia confiar nela.
- Voc  muito amiga de Giselle, no ?
Cada vez mais desconfiada, Manuela respondeu com cautela:
- Ela praticamente salvou a minha vida.
- Sei... E Ramon?
- O que tem ele?
Juan queria perguntar-lhe sobre o envolvimento de Ramon com Giselle, mas Manuela temia que ele quisesse averiguar se ela e Ramon eram amantes. Em sua ingenuidade, 
Juan sequer imaginava um envolvimento entre ambos.
Tentando parecer casual, prosseguiu:
-  que fiquei imaginando... Ramon deve estar sentindo muito a falta de Giselle, no ? Quero dizer, com o casamento e tudo o mais...
- ... Ramon deve mesmo estar sofrendo.
- Por que Ramon estaria sofrendo?
Manuela no estava entendendo nada. Aquele menino parecia dizer coisas sem sentido algum. Afinal, o que estaria tentando descobrir?
- Escute Juan - revidou ela com todo cuidado -, no entendo aonde quer chegar.
Ele a fitou com olhos vidos e tomou coragem para perguntar:
- Giselle e Ramon so amantes? Ela suspirou aliviada.
- Voc no sabe?
- So ou no so?
-  claro que so. Pensei que soubesse. Todo mundo sabe.
- Desde quando?
- Ora... Desde que se conheceram.
- Mas Giselle est casada com dom Solano!
- E da? Desde quando casamento  empecilho para o amor? Juan silenciou, lutando desesperadamente para conter a raiva. Giselle o enganara. Dissera que o amava, mas 
estava mentindo. Monsenhor Navarro  que tinha razo. Ela no amava ningum, a no ser aquele porco imundo do Ramon. Sem dizer nada, levantou-se com o dio a transfigurar-lhe 
as feies e foi se encaminhando para a porta. Ainda deu uma ltima olhada para dentro, tentando ver se Ramon estava por ali, mas ele no apareceu. Ramon estava 
no quarto atrs da taverna, cuidando da contabilidade, e nem sabia da chegada de Juan. Da porta, olhou rapidamente para Manuela, que permanecia fitando-o com ar 
de indignao, e se foi.
Voltou para a abadia e foi deitar-se. Monsenhor Navarro ressonava alto no quarto ao lado e nem se apercebeu de sua sada. No dia seguinte, levantou-se mais cedo 
do que de costume, aprontou-se e saiu, deixando um bilhete conciso para Esteban. Tomou a carruagem e rumou para Cdiz.


Quando chegou, o castelo j estava em plena atividade. Dom Solano havia sado para resolver uns assuntos, Rbia e Diego estavam fora, andando a cavalo, e Giselle 
estava repousando. Foi recebido pelos criados, e Belinda correu ao quarto de Giselle para cham-la. Ela se aprontou rapidamente e desceu apressada, pensando que 
Juan estivesse ali a mando de Esteban. Encontrou-o no salo principal, andando de um lado a outro, apertando as mos, cheio de nervosismo.
- Juan! - exclamou Giselle, correndo para ele e segurando-lhe as mos. - Aconteceu alguma coisa?
Ele olhou de soslaio para a escrava e respondeu bem baixinho:
- Precisava falar-lhe... A ss.
Giselle meneou a cabea e levou-o para seu quarto. Afinal, era um religioso, e seu marido no iria reclamar de sua presena em seus aposentos particulares. Depois 
que ele se acomodou, Giselle sentou-se diante dele e tornou a falar:
- Muito bem. Agora me conte o que houve.
Ele permaneceu durante alguns minutos estudando o seu rosto. Ela parecia agitada, nervosa, com medo de alguma coisa. Seria medo de que algo houvesse acontecido ao 
amante?
- Giselle... - balbuciou ele - da ltima vez que nos vimos, disse que me amava...
A mente de Giselle comeou a trabalhar rapidamente. Juan no estava ali para levar-lhe nenhuma notcia ruim. Estava ali para cobrar-lhe algo. Sabia que ele estava 
apaixonado por ela e lembrou-se de que havia lhe dito que o amava. At dormira com ele e o transformara num homem. Seria prudente revelar-lhe a verdade sobre seu 
envolvimento com Ramon?
- O que quer dizer? - a retrucou, confusa.
- Disse ou no disse que me amava?
- Disse...
- E estava mentindo?
- No - sustentou a mentira.
- Quando se deitou comigo, falando aquelas coisas, estava sendo sincera, no estava?
- Estava.
- Ento, por que  que mantm um caso com esse tal de Ramon?
- No diga isso! - censurou exaltada. - No  verdade.
- Voc disse que me amava, Giselle. Voc jurou. Disse que Ramon era apenas um amigo.
- Mas ...
- Mentira! Manuela me contou tudo. Voc e Ramon so amantes desde quando se conheceram. Mas quem  esse Ramon e como foi que entrou em sua vida?
Giselle comeou a desesperar. Tinha em Juan um forte aliado contra as armadilhas de Miguez. Se perdesse a sua amizade e ele se passasse para o lado daquele padre 
maldito, nem queria pensar no que poderia acontecer. Rapidamente, chegou mais para perto dele e falou com aparente tranqilidade:
- Foi Manuela quem lhe contou isso?
- J disse que foi. E disse mais: disse que vocs ainda mantm esse romance, a despeito de seu casamento com dom Solano.
- Manuela est mentindo - objetou entre dentes. - Ela tem cimes. Vive se insinuando para Ramon, mas ele no a quer, e ela acha que a culpa  minha. Mas no . Se 
Ramon no a deseja, o problema no  meu. S que ela no pode aceitar o fato de que ele no se sente atrado por ela e quis fazer intriga.
Juan fitou-a em dvida. Ela falava com tanta convico que era difcil no acreditar.
- Mas monsenhor diz que voc o ama...
- Ele est enganado. Na certa, s porque vendi a taverna para Ramon, ele ficou imaginando coisas.
Ela desviou os olhos, com medo de que ele percebesse a raiva que ia tomando conta de todo o seu corpo. Por que Manuela fizera aquilo? De Esteban, no dizia nada. 
Mas Manuela, que direito possua de sair por a falando de sua vida? E como  que sabia que ela e Ramon ainda eram amantes? Aos poucos foi percebendo que Manuela 
parecia saber demais sobre sua vida, o que a foi deixando inquieta.
A seu lado, Juan permanecia calado, fitando-a com olhar vido, como que tentando adivinhar o que ia a seu corao.



Em seu ntimo, queria acreditar, embora soubesse que ela estava mentindo.
- Voc e Ramon no tm se encontrado? - insistiu.
- No. Depois que me casei nunca mais nos vimos.
- Tem certeza?
- Por que duvida? No tenho motivos para mentir para voc.
- Voc ainda me ama?
- Amo... S que agora sou uma mulher casada. Devo obedincia e respeito a meu marido.
- Por que se casou com ele, Giselle? - choramingou, atirando-se a seus ps.
- Voc sabe - tornou ela, acariciando-lhe os cabelos. - Foi preciso.
Ele no parava de chorar, agarrado a suas pernas. Aquele era o momento que Giselle esperava. Juan demonstrava fraqueza e fragilidade, e ela se aproveitou da situao 
para convenc-lo. Vagarosamente, foi erguendo-o pelos braos, at que ele se ajoelhou diante dela e pousou a cabea em seu colo. Giselle beijou-lhe os cabelos e 
comeou a erguer o seu queixo, beijando-o de mansinho. Ele no resistiu. Caiu em seus braos afoitamente e se entregou ao amor. Ao final, estava satisfeito e convencido. 
Do jeito como Giselle fizera, devia am-lo de verdade.
- No conte sobre isso a ningum, Juan - pediu com voz melflua. - Se meu marido souber, manda me matar.
- No se preocupe Giselle, ficar somente entre ns.
- timo. Lembre-se de que sou uma mulher casada e agora no posso mais dormir com outro homem que no seja meu marido. Voc foi  nica exceo.
Todo convencido, Juan sentiu o peito inflamar-se de orgulho e acabou retrucando:
- Fique descansada e confie em mim. No contarei nada a ningum.
- Nem a Esteban.
Ele titubeou, mas concordou:
- Nem a monsenhor.
Giselle sorriu exultante. Mais uma vez, conseguira convencer aquele novio tolo de que ela o amava. S mesmo uma cabecinha ingnua e pueril feito a de Juan para 
acreditar num disparate daquele. Mas ela sabia que o rapaz poderia ser-lhe til ou perigoso. Se estivesse a seu lado, seria seu verdadeiro aliado. Contra ela, poderia 
se tornar um feroz inimigo. Ainda mais se descobrisse que ela mentira e que o usara durante todo aquele tempo.
Quando Juan chegou de volta  abadia, Esteban estava quase desesperado  sua procura. Logo que o viu entrar, correu ao seu encontro, demonstrando genuna preocupao. 
A seu lado, Miguez o acompanhava, o olhar grave denotando que tambm estava preocupado.
- Juan! - explodiu Esteban. - Onde foi que se meteu?
- No leu o meu bilhete?
- Isso? - estendeu para ele o bilhete e continuou: - No diz nada. Monsenhor Navarro, preciso sair. No se preocupe. Juan. Onde  que esteve?
- Ns ficamos preocupados, Juan - acrescentou Miguez. - Por pouco monsenhor no d o alarme para a abadia inteira.
- Esto exagerando.
- Vai me dizer onde esteve ou no? 
- Estive por a.
- Onde?
- Em lugar nenhum. Sa, fui para o campo, precisava espairecer.
- Espairecer? - espantou-se Miguez. - Por qu?
Juan fitou Esteban pelo canto do olho. O cardeal sabia muito bem por qu. No imaginava que ele houvesse ousado tanto, mas sabia que ele, na certa, estava tentando 
fugir de seus prprios sentimentos.
- Juan est com certas dvidas - esclareceu Esteban mais que depressa. - No sabe se quer mesmo se tornar padre.
- Ah!  isso? - tornou Miguez desconfiado, imaginando se no havia um dedo de Giselle naquela histria - E o que lhe causa tantas dvidas?
- Nada demais, amigo Miguez. Ele est enfrentando uma fase difcil. Coisas da idade, voc entende.
Juan sentiu o rosto arder, coberto de vergonha. Deu um sorriso forado e, pedindo licena, rodou nos calcanhares e foi para seu quarto.
- Creio que voc deve arranjar uma mocinha para ele - sugeriu Miguez. - Juan no ser feliz fora da vida monstica. Ele no tem ningum nem preparo nenhum para enfrentar 
o mundo l fora. E depois, so tempos difceis...
- Tem razo, Miguez. Tratarei de providenciar isso.
- Se voc quiser, posso arranjar-lhe algo. Ainda h muitas mocinhas nas masmorras, das quais no posso mais ocupar-me. Sua virgindade tem sido atestada pelos carrascos 
do Tribunal, e Juan ainda nos faria um favor.
- Obrigado. Vou falar com ele. Tenho certeza de que acabar concordando. Afinal,  uma tarefa honrosa, essa que lhe confia.
Com um aceno de cabea, se despediram. Esteban precisava conversar com Juan, convenc-lo a aceitar o cargo que Miguez lhe oferecia. Serviria para mant-lo ocupado 
e desviar sua ateno de Giselle. Juan era ainda muito jovem e no tardaria a esquec-la. Ao menos, era o que ele pensava.



CAPTULO 25



Depois de intensa noite de amor, Manuela, envolta nos braos de Ramon, fechou os olhos e ps-se a cantarolar. Ramon sorriu e beijou-lhe a face, soltando-a e virando 
o rosto para o lado, a fim de dormir. Pensava em Giselle. Por mais que gostasse de dormir com Manuela, Giselle era a dona de seu corao. Sentia imensa saudade dela 
e ficava sonhando com o dia em que poderiam viver felizes, ele, ela e o filho.
Em dado momento, Manuela parou de cantar e puxou a sua cabea, obrigando-o a virar o rosto em sua direo.
- Adivinhe quem veio nos visitar hoje - falou com certa excitao.
- Quem? - fez Ramon, um tanto quanto receoso.
- O novio.
- Quem? Juan? - ela assentiu. - O que ele queria?
- No sei bem. Perguntou sobre voc e Giselle. No comeo, fiquei assustada, pensando que ele quisesse saber de ns dois. Mas depois percebi que o que ele queria 
mesmo era saber de vocs.
- Estranho. E o que voc disse?
- Nada demais. Que vocs eram amantes h bastante tempo.
- Voc lhe disse isso?
- 

- 
- Por qu? Fiz mal?
Ramon no respondeu. Alguma coisa dentro dele lhe dizia que aquela histria ainda ia acabar muito mal. Juan no podia saber que ele e Giselle eram amantes, pois 
o cime do rapaz ainda acabaria por coloc-los em alguma situao embaraosa. Ainda em silncio, tornou a virar o rosto para a parede e fingiu dormir. No queria 
envolver Manuela.
No dia seguinte, foi  vez de Ramon partir para o castelo de dom Solano. Sabia que poderia ser arriscado, mas precisava tentar. Com medo de causar algum embarao 
 Giselle, bateu aos portes e pediu para falar com Rbia. Dom Solano estava em um dos sales, em companhia de Giselle, e no ouviu quando foram chamar a filha.
Rbia apareceu imediatamente e mandou que Ramon entrasse. Conduziu-o para um dos terraos mais afastados e sentou-se com ele em um banco.
- Est sendo muito imprudente, Ramon - censurou Rbia.
- Eu sei - desculpou-se acanhado. - Mas o assunto  deveras urgente.
- No posso chamar Giselle. Meu pai est em casa.
- Por favor, Rbia, o assunto  mesmo srio. Preciso falar com ela o mais rpido possvel.
- Lamento no poder atend-lo. Meu pai vai ficar desconfiado.
- Eu lhe imploro Rbia. Invente uma desculpa e saia com ela. E s o que lhe peo.
- O que pode ter acontecido assim de to grave para voc estar desse jeito? Algum descobriu alguma coisa sobre vocs?
-  o que temo.
Rbia meneou a cabea e falou:
- Saia do castelo agora e me espere mais abaixo, na beira da estrada. Darei um jeito de ir at l, a cavalo, com Giselle. S no garanto que possa ser logo.
- Esperarei o quanto for necessrio.
Depois que ele saiu, Rbia voltou para dentro. Giselle estava no salo com dom Solano, aparentando profundo enfado com sua conversa sobre as futuras possibilidades 
na Amrica recm-
descoberta. De vez em quando, bocejava e olhava pela janela, tentando arranjar uma desculpa para escapar de to desagradvel companhia.
Foi quando Rbia apareceu. Entrou sorridente, beijou o pai e Giselle e sentou-se ao lado dele. Por cerca de meia hora, ficou fazendo-lhes companhia, at que Diego
tambm apareceu e foi juntar-se a eles.
- Ah! Diego - Rbia foi logo dizendo -, que bom que voc chegou. Assim pode fazer companhia a papai por uns instantes.
Dom Solano ergueu as sobrancelhas e encarou a filha.
- Fazer-me companhia? - repetiu indignado. - Por qu?
- Preciso de Giselle por uns instantes, papai. Coisas de mulher, voc no vai se interessar.
No foi preciso muito para Diego compreender que Rbia precisava falar a ss com Giselle. No sabia que Ramon fora procur-la, mas compreendeu a urgncia da situao 
e atalhou:
- Pode deixar que cuidarei bem dele, Rbia. Vo e podem demorar-se o quanto quiserem.
Dom Solano ficou embevecido. Sempre que o filho lhe fazia companhia, ele se sentia extremamente feliz e agradecido. Sentindo a ateno do rapaz, ps-se a falar sobre 
seus futuros planos na Amrica.
Enquanto isso, Rbia saiu puxando Giselle pela mo, caminhando em direo s cocheiras.
- Aonde vamos? - indagou Giselle, assustada.
- Ramon est nos esperando. Precisa falar com voc.
- Onde ele est?
- Na beira da estrada. Venha depressa! No podemos nos demorar.
Rbia apanhou dois cavalos e estendeu um para Giselle, que tomou as rdeas e montou com todo cuidado.
No fundo, podia imaginar por que Ramon fora at ali daquele jeito. Na certa j ficara sabendo das indagaes de Juan.
Em silncio, passaram pelos portes do castelo e seguiram pela estrada.
Mais abaixo, Ramon as esperava. J estava ficando vermelho de tanto apanhar sol; ficara l por mais de uma hora. Mas no podia voltar sem falar com Giselle.


Ramon ajudou Giselle a descer do cavalo, enquanto Rbia foi sentar-se  sombra de uma rvore, do outro lado da estrada.
- No se demorem - alertou. - No quero que papai desconfie de nada.
De mos dadas, Ramon e Giselle foram sentar-se debaixo de outra rvore, um pouco afastadas daquela em que Rbia estava.
Ele a beijou avidamente, mas sentiu certa frieza em seus gestos.
- O que h com voc? - indagou decepcionado. - Pensei que fosse ficar feliz em me ver.
- Estou... - respondeu ela hesitante - mas tambm estou surpresa. O que aconteceu?
- No sei se voc j sabe, mas Juan andou fazendo perguntas sobre ns.
- Andou? A quem?
Ele hesitou, mas no podia deixar de responder.
- A Manuela.
- Como  que voc sabe disso?
- Ora, Manuela me contou.
- Por qu?
- Porque ela trabalha para mim. Esqueceu?
- No, no esqueci. S no entendo como  que Manuela sabe tanto sobre ns. Sabe at quando foi que comeamos a nos encontrar.
Na mesma hora, Ramon sentiu o rosto arder, e Giselle percebeu o rubor cobrindo as suas faces.
- Est acontecendo alguma coisa entre vocs? - tornou Giselle, cada vez mais desconfiada.
Por pouco Ramon no engasgou. Engoliu em seco e, cabea baixa, revidou com voz sumida:
- O que  isso, Giselle? Por que essa desconfiana agora?
- Porque voc est muito estranho. E Juan ficou sabendo de tudo a nosso respeito por intermdio dela.
- Voc esteve com Juan?
- Assim como voc, ele tambm veio procurar-me, louco de cimes.
- E o que voc fez?
- Juan  um jovem tolo e ingnuo. No foi difcil convenc-lo de que Manuela estava errada.
- Como foi que o convenceu, Giselle? Teve que dormir com ele?
- Isso no vem ao caso. Juan  apenas um garoto.
- Ah! No vem ao caso, no ? Voc sempre arranja uma desculpa para justificar o fato de que dorme com todo mundo.
- Eu no durmo com todo mundo!
- S com dom Solano e com Juan, alm de mim,  claro. E monsenhor Navarro? Ainda tem dormido com ele tambm?
Mal contendo a indignao, Giselle estalou-lhe uma bofetada no rosto, e Ramon levantou-se indignado.
- No devia ter feito isso, Giselle - disse entre dentes. - Voc no tem esse direito.
J arrependida, Giselle correu para ele e atirou-se em seus braos, balbuciando em lgrimas:
- Ramon... Perdoe-me... Perdi a cabea...  a gravidez... Deixa-me confusa...
Ao ouvir falar na gravidez, Ramon se acalmou. No podia esquecer que ela carregava no ventre o seu filho.
- Est certo, Giselle, acalme-se.
- Perdoe-me...  que fico louca s de pensar que voc possa estar dormindo com aquela Manuela.
- No estou dormindo com ningum.
- Eu sei...
- Embora no possa dizer o mesmo de voc, no  mesmo?
- Ah! Ramon, no fique zangado comigo. Voc sabe que no gosto de dormir com ningum alm de voc. Mas Solano  meu marido, e Juan precisava ser calado. Quanto a 
Esteban, h muito no temos nada. Ele hoje  como um pai para mim. Por favor, no se zangue por causa de Juan. Eu fiquei desesperada. Quando ele veio me procurar, 
perguntando se ns ramos amantes, no sabia o que fazer...
- E ento fez a nica coisa que realmente sabe fazer, no , Giselle? Fez sexo com ele.
- Fiz isso porque precisava. Foi  nica forma que encontrei de faz-lo acreditar em mim. Para nossa segurana, Juan precisa acreditar que o amo. Por favor, acredite.
Ramon acreditava. Era mesmo impossvel que uma mulher feito Giselle fosse interessar-se por um rapazola magricelo e inexperiente feito Juan. Ainda assim, no podia 
deixar que ela desconfiasse de Manuela.
- No falemos mais nisso - cortou ele de forma perspicaz.
- Eu a amo, e nada pode abalar esse amor.
Ela se acalmou. Recostou a cabea em seu peito e apanhou a sua mo, pousando-a sobre seu ventre. Ramon ficou embevecido, tentando sentir o beb, mas a gestao ainda 
era muito recente, e ele no pde perceber nada.
- Jura que no est dormindo com Manuela? - sondou de repente.
Mais uma vez, ele titubeou. No esperava pela pergunta e sentiu a voz presa na garganta quando respondeu:
- Juro.
Foi lacnico demais, artificial demais, e Giselle no se convenceu. No entanto, naquele momento, no queria mais reavivar nenhuma discusso. Iria agir  sua maneira 
e daria um jeito de descobrir. Segurou-lhe o rosto entre as mos e beijou-o com ardor, mal ouvindo a voz de Rbia, que a chamava do outro lado da estrada:
- Giselle, vamos!  hora de voltar.
Despediram-se e voltaram para o castelo.
Dom Solano, ainda preso  companhia de Diego, nem dera pela sua falta. Elas tornaram a entrar na sala e foram sentar-se perto dele.
- Ah! - fez ele, batendo no joelho de Giselle. - J voltaram?
Ela sorriu meio sem graa, e Diego perguntou, dirigindo-se a Rbia:
- Que tal um passeio?
- Excelente idia!
Os dois se levantaram e saram, e Giselle ficou a ss com dom Solano, que ria para os filhos completamente embevecidos. Ficou vendo-os afastar-se e s ento se voltou 
para Giselle e continuou com seus sonhos e planos, mal se apercebendo do ar de contrariedade e repulsa que Giselle, agora, nem se dava o trabalho de esconder.



CAPTULO 26


A casa de Miguez em San Martin ficava um tanto quanto afastada da cidade, e poucas pessoas costumavam passar por ali. Ningum conhecia aquele seu recanto, e ele 
s aparecia  noite, quando no podia ser visto. Na abadia, ficaram sabendo do assassinato do homem que dirigia a carroa com os corpos dos executados, mas ningum 
desconfiou de sua participao naquele crime. Para todos os efeitos, o homem se envolvera com bandidos e tivera o fim que merecera. Tambm para todos os efeitos, 
Blanca estava morta e seu corpo, cremado, e o caso de dom Ferno j era pgina virada no livro de execues de Esteban.
Naquele dia, porm, Miguez apareceu mais cedo. Ainda era dia quando ele chegou e viu que Lucena lia para Blanca no jardim. Blanca fitava o horizonte com olhos vtreos, 
que nada viam alm da escurido. Apesar de bastante magra e abatida, dava visveis sinais de melhora. Lucena cuidava dela com carinho e dedicao, cobrindo-a de 
toda ateno possvel. Aos pouquinhos, fora ganhando peso, e as chagas comeavam a fechar-se.
Miguez se aproximou e fez sinal para que Lucena conclusse a leitura. Sentou-se num banco prximo e ficou esperando at que ela terminasse. Ao final, Lucena chamou 
Consuelo e deu-lhe ordens para cuidar de Blanca, que acabara por adormecer sob o calor do sol. Lucena ajeitou-lhe a manta, beijou-a gentilmente no rosto e foi ao 
encontro de Miguez.
- O que o traz aqui to cedo? - a indagou, beijando-o nos lbios.
- Vou ser sagrado bispo.
-  mesmo? No diga!
- Recebi hoje a comunicao. Haver uma solenidade em dois dias.
- Mas que maravilha, Miguez! Parabns!
- Tenho trabalhado duro, Lucena...
- Preferia que no falasse sobre isso. Sabe que no aprovo o seu trabalho.
- No fosse eu o que sou jamais teria conseguido salvar Blanca. Tampouco poderia t-la ajudado.
- Sei disso - interrompeu-a com outro beijo. - Mas  que quando me lembro de meu pai...
Comeou a chorar baixinho, olhando para Blanca com piedade. Miguez estreitou-a de encontro ao peito e beijou seus cabelos, falando com maciez:
- No chore Lucena. A culpa no  do Santo Ofcio. Estamos a servio de Deus. A culpada foi Giselle. Foi ela quem delatou seu pai.
- No fale no nome dessa mulher novamente! Eu a odeio! Odeio-a sem nem mesmo conhec-la!
- Tambm a odeio, minha querida. E ela no perde por esperar. Tenho certeza de que Deus ainda colocar em minhas mos as armas com que irei destru-la.
-  o que espero.
- E depois, partiremos para seu ex-noivo.
- Soube alguma coisa dele?
- Ainda no. Com tantos acontecimentos, no tenho me empenhado muito nisso. Prefiro concentrar-me primeiro naquela mulher.
- Mas voc a deixou escapar!
- Eu no a deixei escapar. Esteban insistiu em cas-la com dom Solano, e eu nada pude fazer. Contudo, tenho certeza de que ela ainda dar algum passo em falso que 
me ajudar a prend-la.
- Quero que ela sofra tudo o que meu pai sofreu. E Blanca tambm. Devo isso a eles. Aquela mulher tem que pagar por todo o mal que nos fez.
- Farei com que pague com a vida.
- No! A vida  pouco para o que ela me deve. Quero que seu corpo sangre como o de meu pai, que seus olhos queimem como os de Blanca, que ela perca tudo como eu 
perdi! Quero tudo o que lhe pertence, tudo!
- No se preocupe com isso. Darei um jeito de lhe transferir todos os bens de Giselle. No sei ao certo o que ela possui, mas, segundo o que Esteban disse, ela conseguiu 
juntar um tesouro considervel. Vai ser tudo seu.
- timo. Quero que ela saiba disso. Quero que saiba que tudo o que  seu passar a pertencer  filha do homem que ela enganou e destruiu!
- No se iluda Lucena. Giselle enganou e destruiu muitos homens. Seu pai no foi o primeiro.
- Cadela!
- Enganou at Esteban. Enfeitiou-o com suas magias, e ele ficou cado por ela. Mas, no momento em que despertar, vai perceber quem ela realmente  e ainda vai nos 
ajudar a acabar com ela.
Ao ouvir o nome de Esteban, Lucena sentiu um arrepio. Por mais que Miguez lhe dissesse que ele no fora culpado de nada, ela no podia esquecer que fora ele quem 
mandara colocar seu pai na masmorra e, pior, naquele sarcfago maldito que eles chamavam de Virgem de Nuremberg.
- Vamos mudar de assunto, sim? - pediu ela. - Sei que Esteban  seu amigo, mas no posso mentir dizendo que gosto dele.
- Sei que no gosta. Mas Esteban  meu amigo, e eu jamais poderia fazer qualquer coisa contra ele. E nem voc. Prometa-me que nunca vai tentar nada contra ele.
- E o que  que uma pobre moa desamparada pode contra um poderoso inquisidor do Santo Ofcio?
Miguez ficou satisfeito. Quando voltou  abadia, soube que Esteban estava novamente acamado e foi visit-lo em seus aposentos. Bateu  porta suavemente, e Juan veio 
atender.
- Monsenhor est dormindo? - perguntou baixinho.
Juan fez sinal com a cabea que sim, mas a voz de Esteban chegou at eles, ntida e sonora:
- Deixe de bobagens, Juan, estou muito bem acordado.
Com um gesto de resignao, Juan deu passagem a Miguez, que foi sentar-se ao lado de Esteban na cama.
- Como est, meu amigo? - indagou solcito.
- Melhor agora.  a maldita dor de cabea. No sei o que me causa esse mal-estar.
- Voc precisa descansar. Sabe o que o mdico diz - esperou alguns minutos antes de perguntar: - E Giselle, como est? Tem tido notcias dela?
- Por que a pergunta? - estranhou Esteban. - Voc nunca teve interesse em Giselle.
- Por nada. Apenas curiosidade. Ela anda sumida...
- Giselle agora  uma senhora de respeito, casada com um homem ntegro e temente a Deus. Dom Solano  um bom cristo.
- Sei disso, Esteban, no fique zangado.
- No estou zangado. Mas voc sabe que no gosto de sua cisma com Giselle.
- Perdoe-me. No pretendia contrari-lo.
- Deixemos Giselle de lado, meu amigo. Nesse assunto, ns nunca concordaremos.
- Tem razo - fez uma pausa e prosseguiu: - E quanto a Ramon de Toledo? Tem ouvido falar dele?
Esteban sobressaltou-se. Mais uma vez, Miguez insistia com Ramon. Ser que j sabia de algo?
- Por que tem tanto interesse em Ramon?
- Por nada.  apenas curiosidade.
- Curiosidade ou desejo de vingana?
- Como assim?
- Ramon foi noivo de Lucena...
- Ramon  um canalha!
- Voc est mesmo apaixonado, no est?
- Voc sabe que sim. Eu mesmo lhe confessei.  por esse motivo que preciso encontrar Ramon. Para faz-lo pagar por toda humilhao que fez Lucena sofrer.
- No acha que isso  um exagero? O rapaz s no quis se casar com ela.
- Para voc, posso contar. Ramon seduziu Lucena s vsperas do casamento e depois a abandonou.
- No me diga!
- Por isso preciso encontr-lo.
- O que pretende fazer com ele?
- Ainda no sei. Vai depender do que Lucena decidir.
- Entendo.
- Bem, agora vou deix-lo descansar. Creio que j tomei demais o seu tempo por hoje.
- Oh! No, no. Voc  meu amigo e  sempre bem-vindo. Por falar nisso, est feliz com o bispado?
- Confesse Esteban. Tem um dedo seu nisso, no tem?
- Mais ou menos. Roma pediu informaes sobre todos os nossos inquisidores. Sabe que nosso inquisidor-geral viaja mais do que trabalha e me delegou praticamente 
todos os seus poderes. Por isso, fui eu que tive que atender ao pedido de Roma. Falei tudo sobre voc e os outros padres, e  claro que o seu nome tinha que ser 
escolhido. Afinal, voc  um dos melhores inquisidores que Sevilha j conheceu.
- Foi muita bondade sua. Ser bispo  um sonho antigo.
- No fiz nada que voc no merecesse. O mrito  todo seu, meu amigo.
- Mesmo assim. No fosse por voc, eu no teria conseguido.
Enquanto os dois padres conversavam, Juan ficou ruminando as palavras de Miguez. Aquela Lucena devia estar pressionando-o para descobrir o paradeiro de Ramon. E 
se ele mesmo contasse? Juan sabia muito bem onde ele estava e podia dizer-lhe tudo. Mas tinha medo da ira de monsenhor Navarro. Esteban parecia proteger o rapaz 
tambm e no ficaria nada satisfeito se soubesse que ele estava metido naquela histria.
Por mais que Giselle lhe jurasse que no havia nada entre ela e Ramon, era bom no facilitar. Saber que padre Miguez o estava procurando dava-lhe certa tranqilidade. 
Se se sentisse ameaado, bastaria apenas uma palavra para que Ramon sasse de seu caminho. Pediria a Miguez que no dissesse a Esteban que fora ele o informante. 
Ser que concordaria? Talvez sim. Por maior que fosse a amizade entre ele e Esteban, o amor por Lucena haveria de falar mais alto, e Miguez ainda lhe seria eternamente 
grato por aquele pequeno favor.


CAPTULO 27


Desde seu ltimo encontro com Ramon, Giselle perdera o sossego. As palavras de Ramon no saam de sua mente, e ela via e revia o seu rosto rubro e dissimulado, afirmando 
que no tinha nada com Manuela. Era mentira, ela sabia. Tinha certeza de que ele estava mentindo. Aquilo a encheu de cime e de raiva. Dia aps dia, Giselle s pensava 
na oportunidade de desmascarar aqueles dois.
Seu humor ficou completamente alterado. Giselle vivia irritada, cenho fechado, parecendo de mal com a vida. At dom Solano reparou, mas ela conseguiu se escusar, 
alegando o mal-estar prprio da gravidez. Ele no desconfiou. Mas Rbia sim. E Diego tambm. O rapaz foi o primeiro a notar a alterao no comportamento de Giselle 
e foi quem chamou a ateno de Rbia.
- J notou como Giselle anda estranha?
- J, sim. Mas ela disse que no anda se sentindo bem por causa da gravidez.
- Conversa. Aposto como aconteceu alguma coisa.
- Mas o qu? Ser que foi com Ramon?
-  possvel. Voc no disse que ele veio aqui outro dia?
- Veio. Ser que  aquela histria do novio, o Juan? Giselle tem medo de que ele possa falar com algum sobre seu envolvimento com Ramon.
- No sei Rbia. De qualquer forma, algo no vai bem.
Rbia ficou pensativa e comeou a reparar melhor em Giselle.
Efetivamente, seu humor ia de mal a pior. Gritava com os criados, batia em Belinda, jogava coisas no cho. Seu pai ento, nem podia se aproximar dela. Solano ficava 
desgostoso, mas aceitava a desculpa da gravidez e no dizia nada, certo de que aquilo tudo passaria aps o nascimento do beb.
Um dia, Rbia no conseguiu mais se conter. Giselle havia acabado de dar uns bofetes em Belinda, por causa de uma comida muito salgada. Aps o almoo, Rbia foi 
puxando Giselle pelo brao e saiu com ela para o ptio.
- O que voc quer? - indagou Giselle de mau humor. - Estou muito cansada para passear.
- Escute aqui, Giselle - objetou Rbia com firmeza -, o que  que est acontecendo? Por que est tratando todo mundo desse jeito?
- De que jeito?
- Voc est mal humorada, agressiva. O que h com voc?
Giselle desatou a chorar. J estava mesmo sensvel por causa da gravidez, e qualquer coisinha lhe trazia lgrimas aos olhos. A amiga passou o brao ao redor de seus 
ombros e deu-lhe um beijo nas faces. Giselle se agarrou a ela, falando aos tropees:
- Oh! Rbia ajude-me! Estou desolada, sem saber o que fazer!
- O que foi que houve?
-  o Ramon. Desconfio que anda tendo caso com Manuela.
- A danarina da taverna?
- Essa mesma.
- Mas por qu? Ramon ama voc.
- Ele est me traindo. Sei que est.
- Ser que voc no anda imaginando coisas? Talvez a gravidez a esteja deixando muito impressionvel.
- No, no. Tenho certeza. Vi em seus olhos. Ele disse que no h nada entre eles, mas eu sei que est mentindo. Ramon no consegue me enganar. No a mim!
- Est certo, Giselle, acalme-se. No quer que os outros desconfiem, quer? - ela meneou a cabea. - Ento, fique calma. Daqui a pouco, at papai vai perceber. E 
isso o que quer? 
- No.
- Ento trate de sossegar.
- No posso Rbia. Preciso descobrir. Se Ramon est me traindo, preciso saber.
- Pense bem. Ramon a ama, disso tenho certeza. Mas voc est longe, casada com outro homem. No acha natural que ele tambm queira se divertir com outras mulheres?
- No! No posso suportar a idia de v-lo nos braos de outra.
- Mas voc faz a mesma coisa.
- No fao, no. Meu casamento com seu pai  uma farsa. Desculpe-me se falo assim de seu pai, Rbia, mas voc sabe que eu no o amo. S me casei com ele porque Esteban 
insistiu.
- Sei disso, e ele tambm. Contudo, voc est casada e est esperando um filho que bem poderia ser dele.
- Mas no !
- S que ningum sabe disso. Todos pensam que sim. E depois, voc faz sexo com ele, no faz?
- Mas  diferente!
- E teve que se deitar com Juan tambm, no teve?
- Foi preciso, Rbia. Juan ia nos entregar.
- E faz sexo comigo e com Diego...
- Vocs so meus amigos. Ajudam-me a suportar a ausncia de Ramon.
- Cada um tem os seus motivos, Giselle, mas o resultado  o mesmo. Voc dorme com outros homens por interesse. Ramon dorme com outras mulheres por necessidade.
- No sei por que o defende.
- No o estou defendendo. Apenas quero mostrar-lhe que isso no  assim to horrvel. Pior seria se ele no a amasse, se a estivesse enganando em seus sentimentos, 
se a estivesse usando ou iludindo. Mas ele no faz nada disso. Ramon a ama muito, qualquer um pede perceber.
- Sei disso, Rbia. Sei que ele me ama. Mas no posso! Por mais que queira, no posso aceitar o fato de que ele esteja dormindo com Manuela!


- Voc no tem certeza disso.
- Eu preciso saber! Preciso ter certeza!
- Para qu? O que vai fazer? Abandon-lo?
- No! Isso nunca! Jamais poderia viver sem Ramon.
- Ento, de que adianta saber?
- Posso dar um jeito em Manuela.
- Mas que jeito? Aposto como Manuela no representa nada para ele.
- Por isso mesmo. Preciso afast-la de meu caminho - nesse momento, voltou a chorar descontrolada. - Oh! Rbia ajude-me! Por favor, ajude-me!
- O que quer que eu faa Giselle? Ramon est em Sevilha. No  assim to perto.
- Mas eu vou at l.
- No seu estado?  loucura.
- Loucura ou no, preciso ir. Tenho que me certificar com os meus prprios olhos.
- Eu no faria isso se fosse voc. Pode no fazer bem ao beb.
- O beb que se dane!
- Giselle, que horror!
- Oh! Rbia perdoe-me. No  verdade, no quero fazer mal ao meu filho. Quero que ele nasa e seja criado pelos pais dele. Por mim e por Ramon... - calou-se aturdida.
- Criado por voc e por Ramon? - tornou Rbia confusa e perplexa. - Mas como, se voc  casada com meu pai?
Giselle jamais poderia lhe contar os planos que tinha para dom Solano.
Rbia podia apoi-la em suas loucuras porque sabia que o pai era um velho, incapaz de satisfaz-la como merecia. E depois, sabia que, quando se casara, j era apaixonada 
por Ramon e s aceitara aquele casamento para fugir das garras de padre Miguez. Rbia era bastante compreensiva e a vinha ajudando, mas nunca apoiaria o assassinato 
de seu prprio pai.
Com medo de se delatar, Giselle respondeu aturdida:
- Desculpe a franqueza, Rbia, mas seu pai j  um velho. No vai durar para sempre.
Rbia abaixou a cabea pensativa. Giselle tinha razo. O pai j era um homem idoso e no era eterno. Depois que ele morresse, Giselle ficaria viva e nada a impediria 
de casar-se com Ramon.
- Tem razo. Depois que ele se for, voc estar livre para fazer o que quiser de sua vida. Mas por enquanto, ele ainda  seu marido.
- No fique zangada comigo.
- No estou.
- Est sim. Voc ficou diferente.    .
- No ligue.  que amo muito o meu pai. Entendo que voc  uma mulher jovem e que  apaixonada por Ramon, e acho que ningum tem o direito de separar um amor assim 
to grande. Mas meu pai tem sido feliz ao seu lado, e eu no gostaria de ver a sua felicidade destruda.
- Isso no vai acontecer. No vou fazer nada para desgost-lo.
- Voc sabe que eu nunca interferi em seu romance com Ramon, mas gostaria de lhe pedir uma coisa. Deixe que meu pai alimente a iluso de que  o pai dessa criana 
que voc espera. Isso est lhe fazendo um enorme bem.
Giselle engoliu em seco. Pretendia mat-lo, mas gostava muito de Rbia e no queria engan-la. Durante alguns minutos, permaneceu confusa, pensando no que deveria 
dizer. Podia mentir para ela, mas sua conscincia lhe dizia que estaria perdendo a nica amiga que conhecera em toda a sua vida. Por fim, tomou uma resoluo. Ou 
fugiria com Ramon, ou esperaria que dom Solano morresse de causas naturais. Ele estava velho e no deveria durar muito tempo mesmo.
- No se preocupe Rbia - tranqilizou-a, segurando a mo da amiga. - Isso no vai acontecer. Enquanto viver, seu pai acreditar que o filho  dele. No lhe direi 
nada.
- Obrigada - retrucou Rbia agradecida, beijando-lhe a mo.
Foram caminhando para o lado de fora e ganharam a campina em frente ao castelo.
A passos vagarosos continuaram passeando, e Giselle retomou a palavra:

- Sobre aquele outro assunto...
- Que assunto?
- Sobre Ramon e Manuela... Lamento, mas eu preciso saber.
- No faa isso. Voc poder se arrepender.
- Ainda assim, tenho que descobrir. E vou descobrir.
- O que vai fazer?
- Vou at Sevilha.
- Como? Papai no vai permitir.
- Ele precisa ausentar-se do castelo por uns dias.
- Mas ele no quer.
- Ajude-me, Rbia. Faa com que viaje.
- Como  que farei isso?
- No sei. D um jeito. Pea a Diego para ajudar. Ele pode inventar uma histria de que seu pai est sendo chamado para resolver algum assunto na frica.
- A frica  distante, Giselle. Uma viagem at l demora muito tempo. Meu pai no ir.
- Ajude-me, Rbia, por favor!  s o que lhe peo!
Com um suspiro de resignao, Rbia acabou por concordar:
- Est certo. Verei o que posso fazer.
Na semana seguinte, a ajuda veio de forma inesperada. Diego recebeu uma carta de Esteban, pedindo-lhe que fosse a Madri imediatamente. Sua me estava muito mal e 
mandara cham-los. Esteban informava que, no dia seguinte, iria ao castelo busc-lo para, juntos, viajarem a Madri.
Solano ficou desconsolado. Apesar dos longos anos que os distanciavam, ainda sentia por ela certa ternura. Afinal, era a me de seu primognito.
- Por que no acompanhamos Diego, papai? - sugeriu Rbia, j pensando na oportunidade que Giselle tanto esperava.
- No posso minha filha. Bem que gostaria de prestar minhas ltimas homenagens a Marieta. Mas no posso deixar Giselle sozinha.
- Ora, Solano, no precisa se preocupar comigo - objetou Giselle, com voz subitamente doce. - O castelo est cheio de criados. E depois, Belinda est comigo h anos 
e sabe muito bem cuidar de mim.
- Ainda falta muito para essa criana nascer, papai. A barriga de Giselle ainda nem cresceu!
- V, Solano. No se preocupe comigo. Estarei bem.
- No sei. Tenho medo de que algo lhe acontea.
- Mas o que poder me acontecer aqui? Ficarei bem, j disse.
-  isso mesmo, papai. Giselle j no  mais nenhuma garotinha. Pode cuidar de si e do beb.
- Hum... - fez ele em dvida. - Tem certeza?
- Absoluta.
- No vai ficar aborrecida de ter que ficar sozinha?
- Terei com o que me distrair. Acho mesmo que vou comear a fiar algumas roupinhas para o beb.
Dom Solano sorriu satisfeito.
- Est certo, ento. Amanh, quando monsenhor Navarro chegar, ns o acompanharemos.
No dia seguinte, Esteban chegou bem cedo e ficou surpreso com a comitiva que o acompanharia. Pensou que somente o sobrinho iria com ele e sentiu certa apreenso 
por ter que deixar Giselle s. No que temesse pela sua segurana. Mas seu corao lhe dizia que algo no se encaixava naquela histria. Ela estava muito solcita, 
alegre, falante. Quem no a conhecesse diria tratar-se de genuna alegria. Mas ele, que j a conhecia h bastante tempo, sabia que ela deveria estar tramando alguma 
coisa.
Dom Solano se despediu dela e saiu com Rbia e Diego. A carruagem de Esteban era ampla e tinha espao para os quatro.
- No vem, titio? - perguntou Diego, vendo Esteban parado no salo, sem se mexer.
- V indo - respondeu ele, sem tirar os olhos de Giselle. - H algo que tenho que falar com Giselle.
Esteban esperou at ter certeza de que os trs j haviam mesmo sado e se aproximou de Giselle, que no ousava encar-lo.
- Giselle - chamou ele calmamente.
- O que ? - tornou ela, levantando os olhos midos para ele.
- Conheo-a melhor do que ningum, Giselle. Melhor at do que Ramon, por quem voc seria capaz de cometer as maiores loucuras.
- Esteban...
- Deixe-me terminar. No sei o que est acontecendo nem o que voc est pretendendo. Mas sei que est tramando algo. S vou adverti-la de uma coisa: tenha cuidado. 
Nem sempre poderei salv-la de sua prpria insensatez.
- No sei do que est falando, Esteban. No estou tramando nada.
- Est. Meu corao diz isso. No sei o que , mas posso sentir.
- Est se preocupando  toa. J disse que no estou fazendo nada.
- Tenha cuidado, Giselle. Miguez est de olho em voc e em Ramon.
- Em Ramon?
- Sim. Quer vingar a honra perdida de Lucena. Se ele descobrir que voc e Ramon...
- No vai descobrir nada!
- Tenha cuidado! Tenho a estranha sensao de que algo terrvel est para acontecer.
- No vai acontecer nada, Esteban, j disse. Deixe de se preocupar  toa e v. Os outros o esperam.
Esteban deu-lhe um beijo discreto no rosto e saiu corao opresso, temendo pela sua segurana. Depois que eles se foram, Giselle comeou a inquietar-se. Precisava 
partir o quanto antes. Se eles a estivessem traindo, na certa estariam usando a sua casa. Chegaria de madrugada, depois que fechassem a taverna, e os flagraria juntos.
Por volta das duas horas da madrugada, Ramon fechou a taverna e foi para casa em companhia de Manuela.
Como de costume, entraram e foram direto para o quarto, onde logo comearam a se amar.
Pouco depois, a carruagem de Giselle parou na porta da frente, e ela saltou. Com cuidado, foi rodeando a casa, at que chegou  cozinha, onde Belita costumava dormir 
num quartinho atrs. Bateu de leve  porta, at que a escrava acordou. Bastante sonolenta, entreabriu a porta e espiou.
- Senhora Giselle! - exclamou assustada.
- Psiu! - fez Giselle, indicando-lhe que no devia fazer barulho.
Belita encolheu-se assustada. Sabia que Ramon e Manuela estavam no quarto e temia pelo que poderia acontecer. Sem dizer nada, correu de volta a seu quarto, rezando 
para que Giselle no a responsabilizasse por aquilo.
Em silncio, Giselle comeou a subir as escadas. A casa estava toda s escuras,  exceo de seu quarto, cuja fraca luz das velas ainda luzia. Sem produzir qualquer 
rudo, encostou o ouvido na porta e escutou. Do lado de dentro, os conhecidos gemidos e sussurros. No se conteve. Com um empurro, escancarou a porta e entrou, 
flagrando Ramon e Manuela em pleno ato sexual.
O susto que eles levaram foi imenso. Ramon, apanhado de surpresa, empurrou Manuela para o lado, e ela caiu sobre a cama, rosto lvido, espantada demais para falar.
- Giselle... - Ramon conseguiu balbuciar, a cara branca feito cera.
- Seu animal! Porco, imundo!
- Giselle, espere...
- Eu sabia! Foi s me ver pelas costas para me trair com essa vagabunda!
Descontrolada, Giselle partiu para cima de Manuela e comeou a bater em seu rosto, ao mesmo tempo em que gritava:
- Sua ordinria! Meretriz! Tirei-a da rua quando voc precisou, e  assim que me paga!
- No, Giselle, no... - suplicava Manuela, tentando aparar os golpes.
- Voc me paga! Ah! Se me paga!
Continuou a bater-lhe, at que Ramon conseguiu segur-la por trs.
- Pare com isso, Giselle! Manuela no tem culpa de nada.
- Seus cretinos! Foi divertido me enganar, no foi? A tola, a estpida, a idiota da Giselle que faz tudo pensando em Ramon! E Ramon gasta o seu amor no corpo dessa 
vadia!
- 

- 
- Acalme-se Giselle, por Deus!
- Vou mat-la! Solte-me, Ramon, vou matar essa vagabunda!
- Saia daqui, Manuela! - berrou Ramon.
Manuela no esperou uma segunda ordem. Mais que depressa, apanhou suas roupas e saiu ainda nua, indo vestir-se no corredor. Giselle estava completamente ensandecida 
e era bem capaz mesmo de mat-la.
- Largue-me, Ramon! Vou mat-la! Vou matar voc!
Sem solt-la, Ramon foi virando o corpo de Giselle, at que ela ficou de frente para ele. Segurando seus braos para trs, tentou argumentar:
- Giselle, no  o que est pensando...
- No ? O que pensa que sou? Alguma imbecil? Ento no vi com meus prprios olhos? Canalha! Patife!
Com as mos presas atrs do corpo, Giselle ps-se a chutar Ramon, e ele foi obrigado a apertar os seus punhos e torcer os seus braos com mais fora, fazendo com 
que ela se acalmasse.
- Manuela no significa nada para mim.  apenas um corpo de mulher, nada mais. Durmo com Manuela porque no posso estar com voc. Mas  a voc que amo, s voc.
- Mentira!
- No  mentira. Voc  meu nico amor. O que Manuela me d  apenas sexo. Ela no me preenche feito voc. S voc aquece o meu corao. Quando durmo,  com voc 
que sonho; quando acordo, voc  a primeira em quem penso. Ao caminhar pelas ruas,  voc que vejo nos rostos das outras mulheres,  pelo seu corpo que anseio quando 
o meu arde de desejo. Mas voc no est. Est sempre longe, no leito de outro homem. Sinto-me s, Giselle, morro de saudades de voc. Foi por isso que cedi aos apelos 
de Manuela, porque no agentava mais a sua ausncia.
Tocada pelas palavras sinceras de Ramon, Giselle foi se acalmando. Ele a amava tinha certeza. Na certa, fora Manuela quem o seduzira, e ele, fraco feito todo homem, 
deixara-se levar pelo desejo e os impulsos, e a tomara por amante. Mas fora ela a culpada. Estava claro.
- Ramon, eu... No sei o que dizer... Sinto-me ultrajada, ferida, enganada...
- Tem razo de se sentir assim. Mas acredite em mim quando lhe digo que voc  a nica mulher que eu amo. Do contrrio, j teria fugido com Manuela. Lembre-se de 
que sei onde voc escondeu o seu tesouro e poderia muito bem t-lo apanhado e fugido com ela. Mas no foi isso o que fiz, foi? No, no foi. Mas podia, no podia? 
Podia, mas no fiz. E sabe por qu? Porque  voc que eu amo, Giselle, voc e mais ningum.
Ele tinha razo. Giselle lhe confidenciara o segredo do seu tesouro oculto, e ele bem poderia t-lo roubado e fugido com Manuela para bem longe. Mas no o fizera. 
Tivera todas as oportunidades, mas preferira ficar ali. E se ele no fugira, ento era mesmo porque a amava. Sim, Ramon a amava. Tudo fora culpa de Manuela. Fora 
ela quem o seduzira.
- Aquela vagabunda, ordinria! - rugiu Giselle. - Dei-lhe acolhida e ela me traiu.
- Manuela  apenas uma tonta.
- No a defenda! Jamais torne a defender outra mulher! Ela o seduziu, no foi? Tentou voc at que conseguiu o que queria. Eu devia imaginar. Os olhares que ela 
lhe lanava... Como fui estpida em mant-la na taverna.
- No pense nisso agora. J passou.
- No passou no! Ela  uma meretriz e vai ter o fim que merece!
- O que voc vai fazer?
- Voc vai ver.
Ainda segurando suas mos para trs, Ramon beijou os seus lbios com ardor, e ela lhe correspondeu, cheia de paixo. Ele soltou os seus punhos e ela o abraou e, 
em breve, os dois estavam na cama, se amando. Quando terminaram, Ramon acariciou o seu ventre e falou com ternura:
- E o meu filhinho, como  que vai a dentro?
Giselle deu um sorriso forado. Filhinho? Pois sim! Ela queria muito aquele filho, mas ficou imaginando o que Ramon faria quando sua barriga crescesse. Com seu corpo 
deformado, impossibilitando-a para o sexo, ele, na certa, acabaria procurando outras mulheres, e ela no poderia permitir. J sabia o que fazer. O filho que a perdoasse, 
mas sua felicidade ao lado de Ramon era muito mais importante.



Em silncio, Giselle desceu ao poro, onde seus objetos de magia ainda se encontravam guardados. Com a vela na mo, fechou a pesada porta e dirigiu-se para as prateleiras 
ao lado da estante de livros, onde guardava suas poes. H quanto tempo! No tinha ali todos os elementos, mas precisava reuni-los. Acobertada pela escurido da 
noite, saiu pela porta que dava para a floresta e penetrou na mata escura. No havia lua, e ela foi obrigada a usar uma lanterna para iluminar-lhe o caminho.
Em pouco tempo, reuniu tudo de que necessitava e voltou para dentro de casa.
Ramon no deveria desconfiar de nada ou poderia ficar aborrecido. Rapidamente, preparou a mesma infuso de que tantas vezes j fizera uso e guardou-a num frasco. 
Voltou para seu quarto e deitou-se ao lado de Ramon, que dormia um sono pesado. No dia seguinte, logo pela manh, voltou ao castelo.
Aproveitando-se de que no havia mais ningum ali alm dos criados, trancou-se em seus aposentos e abriu o frasco. Ficou olhando para ele e para seu ventre, que 
ainda no dava os sinais da gestao. Pelos seus clculos, devia estar l pelo terceiro ms, e havia ainda tempo suficiente para fazer o aborto sem correrem muitos 
riscos. Pensou em Ramon. Ele ficaria triste. Queria muito aquele filho. Ela tambm. Mas no poderia aceitar perder o homem amado por causa de seu corpo disforme.
Solano, igualmente, ficaria triste, mas era por ele tambm que chegava quele ato extremo. Havia prometido a Rbia que nada faria contra ele, o que se tornaria praticamente 
impossvel com o filho de outro homem nos braos. No. Decididamente, aquela criana no seria uma boa coisa para ningum.
Dando ainda uma ltima olhada para a barriga, decidiu-se. Virou o frasco todo na boca de um s gole e fez uma careta de repulsa. O lquido era amargo e desceu queimando 
em sua garganta. Deitou-se na cama para dormir. Dali a pouco, sentiu queimar-lhe tambm as entranhas. Aquela sensao j era conhecida e ela, pouco depois, sentiu 
o sangue descer pelas pernas. Com ele, o que teria sido seu filho. Chorou. Em outras circunstncias, talvez aquela criana fosse  luz de sua existncia, mas, naquele 
momento, poderia representar o princpio de sua destruio enquanto mulher.






CAPTULO 28

Uma semana depois, quando Solano chegou, no conseguiu conter o desapontamento. Esperava aquele filho como uma vitria de sua virilidade, mas Giselle no conseguira 
segurado durante os nove meses de gestao. Esteban olhou-a desconfiado, achando aquilo tudo muito estranho. Ficara sabendo de sua gravidez na carruagem, a caminho 
de Madri, e levou um tremendo susto. Embora Solano falasse da criana com toda a convico de um pai, Esteban sabia que no podia ser dele. Giselle jamais se permitiria 
engravidar daquele homem. O filho s podia ser de Ramon.
- No devia ter-me ausentado - queixou-se Solano. - Se eu estivesse aqui, isso no teria acontecido.
- Deixe de bobagens, Solano - repreendeu Giselle de m vontade. - Essas coisas so assim mesmo.
- Minha me morreu - declarou Diego solenemente, tentando chamar a ateno para si.
- Sinto muito, Diego - falou Giselle, sem demonstrar muito interesse.
- Como foi que aconteceu? - indagou Rbia, tambm desconfiada, ignorando a intromisso de Diego.
- De repente. Eu estava sentada, lendo um livro, quando senti o sangue escorrer. Olhei para baixo e vi que estava certa.
- O que se h de fazer, no  mesmo? - tornou Diego em tom irnico.
O tio o censurou com os olhos, e ele se calou.
- H algo que eu possa fazer por voc, Giselle? - perguntou Esteban.
- H, sim. Gostaria de consultar um mdico em Sevilha.
- Nada mais justo - concordou Solano. - Mas no h necessidade de viajar para ver o mdico. Posso chamar um aqui mesmo.
- No Solano, no quero. Estou acostumada ao mdico com o qual me consultava em Sevilha.  de confiana.
Olhou para Esteban de soslaio, mas ele no disse nada. Sabia que ela no costumava consultar mdico algum e imaginou que estava arranjando um pretexto para se ausentar.
- Deixe que ela v comigo, dom Solano - interveio Esteban.
- Cuidarei bem dela.
Solano deu de ombros. Por ele, chamaria o mdico que atendia o castelo, mas se Giselle insistia... No tinha motivos para no concordar. E depois, iria com Esteban, 
a quem ele devia muitos favores.
- Muito bem - aquiesceu Solano. - V preparar suas coisas, Giselle. Monsenhor partir amanh, logo na primeira hora.
Mais do que contente, Giselle chamou Belinda para que fosse arrumar suas coisas. J estava mesmo farta daquela vida de castel. No gostava nada de ficar em casa 
vendo o tempo passar sem ter o que fazer. Gostava de ver gente e sentia falta da agitao da taverna. Estava acostumada a ser livre, e aquela vida era pior do que 
uma priso. E depois, tinha assuntos importantes a tratar com Esteban.
- Onde  que vai se hospedar, Giselle? - inquiriu Diego, ainda com ar malicioso. - Na abadia? Ou na taverna?
Giselle fuzilou-o com o olhar, mas respondeu com aparente calma:
- Em minha casa. E agora, com licena. Preciso me preparar para a viagem.
- Vou ajud-la - disse Rbia.
As duas moas pediram licena e foram para os aposentos de Giselle, seguidas de Belinda, que comeou a preparar a bagagem. Enquanto a escrava ia arrumando as roupas 
dentro do ba, Rbia perguntou curiosa:
- Diga-me a verdade, Giselle. O que foi que houve realmente?
- Quer mesmo saber?
- Quero sim.
-        Pois vou lhe contar. Apenas lhe peo que no se zangue.
Rapidamente, Giselle contou a Rbia tudo o que se passou desde o dia em que eles haviam partido para Madri.
- No vou dizer que no tenha ficado desapontada - comentou Rbia. - Meu pai esperava esse filho mais do que qualquer outra coisa na vida. Mas no posso culp-la. 
Tambm eu j fui obrigada a tomar essa drstica medida.
- Voc? J abortou alguma vez?
- O que voc queria? Que eu desse o meu pai netos incestuosos? Jamais. Engravidei duas vezes e, nas duas, fui obrigada a consultar uma parteira. Foi ela quem me 
deu as ervas. Por isso, no me sinto no direito de condenar o que voc fez.
Giselle apertou a mo da amiga e sorriu com afeio.
- O que h com Diego? - a indagou, mudando de assunto. - Pensei que, quando a me morresse, ficaria feliz em poder colocar a mo na herana.
- Qual herana, qual nada! Dona Marieta precisou gastar tudo o que tinha para pagar as dvidas de Diego. Embora ele no pudesse dispor de seu patrimnio, envolveu-se 
com gente da pior espcie, e a me foi obrigada a saldar-lhe as dvidas para que no o matassem.
- No diga!
- Para voc ver. Aps a sua morte, no lhe restou muita coisa.
-  por isso que ele est to sarcstico?
-  sim.
- Engraado, no, Rbia? A situao de Ramon  bem semelhante.
- Eu sei. Na poca em que Diego consumiu todo o dinheiro da famlia Toledo, monsenhor Navarro ainda comentou que o cunhado fizera bem em deixar todo o patrimnio 
em usus et fructus para sua irm. Mas Diego, ainda assim, deu um jeito de gastar tudo...

- Que coisa!
Depois que Belinda terminou de arrumar o ba, Giselle a dispensou e deitou-se na cama. Desde que abortara, sentia-se um pouco cansada. J no era mais jovem e o 
corpo se ressentia de tantas extravagncias.
- O que pretende fazer em Sevilha, Giselle? Na certa, no vai consultar nenhum mdico.
-  claro que no.
- No est indo ao encontro de Ramon, est?
- No. Vou cuidar de outra pessoa.
- Que pessoa?
- De Manuela.
- Como?
- Vou destru-la, Rbia. Destruir a sua felicidade, como ela fez com a minha. No fosse por ela, eu nem pensaria em abortar o meu filho.
- No faa isso, Giselle. Deixe-a ir. Ela agora no pode mais nada contra voc.
- Isso  que no. Ela me traiu e vai ter que me pagar.    
- O que pretende fazer?
- Vou atir-la no calabouo.
- Giselle! - Rbia levou a mo  boca, horrorizada.
- Por que o espanto? Por acaso pensa que sou boazinha?
- No faa isso. Ela vai sofrer horrores l dentro.
- Pois que sofra! Quando me fez sofrer, no pensou nisso.
Rbia silenciou, tomada de profunda tristeza. Gostava muito de Giselle e sabia que ela era uma doidivanas que s pensava em sexo, mas jamais poderia supor que ela 
fosse capaz de uma torpeza daquelas. Sabia que ela fora amante de monsenhor Navarro, mas nunca imaginara que ela compactuasse com suas prticas nefastas.
Pobre Manuela! Por to pouco se veria atirada nas garras dos torturadores. Com uma indefinvel tristeza no olhar, Rbia se afastou decepcionada ante a atitude de 
Giselle. No sabia que ela era cruel. Mas ela era. Vingativa e cruel. De cabea baixa, foi se aproximando da porta. Antes de sair, ainda parou e deu uma ltima olhada 
em Giselle, que a fitava com espanto. Fizera-a sofrer, sabia, mas no tinha como evitar. Teria dado o mundo para evitar o sofrimento de Rbia, mas o mundo no era 
o bastante para conter o dio que sentia pela mulher que ousara tocar o corpo de seu amado Ramon.

***

- Voc tem que me ajudar! - berrava Giselle, parada na frente da mesa do gabinete particular de Esteban. - Aquela mulher  uma meretriz!
- Pense bem - ponderou Esteban. - A moa  uma pobre coitada. Por que no a deixa em paz?
- Porque ela seduziu Ramon, por isso.
- E da, Giselle? No posso mandar prend-la. No tenho nada contra ela.
- Pois eu tenho! Ou voc a prende, ou irei daqui at as Mesas Inquisitoriais e farei pessoalmente a denncia.
- Alegando o qu?
- Heresia!
- Com que provas?
- Desde quando voc precisou de provas para incriminar algum? A minha palavra, ou a de qualquer outro, sempre foi suficiente.
- Voc ainda vai acabar se encrencando. Miguez est observando voc e Ramon. Se ele descobrir que so amantes...
- E quem vai contar? Voc?
- As paredes tm ouvidos... Algum pode escut-la. Imagine se Miguez descobre que Ramon de Toledo, o homem que ele procura que foi noivo de Lucena, o mesmo que a 
desonrou e desapareceu,  seu amante e est escondido em sua taverna?
- No vai descobrir...
- E voc foi muito imprudente vindo at aqui.
- Voc no quis me ouvir. Passou a viagem inteira dormindo!
- Eu estava cansado. Excedi-me um pouco no vinho, na vspera...
- E o que esperava que eu fizesse? Que desistisse?
- Reflita no que vai fazer Giselle. Isso ainda pode acabar mal.
- No! Exijo que voc tome uma providncia. Se no quiser que eu mesma o faa!
Esteban suspirou desanimado. No adiantava discutir com Giselle. Ela estava descontrolada, fora de si. S conseguia pensar em vingar-se da tal Manuela. Melhor seria 
fazer o que ela pedia. Um escndalo, quela altura, s serviria para chamar a ateno de Miguez. Ele no vira Giselle entrar e, com sorte, no a veria sair. Contudo, 
se ela fosse s Mesas Inquisitoriais, poderia estar selando seu prprio destino. Se Miguez a seguisse, na certa encontraria Ramon em sua cama.
- Est bem, Giselle, farei como me pede. Onde posso encontrar essa tal Manuela?
- Ela vive numa espelunca chamada O Mascate. Conhece?
- No, mas posso descobrir.
- timo! Mande seus homens at l e eles a encontraro.
- Farei isso. E agora, volte para casa com cuidado. Depois que prender Manuela, mandarei avis-la.
Giselle correu at ele e beijou-o nos lbios, feliz da vida com o que ela considerava uma vitria. Em silncio, vestiu o manto negro e jogou o capuz sobre o rosto, 
saindo para o corredor. Ningum a reconheceu. As faces ocultas no davam mostra de que era ela, e Giselle, assim como entrou, pde sair sem maiores problemas.
Alguns minutos depois que ela se foi, Esteban tambm se levantou. Estava ficando cansado daquilo. Giselle vivia se metendo em encrencas, e era ele quem tinha que 
consertar. Mas aquela seria a ltima vez. Se ela se envolvesse em mais alguma confuso, deixaria por conta dela. No podia ser seu protetor para sempre. Suspirou 
com tristeza e abriu a porta, indo  busca de seus soldados.
Assim que ele se foi, um vulto saiu de detrs da imensa estante de livros que circundava quase todo o gabinete de Esteban. Era Juan. Quando Giselle entrou, ele estava 
em uma ponta da estante, limpando os livros da prateleira de baixo, e ela nem se dera conta de sua presena. Ao v-la entrar esbaforida, ele quase se levantou para 
receb-la, mas suas palavras speras logo alertaram seus sentidos. Giselle estava zangada, e a prudncia lhe dizia que no deveria se mostrar. Se ficasse quieto, 
ficaria sabendo o que estava acontecendo.
Para sua surpresa, descobriu que ela e Ramon eram, efetivamente, amantes. E mais: que Ramon fora noivo de Lucena. Giselle mentira para ele enganara-o perfidamente. 
No o amava. Amava aquele vagabundo metido  nobre. Agora que descobrira tudo, ficou pensando no que deveria fazer. Por mais que soubesse que Giselle o havia enganado, 
no podia fazer nada contra ela. Precisava era livrar-se de Ramon. Com ele fora de seu caminho, talvez ainda tivesse alguma chance com Giselle. Afinal, se ele desonrara 
Lucena, bem se via que no tinha o menor carter. No merecia Giselle.
Esteban fez o que Giselle lhe pediu. Chamou seus homens e deu-lhes ordens para que fosse  estalagem chamada O Mascate e prendessem uma moa de nome Manuela Pea, 
acusada de heresia. Assim foi feito. No meio da noite, os soldados invadiram a estalagem  procura de Manuela, que foi arrancada da cama e levada amarrada, sem nem 
saber por que estava sendo presa.
No dia seguinte  sua priso, Esteban foi sozinho  casa de Giselle. Ela ainda estava dormindo, ao lado de Ramon, e Belita foi acord-la. Ao saber que o cardeal 
estava ali, desceu correndo para ir ao seu encontro, tomando cuidado para no acordar o amante.
- E ento? - perguntou ansiosa.
- Est feito, Giselle. Manuela j est nas masmorras.
- Que maravilha! Quando  que posso v-la?
- V-la? Para qu?
- Ora essa Esteban. De que vale uma vingana se no se pode sabore-la pessoalmente? Quer me tirar esse prazer?
- Pretende humilh-la ainda mais?
- O que est havendo com voc? Que eu saiba, nunca foi dado a crises de conscincia.
- Est enganada, Giselle. Todos os que acusei eram culpados de algum tipo de heresia. Cumpri o meu dever levando-os ao calabouo e  morte, purifiquei as suas almas...


- E ficou com todo o seu dinheiro.
- Isso no vem ao caso. O confisco de bens  apenas conseqncia do processo de inquisio. Mas eles eram culpados. Todos eles. E mereceram o fim que tiveram. Mas 
essa moa... No consigo ver nela nada que justifique uma acusao.
- Diz isso s porque ela  pobre e voc no poder tirar nada dela.
- No  verdade. Essa moa  uma tonta, ingnua. No fez mal a ningum.
- Fez a mim!
- Est bem, no quero voltar a discutir esse assunto. De qualquer forma, ela j est presa.
- O que foi que fez com ela?
- Por enquanto, nada. Ela est apenas amarrada ao tronco.
- S isso? Ela tem que ser torturada! No  isso o que fazem com os hereges?
- Deixe a tortura comigo. Ou ser que quer tomar o meu lugar de inquisidor?
- No... Perdoe-me. Sei que me exaltei, mas  que odeio Manuela.
- No precisa mais se preocupar com ela. Do lugar onde est no poder mais atingi-la.
- Quero v-la.  o ltimo pedido que lhe fao.
Aps alguns minutos de hesitao, Esteban acabou concordando:
- Est bem. Mas que seja mesmo a ltima coisa que me pede. De hoje em diante, no atenderei mais a nenhum pedido seu.
- Fique sossegado. Depois disso, vou deix-lo em paz.
- Muito bem. Amanh  noite mandarei um soldado de minha confiana vir aqui para busc-la. Cubra-se com o manto e o acompanhe. Eu a estarei esperando para lev-la 
ao calabouo. Mas cuidado. No deixe que ningum a reconhea.
- No se preocupe. Farei tudo direitinho.
Assim foi feito. Na noite seguinte, Giselle acompanhou o soldado que a fora buscar em sua casa. No disse nada a Ramon, mas fez com que ele fosse at a taverna naquele 
dia, alegando que no seria bom que se ausentasse por tanto tempo. Desde que ela chegara, Ramon deixara a taverna aos cuidados de Sanchez, e o movimento cara muito 
aps a sada de Manuela.
Na calada da noite, Giselle penetrou na masmorra do Tribunal, e a primeira coisa que sentiu foi o cheiro ptrido que vinha de seu interior. Instintivamente, tapou 
as narinas com a ponta do manto e foi seguindo pelos corredores, assustada com os fracos gemidos que, aqui e ali, se faziam ouvir. At que avistou Esteban, parado 
no porto que conduzia ao crcere feminino. Era a primeira vez que entrava no lugar para onde ajudara a mandar tanta gente e sentiu um leve arrepio. O que seria? 
No estava frio ali, e nenhuma corrente de ar vinha do exterior.
Era dom Ferno. A ida de Giselle ao calabouo o atrara para junto dela, e ele se aproximou, sentindo o quanto a odiava, o quanto odiava os dois. Acompanhou-a at 
o local onde Manuela dormia amarrada  pol (4). Aquela viso a impressionou, mas Giselle seguiu adiante. Podia ser horrvel, mas era o que Manuela merecia por hav-la 
trado. Aproximou-se dela e fitou o seu semblante exangue.



Pol = instrumento de tortura que consistia em grossas cordas de cnhamo presas ao teto, onde era pendurado o supliciado, atado pelos pulsos e pelas mos, e com 
pesos de ferro nos ps. (N.A.)

- Ela est morta? - perguntou a Esteban.
- Provavelmente no. Deve estar dormindo.
Apesar de atada  pol, ela no havia sido propriamente torturada e permanecia apenas suspensa no ar, sem ferros presos aos ps. Giselle cutucou-a com a mo, e Manuela 
abriu os olhos lentamente. Ao reconhecer Giselle ali parada, pensou que ela estivesse ali para solt-la e ps-se a chorar, implorando com voz sofrida:
- Ah! Giselle, voc veio me ajudar. Que bom que me perdoou. Tire-me daqui. No fiz nada, no sou nenhuma herege.
Naquele momento, Giselle sentiu o corao se apertar, e uma pontada de arrependimento comeou a martelar em sua conscincia. Aquele lugar era mesmo tenebroso, e 
Manuela sequer sabia por que fora presa.



- Diga-lhes que houve algum engano, Giselle. No fiz nada...
- No sabe por que est aqui, Manuela? - indagou Giselle, tentando manter a voz firme.
- No. Na certa foi algum engano. Eu nada sei de heresias...
Giselle, por pouco, no reconsiderou. Comeava a sentir pena de Manuela, mas a moa, desconhecendo o motivo de sua priso, continuou a falar:
- Perdoe-me por haver dormido com Ramon...
Aquilo reacendeu o seu dio. Giselle lembrou-se da cena que vira quando os surpreendera na cama, nus, em plena conjuno carnal, e seu corao se encheu de rancor.
- Fique quieta ou ser pior para voc - revidou Giselle, com voz fria.
- Por qu? Eu no fiz nada. Por favor, diga a esse senhor que eu no fiz nada. Voc me conhece, sabe que eu no fiz nada...
- Agora basta! Voc  uma herege nojenta e deve pagar pelo seu crime!
- Crime? Que crime?
- Voc no sabe mesmo, no ? No sabe por que est aqui. Pois eu mesma tratarei de esclarec-la. Voc est aqui porque eu quero, porque voc me traiu. Fui eu quem 
arranjou para voc ser presa, Manuela. Eu!
Manuela piscava os olhos, coberta de pavor. As palavras de Giselle no faziam sentido algum, e ela desatou a chorar convulsivamente.
- Voc? - tornou atnita. - Mas por qu? Voc no pode fazer isso, Giselle. No pode ser assim to vingativa. Voc no seria capaz. Por favor, tire-me daqui. Eu 
lhe imploro, tire-me daqui.
Fitando-a com olhar glido, Giselle finalizou com desdm:
- Nunca.
Deu-lhe as costas e foi andando para o porto, seguida por Esteban, que no dissera uma palavra. Atrs deles, a voz de Manuela ainda se fazia ouvir, implorando que 
Giselle a perdoasse e ajudasse, despertando os outros presos. Em instantes, ouviu-se um mar de lamrias e choros agonizantes, e Giselle disparou pelo corredor, em 
direo  sada.
- Satisfeita? - indagou Esteban, j do lado de fora.
- Sim - foi sua nica resposta.
Ela rodou nos calcanhares e seguiu na direo em que uma carruagem a aguardava para lev-la de volta. Sentou-se no banco e, sem coragem de encarar Esteban, deu ordens 
ao cocheiro para que partisse. No caminho, ocultou o rosto entre as mos e chorou novamente. Sentia pena de Manuela, mas o orgulho ferido falou mais alto, e ela 
cedeu ao desejo de vingana.
Nesse momento, Manuela chorava desesperada, ainda mais porque o carrasco, responsabilizando-a pela balbrdia que causara, atou alguns pesos a seus ps, e ela sentiu 
uma dor horrenda nas juntas, como se lhe fossem arrancar braos e pernas. Seu desespero era imenso, e, o seu lado, o esprito de dom Ferno chorava com ela. Assim 
como ele, aquela jovem era mais uma vtima da covardia de Giselle e da tirania de Esteban. Mas aquilo no ficaria assim. Ele reunira muitos elementos contra Giselle. 
Bastaria se esforar e atuar sobre os encarnados, e eles, espritos fracos e comprometidos, em breve acederiam a suas sugestes. Giselle teria o fim que merecia. 
Quanto a Manuela, faria tudo o que estivesse o seu alcance para salv-la. Seria mais uma etapa de sua vingana.








CAPTULO 29


Aos ps da Virgem Maria, Juan orava, pedindo inspirao para o que deveria fazer. Agora que sabia quem era aquele Ramon e que ele era amante de Giselle, ficara em 
dvida sobre que atitude tomar. Sua vontade era entreg-lo a padre Miguez imediatamente. Contudo, temia por Giselle. Padre Miguez no gostava de Giselle e era bem 
capaz de fazer algo contra ela tambm. Mas ele procurava Ramon de Toledo, responsvel pela desonra de Lucena, e daria tudo para prend-lo. Juan se decidiu. Falaria 
com padre Miguez, mas s lhe diria o paradeiro de Ramon depois que ele prometesse que no faria nada contra Giselle tambm.
Miguez estava em seu gabinete no Tribunal, examinando os autos de um processo, quando Juan bateu  porta.
- Entre - disse a voz l de dentro.
- Padre Miguez... - cumprimentou Juan, com um aceno de cabea.
- Ah! Juan! Entre, meu jovem, entre.
Juan entrou e foi postar-se diante dele, encarando-o com ar grave. Miguez soltou o processo e o fitou de volta, perguntando com visvel preocupao:
- Est tudo bem, Juan? Esteban piorou?
- No, senhor. Monsenhor Navarro est muito bem. Sou eu quem precisa falar, com o senhor.
- Pois ento se sente - Juan se sentou. - E ento? Do que se trata?
Ele estava ruborizado, lutando para conter o embarao.
- Bem, padre Miguez... - comeou hesitante -  sobre aquele homem...
- Que homem?
- O ex-noivo da senhorita Lucena... - completou bem baixinho.
- Refere-se a Ramon de Toledo?
- Esse mesmo.
- O que tem ele? Por acaso sabe onde est?
- E se eu disser que sei?
- Se sabe,  seu dever me informar.
- Pode ser mesmo que eu saiba padre Miguez. No entanto, h certos aspectos que envolvem o senhor Ramon de Toledo que o senhor desconhece.
- Como assim?
- Bem, digamos que eu saiba o seu paradeiro e que esteja disposto a revel-lo ao senhor em troca de... Um pequeno favor.
- Favor? - Miguez ergueu-se da cadeira, exaltado. - Que favor, Juan? Devo lembr-lo de que  um jovem novio, prestes a se ordenar, e que no  direito chantagear 
seus superiores.
O rosto de Juan tornou-se ainda mais rubro, e um forte calor comeou a subir pelo seu pescoo, espalhando-se pelas suas faces.
- No se trata disso - contestou com voz sumida. - No estou aqui para chantage-lo.  que Ramon est envolvido com uma pessoa muito minha conhecida.
- Quem? - Miguez no escondia a curiosidade.
- No posso dizer.
- Como assim, no pode dizer?
- Tenho medo do que o senhor possa fazer contra essa outra pessoa.
Miguez fitou-o desconfiado, ainda sem pensar no nome de Giselle.
- Juan - tornou mais calmo -, diga-me quem  essa outra pessoa, e talvez eu possa ajud-lo.
- No posso padre.
- Por qu? Por acaso no confia em mim?
- Confio. Mas no posso permitir que essa outra pessoa sofra as conseqncias de algo que no fez.
- Se  assim, ela no tem o que temer.
- Gostaria de ter a sua certeza.
- E se eu lhe garantir que nada farei contra ela?
- Era isso mesmo o que esperava ouvir do senhor, padre Miguez. Quero total iseno para a pessoa envolvida com Ramon.
Algo no corao de Miguez, naquele momento, despertou-lhe os sentidos, e ele comeou a desconfiar.
- Por acaso Esteban conhece essa outra pessoa? - indagou, aps alguns minutos.
Juan titubeou. De nada adiantaria mentir sobre isso, mas ele no queria envolver o nome de monsenhor. De qualquer sorte, Miguez sabia da relao entre Giselle e 
Esteban, e ocultar-lhe que ele conhecia a pessoa com quem Ramon se envolvera era pura inutilidade. Por fim, acabou por aquiescer:
- Conhece.
- E ele sabe que voc veio a mim?
- No.
Uma atroz desconfiana foi dominando Miguez. Aos pouquinhos, foi ligando os fatos, e uma terrvel dvida passou a assalt-lo. Comeava a perceber... Esteban, de 
uma hora para outra, dera para defender Ramon, tentando desviar sua ateno do rapaz. E agora, Juan aparecia querendo denunciar o mesmo Ramon, mas com medo de que 
outra pessoa pudesse ser acusada tambm. S havia uma pessoa no mundo que Juan tentaria desesperadamente defender. A mesma que Esteban faria tudo para proteger... 
Ser que Ramon se envolvera com quem ele pensava?
- Juan - falou com severidade -, exijo que voc me diga o paradeiro de Ramon de Toledo. Isso  uma ordem. Ou voc me diz, ou irei agora mesmo a Esteban e lhe contarei 
o que voc est fazendo sem a sua autorizao.
- No! Por favor, padre Miguez, no faa isso.
- Diga-me ento onde ele est.
- 

- 
- S se o senhor me prometer que no far nada contra a pessoa com quem ele est envolvido.
- Est certo, prometo. Prometo que a pessoa envolvida com Ramon no ser acusada por manter relaes com ele.
Juan suspirou aliviado. Em sua ingenuidade, achava que aquela promessa era o bastante. Contudo, no sabia o quo ardiloso padre Miguez podia ser e, de forma ingnua 
e mais confiante, acabou por revelar:
- Ramon de Toledo mantm um romance sigiloso com Giselle...
- O qu? - esbravejou, ante a confirmao de suas suspeitas. - Voc quer dizer, Giselle Mackinley, a mesma protegida de Esteban?
- Sim.
Miguez desabou na cadeira. Lucena ia enlouquecer quando soubesse. Sua pior inimiga de caso com o homem por quem nutria um dio descomunal. Seria demais para ela. 
Por outro lado, aquele romance at que poderia ser bem providencial. Prenderia os dois de uma nica vez, acusados de fornicao.
Mas havia Juan. Ele prometera ao rapaz que no faria nada contra Giselle e era um homem de palavra. No podia acus-la pelo nico fato de manter relaes com Ramon. 
Ele prometera. Entretanto, desconfiava de seu envolvimento com demnios. De que outro modo teria enfeitiado Esteban a ponto de lev-lo aos atos mais extremos para 
proteg-la? Sim, pensou, havia de encontrar algo contra ela tambm.
- Diga-me onde encontr-lo - disse Miguez em tom imperativo.
- Ele est morando na casa de Giselle e cuida de sua taverna.
- Conheo a taverna, mas no sei onde Giselle mora.
Juan contou-lhe tudo. Deu o endereo da casa de Giselle, indicando-lhe os horrios em que o encontraria na taverna. Quando terminou, pediu em voz splice:
- Por favor, padre Miguez, no conte a monsenhor Navarro que fui eu que falei. Ele jamais me perdoaria.
- Est bem, Juan. Tem a minha palavra.
- Obrigado.
- Juan... Por que est fazendo isso?
Ele suspirou dolorosamente e deixou que duas grossas lgrimas escapassem de seus olhos, enxugando-as com as costas das mos.
- Ramon de Toledo obrigou Giselle a me trair...
Rapidamente, Juan disse como descobrira sobre o envolvimento de Giselle e Ramon. Contou-lhe sobre o dia em que ela fora ao gabinete de Esteban e lhe falara sobre 
Manuela, que ele tambm conhecia e que agora estava nas masmorras. Contou-lhe tudo o que sabia, e Miguez foi sentindo a raiva crescer dentro dele. Enquanto Juan 
falava, sentia que odiava Giselle cada vez mais e tudo faria para que ela fosse dele... Para poder destru-la com suas prprias mos.
Quando Miguez chegou  casa de Lucena, ela logo percebeu que alguma coisa havia acontecido. Ele estava com um estranho brilho no olhar e a beijou com mais intensidade 
do que de costume.
- O que foi que houve? - indagou curiosa.
- Minha querida Lucena - alegrou-se -, creio que hoje ser um dos dias mais felizes da sua vida.
- Por qu? Por acaso conseguiu prender Giselle?
- Melhor. Vamos apanhar Giselle e Ramon com um s golpe.
- Como assim? O que quer dizer?
- Sente-se aqui junto a mim. E mande buscar Blanca. Quero que ela escute isso tambm.
Lucena deu ordens para que Consuelo fosse buscar Blanca em seu quarto. Depois de acomod-la sobre as almofadas, Miguez comeou a contar o que havia acontecido.  
medida que falava, o rosto de Lucena ia se contraindo, at que ela, no conseguindo mais se conter, explodiu tomada de fria:
- Aquela miservel! Alm de tirar a vida de meu pai, de destruir a pobre Blanca, de arruinar a minha prpria vida, ainda se atreve a seduzir, o meu noivo! Ento 
foi por isso que ele me deixou! Mas como? Como foi que isso pde acontecer?
- No sei Lucena. Mas se seu pai tinha um caso com Giselle...        

- 
Parou de falar, j arrependido, ouvindo os soluos de Blanca.
- Perdoe-me, Blanca - lamentou Miguez, sinceramente compadecido -, no queria perturb-la.
- No devamos t-la chamado aqui - censurou Lucena. - Isso no podia fazer-lhe bem.
- Tem razo, Lucena - concordou Blanca, com sua vozinha fraca e insegura. - Mas faz-me ainda mais mal saber que essa histria sanguinria no termina por aqui.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que de nada adianta querer se vingar. Ferno me traiu e est morto, e eu... No sou nem sombra da mulher que fui um dia. No entanto, prender e torturar 
Giselle no vai restituir nada daquilo que perdemos.
- Como pode falar assim, Blanca? - indignou-se Lucena. - Vai nos trazer conforto. Saber que a mulher que nos destruiu vai sofrer tudo aquilo por que nos fez passar 
vai nos consolar.
- No. Vai apenas nos iludir. A vingana  apenas uma iluso. Pensamos que estamos nos ressarcindo de algo que nos foi tomado quando, na verdade, estamos tentando 
tomar o que tambm no nos pertence. Mais tarde, teremos todos que acertar nossas contas.
- Blanca!
- Por favor, Consuelo, leve-me daqui - pediu Blanca, tentando se levantar sozinha. - No quero mais saber de mortes ou carnificinas. J basta o que passei.
Lucena e Miguez ficaram assistindo Blanca se afastar, atnitos. No esperavam aquela reao. Ainda mais dela, que tanto sofrer nas mos dos verdugos. Blanca havia 
se tornado uma mulher triste e de poucas palavras, mas o que dissera causou constrangimento e embarao no corao dos dois.
- Deixe-a - ponderou Miguez. - Ela sofreu muito. Deve estar mesmo cansada de tudo isso.  natural.
- Mas Miguez, ela no quer se vingar. Tem essa chance e no quer aproveitar. Como pode uma coisa dessas?
- No sei Lucena. Blanca sofreu muito, e nem eu, nem voc jamais poderemos alcanar tudo o que ela sentiu e ainda est sentindo. H de ter os seus motivos.
Lucena abaixou os olhos e no respondeu. Se Blanca no queria se vingar, respeitaria seu desejo. Mas era o desejo dela, no o seu. Faria a vingana sozinha.
- Tambm tenho os meus motivos - revidou Lucena, voz fremente de dio. - E no estou disposta a abrir mo deles. Giselle e Ramon tm que pagar. Agora, mais do que 
nunca!
- No se preocupe minha querida. Eles no ho de escapar.
- E quanto a monsenhor Navarro?
- O que tem ele? J disse que ele nada tem a ver com essa nossa vingana. Vamos deix-lo fora disso tudo.
- O que dir quando souber?
- No poder dizer nada.
- Na certa, vai tentar impedir.
- Ele no ter como. Darei um jeito de acusar Giselle de tal forma que nem ele ousar contestar a sua priso.
- Quando vai prend-los?
- O mais rpido possvel. Giselle veio de Cdiz especialmente para mandar prender a tal Manuela e no iria desperdiar a oportunidade de fornicar com seu amante. 
Talvez ainda esteja em Sevilha.
- Quero ir com voc.
- Isso  que no! No vou expor voc a esse constrangimento.
- No, Miguez. Quero estar presente para que eles saibam por que esto sendo presos.
- Est certa, minha querida. No fundo, tem esse direito. Amanh de manh virei busc-la.
- Para que esperar tanto? Podemos ir prend-los agora mesmo.
- J  tarde. No gostaria de arrast-los pelas ruas em plena luz do dia, para que sofressem a humilhao e a vergonha de se verem expostos para toda a cidade?
-  uma tima idia.
- Pois ento, prepare-se. Amanh cedo estarei aqui. E no se preocupe. Dar tudo certo.
- 

- 
Naquela noite, Lucena no conseguiu dormir. Antegozava o prazer que teria com a priso de seus dois maiores inimigos. Depois, com a ajuda de Miguez, faria com que 
sofressem e agonizassem, assim como seu pai, ela e Blanca haviam sofrido. Tiraria tudo de Giselle, que ainda teria que suportar a humilhao de ser espoliada por 
aquela a quem ajudara a levar  runa.
Ao mesmo tempo em que Miguez e Lucena tramavam sua vingana, Giselle ia para casa com o corao oprimido, impressionada com o episdio que vivera na masmorra. Nunca 
antes algum havia lhe causado tanta impresso. Ela j havia ajudado a mandar para o calabouo centenas de homens e mulheres, mas a viso de Manuela presa  pol 
no saa de sua cabea.
Quando voltou para casa naquela noite, Ramon estava acordado,  sua espera.
- Meu Deus, Giselle, o que foi que aconteceu? - o indagou, correndo para ela assim que a viu entrar, faces lvidas e olhos vermelhos.
Sem responder, Giselle sentou-se na cama e ocultou o rosto entre as mos, desatando a chorar.
- Oh! Ramon!
- O que foi que houve?
Seriamente preocupado, Ramon sentou-se a seu lado e pousou sua cabea em seu colo, acariciando seus cabelos.
- No foi nada - murmurou ela. - J vai passar.
- Onde  que voc esteve? Acordei e no a vi. Fiquei preocupado.
Giselle tinha medo da reao de Ramon. Desde que chegara no lhe dissera de suas intenes para com Manuela, mas tinha certeza de que ele no aprovaria. J havia 
ficado deveras decepcionado com a perda do beb, cujo aborto julgara espontneo, e Giselle no queria desgost-lo ainda mais.
-  por causa do beb que est chorando? - prosseguiu ele, penalizado, e ela redobrou o choro. - Por favor, acalme-se. Amo voc. Na certa, teremos outros filhos.
- No, Ramon, no teremos mais filhos. J no sou mais nenhuma mocinha.
- No faz mal. Se  isso o que a preocupa, ento no precisa mais se preocupar. Eu a amo e no me importo de no termos filhos.
- At que ponto voc me ama?
- At que ponto? Como assim? Que pergunta  essa?
- Voc seria capaz de entender todos os meus gestos desesperados?
- Sim... Creio que sim. Por qu? O que voc fez?
Ela enxugou as lgrimas e fitou-o com seriedade. Precisava contar-lhe a verdade. Ele acabaria descobrindo mais cedo ou mais tarde, e era melhor que fosse por seu 
intermdio.
- Fui ao Tribunal do Santo Ofcio e denunciei Manuela como herege.
- Voc o qu?
- Denunciei Manuela. Ela est presa. Ele mal conseguia esconder o assombro.
- Mas por que, Giselle? Por que fez isso?
- Porque ela me traiu.
Ramon passou a mos pelos cabelos, acabrunhado.
- Voc agiu muito mal - censurou-o.
- Por qu? Ela me traiu. Seduziu voc para que me trasse.
- Manuela  uma tola. No faz mal a ningum.
- Fez a mim.
- Seria melhor se tivesse lhe dado uma surra.
- No me rebaixaria tanto, sujando minhas mos com aquela cadela.
- Acha que suas mos esto limpas, Giselle? Depois do que voc fez?
- O que h com voc, Ramon? Agora deu para ter crises de conscincia, ? Voc sempre soube o que eu fazia e nunca disse nada.
- Eu nunca aprovei! Alm disso, voc no conhecia aquelas pessoas.
- Engana-se. Conheci cada uma delas... Intimamente.
- Ainda assim,  diferente. Aquelas pessoas no estavam envolvidas com a sua vida. No era como Manuela. Voc lhe deu abrigo, ela trabalhava para voc, confiava 
em voc...
- 

- 
- Pare! Pare! Se quiser defend-la, v fazer-lhe companhia!
Giselle caiu num pranto sentido e amargurado. Sabia que Ramon estava certo e, pela primeira vez, sua conscincia lhe dizia que no havia agido direito. Com todos 
os outros, no se importara. Denunci-los era sua tarefa. Ela se envolvia com eles por ordem de Esteban, para cumprir a misso que ele lhe confiara. Mas no os conhecia 
a fundo nem se relacionava com eles. Manuela no era feito eles, e ela s a denunciara movida por um sentimento mesquinho e vingativo. Era uma tonta, ingnua, doidivanas. 
S pensava em sexo e em homens, gostava de seduzir, de fazer amor. Mas nunca prejudicara ningum. Nem mesmo a ela. Era bem verdade que trara a sua confiana, deitando-se 
com Ramon. Mas aquilo era o mximo que seria capaz de fazer.
Seu desespero, entretanto, tocou o corao de Ramon. Por mais que no aprovasse o que ela fizera, no fundo, podia compreend-la. Uma mulher ferida era capaz de qualquer 
coisa, ele j deveria saber, e Giselle no fugia a essa regra. Mas ele a amava. Fosse o que fosse que tivesse feito, ele continuaria sempre a am-la.
- Giselle - sussurrou, abraando-a com ternura -, no chore mais. Est tudo bem, j passou.
- No est zangado, Ramon?
- No, no estou. Fiquei um pouco chocado, mas posso compreender.
- Pode mesmo?
- Sim. Meu amor por voc  maior do que tudo. Estarei sempre o seu lado, no importa o que tenha feito.
- Oh! Ramon!
Giselle estreitou-se a ele com volpia, e logo os dois estavam se amando, esquecidos de Manuela. No dia seguinte, logo que o sol nasceu Giselle teve que partir. 
J se demorara demais na pretensa visita ao mdico, e Solano acabaria por desconfiar. Ramon lamentou a sorte da pobre Manuela, mas no podia se colocar contra Giselle. 
Jamais ficaria contra ela.
Despediu-se dela com um beijo prolongado e voltou a dormir. Ainda era muito cedo, e ele estava cansado. De repente, foi despertado por mos que o agarravam e o puxavam 
da cama. Assustado, tentou entender o que estava acontecendo, at que se deu conta de que o quarto estava cheio de soldados armados e furiosos. Ser que Giselle 
o havia denunciado tambm? Esse pensamento encheu-o de tristeza e indignao, e ele j estava quase acreditando nessa suspeita quando os soldados se afastaram para 
dar passagem a um homem. Um padre entrou com ar furioso e o encarou com dio. No era Esteban, ele sabia, mas talvez fosse algum a mando dele.
- Ramon de Toledo! - esbravejou com voz tonitruante - Por ordem do Tribunal do Santo Ofcio, est sendo recolhido ao calabouo, acusado da mais srdida heresia!
- Heresia? - balbuciou aturdido. - Mas que heresia?
- Calem a boca do fornicador! - rugiu colrico.
Os soldados o amordaaram mais que depressa e o derrubaram ao cho.
- Onde est sua comparsa? - prosseguiu, com os olhos injetados de sangue. - Vamos, responda!
Como Ramon estava amordaado, no conseguiu falar, e um dos soldados deu-lhe um chute nas costelas, fazendo com que gemesse de dor. Sem nada entender, rosto colado 
no cho, viu quando de repente a barra de um vestido se aproximou. Com muita dificuldade, conseguiu levantar os olhos, temendo encontrar diante dele uma Giselle 
enciumada e enfurecida. Mas qual no foi o seu espanto ao dar de cara, no com Giselle, mas com Lucena, cujos olhos transbordavam de dio.
- Desamarrem-no! - exigiu ela.
A um olhar de Miguez, os soldados desataram a mordaa, mas Ramon no conseguiu falar, tamanho o seu espanto, e permaneceu deitado no cho, cabea baixa, evitando 
o olhar acusador de Lucena.
- De joelhos! - gritou Miguez.
Os soldados o ergueram bruscamente e o puseram de joelhos diante de Lucena, enquanto Miguez prosseguia:
- Agora beije os ps da mulher que voc tentou conspurcar!
Agora entendia. Mas o orgulho o paralisou, e ele permaneceu parado, fitando-a com um misto de mgoa e horror.
- Beije-lhe os ps, vamos! - vociferou Miguez novamente.
Como Ramon no se decidisse, um dos soldados se aproximou por trs e desferiu-lhe violento golpe na nuca, fazendo com que ele casse de bruos, bem perto dos ps 
de Lucena. Mas ele resistia. Seu orgulho e sua hombridade haviam sido duramente atingidos, e ele no estava disposto a se rebaixar diante daquela mulher.
- No ouviu o que sua eminncia falou? - disse o soldado entre dentes. - Beije os ps da moa!
Ramon no beijou. Nada no mundo o faria tocar Lucena novamente. O soldado puxou-o pelos cabelos e esfregou os seus lbios sobre os ps de Lucena, mas Ramon, coberto 
de dio, ao invs de beij-los, cuspiu em cima deles, o que provocou a ira de Miguez e do soldado, que o fez desmaiar com novo golpe.
- Co imundo! - fremiu Lucena. - Verme!
- Levem-no daqui! - ordenou Miguez, rosto desfigurado pela clera.
Os soldados erguerem Ramon e saram arrastando-o desmaiado. Mais atrs, outro soldado segurava pelo brao Belita, que chorava sem parar. Miguez fez sinal para que 
ela se aproximasse, e o soldado empurrou-a na direo dele. Na mesma hora, Belita caiu de joelhos e comeou a choramingar:
- Oh! Meu senhor tenha piedade! Sou uma pobre escrava deserdada da sorte...
- Cale-se! - gritou Miguez, desferindo-lhe uma bofetada.
Belita engoliu o choro e abaixou os olhos, tremendo feito vara verde.
- S fale quando sua eminncia mandar - disse o soldado com frieza.
Ela fez como lhe ordenavam. Ficou de cabea baixa, esperando que o padre  sua frente lhe perguntasse algo, temendo por sua vida. Foi quando Miguez comeou a falar:
- Muito bem, criatura reles, onde est sua senhora?
- Minha senhora? A senhora Giselle?
- E quem mais poderia ser imbecil?
Belita comeou a chorar novamente, e Miguez j ia lhe desferir nova bofetada quando Lucena interveio:
- Deixe a pobre criatura, Miguez. Ela est assustada.
- Mas Lucena, ela  criada daquela vbora herege.
-  apenas uma escrava, no tem vontade prpria. Deixe-a comigo.
Miguez chegou para o lado e Lucena tomou  dianteira. Abaixou-se ao lado de Belita, ergueu o seu queixo e perguntou com serenidade:
- Qual  o seu nome?
- Belita, senhora.
- Muito bem, Belita. Estamos aqui para saber onde est Giselle. Se voc sabe, diga-nos ou pode acabar se comprometendo tambm.
- Ela partiu hoje pela manh. Pouco antes de os soldados chegarem. Voltou para Cdiz...
Lucena fitou Miguez que, impaciente, ordenou a seus soldados:
- Revistem a casa toda!
No demorou muito e os soldados encontraram o poro onde Giselle costumava fazer suas magias. Rapidamente, um dos homens reapareceu no quarto e foi chamar Miguel.
- Venha depressa, eminncia. Encontramos algo.
Imediatamente, Miguez seguiu o soldado, com Lucena atrs dele. Belita foi junto, arrastada por outro soldado. Miguez entrou n poro empoeirado. Havia ali toda sorte 
de sortilgios. Poes ervas plos e unhas de animais, alguns ossos e livros altamente incriminadores. Miguez fez o sinal da cruz e Lucena se persignou, enquanto 
ele examinava cada objeto daquela estranha coleo.
- Creio que as provas contra Giselle so irrefutveis - falou Miguez em tom mordaz. - Essa mulher tem parte com o demnio, se no  o demnio em pessoa.
Lucena exultou. Aquilo era mais do que poderia esperar. Vingara-se de Ramon e de Giselle de uma s vez. E, embora no pudesse se vingar de Esteban tambm, a acusao 
de sua protegida j seria para ele um grande castigo. Monsenhor Navarro nada poderia fazer para salv-la e seria obrigado a presenciar calado o seu suplcio. Sim. 
Atravs de Giselle, vingara-se dele tambm.








CAPTULO 30



Sem ver ou desconfiar de nada, Giselle chegou de volta ao castelo de dom Solano. Assim que entrou, ele veio receb-la preocupado, um tanto embriagado, ansioso para 
saber o que o mdico havia dito.
- Nada de mais - respondeu ela com certa impacincia.
Solano tentou beij-la, mas ela o repeliu. Os acontecimentos vividos nos ltimos dias fizeram com que ela perdesse toda a disposio de fingir para ele. A imagem 
de Manuela presa  pol no lhe saa da mente, e Giselle, intimamente, comeou a culpar Solano pela atitude extrema a que fora levada. No fosse por aquele maldito 
casamento, ela e Ramon ainda estaria junto, e ele no teria a necessidade de afogar suas mgoas no colo de outra mulher.
- O que h com voc, Giselle? - tornou ele frustrado. - Por que est me tratando desse jeito?
- Deixe-me em paz! - gritou ela enfurecida.
Dando-lhe as costas, foi direto para o quarto. Rbia e Diego estavam fora, como sempre, passeando a cavalo, aproveitando  tarde para desfrutar de seu amor proibido. 
Giselle no tinha a quem recorrer. E depois, no sabia como Rbia a receberia. Ela tambm ficara decepcionada com sua reao ante a descoberta da traio de Ramon 
e ficaria ainda mais triste quando soubesse o que ela havia feito.
Mas Solano desconhecia esses fatos. Embora soubesse que Giselle nunca o amara, naquele dia, em particular, ela lhe parecia bastante hostil e impaciente. Talvez a 
perda do beb lhe houvesse ocasionado alguma enfermidade muito sria, e ela estivesse com medo de lhe contar.
- Giselle - chamou ele, antes que ela entrasse em seu quarto.
- Diga-me o que houve l em Sevilha. O mdico lhe deu ms notcias?
Giselle encarou-o com um misto de repulsa e desdm. J no o agentava mais, no suportava mais aquele casamento de mentira.
- Solano - revidou ela, a voz trmula demonstrando a raiva que procurava conter -, estou lhe pedindo, por favor: deixe-me sozinha. No quero conversar hoje.
- Mas voc  minha esposa. Tem que me dizer o que aconteceu.
- No aconteceu nada.
- Como no? Voc saiu para ir ao mdico. Passa dias fora e, quando volta, est mais aborrecida do que nunca. Quer ento me convencer de que no houve nada? O que 
foi? O que ele lhe disse?
- Nada, Solano, no disse nada.
- Se no disse nada, por que est to aborrecida?
- Quem foi que lhe disse que estou aborrecida?
- Basta olhar para voc.
- Pois ento no olhe!
- O que  isso? - o censurou, aproximando-se dela e tentando segurar a sua mo. - Por que essa agressividade toda? Voc est doente? O mdico diagnosticou alguma 
enfermidade grave? A perda do beb lhe deixou seqelas...?
- Pare Solano, pare! Voc est me enervando!
- Mas Giselle, estou preocupado com voc. Voc saiu daqui para ir ao mdico e voltou pior do que foi. S pode ter sido algo ruim.
- No precisa se preocupar. J disse que no tenho nada.
- Voc est mentindo, sei que est. O mdico deve ter-lhe dito alguma coisa terrvel para deix-la assim nesse estado. O que foi? No precisa me esconder nada.
- No estou lhe escondendo nada.
- Abra-se comigo, Giselle. Voc pode no me amar, mas eu sou seu marido. Tentarei ajud-la. Consultaremos outros mdicos.
- Que mdicos?
- Iremos a Madri ou, quem sabe, a Paris? Tenho certeza de que podero cur-la.
- Voc est louco, Solano. Eu no estou doente.
- Se no est doente, por que est to brava?
Ela virou-lhe as costas e foi saindo do quarto novamente. Ele foi atrs, falando e gesticulando ao mesmo tempo:
- Assim no  possvel, Giselle. Estou tentando ajud-la, mas voc parece no querer a minha ajuda.
- No quero.
J comeando a demonstrar irritao, Solano apressou o passo e alcanou-a quase na porta da sala, puxando-a pelo brao com fora.
- Espere a, Giselle! - falou em tom imperativo. - Voc no tem o direito de me tratar assim.
- Solte-me, Solano.
- Aonde pensa que vai?
- Vou dar uma volta.
- Agora, no. Ainda no acabamos a nossa conversa.
- Por que est me atormentando desse jeito? A nica coisa que desejo  ficar em paz.
- Voc pode ficar em paz assim que me contar o que o mdico lhe disse.
Giselle no agentava mais. Aquela farsa j a estava irritando, e Solano a estava tirando do srio. Por que no se calava? Por que no a deixava em paz? Estava farta 
de tudo aquilo, daquele casamento de mentira, daquele velho que no amava. Tomou uma deciso. Aquele era seu ltimo dia ali. Solano podia esbravejar e ofend-la, 
mas ela iria embora. Afinal, no fizera o que fizera
para ainda ter que ficar longe de Ramon. Fora obrigada a tomar medidas drsticas contra Manuela para poder assegurar o amor de Ramon por ela. No tinha sentido agora 
deix-lo de novo e voltar para a casa de um homem a quem no amava.
A priso de Manuela fora seu ltimo ato extremo. Dali por diante, no estava mais disposta a se separar de Ramon. Houvesse o que houvesse, estaria o seu lado. E 
depois, ele tinha razo. Ela tambm no lhe era fiel e ele, na certa, no gostaria de saber sobre seu envolvimento com Rbia e Diego. No precisava mais daquilo. 
No precisava mais de subterfgios que lhe garantissem a segurana. Tinha dinheiro, era rica. Podia apanhar seu tesouro e fugir com Ramon. Ningum nunca mais ouviria 
falar deles, e ento poderiam ser felizes de verdade. Casar-se-iam e levariam uma vida normal, longe de padres, feitios e tribunais.
Com esse pensamento, virou-se para Solano e respondeu entre dentes:
- No h mdico nenhum.
- No h? Como assim? O que quer dizer? No estou entendendo.
- Mas como voc  estpido, Solano! O que estou tentando lhe dizer  que no fui consultar nenhum mdico em Sevilha.
- No foi? Aonde foi ento?
Olhando bem fundo dentro de seus olhos, Giselle disparou com voz glida:
- Fui ver o meu amante!
A princpio, Solano pensou que no havia entendido direito. Teria ela mesma dito que havia ido ver o amante? Mas que amante era aquele?
- Foi ver monsenhor Navarro?
Ela soltou uma gargalhada histrica e revidou em tom mordaz:
- No. Fui ver o homem com quem vou dividir o resto da minha vida.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que me vou embora. A partir de hoje, nosso casamento est desfeito.
- No pode desfazer nosso casamento. Os laos do matrimnio so sagrados e eternos, e s se rompem com a morte.
- Pouco me importa!
Enfurecida, Giselle passou por ele em disparada e saiu bradando pelos corredores do palcio, enquanto caminhava de volta a seu quarto:
- Belinda! Belinda! Onde est? Belinda!
Entrou no quarto feito uma bala de canho e tentou bater a porta, mas Solano a impediu, entrando logo atrs dela. Poucos segundos depois, Belinda apareceu esbaforida.
- Chamou senhora?
- Chamei. Prepare a minha bagagem e depois v arrumar suas coisas. Ns vamos embora.
Apesar de surpresa, Belinda no ousou questionar. Saiu apanhando os bas e comeou a aprontar tudo.
- O que est fazendo? - perguntou Solano, atnito.
- Voc  surdo? No ouviu? Disse que me vou embora.
- Pare com isso! - vociferou. - Estou ordenando, Giselle, pare j com essa besteira!
Solano partiu para cima de Belinda e comeou a arrancar-lhe as roupas das mos. A escrava se encolheu toda a um canto e ficou  espera. Na mesma hora, Giselle partiu 
para cima dele e comeou a esbofete-lo.
- Largue minhas coisas, seu animal! - berrou ensandecida.
- Voc no vai a lugar nenhum.  minha esposa!
- Eu o odeio, Solano!
- No vai voltar para seu amante! Seja ele quem for no vai voltar para ele. No vou permitir. Voc  minha esposa, e no vou tolerar que homem nenhum tome aquilo 
que  meu.
- Eu no sou sua!
-  sim. At um filho ia me dar...
- Ele no era seu filho! - gritou cada vez mais colrica. - Era filho do meu amante! Do meu amante!
Fora de si, Solano deu-lhe violenta bofetada, e ela caiu sobre a cama, um fio de sangue escorrendo do nariz. Coberto pela raiva, ele correu em sua direo e apanhou-a 
pelos cabelos, desferindo-lhe diversas bofetadas no rosto. Giselle tentava livrar-se de suas garras, mas ele no a largava. Apesar de velho e franzino, conseguira 
imobilizada de um jeito que ela no conseguia se soltar.




Paralisada de horror, Belinda no sabia o que fazer. Via sua senhora apanhando bem na sua frente e comeou a chorar. Ficou toda encolhida, chorando apavorada, at 
que a voz aguda de Giselle ressoou em seus ouvidos:
- Belinda, ajude-me! Faa alguma coisa!
Saindo de seu torpor, Belinda deu um salto e correu para eles, pendurando-se no pescoo de Solano. Sentindo-se sufocar, ele soltou Giselle, tombando ao cho juntamente 
com Belinda. A escrava, a um olhar de Giselle, puxou-lhe os braos acima da cabea, ao mesmo tempo em que Giselle subia em cima dele e agarrava seu pescoo, apertando-o 
com fria incontida. Solano esperneou e se debateu, tentando desvencilhar-se, mas as foras somadas das duas mulheres superaram a sua, e Belinda o segurava firme, 
enquanto Giselle no parava de apertar sua garganta. Mais alguns minutos e tudo estava terminado. Solano, olhos vtreos, fitava Giselle com um dio imensurvel. 
Apesar de morto, seu olhar transmitia todo dio que levaria daquela vida e com o qual atravessaria ainda muitos sculos.
As duas permaneceram paradas durante alguns minutos mais, tentando assimilar o que haviam feito.
- Ai, meu Deus! - choramingou Belinda. - Ele est morto... E agora, dona Giselle? O que faremos?
- Deixe-me pensar, Belinda - retrucou apressada. - Venha, ajude-me a lev-lo de volta a seu quarto.
Sem responder, Belinda se levantou, e juntas saram arrastando o corpo de Solano, deitando-o em sua prpria cama.
- E agora, dona Giselle?
- No sei Belinda, no sei - Giselle estava  beira do descontrole. - Ele me agrediu. Queria me matar. Foi legtima defesa...
- Ningum vai acreditar senhora!
- Mas tem que acreditar.
- Eu a ajudei, dona Giselle. Quem  que se defende assim?
- Voc... Sim, Belinda, voc me ajudou...
Um brilho estranho perpassou os olhos de Giselle, causando calafrios em Belinda. Em seu ntimo, a escrava sabia que ela  quem acabaria levando a culpa por aquilo.
- Senhora... - comeou a balbuciar.
- Quieta Belinda!  isso mesmo. Ele me agrediu, comeou a me bater, e voc veio me ajudar. Derrubou-o ao cho e apertou o seu pescoo. Nem percebeu que o estava 
estrangulando e o matou.
Belinda chorava desconsolada. No queria responder por aquilo, no era justo. Mas quem acreditaria na palavra de uma negra?
- Por favor, senhora, no faa isso comigo. No fui eu...
- Foi voc, sim! Para me salvar,  claro, mas foi voc. Voc o matou. Foi voc, Belinda, entendeu? Voc! Eu no fiz nada.
Belinda no parava de chorar. J podia imaginar-se sob a lmina do machado, pagando por um crime que no cometera. Ajudara a segur-lo porque Giselle ordenara. E 
ela era apenas uma escrava. O que podiam as escravas contra as ordens de seus senhores?
- Pare de chorar, Belinda! - repreendeu Giselle.
- Mas senhora, vo me matar...
- No vo fazer nada disso. Vou ajud-la. Darei um jeito de tir-la das masmorras.
- Vou ser torturada...
- E da? Deixe de ser covarde. Vai ser por pouco tempo.
- Ai, senhora... - parou de falar, a voz embargada pelo pranto.
- No seja tola, Belinda. Voc vai ser presa, mas eu darei um jeito de solt-la. E se no disser nada, dar-lhe-ei a liberdade. Ento, o que acha? No vale a pena? 
Est certo que ningum acreditaria mesmo na palavra de uma negra, mas, ainda assim, quero recompens-la. Vou lhe dar dinheiro e a liberdade. Mando-a at de volta 
para a frica, se voc quiser. No  um bom negcio?
Belinda no achava. Tinha l as suas dvidas de que sua senhora manteria a palavra. Alm disso, o plano podia no dar certo. Giselle j no gozava mais de tanto 
prestgio assim, e era bem capaz que no conseguisse libert-la. Contudo, o que poderia fazer? Como Giselle mesma dissera quem acreditaria na palavra de uma negra? 
Ela no tinha sada. Sabia que seu destino estava selado e no tinha meios de modific-lo. S um milagre poderia salv-la daquela sorte ingrata.

As duas permaneceram paradas, o olhar de uma preso no olhar da outra, quando escutaram as vozes de Rbia e Diego. Eles vinham chegando de seu passeio a cavalo e 
parecia que haviam parado na porta do quarto de Rbia. Nesse instante, Giselle virou-se e correu. Abriu a porta s pressas e saiu para o corredor, gritando feito 
louca:
- Ah! Rbia acuda! Aconteceu uma desgraa! Rbia e Diego fitaram-na ao mesmo tempo.
- O que foi que houve Giselle? - perguntou Rbia atnita.
-  seu pai... Uma desgraa...
Antes que ela terminasse de falar, Rbia saiu correndo. Entrou no quarto do pai e estacou confusa.
- Papai... - sussurrou - o que aconteceu?
Vendo Belinda ajoelhada ao lado dele, chorando sem parar, Rbia aproximou-se e fitou o rosto esbranquiado do pai, a garganta arroxeada, os olhos sem vida fitando 
o vazio. Recuou horrorizada, e Diego a amparou por trs. Numa frao de segundos, deduziu o que havia acontecido e fitou Giselle,  espera de uma explicao.
- Foi horrvel, Rbia - comeou ela a balbuciar, com fingida dor. - Cheguei de viagem... Vocs no estavam... Seu pai estava bbado, fora de si... Comeou a me acusar 
de coisas horrveis... Bateu-me... Tentou me matar... Veja! - exibiu as faces ainda vermelhas dos bofetes que levara o sangue seco no nariz. - Belinda veio me ajudar... 
Ficou transtornada, com medo, e no percebeu...
- No percebeu que o estava estrangulando? - tornou Diego com ironia.
- Sim... Foi tudo muito rpido... Ela nem teve tempo de pensar...
- Nem voc? - prosseguiu Diego.
Giselle lanou-lhe um olhar furioso, que ele devolveu com um sorriso debochado. Nem parecia abalado com a morte do pai. Apenas Rbia demonstrava uma dor sincera. 
Ela se aproximou do leito em que o pai jazia e fitou o seu rosto exangue. Com os olhos rasos d'gua, fitou Giselle, depois Belinda. A escrava, ainda ajoelhada aos 
ps da cama, no parava de chorar.
- Levante-se, Belinda - ordenou Rbia.
Na mesma hora, a escrava se levantou olhos baixos, no ousando encar-la.
- O que vai fazer com ela? - quis saber Giselle.
Antes que Rbia pudesse responder, a porta do quarto se abriu, e vrios soldados entraram em fila. J conheciam Giselle e no tiveram dificuldade alguma em identific-la. 
Rapidamente, acercaram-se dela, sem nem se dar conta do corpo morto de dom Solano, e agarraram-na pelo brao. Um oficial desenrolou um pergaminho e comeou a ler:
- Por ordem de sua eminncia, o bispo Miguez Ortega, inquisidor do Tribunal do Santo Ofcio...
Giselle, boquiaberta, fitou Rbia como a implorar-lhe auxlio. Mas a moa estava por demais aturdidas para pensar em uma reao. Ainda no havia entendido o que 
realmente acontecera ao pai e permaneceu calada, apenas ouvindo a ordem de priso que o oficial, to imperativamente, lia em voz alta. Foi s quando ele terminou 
de ler que percebeu o corpo morto de dom Solano. A passos rpidos aproximou-se da cama e encostou o ouvido no peito do defunto.
- Este homem est morto! - asseverou surpreso, observando a mancha roxa ao redor de seu pescoo. - Foi estrangulado. Quem o matou?
Instintivamente, Belinda se adiantou e apontou o dedo para Giselle, afirmando com toda fora de seu dio:
- Foi ela!
Giselle no conseguiu contestar. Apenas abaixou a cabea e ps-se a chorar de mansinho...
Quando Esteban soube da priso de Giselle, pensou que fosse explodir. Estava voltando do calabouo, aps uma longa sesso de torturas, quando viu os soldados entrando 
com ela. Na mesma hora, quis ir a seu socorro, mas a prudncia o fez recuar. Giselle vinha de cabea baixa, amarrada e muito bem segura, e no o vira do outro lado. 
Naquele momento, Esteban no poderia descrever a dor que sentira. Era como se lhe arrancassem um brao ou uma perna, e a vontade que sentiu foi de correr em sua 
direo e arrancar aqueles homens de perto dela a pontaps. Mas estava atado  sua posio de inquisidor e no podia agir contra a instituio que defendia. Sabia 
que aquela ordem s podia ter partido de Miguez e foi at seu gabinete.
- O que significa isso? - foi logo dizendo, no ocultando  revolta e a indignao.
- Ah! Esteban  voc - retrucou o outro, fingindo de nada saber.
- Eu lhe fiz uma pergunta, Miguez!
Miguez fixou nele seu olhar e, com voz calma, revidou:
- O que significa o qu?
J sabia do que se tratava, mas precisava ganhar tempo. H muito se preparara para aquele momento, mas tinha que reconhecer que era difcil. Esteban era seu amigo, 
e nem o dio que sentia por Giselle, nem o amor que dedicava a Lucena seriam capazes de abalar um sentimento to forte e verdadeiro.
- Voc sabe! - rugiu Esteban, mal contendo a vontade que sentia de esmurr-lo.
Miguez fitou-o com olhar grave. No adiantaria nada fingir. S serviria para aumentar ainda mais a raiva de Esteban. Sem alterar o tom de voz, respondeu calmamente:
- Se est se referindo a Giselle, quero que saiba que ela  acusada de alta bruxaria.
- Mas que bruxaria? Giselle  minha protegida!
- Cuidado com aqueles a quem protege Esteban. Pode acabar se comprometendo.
- Isso  um absurdo! Sou um inquisidor de respeito. Ningum ousaria me acusar. E quem se atreveria a me torturar? Ou executar? Voc?
- No, meu amigo, eu jamais faria isso. Minha amizade por voc est acima de tudo. Acima mesmo dessa bruxa que acabamos de prender e de quem pretendo libert-lo.
Por uns instantes, Esteban fitou-o emocionado. Sentia a sinceridade de suas palavras e sabia que Miguez jamais ousaria levantar a espada contra ele. No entanto, 
seu dio por Giselle j era conhecido, bem como sua relao com Lucena, e Esteban no podia concordar com aquela vingana pessoal.
- Agradeo pela sua amizade - tornou mais calmo -, e  em nome dela que lhe peo que no se meta com Giselle. Ela  assunto meu.
- Engana-se, meu caro. Giselle agora  assunto da Igreja.
- Voc no tem nada contra ela, Miguez!
- Engana-se mais uma vez. Tenho provas robustas de que anda envolvida com bruxaria. Eu mesmo vi...
- Viu o qu?
- Seus apetrechos demonacos.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que descobri o seu covil. Sei onde ela praticava suas bruxarias.
- Como... Como descobriu isso?
- Revistando a sua casa, aqui mesmo, em Sevilha.
- Mas por qu? Giselle estava em Cdiz. O que voc foi fazer l?
- Fui prender seu comparsa. Prendendo-o, descobri todo o resto.
Esteban emudeceu. Estava abismado. Era bvio que Miguez descobrira toda a verdade sobre o envolvimento de Giselle e Ramon. Faces lvidas e preocupadas, indagou com 
voz sumida:
- Ramon de Toledo tambm est preso?
- Est.
- Onde...?
Miguez se levantou e falou incisivo:
- Venha comigo.
Sentindo-se derrotado e trado, Esteban ps-se a segui-lo. Eles entraram nas masmorras e foram seguindo por um corredor escuro, que Esteban sabia aonde conduzia. 
Aquele corredor ia dar nos cubculos. Eram pequenas celas sem luz ou ventilao, espcies de solitrias onde eram colocados os prisioneiros mais rebeldes, que precisavam 
ser dobrados antes de serem submetidos s sesses de tortura. De to pequenos, as pessoas ali colocadas s podiam ficar sentadas. Eram baixos demais para comportarem 
um homem em p e muito estreitos para que se pudesse deitar. Miguez parou em frente a uma das muitas portas, dispostas lado a lado no corredor escuro, e abriu uma 
portinhola.



- Veja.        
Esteban olhou para dentro. Efetivamente, era Ramon de Toledo quem estava ali, sentado com as pernas encolhidas, no rosto uma expresso de dor e cansao, provvel 
reao s cibras e ao formigamento que aquela posio incmoda devia estar lhe causando. Ramon olhou para ele e o reconheceu, mas no disse nada. No iria se humilhar 
diante de nenhum padre nojento.
Em silncio, fizeram o caminho de volta. Esteban ia triste e pensativo, sentindo no peito uma angstia indizvel. Se Miguez descobrira os objetos de bruxaria de 
Giselle, no havia mais muito a fazer. O processo, na certa, j fora instaurado, e ser-lhe-ia muito difcil apagar as provas existentes contra ela. De volta ao gabinete, 
Esteban indagou com profundo pesar:
- Por que fez isso, Miguez? Pensei que fosse mesmo meu amigo, mas sua amizade no  to forte como diz. Do contrrio, no a teria sobrepujado por causa daquela mulher... 
- calou-se, a voz embargada.
- No me tome por inimigo ou traidor, Esteban. No fiz isso por causa de Lucena, se  o que est pensando. Ramon, sim. Prendi Ramon para ving-la. Mas Giselle  
outra histria. Voc sabe que jamais gostei dela.
- Ela nunca lhe fez nada...
- Ela o enfeitiou!
- Como Lucena o enfeitiou tambm?
-  diferente.
- No  no. Voc sente por Lucena o que eu senti por Giselle um dia. Mas hoje... Hoje ela  como uma filha para mim. Tem idia do quanto est me fazendo sofrer?
- Ela matou um homem! - tentou se justificar. - Matou o marido!
Apesar de surpreso, Esteban no respondeu. Olhos baixos, marejados de lgrimas, rodou nos calcanhares e saiu. Miguez ainda fez meno de ir atrs dele, mas no teve 
coragem. Sabia que ele estava triste e decepcionado, mas tinha esperanas de que aquele sentimento passaria. Com o tempo, Esteban ainda lhe agradeceria o favor.
A passos vagarosos, Esteban foi caminhando para a capela.
Entrou cabisbaixo e foi se ajoelhar diante do altar, fitando o rosto suave de Jesus. Pela primeira vez em muitos anos, chorou. Era um pranto pungente e sentido, 
carregado de angstia. S podia pensar no sofrimento de Giselle e na solido que ela devia estar sentindo naquela masmorra fria e soturna. Em silncio, orou. Orou 
com um fervor at por ele desconhecido.
Quando saiu da capela, j estava mais refeito. Apesar da tristeza, conseguiu raciocinar com um pouco mais de clareza. Sabia que no conseguiria salvar Giselle, mas 
pediria a Miguez que lhe desse uma morte rpida. Pensou em falar com ele naquele dia mesmo, mas mudou de idia. Precisava descansar arrumar os pensamentos em sua 
cabea e os sentimentos em seu corao. Com andar pesaroso, deixou o Tribunal e entrou na abadia, seguindo direto para seu quarto.
Juan estava sentado perto da janela, lendo um trecho da bblia, e sorriu quando ele entrou. At ento, Esteban ainda no havia desconfiado de que fora Juan quem 
contara a Miguez sobre Ramon, mas o rapaz percebeu que algo no ia bem.
- O que h monsenhor? - indagou solcito. - Sentindo-se mal outra vez?
Esteban fez um gesto com as mos e foi-se deitar, fechando os olhos por um minuto. Quando tornou a abri-los, Juan estava a seu lado, fitando-o com visvel preocupao.
- O que quer Juan?
- O senhor no est bem. Aconteceu alguma coisa?
No adiantava esconder. Juan acabaria descobrindo mais cedo ou mais tarde.
- H algo que preciso lhe contar, mas quero que voc seja forte.
- O que foi monsenhor?  algo grave?
-  sim.
- O qu? O senhor est mal? Vai morrer?
- No  nada disso, no  sobre mim.  sobre outra pessoa.
- Outra pessoa? Quem...?  Giselle? Ela est morta?
- Ainda no...
- O que quer dizer, monsenhor? O que foi que houve? Pelo amor de Deus, diga-me!
- 

- 
- Giselle est presa. Miguez mandou prend-la. Ele levou a mo  boca, horrorizado.
- Presa? Mas por qu? O que ela fez?
- Miguez foi a sua casa prender Ramon e descobriu o seu pequeno reduto de magias. Foi o suficiente.
- Mas no pode ser. No, monsenhor, deve haver algum engano.
- Lamento Juan, mas no h engano algum.
- No, no... O senhor no est entendendo. Padre Miguez me prometeu... - calou-se alarmado.
- Prometeu o qu?
Juan j no escutava mais nada. Deu-lhe as costas e saiu correndo feito um louco, a viso turvada pelas lgrimas. Mais que depressa, saiu da abadia e alcanou o 
Tribunal, indo direto para o gabinete de Miguez. Ele estava sentado  sua mesa, tendo s mos os processos de Giselle e Ramon, e teve um sobressalto quando o rapaz 
entrou.
- Como pde fazer isso, padre Miguez? - esbravejou atnito. - O senhor me prometeu.
- Acalme-se, rapaz! - ordenou Miguez impaciente. - No tem o direito de entrar aqui assim.
- Mas o senhor me prometeu - choramingou. - Prometeu-me que no ia prender Giselle...
- Prometi que no a prenderia por seu envolvimento com Ramon.
- Ento...?
- Ela no foi presa por isso. Foi presa porque eu descobri o seu esconderijo. O esconderijo da bruxa, dos ncubos, dos scubos!
- Como... Como assim?
- Sua amiguinha Giselle tinha hbitos bem interessantes, no sabia? - ele meneou a cabea. - No sabia que ela  uma bruxa imunda e sensual, que atraa os homens 
para seu covil s para atir-los na perdio?
- No, padre Miguez, est enganado...
- No estou no. Giselle tinha em sua casa objetos que bem poderiam conden-la sumariamente. No entanto, no vou prescindir de uma lenta purificao.
- No faa isso, por favor. O senhor prometeu...
- No prometi nada disso, rapaz! A promessa que lhe fiz, j cumpri. No prendi Giselle por causa de Ramon, como lhe disse. O motivo de sua priso foi outro.
- Mas padre...
- Chega Juan! No tenho mais tempo para suas tolices. E agora, saia! Deixe-me trabalhar.
Juan saiu derrotado. Jamais poderia esperar por uma coisa daquelas. Em sua cabea, apenas Ramon seria preso. Padre Miguez arranjara um jeito de engan-lo e prender 
Giselle tambm. Como fora estpido acreditando nele! E ainda teria que contar a monsenhor Navarro o que fizera. Mas no. No teria coragem. Monsenhor no precisava 
saber. Mas o que estava dizendo? Padre Miguez se encarregaria de contar, mais cedo ou mais tarde. Ser que iria suportar? Teria condies de enfrentar a dor de duas 
perdas sucessivas? Monsenhor Navarro, na certa, no tornaria mais a falar com ele. E Giselle...
Pensando em Giselle, Juan desatou a correr. Seus pensamentos lhe diziam que ele seria o nico responsvel pelo seu martrio. Como a amava! Como lhe doeria ver o 
seu sofrimento. No podia! No podia presenciar o seu suplcio. Precisava dar um jeito de no sofrer. Se no visse, no sofreria. Estava certo de que no. Era s 
fechar os olhos que o sofrimento deixaria de existir. Ao menos para ele. E s o que tinha a fazer era correr... Correr... Correr...








CAPTULO 31





Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Miguez entrou nas masmorras, em companhia de Lucena, que o seguia com um arrepio. Aquele lugar lhe lembrava a morte
do pai lhe causava calafrios at na alma. Contudo, precisava vencer a averso que sentia e seguir adiante. Era l que estava a mulher que mais odiava no mundo. Aquela 
que lhe tirara a vida do pai seduzira o noivo e ajudara a roubar todo o seu patrimnio. Finalmente iria conhec-la.
Giselle estava amarrada a um tronco, rosto lvido, semi-acordada. Em silncio, Miguez se postou diante dela e fez sinal para que Lucena tambm se aproximasse. Durante 
alguns minutos, permaneceram em silncio, apenas fitando o seu rosto sofrido.
Para Miguez, aquele era o momento da mais pura glria. Giselle no lhe fizera nada, mas sentia por ela um dio incomensurvel, que jamais poderia explicar.
Pura Lucena, o dio transformou-se em satisfao. Fitando o semblante plido e sofrido de Giselle, sentiu um arrepio de prazer.
Ento era aquela a mulher responsvel por todo o seu infortnio!
Tinha que reconhecer que era bonita, apesar de no ser mais nenhuma mocinha. Mas achou que o seu rosto possua algo de maligno, como se guardasse impresso o resultado 
de seus inmeros atos de magia.
No instante mesmo em que Lucena esticou o p para cutuc-la, Giselle abriu os olhos. Sentiu uma presena inimiga junto de si e despertou, e a primeira coisa que 
viu foi o rosto de Lucena a fit-la com ar de satisfao e glria. Fixou nela seu olhar por uns instantes, tentando reconhec-la e, mesmo sem nunca antes t-la visto, 
sabia de quem se tratava. A figura odienta de Miguez, parado a seu lado com ar de triunfo, dava-lhe a certeza de que se tratava de Lucena Lopes de Queiroz.
- O que quer? - indagou Giselle entre dentes.
H muito Lucena vinha guardando aquele dio e, ao ouvir as primeiras palavras de sua maior inimiga, no conseguiu conter o mpeto e desferiu-lhe uma bofetada no 
rosto, fazendo com que os olhos de Giselle chispassem de dio tambm.
- Cadela! - vociferou Lucena. - Vou fazer com que pague por cada segundo de sofrimento que me causou!
Mal segurando a fria que as correntes frias continham, Giselle encheu a boca e cuspiu no rosto de Lucena, que lhe desferiu outra bofetada, e outra, e mais outra. 
No podendo se defender, Giselle recebeu os golpes com dio e humilhao, lamentando o fato de estar acorrentada, impedida de estrangular aquela desgraada. A seu 
lado, Miguez assistia a tudo com aparente passividade, nos lbios um sorriso frio de satisfao e orgulho. Foi s quando o rosto de Giselle comeou a inchar que 
ele segurou o punho de Lucena e interveio com voz glacial:
- J chega.
Na mesma hora, Lucena refreou o golpe. Cerrou os punhos e fitou as faces inchadas de Giselle, que mal conseguia divis-la por detrs das lgrimas que procurava segurar.
- Demorou muito para v-la presa e subjugada, mas no houve um minuto sequer em que no sonhasse com esse dia - rosnou Lucena, faces transfiguradas pelo dio. - 
E agora  a minha vez de demonstrar quem  a mais forte!
- Solte-me e lhe mostrarei quem  mais forte - gemeu Giselle, a voz fremente de clera.
- Ordinria! - esbravejou Lucena, dando-lhe outra bofetada.
O rosto de Giselle rodou para o outro lado, atingido novamente pela mo impiedosa de Lucena. Ao voltar-se para ela, porm, havia um estranho brilho no olhar de Giselle, 
e foi com ironia que falou:
- Por mais que voc faa, jamais conseguir retomar o que lhe tirei! Seu pai foi um porco imundo, que eu mesma poderia ter sangrado enquanto resfolegava e suava 
em minha cama. E Ramon... - regozijou-se com o efeito que aquele nome causava na outra - Ramon  um homem de verdade e jamais se contentaria com o esboo de mulher 
que voc .
- Demnio! - rugiu Lucena, novamente esbofeteando-lhe as faces. - Filha de Satans! Bruxa maldita!
Foi preciso Miguez intervir para que Lucena no a matasse. Ela estava descontrolada e no parava de bater em Giselle, totalmente imobilizada no tronco pelas correntes, 
que lhe prendiam os braos para trs e atavam suas pernas desde a altura dos joelhos.
- Chega Lucena! - bramiu Miguez. - Ela no pode morrer.
No agora, no dessa maneira. O que tenho reservado para ela  muito pior.
Giselle engoliu em seco, enquanto Lucena se acalmava, nos lbios um sorriso de diablica satisfao.
- Voc vai me pagar, Giselle. Vou fazer de voc um trapo e quero estar presente a todas as suas sesses de tortura.
- Lucena... - ia contestando Miguez.
- No! Voc me deve isso, Miguez. Quero ter esse privilgio. O privilgio de me sentar diante dessa cadela feiticeira e assistir triunfante ao seu declnio. Vou 
fazer de voc uma morta viva, e quando voc no puder mais suportar a dor, serei eu a lhe dar o golpe fatal. Bem lentamente... Para que voc jamais se esquea, nem 
aqui, nem no inferno, de quem  Lucena Lopes de Queiroz!
Aquelas palavras assustaram Giselle, e toda a fria de seu orgulho no foi suficiente para sustent-la diante do breve futuro de martrio e dor que a aguardava. 
Em silncio, abaixou a cabea e ps-se a chorar de mansinho, segurando na ponta da lngua o desejo que brotara de lhe pedir perdo. Intuitivamente, Lucena captou-lhe 
os pensamentos, porque apontou o dedo para ela e continuou com furor:
- Nem que voc casse de joelhos e me pedisse perdo, eu a perdoaria. Nem em mil anos, Giselle, nem por toda a eternidade, serei capaz de perdo-la!
Giselle pressentiu a iminncia da morte, mas recobrou um pouco do nimo e perguntou com arrogncia e soberba:
- No sabe com quem est se metendo, Lucena. Esteban jamais ir permitir...
- Esteban no ir ajud-la - interrompeu Miguez com desdm. - Ou ser que no percebeu que ele nem veio v-la?
- Ele no sabe que estou presa.
- Engana-se, bruxa. Ele sabe. At mesmo a viu chegar.
- Viu? - Giselle mal conseguia ocultar a indignao. - E onde est? Por que ainda no veio me soltar?
- Ele no vir. Esteban foi um tolo que, durante muitos anos, se deixou influenciar pelas suas bruxarias. Voc o enfeitiou. Mas eu, finalmente, consegui livr-lo 
de sua influncia maligna. Esquea- o, criatura das trevas! Esteban agora est livre de voc. Livre!
Em seu ntimo, Giselle sabia que Miguez falava a verdade. Esteban cansara de alert-la, pedindo-lhe que no cometesse mais nenhuma loucura. Mas ela fora imprudente 
e irresponsvel; confiava tanto na sorte que nunca se imaginou presa. No ela. Mais uma vez, abaixou os olhos e chorou. O que mais lhe restava fazer?
- Isso, demnio, chore - ironizou Lucena. - Onde est a sua fora, que no consegue livr-la agora? Onde esto os espritos infernais que tanto a auxiliaram a fazer 
o mal? Por que no os
invoca e pede que a tirem daqui?
Giselle no respondeu. Permanecia de cabea baixa, chorando, e no tinha mais vontade de discutir. Tudo o que fizesse somente serviria para piorar ainda mais a sua 
situao. Ela sabia que as sesses de tortura estavam na iminncia de comear. Provavelmente, ainda no haviam comeado para que ela estivesse lcida o suficiente 
para receber todo o dio de Lucena.
Foi quando uma vozinha fraca se fez ouvir, vinda do outro lado da masmorra feminina.
- O que  isso? - indagou Lucena, assustada.
- No se deixe impressionar, minha querida - tranqilizou Miguez, abraando-a com ternura. -  apenas a lamria de mais uma herege...
Lucena fez-lhe sinal com a mo para que se calasse. A seu lado, invisvel aos olhares dos encarnados, o esprito de dom Ferno a inspirava:
- V at l, minha filha. V ver quem . Voc no vai se arrepender.
Dom Ferno estivera presente durante todo o encontro. Ficara feliz quando Giselle fora presa e exultara quando Lucena a esbofeteara, chegando mesmo a bater-lhe tambm. 
Outros espritos, todas as vtimas da perfdia de Giselle, tambm haviam acorrido, e a masmorra, naquele momento, estava repleta de seres invisveis, todos realizados 
e sequiosos de vingana.
Acedendo s sugestes do pai, Lucena foi se encaminhando para onde Manuela estava presa ainda  pol. Sofrer poucas torturas, porque Esteban no via nada contra 
ela alm do cime de Giselle e dera ordens aos carrascos para que no a maltratassem muito. Ela fora estuprada vrias vezes e pendurada  pol, embora sem os pesos 
nos ps. Seu corpo estava todo dolorido, parecia-lhe que os braos, a qualquer momento, se separariam do corpo, mas, no geral, Manuela estava bem. Junto a ela, o 
esprito de uma mulher tambm executada graas  interveno de Giselle, a mando de dom Ferno, fazia com que ela gemesse alto, atraindo a ateno de Lucena.
- Quem  essa mulher? - a indagou, presa de estranha emoo ao v-la.
Manuela, que gemia no sono agitado, abriu os olhos lentamente, assustando-se com a figura esbelta de Lucena, parada diante dela e fitando-a com ar de compaixo.
- Senhora... - murmurou ela - tenha piedade. Eu nada fiz para merecer estar aqui...
No mesmo instante, o corao de Lucena se apertou. Sentiu imensa piedade daquela mulher, to jovem e to bonita, embora extremamente lvida e magra, que parecia 
nada entender de tudo aquilo.
- Quem  ela? - repetiu Lucena.
Virou-se para Miguez, que permanecia parado um pouco mais atrs, assistindo a tudo com ar de espanto.
Essa  Manuela Pea... Foi empregada na taverna de Giselle...
- Ora, no me diga! O que foi que ela fez?
- Pelo visto, nada. Parece que Giselle no gosta da moa e exigiu que Esteban a prendesse.
O assombro de Lucena foi genuno. Por uma estranha coincidncia, ela fora atrada justamente para o local onde se encontrava outra inimiga de Giselle. Aquilo a excitou, 
e ela revidou prontamente:
- Pois eu a quero solta.
- No posso fazer isso. Ela  presa de Esteban.
- Que se dane! D um jeito de libert-la.
Miguez puxou-a pelo brao e falou baixinho em seu ouvido:
- Quer saber por que ela foi presa? - Lucena assentiu. - Por
que Giselle a flagrou nos braos de seu amante, Ramon...
Lucena ergueu as sobrancelhas e retrucou exultante:
- Mais um motivo. Ela fez com Giselle o que Giselle fez comigo. Quero que voc liberte essa moa, Miguez.
- Mas Lucena, no posso. Por favor, querida, entenda. No posso ir contra Esteban. Foi ele quem a prendeu, e ela ainda no foi julgada.
- Pois apresse o seu julgamento. E d um jeito para que ela seja absolvida. Convena os outros inquisidores de que sua priso foi um erro e ela no fez nada de errado.
- No posso fazer isso.
- Pode sim! Voc prometeu. Prometeu-me vingana contra Giselle. E essa moa  parte da minha vingana.
Miguez suspirou profundamente. Deu uma ltima olhada para Manuela, que os fitava com olhar splice, e balanou a cabea, finalizando desanimado:
- Est certo. Farei o possvel e o impossvel para libertar Manuela.
- Obrigada. Sabia que voc no me decepcionaria - e, voltando-se para Manuela, acrescentou: - No se preocupe Manuela. Eu a tirarei da.
Manuela desatou a chorar. Lucena deu-lhe um sorriso de encorajamento e rodou nos calcanhares, voltando para onde Giselle estava.
- Por favor, senhora - implorou Manuela -, no me deixe aqui. No me abandone.
- Confie.
Foi s o que Lucena tornou a lhe dizer. Voltou para perto de Giselle, que assistira a tudo com um misto de dio e arrependimento. Aquela maldita ainda iria soltar 
Manuela s para espezinh-la ainda mais.
- Quanto a voc - falou Lucena, apontando novamente o dedo para Giselle -, no perde por esperar. Vou destru-la, Giselle, mas no sem antes tomar tudo o que  seu.
Rodou nos calcanhares e se foi, seguida por Miguez, que se regozijava com tudo aquilo. Atrs deles, o squito de dom Ferno, certo de que sua vingana estava apenas 
comeando. Mais um pouco e Giselle se juntaria a eles, tornando-se vtima de todos aqueles de quem j fora algoz.




 
CAPTULO 32

Por insistncia de Miguez, o julgamento de Manuela foi marcado para dali a duas semanas. Esteban no tinha mais foras para contrari-lo e acabou concordando com 
tudo o que ele exigia.
- No se lamente por nada, meu amigo - consolou Miguez. - Em breve ir me agradecer.
- Gostaria de pensar como voc... Sabe o quanto est me fazendo sofrer.
-  pena que voc ainda no consiga entender. Mas o que me conforta  saber que estou agindo para o seu prprio bem. Giselle  uma bruxa que, alm de tudo, matou 
o marido, um homem direito e temente a Deus, deixando rf a pobre filhinha...
Esteban inspirou com tristeza e olhou ao redor, tentando ocultar as lgrimas que, por pouco, no caam.
- Voc viu Juan? - desconversou. - H dois dias anda sumido.
-No, no vi. Mas ele no pode ter ido longe. Deve estar por a.
- Ando preocupado com ele. Juan est apaixonado por Giselle. Receio que faa alguma bobagem.
Miguez no disse nada. Na certa, Esteban ainda no sabia que fora Juan quem a entregara, e aquele no era o melhor momento para revelar-lhe a verdade. O rapaz devia 
estar metido em algum lugar, provavelmente l pelo sto, escondido, com medo de encarar o monsenhor, e o melhor seria esperar at que ele aparecesse.
- Fique sossegado, Esteban. Logo, logo ele aparece.
Depois que Miguez se foi, Esteban caiu na poltrona, entregue a profundo abatimento. Sua cabea comeou a latejar novamente, e ele foi at o armrio buscar um xarope. 
Bebeu a infuso amarga e recostou-se na poltrona, esperando que a dor de cabea passasse. Pouco depois, ouviu batida na porta, que se abriu logo em seguida.
- Meu tio - era a voz de Diego. - Posso entrar?
Esteban empertigou-se e olhou para ele, fazendo sinal com a cabea para que entrasse. O rapaz entrou. Junto com ele, Rbia vinha de olhar cabisbaixo. Ao v-la, Esteban 
se levantou e foi ao seu encontro, estendendo a mo para ela.
- Como est, criana? Lamento pelo que aconteceu a seu pai.
- Foi uma coisa horrvel.
- No posso deixar de me sentir responsvel. Afinal, fui eu quem sugeriu o casamento...
- No devia se sentir assim. Belinda me disse que meu pai atacou Giselle primeiro. Ele ficou louco porque ela lhe revelou que tinha um amante, que era o pai de seu 
filho.
Esteban ocultou o rosto entre as mos e desabafou num gemido:
- Giselle perdeu a cabea.
- Ns devamos ter imaginado que esse casamento nunca poderia dar certo. Giselle sempre amou outro homem. E agora... - Rbia desatou a chorar, e Diego a abraou 
com fora.
- Chi! No chore Rbia. Vai passar.
Havia tanta paixo naquele abrao que Esteban desconfiou, mas no disse nada. Ser que aqueles dois eram amantes? Eles sabiam que eram irmos, mas, ainda assim, 
teriam tido coragem de se amar? Aquela impresso, contudo, no lhe tomou mais do que um minuto de sua preocupao. Esteban sentia-se cansado demais para repreend-los 
ou alert-los. Naquele momento, no tinha mais nimo para enfrentar nenhuma situao difcil. E depois, se havia mesmo algo entre eles, era prefervel no saber. 
A ltima coisa de que precisava naquele momento era de uma acusao de incesto contra seu sobrinho.
- Como est ela? - tornou Rbia, tirando-o de seu devaneio.
- Hein? - fez Esteban assustado. - Quem? Giselle?
-  claro, titio - concordou Diego. - Onde  que est com a cabea?
- Perdoem-me.  que a priso de Giselle no est me fazendo bem.
- No pode fazer nada para ajud-la? - pediu Rbia. - O senhor  um homem influente dentro da Igreja. No pode interceder por ela?
- Quisera eu, minha filha. Contudo, as provas que Miguez colheu contra ela so irrefutveis.
- Ora, titio, o senhor pode dizer que ela matou dom Solano em legtima defesa. E ningum pode provar que ela e Ramon eram amantes.
- No me refiro a isso, meu filho. Se fossem essas as acusaes, no teria problema para solt-la. Mas o fato  que Miguez descobriu objetos altamente comprometedores 
em sua casa, aqui em Sevilha.
- Que objetos?
- Talvez vocs no saibam, mas Giselle era adepta da magia...
- O qu? - cortou Rbia, surpresa. - Mas ela nunca disse nada.
- Voc h de convir comigo que isso no  coisa que se saia falando por a, no  mesmo?
- Como foi que ele descobriu?
- No sei. Mas Miguez tem seus mtodos. H muito estava desconfiado de Giselle.
- Meu Deus, monsenhor! - queixou-se Rbia. - Isso  horrvel! Giselle no merecia isso.
- Ser que no? Ningum mais do que eu tentou alert-la e proteg-la. Mas Giselle no quis me ouvir. Continuou com suas prticas nefastas e com seu romance escuso 
com Ramon. Eu disse a ela que esperasse.
- No se lamente o senhor tambm, titio. Giselle  mesmo uma doidivanas.
- Gostaria de v-la, monsenhor - cortou Rbia. - Falar com ela.
- Isso  impossvel.
- Por favor, eu lhe imploro. Ao menos uma vez, deixe-me falar com ela. Sei que agiu mal, que cometeu muitas loucuras. Mas ela  minha amiga e eu a amo. Preciso dizer-lhe 
isso. Quero que ela saiba que no lhe guardo rancor ou ressentimento.
- O calabouo no  um lugar agradvel para ningum, minha filha. Muito menos para uma moa fina e sensvel feito voc.
- No me importo. Eu preciso v-la. Por favor, monsenhor, ao menos uma vez, deixe-me falar com ela.
Ele inspirou com tristeza e soltou os braos ao longo do corpo, acrescentando com pesar:
- Est bem. Verei o que posso fazer.
Na noite seguinte, Rbia e Diego foram introduzidos nas masmorras, mas Esteban no ousou acompanh-los. Ainda no se atrevera a visit-la desde que chegara. No 
sabia o que lhe dizer, tinha medo do que teria que enfrentar.
Giselle continuava amarrada ao tronco. J fora submetida a algumas sesses de tortura e no se encontrava com muito nimo para falar. A pedido de Rbia, Diego parou 
na porta e ela entrou sozinha. Queria conversar a ss com Giselle. V-la naquela situao causou imenso desgosto a Rbia. A moa apertou os olhos com as mos e desatou 
a chorar, despertando Giselle com seus soluos. Pouco a pouco, ela foi reconhecendo  amiga e comeou a chorar tambm.
- Rbia... - gemeu - o que... O que faz aqui?
- Oh! Giselle! - lamentou. - O que foi que fizeram a voc?
- Foi... Foi aquele padre maldito... E sua concubina cruel... - parou por uns instantes, sacudida pelos soluos, at que continuou: - Perdoe-me, Rbia... Eu no 
queria matar... O seu pai...
- No fale mais nisso, Giselle, j passou.
- Voc no est com raiva?
- No. Fiquei triste, porque amava meu pai, mas j devia ter imaginado que isso poderia acontecer.
- Belinda... Entregou-me...
- No fique com raiva dela, Giselle. Belinda estava assustada. Voc queria incrimin-la.
- Ela  uma escrava.
- Belinda  gente. To gente como voc. Mas no foi para falar de Belinda que vim aqui. Foi para falar de voc.
- Rbia, eu...
- Psiu! No diga nada, apenas oua. Meu tempo  curto. Pedi a monsenhor Navarro que me permitisse v-la. Queria dizer-lhe o quanto a amo e o quanto a sua amizade 
foi importante para mim.
Giselle soltou um pranto sentido e revidou:
- No mereo a sua amizade.
- No diga isso. Gosto de voc como se fosse minha irm. Queria dizer-lhe isso. No lhe guardo raiva, apenas uma grande tristeza. Tristeza por estar de ps e mos 
atados neste momento e no poder fazer nada para ajudar. Lembre-se disso, Giselle. Eu amo voc. Amo voc como a uma irm...
No conseguiu mais continuar. Seu corpo foi violentamente sacudido pelos soluos, e Rbia, no suportando mais ver Giselle naquela situao, tapou a boca com as 
mos e saiu correndo, passando por Diego feito uma bala. O rapaz fez meno de ir atrs dela, mas ouviu o fraco chamado de Giselle e, embora hesitante, aproximou-se 
de onde ela estava.
- O que voc quer?
- Ajude-me, Diego. A mim e a Ramon.
- Voc sabe que no posso.
Virou-lhe as costas e comeou a andar para a sada, mas a sua voz o interrompeu novamente.
- Posso pagar!
A ambio falou mais alto, e ele se voltou de mansinho, aproximando-se dela novamente.
- Com que dinheiro?
- Sou uma mulher rica.
- J lhe tiraram tudo - rebateu ele, olhar entre ctico e ambicioso.        

- 


- Ningum sabe onde escondi o meu tesouro. Ele pode ser todo seu, se voc nos ajudar.
- No sei...  arriscado.
- Mas vai valer  pena. Posso fazer de voc um homem rico. No vai precisar do dinheiro de ningum, nem do de Rbia. Tenho ouro, Diego, e pedras preciosas.
Diego coou o queixo e fitou-a com ar de cobia. A palavra tesouro era para ele um argumento por demais poderoso. O carrasco, porm, apareceu na porta do calabouo, 
e Diego se assustou. No queria despertar a ateno de ningum. Deu uma ltima olhada para Giselle e rodou nos calcanhares, saindo apressado pela porta, ainda a 
tempo de ouvir suas ltimas palavras:
- Pense nisso.
Depois que ele se foi, Giselle ficou sozinha a chorar. Nunca se sentira to s em toda a sua vida. Todos a haviam abandonado. Sabia que Ramon estava preso tambm 
e j perdera as esperanas de reencontr-lo com vida. Esteban a havia abandonado. Desde que chegara, ele ainda no fora v-la. At Juan parecia haver se esquecido 
dela. S Rbia se importava. Depois de tudo o que acontecera, Rbia ainda gostava dela e a perdoara.
De olhos baixos, Giselle chorou sentida, pensando na bondade do corao de Rbia que, apesar de tudo, ainda a amava. Ficou imaginando o que poderia levar uma pessoa 
a um gesto to desprendido e sincero de perdo. Giselle matara o pai de Rbia, assim como levara  morte o pai de Lucena. Mas elas eram to diferentes! Por qu? 
Por que tanta diferena? Comparando as duas, Giselle comeou a perceber que a diferena entre ambas estava na nobreza de corao. Rbia era uma mulher nobre e digna, 
dotada de uma inigualvel compreenso das fraquezas humanas, ao passo que Lucena no conseguia enxergar as imperfeies alheias, julgando e condenando quem quer 
que lhe faa algum mal.
Mas, o que ela esperava? Se estivesse no lugar de Lucena, como  que teria procedido? Perdoaria como Rbia, ou alimentaria o desejo de vingana, assim como Lucena? 
Pensando nisso, achou que no possua ainda a nobreza de sentimentos de Rbia e teria ido ao inferno s para satisfazer o seu desejo de vingana.
Se era assim, como poderia condenar em Lucena uma atitude que ela mesma teria tomado? No, no podia. Se algum ali deveria ser condenado, era ela mesma. Por tudo 
o que fizera. Pelos muitos crimes que cometera. Era por causa deles que se via naquela situao.
Lembrando-se de suas muitas vtimas, Giselle comeou a mostrar sinais de arrependimento. Se no tivesse sido to vil, no teria que enfrentar o dio de Lucena e 
de Miguez, e no seria forada a experimentar os horrores da Inquisio. Mas agora, no tinha mais jeito. Ela buscara aquela sorte e no podia reclamar. Mas estava 
sofrendo. Quantas pessoas no teriam sofrido do mesmo jeito que ela, torturadas e mortas graas a sua maldade?
Giselle no queria mais ser m. O sofrimento levou-a a colocar-se no lugar de suas vtimas e compreender que jamais deveria ter feito o que fez. E agora, no sabia 
como desfazer tanto mal.
No dia seguinte, logo pela manh, Miguez entrou e foi direto para onde ela estava. Vinha sozinho dessa vez, e Giselle sentiu um arrepio de terror quando ele se aproximou. 
Por que ser que a odiava tanto? Quando parou defronte a ela, Giselle comeou a tremer e a chorar, j antevendo as torturas por que iria passar.
- Agora chora, no , cadela? - rosnou ele com dio.
Ela abaixou os olhos e no disse nada. Ele puxou o seu cabelo para trs, fazendo-a levantar a cabea e encar-lo. Seus olhos chispavam de tanto dio, e Giselle pensou 
que Miguez fosse espanc-la, mas ele nada fez. Limitou-se a olh-la dentro dos olhos, at que o carrasco se aproximou, trazendo nas mos um chicote. Ela se encolheu 
toda, com medo da dor, e o homem soltou as correntes s quais se encontrava atada. Ela chorava sem parar, pensando que seria colocada em um dos muitos instrumentos 
de tortura que havia ali, mas o carrasco no fez nada disso. Segurando-a com fora, foi empurrando-a para fora, e os trs tomaram um corredor sujo e mal iluminado. 
Em pouco tempo, alcanaram os cubculos.
Parada defronte a uma das portas estava Lucena, com aquele sorriso triunfante e diablico no rosto. Logo que chegaram, Miguez se virou para o verdugo dali e deu-lhe 
ordens para que abrisse a porta. O teto da cela era extremamente baixo, no cabia um homem em p, e, o carrasco teve que se abaixar para entrar. Pouco depois, saiu 
de l de dentro com um homem todo sujo e barbado, e Giselle descobriu com horror que se tratava de Ramon. Quis correr para ele, mas o golpe do carrasco a impediu.
Ramon mal se sustinha em p. Suas pernas pareciam mesmo atrofiadas, e ele no conseguia colocar a coluna ereta. O verdugo o soltou, ele cambaleou e caiu de cara 
no cho, provocando a ira de Giselle. Ela deu um empurro no homem que a segurava, distrado com a queda de Ramon, e soltou-se, correndo a passos trpegos para ele.
- Ramon! - chamou, ajoelhando-se a seu lado.
Por ordem de Miguez, ningum interveio. Ramon, por sua vez, reconhecendo a voz da amada, agarrou-se aos seus joelhos e comeou a chorar.
- Giselle! Ah! Giselle, quase enlouqueci pensando que voc tivesse morrido...
Ele no sabia que Lucena estava ali. Vendo o carinho com que se reencontravam e ouvindo as palavras de Ramon, a fria de Lucena redobrou, e ela apanhou o chicote 
das mos de um dos carrascos, estalando-o nas costas de Giselle. A moa soltou um urro de dor e tombou para frente, rosto colado ao de Ramon.
- Eu o amo, Ramon - conseguiu dizer, em meio  dor que as chibatadas lhe causavam.
Desmaiou. A dor foi intensa demais para que ela suportasse. Ramon queria defend-la, mas estava fraco demais para reagir. Passara quase uma semana naquele cubculo, 
sem poder esticar o corpo, e seus msculos estavam todos retesados e dodos.
- E agora? - indagou um dos algozes.
- Tragam gua - ordenou Miguez.
Na mesma hora, sua ordem foi atendida e, pouco depois, Giselle despertava com a gua fria em seu rosto.
- Levante-se, bruxa! - falou o carrasco.
Giselle foi arrancada dos braos de Ramon, que a agarrava com fora. Quanto mais ele demonstrava seu amor por ela, mais Lucena se enfurecia.
- Tragam-nos - falou Miguez incisivo.
Um segundo homem agarrou Ramon e fez com que ele se levantasse, enquanto outro ia empurrando Giselle para fora novamente. Sem nada poderem fazer, os dois foram levados 
ainda mais para baixo, at que entraram numa espcie de cmara fria e lgubre, iluminada apenas por umas poucas tochas presas nas paredes. Ao centro, um enorme tronco 
estava encravado, e o carrasco levou Giselle para l, amarrando-a de frente para eles. Em seguida, um dos homens rasgou-lhe o vestido, expondo-lhe os seios, e ela 
comeou a chorar novamente.
Ramon, aos poucos, foi recobrando os movimentos. Ainda no conseguia manter-se muito bem, mas ao menos as pernas j lhe obedeciam, e ele esticara o corpo at ficar 
praticamente ereto. No entendia o que aquelas pessoas estavam pretendendo, mas imaginava que no era nada bom. Viu quando o carrasco amarrou Giselle e rasgou a 
sua roupa, e teve mpetos de mat-lo. Mas no houve muito tempo para isso. O outro homem ps-se a caminhar com ele de um lado para outro na cmara fria, at que 
ele pudesse recuperar os movimentos do corpo.
Apesar de dolorido, Ramon conseguiu assenhorear-se novamente das articulaes, e elas j lhe obedeciam quase normalmente. Foi colocado diante de Giselle e, em suas 
mos, puseram o chicote. A princpio, Ramon no entendeu bem o que estava acontecendo, mas as lgrimas que jorravam dos olhos de Giselle o ajudaram a compreender 
tudo. Queriam que ele flagelasse o corpo de sua amada. Mais atrs, outro homem se postou, encostando a ponta da espada em seu pescoo.
- Se tentar alguma coisa, morre - falou em tom ameaador.
- Muito bem - declarou Miguez -, agora comece.
Mas Ramon no se mexia. No tinha coragem de maltratar sua Giselle. Olhou direto nos olhos de Lucena, que cambaleou e agarrou-se no brao de Miguez.
- Por que est fazendo isso, Lucena? - indagou, sem tirar seus olhos dos dela. - Ser que no percebe que Giselle no foi responsvel por eu ter deixado voc? Deixei-a 
porque no a amava, Lucena. Ainda que no amasse Giselle, jamais poderia me casar com voc.
- Voc me desonrou - retrucou Lucena, com voz rouca.
- Foi um erro, agora compreendo. Mas naquela poca, eu estava iludido. S depois descobri que o que sentia por voc no era amor, mas apenas desejo.

- 
- Voc tinha um dever de honra para comigo!
- Eu sei. No nego isso. Mas a honra no foi mais forte do que o amor que ento j sentia por Giselle. Nunca amei voc, Lucena. Se a amasse de verdade, eu jamais 
teria me apaixonado por ela. O erro foi meu, e sou eu quem deve pagar. Giselle nada tem a ver com isso.
- Ela matou meu pai!
No havendo como retrucar aquele argumento, Ramon soltou o chicote no cho e finalizou vencido:
- Sinto muito.
Completamente aturdida, Lucena largou o brao de Miguez e atirou-se contra ele, cravando-lhe as unhas no rosto.
- Desgraado!
Por um instinto mesmo de defesa, Ramon desvencilhou-se dela e acertou-lhe um soco no queixo, quase lhe destroncando o maxilar. Foi tudo to rpido e inesperado, 
que nem Miguez, nem os carrascos conseguirem intervir a tempo. Ramon no queria atingi-la, mas o inevitvel acontecera. Lucena cambaleou, a boca sangrando, e ele 
correu para ampar-la. Pensando que Ramon iria atac-la novamente, o carrasco, de forma impensada e mecnica, cravou-lhe a espada no trax, e a lmina atravessou-lhe 
o corao, fazendo com que ele tombasse morto antes de atingir o cho, as pupilas vidradas cravadas nos olhos de Lucena.
- No! - gritou Giselle em desespero, tentando se soltar das amarras. - Ramon! No! No! No...!
A voz foi sumindo na garganta. A um golpe do carrasco, Giselle desmaiou outra vez, para s acordar horas depois, novamente na masmorra, amarrada a seu costumeiro 
tronco, trazendo na mente apenas a lembrana do corpo de Ramon caindo inerte no cho.



CAPTULO 33


Fazia quase uma semana que Juan havia desaparecido, e Esteban estava realmente preocupado. Colocara todo mundo na abadia  sua procura, mas, at aquele momento, 
nada. Ningum tinha notcias dele. At no Tribunal foram procur-lo, mas ele no fora encontrado em lugar nenhum. Esteban j estava ficando seriamente alarmado.
Naquela tarde, tentava se concentrar na leitura de um processo quando um dos novios chegou apressado, berrando o seu nome pelos corredores:
- Monsenhor Navarro! Monsenhor Navarro!
- O que  que est acontecendo? - resmungou o cardeal. Esteban abriu a porta de seu gabinete, e o rapaz entrou suado e esbaforido, falando aos tropees:
- Monsenhor Navarro... Venha, depressa!
No precisava perguntar o que havia acontecido, porque j sabia do que se tratava. Juan fora encontrado. A passos largos, Esteban saiu atrs do novio, que deixou 
o Tribunal e se dirigiu para a abadia, passando direto pelo edifcio principal e se dirigindo para a velha capela em runas. A porta estava aberta, e vrios padres 
se encontravam do lado de fora, fazendo uma careta de nojo. Assim que Esteban entrou, sentiu o odor ptrido de carne em decomposio, e apanhou um leno, levando-o 
s narinas. O novio entrou no campanrio e apontou para cima. Esteban nem precisava olhar para saber o que encontraria ali. Pendurada no badalo do sino, uma corda 
balanava... Presa a ela, o corpo sem vida de Juan.
- Meu Deus! - exclamou Esteban, persignando-se.
Imediatamente, deu ordens para que tirassem o corpo do rapaz dali. Ningum se atrevia a toc-lo. Todos estavam com medo de subir na torre. Mas a ordem de Esteban 
foi imperativa, e os padres mais novos tiveram que obedecer. Miguez tambm apareceu. Ao ser informado de que Juan fora encontrado pendurado na torre do sino, partiu 
imediatamente ao encontro de Esteban.
- Meu amigo - lamentou com sincero pesar -, que desgraa.
- Juan no pde suportar a priso de Giselle. Ele a amava.
- Amava-a tanto que a denunciou.
- O qu? - tornou Esteban perplexo. - O que disse?
- Voc ouviu bem, Esteban. Lamento dizer-lhe isso nesse momento de dor. Mas foi Juan quem me contou sobre o envolvimento de Giselle com Ramon de Toledo e disse-me 
onde encontr-lo. Creio que o que no conseguiu suportar foi o peso do remorso.
Esteban escondeu o rosto entre as mos e chorou sentido. Agora compreendia tudo. Realmente, s a priso de Giselle no era motivo suficiente para que Juan se matasse. 
Tinha que haver algo mais.
- Miguez, voc vai me fazer um favor - pediu Esteban, ainda em lgrimas.
- O que quiser meu amigo.
- No diga a ningum que ele se matou. Quero dar-lhe um enterro digno.
- Mas Esteban, voc sabe que Juan cometeu um pecado mortal. No pode ser sepultado em campo santo.
- Por Deus, Miguez, faa isso por mim.
- Voc no poder enganar ningum. Outros tambm viram.
- Ningum ousar me contestar, alm de voc. Por favor, Miguez, ao menos isso voc me deve.
Ele estava certo. Miguez j o decepcionara demais. E aquela era uma tima oportunidade para reatar sua amizade com Esteban. Demonstrando solidariedade e compreenso 
pelo seu sofrimento, Esteban acabaria por perdo-lo e esqueceria aquela pequena desavena.
- Tem razo, Esteban.  o mnimo que posso fazer por voc.
Nesse momento, dois rapazes vinham descendo com o corpo ptrido de Juan, e Esteban, mais que depressa, comeou a se lamentar:
- Pobre Juan. Eu bem lhe avisei que no se pendurasse em cordas para limpar o sino.
Os padres se entreolharam atnitos. Estava claro que o novio havia se suicidado, e algum ainda tentou contestar:
- Mas monsenhor, ele se matou...
- No diga isso! - cortou Esteban irado. - Juan jamais faria uma coisa dessas. Ele caiu, entenderam? Foi limpar o sino e a corda se enrolou em seu pescoo. Foi um 
acidente.
- Mas monsenhor...
- No ouviram o que monsenhor Navarro disse? - interrompeu Miguez com ar de zanga. - Juan foi limpar o sino e caiu. Foi um infeliz incidente. E no ousem sugerir 
ou insinuar outra coisa. Ouviram bem? Ou tero que se entender comigo depois.
- Sim, padre Miguez - responderam os outros, em unssono.
- E agora, levem-no daqui e preparem-no para as exquias.
- Sim, senhor.
Depois que os padres se foram, carregando o corpo de Juan, Esteban se abraou a Miguez e desatou a chorar. O outro permaneceu parado e envolveu Esteban com seus 
braos, deixando que ele desse livre curso s lgrimas. Depois de muito chorar, Miguez enxugou-lhe os olhos e deu-lhe um beijo na testa, o que causou imensa emoo 
em Esteban.
- Miguez... No sei como lhe agradecer. A dor que sinto nesse momento me impediria de convenc-los.
- No precisa me agradecer meu amigo. Fiz isso em nome de nossa velha amizade. Gostaria que voc nunca se esquecesse da nossa amizade. Tudo o que fiz e fao  pensando 
nela.
- Eu sei Miguez... Amigo. Sou-lhe muito grato por isso.
Miguez deu-lhe um tapinha na face e, de braos dados, voltaram para a abadia. Algumas horas depois, depois de sentida missa proferida por Miguez, o cortejo carregando 
o esquife de Juan partiu para o cemitrio. Esteban estava to abalado que nem conseguiu dirigir a liturgia. No fosse por Miguez, sempre a ampar-lo com sincera 
amizade, Esteban teria cado doente.




Apesar das desconfianas, ningum disse nada. Quem ousaria enfrentar dois poderosos cardeais, influentes inquisidores do Tribunal do Santo Ofcio? A palavra de um 
inquisidor era algo incontestvel, e nem seriam precisas testemunhas para comprovar o que diziam.
De volta a seu gabinete, Esteban ps-se a pensar. J no agentava mais tanta morte. Mas estava por demais envolvido com ela para pretender abandon-la. O que alimentava 
a sua vida era a morte dos hereges, e Esteban no saberia o que fazer longe da Inquisio. Soubera da morte de Ramon e lamentara por Giselle. E agora, Juan tambm 
partira atormentado por uma culpa da qual jamais poderia se livrar em vida. Mais um pouco, e Giselle os seguiria. Ele tinha certeza de que Giselle no escaparia 
da perseguio de Miguez.
Miguez era mesmo seu amigo. Esteban podia sentir a sinceridade de seus gestos e de suas palavras. No fundo, o amigo acreditava mesmo que Giselle era uma herege. 
No fosse por esse motivo, jamais ousaria prend-la. Mas ele estava convicto, e a convico de um inquisidor era o quanto bastava para levar algum  masmorra.
Dali a dois dias, era o julgamento de Manuela. Ele sabia que a moa seria solta, porque no conseguira reunir nenhuma prova contra ela. Por mais que Giselle quisesse, 
no descobrira nada em Manuela que pudesse incrimin-la. Ao contrrio, ela era uma moa tola e ingnua, e s conseguira compreender o motivo de sua priso depois 
que Giselle despejara sobre ela o seu cime.
Tudo aconteceu conforme Esteban imaginara. O Tribunal reunido no vislumbrou nenhum elemento que os convencesse de que Manuela era uma bruxa ou herege. Alm do mais, 
Miguez tomara a sua defesa. No era propriamente seu advogado, porque o Tribunal sempre nomeava um para cada acusado, que nada fazia alm de tentar convenc-lo a 
confessar e apressar a prolao da sentena. Mas, naquele caso especfico, era um dos prprios inquisidores quem pedia a absolvio da r.
E foi exatamente assim que tudo sucedeu. O Tribunal, numa de suas raras decises, absolveu Manuela de todos os crimes que lhe haviam sido imputados, ou seja, nenhum. 
Ela fora presa por denncia de Giselle Mackinley, que sequer conseguira reunir provas contra a moa. O inquisidor,  claro, cumprira seu papel. Recebeu a denncia 
e instaurou o processo contra a rapariga, recolhendo-a imediatamente ao calabouo. Em seguida, iniciou as investigaes, torturando-a para que confessasse. Mas Manuela 
no confessara, e no havia documentos, objetos ou testemunhas que depusessem contra ela. Como resultado, s podia ser inocente.
Caberia a Esteban libert-la do calabouo, mas ele no teve coragem de ir. Ainda no se atrevia a encontrar Giselle. Sabia que estava sendo covarde, mas no poderia 
suportar v-la presa, acorrentada, flagelada por aqueles mesmos instrumentos que tantas vezes lhe fizeram a glria.
Miguez aceitou o encargo de bom grado. Mandou chamar Lucena e foi com ela libertar Manuela. Lucena acompanhou tudo com indizvel satisfao. Entrou na masmorra em 
companhia de Belita e Belinda, que mandara buscar em Cdiz. Giselle foi tomada de surpresa. Jamais poderia imaginar ver ali as suas antigas escravas. Quando a viu, 
Belita deixou as lgrimas carem, mas Lucena deu-lhe ordens para que no falasse com ela. Belinda, por sua vez, no demonstrou qualquer piedade. Ainda estava com 
raiva e no a perdoara por tentar incrimin-la.
Lucena parou diante dela, com as escravas mais atrs, e perguntou vitoriosa:
- Reconhece essas escravas? - Giselle no respondeu. - Pois agora so minhas. Miguez confiscou-as e deu-as a mim. V como esto felizes agora?
Efetivamente, Belita e Belinda pareciam muito mais bem-cuidadas por Lucena. Vestiam-se com roupas melhores e mais bonitas, e pareciam mais saudveis. Belita permanecia 
de olhos baixos, penalizada, sentindo-se pouco  vontade diante de sua antiga ama, mas Belinda encarou-a com raiva, sem falar nada. Seus olhos, porm, diziam tudo. 
Diziam-lhe que era bem-feito Giselle estar ali, em lugar, dela, como antes pretendera.


Pouco depois, Manuela chegou amparada pelo carrasco e por Miguez. Os membros estavam bastante doridos, e ela no conseguia se manter em p. Fora para isso que Lucena 
trouxera as escravas. Para que ajudassem Manuela a andar. As duas se postaram, uma de cada lado da moa, e susteve seu corpo, leve de to esqulido. Giselle nem 
conseguia mais sentir raiva. S o que sentia era a dor da humilhao. Lucena matara Ramon, tomara-lhe as escravas e agora libertava Manuela. Conseguira sua vingana.

- Sabe para onde vou lev-la, Giselle? - perguntou Lucena com ar irnico, apontando para Manuela. - Para casa. Vou cuidar dela, tratar de suas feridas, dar-lhe um 
lar. E ela vai trabalhar para mim. Sabe onde? No, no sabe. Mas eu vou lhe dizer. Vai trabalhar na taverna Dama da Noite. Conhece?  claro que conhece. Era a sua 
taverna, no era? Mas agora  minha. Como tudo o que lhe pertenceu um dia. At mesmo sua casa, que vou dar para Manuela morar.
As escravas foram virando o corpo de Manuela, mas ela fez fora para no ir. Abraada s moas, comeou a caminhar para frente. As escravas, percebendo que ela queria 
se aproximar de Giselle levou-na at l, e Manuela, rosto colado ao da outra, cuspiu-lhe na face com imenso desdm, acrescentando com voz glida:
- Espero que seu corpo apodrea nesse inferno. A morte  pouco para voc.
Giselle cerrou os olhos e desatou a chorar. No agentava mais receber tantas injrias e maldies. Tudo o que podia fazer para aliviar a sua dor, a sua revolta, 
o seu medo, era chorar. Lucena fez sinal para que as escravas a seguissem, e elas saram levando Manuela. Quando cruzaram o porto de ferro, Miguez, que at ento 
nada dissera, chamou o carrasco e lhe deu ordens para soltar Giselle. Iriam recomear as torturas.
- Voc chora, no  mesmo? - falou com voz diablica. - Pois vai chorar ainda mais quando o prprio Esteban ler a sua sentena final. Vou lhe dar essa honra. Quero 
que voc pague por todo o
mal que nos fez passar.
Ignorando o pranto aflito e agoniado de Giselle, Miguez foi cumprir o seu dever. Era seu direito. O direito de se vingar da pessoa que mais odiara em toda a sua 
vida.


CAPTULO 34


Giselle j comeava a acreditar que seu fim estava prximo. Submetida a toda sorte de torturas e abusos, pensava mesmo em desistir. J no estava mais conseguindo
suportar a dor, e s a viso de Miguez ou do carrasco j era suficiente para quase lev-la  loucura. Alm de tudo, ainda tinha que suportar a presena de Lucena, 
que se regozijava com o seu sofrimento.
Em casa, Lucena no deu muitos detalhes sobre a priso de Giselle. Apenas dissera a Blanca que ela fora presa, mas cuidava para no deixar escapar a felicidade que 
sentia ao ver o seu sofrimento. Blanca, por sua vez, tambm no dizia nada. Era muito grata a Lucena e a Miguez pelo que fizeram a ela e no pretendia desrespeit-los. 
Se eles ainda se compraziam com aquela vingana, s o que ela podia fazer era orar para que o perdo tocasse os seus coraes.
No havia mais muito tempo ou esperana para Giselle. Precisava sair dali o quanto antes. Ramon j estava morto e, apesar da dor que ela sentia pela sua perda, sabia 
que ele ao menos estava livre daquele inferno. Mas ela no. Fugiria sozinha. S podia contar com Diego. Fizera-lhe a proposta havia j algum tempo, mas, desde ento, 
nunca mais o vira. Sabia que Diego era ambicioso e esperava que ele aceitasse o seu suborno.
A despeito do sofrimento de Rbia, Diego no lhe disse nada sobre o que Giselle lhe propusera. Tencionava ir embora com ela da Espanha, pois s em outro pas poderiam 
se casar. Diego sabia que seu tio jamais permitiria que ele e Rbia se casassem, e, por isso, precisava partir com ela. Rbia era rica, mas ele queria mais. E depois, 
Rbia era uma mulher voluntariosa e inteligente, e ele no estava disposto a ficar em suas mos. Queria ter o seu prprio negcio sem precisar dar-lhe satisfaes. 
Poderia at comprar a companhia de seu pai e empreender viagens  Amrica, tal qual ele sonhara um dia.
Pensando em seu futuro, tomou uma resoluo. Queria libertar Giselle, mas no poderia faz-lo sozinho. Os soldados eram muitos e no aceitariam um suborno dele, 
pois o medo dos inquisidores era maior do que a sua ambio. Se fosse assim to fcil suborn-los, as masmorras j se encontrariam vazias quela altura, visto a 
enorme quantidade de nobres presos. No. Tinha que haver outra maneira.
Resolveu procurar o tio. Diego sabia o quanto ele lamentava a priso de Giselle, e talvez concordasse em ajudar. Somente com a interveno de um influente inquisidor 
 que conseguiria solt-la. Na manh seguinte, bem cedo, partiu de novo para Sevilha, onde pretendia ficar alguns dias, at que tudo terminasse. Assim que chegou, 
foi procurar o tio em seus aposentos. Ouvira falar da morte do jovem Juan e sabia que o tio se encontraria sozinho.
Diego foi conduzido ao quarto de Esteban e bateu  porta com cuidado. Alguns minutos depois, Esteban veio atender, e Diego levou um susto com a sua aparncia abatida 
e fatigada.
- Tio Esteban! - murmurou o rapaz. - O senhor est bem?
- Mais ou menos, meu filho. E essa maldita dor de cabea.
Diego entrou rapidamente e fechou a porta atrs de si, correndo at as janelas e fechando-as de par em par, para assombro de Esteban. O cardeal ainda pensou em indagar 
o motivo daquilo tudo, mas desistiu. Sentia-se exausto, a cabea a latejar, e recostou-se na cama, fechando os olhos por uns instantes.
- Tio... - chamou Diego a meia-voz - preciso falar-lhe com urgncia.
Esteban abriu os olhos lentamente e fixou o rosto lvido e assustado do sobrinho.
- O que  Diego? Est com algum problema? 
- No.
- Alguma coisa com Rbia?
- No se trata disso. Vim para falar de outra pessoa.
- Que outra pessoa? De quem est falando? Vamos, rapaz, diga logo. No estou com disposio para mistrios ou charadas.
- No  mistrio nenhum. Muito menos charada. Estou aqui para falar de Giselle.
O cardeal deu um salto da cama e colocou-se bem diante dele, agarrando-o pelo colarinho e sussurrando entre dentes:
- Voc no tem nada que falar de Giselle. J no basta o que ela est passando? E eu? Como pensa que estou me sentindo?
- Acalme-se, tio - retrucou Diego calmamente, tirando-lhe as mos da gola de sua camisa. - Estou aqui para ajudar.
- Ajudar? Em qu? No sei o que voc poderia fazer para ajudar. Se nem eu consegui convencer Miguez...
- No quero convencer ningum. Meus mtodos so bem outros.
- Mas que mtodos? Do que  que est falando?
- De uma fuga - deu uma pausa, sentindo o efeito que suas palavras causavam no tio, e prosseguiu com firmeza: - Pretendo ajudar Giselle a fugir.
Com um suspiro, Esteban se afastou do sobrinho e se aproximou da porta, abrindo-a vagarosamente. Aquilo era muito perigoso para ser tratado ali, e ele tinha medo 
de que algum escutasse. O corredor, porm, encontrava-se vazio. No havia ningum, e ele se certificou de que no corria nenhum perigo. Tornou a fechar a porta 
e se aproximou de Diego novamente, sentando-se a seu lado na cama.
- Posso saber como  que pretende fazer isso? - sussurrou o mais baixo que pde.
O outro, sem altear a voz, ciente tambm do risco que corriam, retrucou hesitante:
- Ainda no sei bem...
- Isso  loucura. Voc jamais conseguir tir-la de l.
- No sem a sua ajuda.
- Minha ajuda? O que h com voc, Diego? Quer nos matar a ambos?
- No  isso. Mas  que, com a sua ajuda, talvez seja mais fcil subornar os guardas.
- Suborn-los,  impossvel. Eles tremem de medo, s de pensar na ira dos inquisidores.
- Deve haver uma maneira de tir-la de l. Sei que h.
- Se houvesse, pensa que eu j no o teria feito? Mas no h.
- No  possvel. Tem que ter um jeito.
- S se... - Esteban parou hesitante.
- S se o qu?
- S se eles no estiverem acordados.
- tima idia! - exclamou Diego, satisfeito em vislumbrar uma aparente soluo. - Um pouco de sonfero no vinho seria o mais adequado... Mas como  que o sonfero 
vai parar nos seus vinhos? Quem o colocar? O senhor?  claro que no. Eu? No tenho a menor chance.
- Deixe isso por minha conta. Farei uma visita  masmorra de noite e lhes levarei o vinho. No desconfiaro de mim e bebero com prazer. Em poucos minutos, estaro 
fora do caminho.
- Mas tio, quando acordarem, vai denunci-lo.
- Voc no est entendendo. Eles no vo acordar.
- No vo? O que quer dizer?
- Que eles devem morrer.
Diego estacou horrorizado. Afinal, nunca antes havia matado ningum. Podia ser ambicioso e venal, mas matar j estava fora de seus planos. No tinha coragem para 
isso.
- Mas tio - protestou veemente -, no posso fazer isso. Nunca matei ningum.
- Voc no. Mas eu j. Matei muitos...
- O que quer dizer?
- Que os homens vo ser envenenados.
- Vo desconfiar do senhor.
- No podero provar nada. Nem Miguez ousar me acusar.
-  arriscado, tio. Algum pode v-lo entrar na masmorra.
- Correrei o risco. E depois, coberto pelo manto e pelo capuz, ningum de fora saber que sou eu. Para todos os efeitos, estarei dormindo em minha cama, com uma 
forte dor de cabea. Farei tudo rapidamente. Irei  masmorra e levarei o vinho para os guardas. Depois, voltarei para meu quarto e continuarei a dormir tranqilamente. 
Depois de mortos,  com voc. Aja com rapidez e leve-a para bem longe.
- Quando ser?
- O mais rpido possvel. Mais um pouco, e ela nem estar conseguindo andar.
- Quem ir avis-la?
- Ningum. Qualquer visita, nesse momento, despertar suspeita. Voc simplesmente aparece e a solta. Leve-a para bem longe daqui.
Tudo ficou acertado para dali a dois dias. Esteban faria uma visita noturna  masmorra, entregaria o vinho envenenado aos guardas e depois sairia. Caberia o resto 
a Diego, que ficou de arranjar um barco para tir-la da Espanha.





CAPTULO 35
Na vspera da fuga, Giselle continuava amarrada ao tronco, o qual at j desejava como forma de descanso. Ao menos, enquanto estava amarrada ali, no estava sendo 
torturada por Miguez. J era noite quando a porta se abriu, e Giselle percebeu uma luminosidade intensa penetrando na masmorra. Olhou em volta assustada, pensando 
que dormia e sonhava, mas a dor no corpo a fez concluir que ainda estava acordada. A luminosidade veio se aproximando, e Giselle piscou os olhos diversas vezes, 
ofuscada por tamanha claridade.
Aos poucos, porm, conseguiu divisar a figura de um guarda, trazendo pela mo uma menina. No devia ter mais do que dez ou onze anos. Era linda, cabelos louros cacheados, 
olhos de um azul cristalino, lbios vermelhos qual uma rosa prestes a desabrochar. Parecia um anjo envolto em um halo de luz.
Giselle percebeu que o anjo era apenas uma menina, e aquele claro repentino, subitamente, desapareceu. Teria sido um sonho ou uma viso? A menina passou bem junto 
a ela, deixando-a estarrecida. Bem percebia que se tratava de uma criana, e a indignao foi tomando conta de sua mente. Ela, ao menos, era adulta e reconhecia 
que havia cometido muitos crimes. Mas que mal poderia uma criana ter feito aos padres para merecer tal sorte?
A viso daquela menina causou estranha comoo em Giselle. Ela vinha cabisbaixa, segura pela mo do guarda, que a conduzia para uma das celas laterais. Quando passou 
ao lado de Giselle, a menina estacou de repente e levantou os olhos para ela por uns instantes, para depois abaix-los novamente, continuando em sua triste trajetria 
de morte.
Giselle estremeceu. A menina, to pura, to inocente, mais parecia uma flor no meio daquele lodaal de dores e lamentaes. Ela sabia que, em breve, o corpo da menina 
seria dilacerado e vilipendiado, e chorou. Pela primeira vez em sua vida, Giselle derramava lgrimas por algum que no fosse ela mesma.
Com o corao oprimido e os pensamentos ainda presos na criana, Giselle adormeceu. Novamente, viu aquela luminosidade e pensou que a menina houvesse se soltado 
da cela. Virou o pescoo lentamente para o lado e percebeu que a cela em que fora colocada ainda se encontrava fechada, e a menina dormia um sono agitado sobre a 
palha ftida despejada no cho.
Tornou a olhar para frente e percebeu que a luminosidade havia se aproximado, pairando alguns centmetros acima do cho, quase tocando o seu corpo. Aos poucos, aquela 
luz a foi envolvendo, e Giselle sentiu imenso bem-estar, como se aquela claridade estivesse refazendo o seu corpo, aliviando-lhe as dores e as feridas. De repente, 
a luz se afastou um pouco e foi tomando forma, e ela viu extasiada a figura brilhante do pai se formar bem diante de seus olhos.
- Pai! - exclamou aos prantos. - Ajude-me!
Estirou os braos para frente e espantou-se ao constatar que, alm dos braos realmente se estenderem, todo o seu corpo atendeu ao seu comando, e Giselle viu-se 
acolhida nos braos de seu pai. Durante muito tempo, permaneceu abraada a ele, permitindo que as lgrimas fossem recolhidas pelas suas mos amorosas.
O pai no se apressou em solt-la. Deixou que desse vazo ao pranto e, quando ela finalmente se acalmou, acariciou os seus cabelos e deu-lhe um beijo na face, indagando 
com extrema bondade:
- Vim lhe perguntar de novo, Giselle: o que foi que fez com o conhecimento que lhe dei?
Ela no resistiu. Agarrou-se a ele em desespero e comeou a chorar novamente, respondendo entre lgrimas sentidas e angustiadas:
- Oh! Pai perdoe-me! Fui uma tola, ambiciosa, ftil. Deveria ter seguido os seus conselhos. Jamais deveria ter utilizado meus conhecimentos para o mal. Hoje compreendo. 
Ao ver aquela menina entrar aqui, pensei na fragilidade da vida e no quanto devemos nos esforar para sermos bons. Ela est sofrendo, pai, eu sei. Mas seu semblante 
 to doce...
- Porque sua alma  pura, minha filha. Assim como a sua tambm .
- A minha? No, pai, sei que sou uma perdida, criminosa, pecadora. Jamais chegarei aos ps daquela criana... Ou aos seus...
- No se acuse tanto, Giselle. Sua alma  pura, porm ignorante. Voc enveredou por um caminho de espinhos e s a muito custo conseguiu compreender que quem caminha 
no meio dos espinhos acaba tendo que assumir as feridas nos ps.
- Pai... Estou sofrendo tanto!
- Voc mesma escolheu esse sofrimento, Giselle. Foi a sua opo.
- Jamais poderia ter escolhido tanta dor. Se estou sofrendo,  porque algum me inflige esse sofrimento.
- No acuse aqueles que apenas servem de instrumento aos seus desgnios. Voc escolheu se envolver com essas pessoas e vivenciar tudo aquilo que elas poderiam lhe 
dar.
- Por favor, pai, ajude-me! No quero mais sofrer. Tire-me daqui. Leve-me com voc! Estou arrependida do que fiz... Sei que mereo passar por tudo isso, mas estou 
arrependida, eu juro!
- Sei que est. Seu arrependimento  sincero, mas no simples o suficiente. Voc est comeando a enveredar pela senda da culpa.
- Como no me sentir culpada diante da conscincia de tudo o que fiz?
- Seja responsvel por seus atos, Giselle, mas no se entregue  culpa. Voc s vai sofrer.
- No  o que mereo?
- Ningum merece sofrer para aprender. Sofremos porque no compreendemos.
Hoje eu compreendo, pai. Compreendo que ajudei a matar e espoliar muitas pessoas. Talvez at crianas feitas aquela - engoliu um soluo sentido e apontou para a 
menina adormecida.
- Essa criana foi mais um instrumento para despertar a semente de bondade que voc guarda em seu corao.
- Mas que bondade? Eu fui m, mesquinha, cruel... Ah! Pai, se pudesse voltar atrs e refazer a minha vida!
- Ningum  mau, minha filha. Somos todos ignorantes. No se culpe tanto.
- Ah! Pai, pai! Ajude-me! Tire-me daqui. Sei que pode. Leve-me com voc. Prometo ser diferente. Prometo reparar todas as maldades que fiz. Prometo que vou me emendar. 
Voc vai ver. Vou ser boa, generosa, piedosa. Mas por favor, no me deixe mais sofrer! No me deixe!
- Acalme-se, Giselle. No precisa prometer coisas que no sabe se ser capaz de cumprir. Nem ningum est lhe pedindo isso. Somente podemos dar aquilo que temos.
- Mas eu no tenho nada!
- Tem o seu corao, o seu amor...
- Que amor? A nica pessoa que amei em minha vida foi Ramon... E voc...
- No, minha filha. Amou aquela criana que acabou de conhecer.
Giselle calou-se abismada. Fitou a menina novamente e tornou a olhar para o pai. Ele estava certo. Ao ver aquela criana entrar, envolta naquele halo de luz, algo 
dentro dela comeou a despertar. Seu corao sentiu algo novo, um sentimento que at ento jamais havia experimentado. Era um sentimento puro, desinteressado, carregado 
de compaixo e amorosidade. Giselle nunca fora me. Mas, se pudesse, estreitaria aquela menina em seus braos at que ela se sentisse acolhida e protegida, como 
nos braos de sua mezinha.
Olhos banhados em lgrimas fitaram o pai com amor e respondeu com sinceridade:
- Tem razo...
Deitou a cabea no colo dele e entregou-se ao pranto. Compreendia as palavras do pai e lamentava no t-las seguido h mais tempo.
- No se lamente - tranqilizou-o, lendo seus pensamentos. - No a tempo de mais ou tempo de menos. O que h  o nosso prprio tempo, que  sempre o justo e o necessrio 
para o nosso entendimento.
- Oh! Pai, o que fiz para merecer tudo isso?
- Quer mesmo saber?
Ela ergueu os olhos assustada e indagou em dvida:
- Ser que devo?
- Se voc quiser...
- Vai me ajudar a mudar alguma coisa?
- Alguma coisa no. Mas pode ajudar a modificar voc. O que voc fez, est feito, ningum jamais poder apagar. Durante os sculos vindouros, tudo o que voc fez 
estar guardado em algum lugar dentro de voc, porque as lembranas de seus atos passados  que serviro para ajud-la a construir uma personalidade mais ntegra 
no futuro. Ningum pode apagar os seus atos, porque estaria apagando suas experincias. Mas voc pode compreender com o corao tudo aquilo que j fez, e esses atos 
dos qual voc se lamentam serviro de exemplo para novas atitudes. Ento? O que me diz? Quer saber o que voc fez, apenas para compreender por que escolheu estar 
aqui hoje?
- Quero - respondeu Giselle, decidida.
No mesmo instante, as paredes da masmorra desapareceram, e Giselle saiu para a friagem da noite. Em questo de segundos, a noite virou dia, e ela comeou a se lembrar.
Corria o ano de 1204, e a frota cruzada preparava-se para a terceira investida contra a capital bizantina. Os soldados j haviam conquistado e pilhado vrias cidades 
daquele imprio, dentre elas, Calcednia e Crispolis, mas no estava sendo nada fcil tomar Constantinopla. O porto da cidade era protegido por grossas correntes 
que impediam a entrada dos navios invasores, e a nica sada seria tomar a Torre de Gaiata e soltar as correntes que a ela se prendiam. Ultrapassada as correntes 
e penetrados o porto, a investida por mar ainda teria que vencer as demais torres de proteo, o que demandava tempo, homens e habilidade.

Essa empreitada contou com o concurso de cruzados e venezianos, que haviam partido juntos de Veneza. Quando, por fim, a Torre de Gaiata foi tomada e as correntes, 
afrouxadas, os cruzados penetraram no porto e, agora em terra, acamparam do lado de fora das muralhas, a uma distncia segura das catapultas inimigas. Os venezianos, 
por sua vez, permaneceram na investida por mar, e, enquanto lutavam para invadir as torres da cidade sitiada, os cruzados tentavam abrir uma fenda na muralha, at 
que conseguiram, finalmente, penetrar com seus cavaleiros montados, tomando tudo que encontravam  sua frente.
Foi nesse clima hostil e sangrento que Giselle se reconheceu, envergando uma armadura brilhante onde se via no peito a cruz vermelha das Cruzadas. Giselle no era 
Giselle. Era Rmulo, um soldado forte e destemido, oficial graduado e competente, e engajara nas Cruzadas numa tentativa de reaver a herana perdida para seu irmo 
mais velho. Pelo direito de primogenitura, toda a fortuna de seu pai fora herdada pelo irmo, e Rmulo no recebera nada em terras ou dinheiro. Por isso, a Quarta 
Cruzada lhe surgiu como a chance que esperava de adquirir terras e riquezas no oriente.
Sem dinheiro e sem galeras, os cruzados haviam praticamente se colocado nas mos dos venezianos, que os levariam a Jerusalm em troca de ajuda para a retomada da 
cidade de Zara aos hngaros. Na viagem, Rmulo conheceu Leandro, um veneziano maduro e experiente, e uma forte amizade logo surgiu entre ambos. Cerca de quinze anos 
mais velho, Leandro tornou-se para o jovem Rmulo, alm de amigo, um sbio conselheiro.
A batalha pela conquista de Constantinopla no durou muito tempo. Logo o imperador fugiu com seu exrcito, e os bizantinos, decepcionados com a destruio de sua 
muralha, deram-se por derrotados. Reconhecendo-se verdadeiros conquistadores, sem encontrar resistncia da populao ou dos soldados, os cruzados iniciaram ento 
a pilhagem da cidade.
Milhares de civis e militares foram mortos ou aprisionados, e as mulheres, estupradas pelos cruzados. Imagens, altares, esttuas de ouro, tudo foi destrudo e derretido 
por aqueles que partiram de Veneza jurando lutar pela f crist. Palcios e manses foram tomados, seus residentes mortos ou aprisionados, e muitas obras de arte 
foram roubados. O saque foi imenso, e os cruzados, mais do que os venezianos, no hesitavam em destruir, queimar, matar...
Rmulo era ento um dos capites dos cruzados, cruel e sanguinrio, impiedoso e imoral. Em meio  pilhagem, invadiu o palcio de um oficial do exrcito bizantino, 
que havia se recusado a debandar ante a iminncia da derrota. Domcio era um homem ntegro, segundo os padres da poca, e resistiu ante a capitulao de sua amada 
Constantinopla.
Ao entrar em seu rico palacete, todo feito de mrmore e ouro, Rmulo quedou boquiaberto. Jamais havia visto tanta riqueza em toda a sua vida. Mesmo seu pai, que 
fora um rico senhor feudal, no poderia se igualar quele Domcio em luxo e fortuna. O homem ainda tentou resistir. Lutou com todas as suas foras contra vrios 
soldados cruzados, mas acabou rendido e subjugado.
Rmulo deu ordens para que ele fosse preso, e seus soldados puseram-se a vasculhar o palacete. No demorou muito, e toda a famlia foi encontrada e levada  sua 
presena. No mesmo instante, seus olhares se fixaram na jovem esposa de Domcio. Tratava-se de uma nobre de origem grega, Lsias, moa fina e de rara beleza. Rmulo 
sentiu imenso desejo por aquela mulher. Acostumado a tomar o que desejava, deitou-a no cho e estuprou-a ali mesmo, diante de toda a famlia.
Naquele momento, Domcio sentiu imenso dio de Rmulo. Se ele os tivesse matado, a todos, no lhe guardaria tanto rancor. Era soldado tambm e considerava a execuo 
e a morte coisas naturais numa guerra. Mas estuprar sua mulher era coisa que no poderia jamais admitir.
Terminada a violncia, Rmulo mandou que prendessem toda a famlia de Domcio, menos sua mulher. Enquanto ardesse nele o fogo da paixo, Lsias serviria para saciar 
os seus instintos. Domcio ainda tentou lutar, mas foi amarrado pelos soldados de Rmulo, que se preparavam para lev-lo  priso. Foi nesse momento que chegou Leandro, 
seu companheiro de batalhas.
- O que est acontecendo aqui? - indagou Leandro, abismado.

- Ora, meu caro amigo - retrucou Rmulo com desdm -, estamos apenas nos divertindo.
Leandro fez um ar de contrariedade. Os venezianos costumavam ser mais comedidos em seus atos de pilhagem e saque, e Leandro, em especial, no se comprazia com os 
estupros.
- Est desonrando uma mulher casada! - censurou Leandro com veemncia.
- Ela  mulher do inimigo. No tem mais honra.
Novamente, Leandro fez ar de desagrado. Era extremamente catlico e considerava a atitude de Rmulo um atentado contra as leis da Igreja, da mesma Igreja que ele 
jurara defender. A mulher, alm de tudo, era catlica tambm, e no era direito for-la ao adultrio.
- Rmulo - prosseguiu ele com aparente calma -, solte essa mulher. E uma mulher crist.
- E da? Ela agora me pertence. Veio de prmio, junto com a pilhagem.
Soltou estrondosa gargalhada, o que deixou o amigo ainda mais indignado. Parado mais atrs, Domcio no perdia uma s de suas palavras. Mesmo sendo inimigos, sentiu 
imensa gratido pelo que Leandro estava fazendo. Reconheceu nele um homem honrado e digno, e passou a admir-lo profundamente. Leandro podia pertencer ao conquistador 
inimigo, mas no era um mercenrio feito aquele Rmulo.
- Solte-a! - falou incisivo. -  uma ordem.
- Voc no d ordens em mim.  meu amigo, no meu capito-mor.
Nesse momento, Lsias atirou-se aos ps de Rmulo e, aos prantos, ps-se a suplicar com pungente dor:
- Por favor, senhor, eu lhe imploro. Deixe-me ir. Solte meu marido e eu prometo que nunca mais nos ver. Partiremos hoje mesmo...
- Cale-se, mulher! - esbravejou Rmulo, desferindo-lhe uma bofetada.
De onde estava Domcio tentou se soltar, mas os soldados o seguravam com fora, e ele no conseguiu se mover. Contudo, foi remoendo o dio por aquele capito arrogante 
e cruel, que no poupava nem a fragilidade de uma mulher.
- Por Deus, Rmulo! - objetou Leandro novamente. - No v que ela  apenas uma mulher e que est assustada? Solte-a! Deixe-a ir!
Mais por orgulho do que por desejo, Rmulo no a soltava. No podia permitir que outro homem, por mais amigo que fosse, passasse por cima de sua autoridade de capito.
- Nunca! - bradou entre dentes. - Prefiro antes v-la morta!
Na mesma hora, desembainhou a espada e cravou-a na garganta de Lsias, que morreu ante o olhar atnito e revoltado de Domcio. Lsias veio ao cho, sobre uma poa 
de sangue, o que deixou Domcio enlouquecido. Apesar de fortemente preso, puxou os soldados que o seguravam e partiu para cima de Rmulo, aos pontaps, sendo facilmente 
subjugado pelo outro.
- Idiota! - vociferou Rmulo. - Gosta tanto assim de sua mulher? Pois v juntar-se a ela!
Com um s golpe, Rmulo tirou a vida de Domcio tambm. Os dois desencarnaram levando imenso dio no corao, dio esse que os acompanharia durante os sculos seguintes, 
principalmente ao reencarnarem como Lucena e Miguez. Ambos no conseguiram superar o dio, e o desejo de vingana fez com que envidassem todos os esforos para retribuir 
a Rmulo, na pele de Giselle, todo o mal que antes os fizera passar.
Apesar de tudo, Domcio nutriu sincera gratido por Leandro, que perdurou tambm na encarnao seguinte, quando este voltou como Esteban. Nasceu da uma forte e 
verdadeira amizade, fruto do reconhecimento de Domcio pelos esforos de Leandro em salvar a vida e a honra de sua esposa.




CAPTULO 36





Com lgrimas nos olhos, Giselle voltou de suas reminiscncias. Foram dolorosas as lembranas de sua vida passada, e ela ficou imaginando o quanto gostaria de ter 
feito tudo de forma diferente.
- Se soubesse disso antes, no teria feito o que fiz.
- Se soubesse disso antes, no teria feito esforo algum.
- E agora, pai, o que farei?
- Aceite o seu destino. Foi o que voc escolheu para voc.
- No posso mudar? Estou presa as minhas escolhas?
- No. Mudamos a todo tempo. Mas  preciso que essa mudana parta do seu corao, no do seu medo. Voc s quer mudar porque est com medo de sofrer mais e de morrer. 
No quer mudar o destino porque j aprendeu aquilo que veio aprender. Por isso  que digo que voc no quer essa mudana. Sua alma no quer, porque ela sabe que 
voc, em seu ntimo, ainda no est pronta para compreender e aceitar-se, a si mesma, como uma alma em evoluo, que erra e cai, mas que no perde jamais.
- Est enganado, pai.  por compreender e me aceitar que no quero mais ficar aqui...
- O que sente agora com relao a tudo isso?
Giselle pensou durante alguns minutos, at que respondeu com profundo pesar:
- Culpa. Sinto-me culpada por tudo o que aconteceu.
- Como v voc ainda no compreendeu e, por isso, no pde se aceitar. Se tivesse mesmo compreendido, no se sentiria culpada. Ao contrrio, perdoar-se-ia, a si 
mesma, sem nenhuma restrio. Mas voc no pode. Sua alma pesa de tanta culpa.
- Se isso no  compreender, ento no sei o que . Se no compreendesse, no me sentiria culpada pelo que fiz.
- No, Giselle,  o contrrio. Se voc compreendesse, diria a si mesma que agiu por ignorncia e no precisaria sofrer para aprender.  como a criana, que cai e 
bate no amiguinho porque ainda no aprendeu que no deve bater em seus semelhantes. Ela  m? No. E apenas inexperiente. Quando entender que no deve bater nas 
outras crianas, vai aprender, mas sem nenhuma culpa ou remorso. Simplesmente no vai bater mais, porque vai internalizar o que  certo. E no vai precisar apanhar 
para deixar de bater. V como  diferente?
Com doloroso suspiro, Giselle abraou-se ao pai. Ele tinha razo. Ela estava morrendo de remorso pelo que fizera e achava que merecia mesmo aquele sofrimento todo. 
Por mais que o temesse e no o quisesse, no se julgava merecedora do perdo.
- Ah! Pai ajude-me! O que ser de mim?
- Voc vai desencarnar - ela redobrou o pranto, e ele acariciou seus cabelos. - No chore minha filha. Esse  o seu caminho de hoje, mas no precisa ser o de amanh. 
Lute para fazer diferente no futuro.
- Como, pai? Como poderei fazer isso?
- Em primeiro lugar, tente vencer a culpa quando desencarnar. Se no, voc no vai conseguir me acompanhar e vai sintonizar com os espritos que a rodeiam, sequiosos 
de vingana. Eles vo arrast-la, e eu no terei como evitar.
- No quero pai! No quero seguir com eles. Quero ir com voc.
- Pois ento, acredite nisso, deseje isso. No  s porque voc levou uma vida de desencontros que precisa ir para as trevas. Isso, nesse momento, voc j entendeu. 
O que lhe falta agora  acreditar-se merecedora de alar a um plano de luz. Acredite nisso, com f, e ningum conseguir arrast-la. Voc vai me ver ao seu lado 
e vai desejar partir comigo. Ser que pode fazer isso?
- Tentarei pai, juro que tentarei. O que mais quero  poder estar com voc.
A imagem de Ian esvaneceu, e Giselle abriu os olhos assustada, ainda a tempo de ver desaparecer sua ltima centelha de luz. Olhou para o lado e viu a menina adormecida. 
Ao seu redor, as poucas mulheres presas no davam sinais de terem percebido nada. Apenas ela vira o pai e sabia que ele estivera ali de verdade.
No dia seguinte, Miguez no apareceu para sua costumeira sesso de torturas. Como Ian havia energizado o corpo de Giselle, era preciso que ela no sofresse nenhum 
tipo de suplcio naquele dia, ou toda aquela energia revitalizante acabaria perdida nos mecanismos de tortura. A soluo foi pedir o concurso de Blanca. Ela era 
um esprito bastante esclarecido e iluminado, ciente de seus comprometimentos passados, e no via nada de til em querer se vingar. Ao contrrio, orava por Giselle 
todas as noites, para que ela fosse forte como ela prpria o fora.
Ian visitou Blanca em sonho, logo aps deixar Giselle, e ela concordou em colaborar. Na manh seguinte, acordou com uma inexplicvel febre, para desespero de Lucena, 
que logo mandou chamar Miguez, com medo de que ela morresse. Miguez mandou buscar um mdico na vila vizinha, pois no podia arriscar a segurana de Blanca trazendo 
um mdico de Sevilha, que poderia reconhec-la e denunci-la novamente a Esteban.
Isso levou algum tempo. Lucena, desesperada, no queria que ele sasse de perto delas, e Miguez foi ficando. Quando o mdico terminou a consulta, a noite j havia 
cado, e ele estava cansado e sem nimo para ir ao calabouo. Fez a refeio da noite em companhia de Lucena e acabou ficando para passar a noite, temendo que Blanca 
piorasse. Aquele fora um dia intil, mas, no dia seguinte, acordaria bem cedo para recuperar o tempo perdido.
Por volta da meia-noite, todos j estavam dormindo, inclusive Esteban, que, desde a hora do jantar, reclamava de forte dor de cabea. Recolheu-se mais cedo, no 
sem antes tomar uma forte infuso que um dos padres lhe oferecera. Deitou-se na cama e apagou a luz da vela, e todos acharam mesmo que ele adormecera.

Em silncio, abriu a porta de seu quarto e saiu p ante p. Envolto em pesado manto negro, cujo capuz lhe encobria todo o rosto, atravessou a abadia e penetrou no 
Tribunal, levando sob o manto a garrafa de vinho envenenado. O silncio imperava em todos os cantos. Ao abrir a porta da masmorra, o primeiro guarda se levantou, 
cumprimentando-o com voz sonolenta:
- Ah! Monsenhor Navarro, boa noite.
- Boa noite.
Sem dizer nada, Esteban seguiu direto para a masmorra masculina. O guarda de planto abriu a porta e ele entrou, fingindo que ia averiguar algo em um dos prisioneiros. 
Por dez minutos, permaneceu estudando o morto vivo, at que resolveu sair. Fingiu que ia embora quando, no meio do caminho, voltou-se para o guarda.
- Como  o seu nome, rapaz?
- Martinez, senhor.
- Pois bem, Martinez. Antes de vir para c, passei em meu gabinete para buscar essa garrafa de vinho que ganhei hoje cedo, mas no ando me sentindo bem e no posso 
tom-la. No gostaria de experimentar um trago?
O homem nem acreditou. Um vinho daquela qualidade, ofertado por um cardeal, devia ser uma delcia dos deuses. Martinez estalou a lngua e respondeu animado:
- Ser que posso monsenhor?
-  claro, meu rapaz - enquanto Martinez apanhava uma caneca sobre a mesa, Esteban aproveitou para sugerir: - Por que no vai chamar seu companheiro na outra masmorra? 
Assim os dois bebem juntos.
- Mas, monsenhor, ele no pode abandonar o seu posto.
- Ora,  s um instantinho. Que mal h? Aposto como ningum vai fugir de l de dentro, no ?
Martinez sorriu entusiasmado e correu a chamar o guarda da masmorra feminina. Os dois voltaram quase correndo, e o outro cumprimentou com um sorriso respeitoso e 
formal:
- Boa noite, monsenhor.
- Boa noite, rapaz. Trouxe sua caneca?
- Trouxe.
- Olhe l, hein?  s um pouquinho. No quero que amanh digam que os embebedei.
Sob o sorriso maroto dos dois guardas, Esteban entornou o vinho nas canecas que eles lhe estendiam. Os dois levantaram as canecas num brinde meio sem jeito e entornou 
o vinho de uma vez, goela abaixo. Estalaram a lngua, satisfeitos, e j iam agradecer quando sentiram uma estranha contrao no estmago. Entreolharam-se atnitos 
e procuraram Esteban com a viso j nublada, mas ele havia sumido pelo corredor mal iluminado.
Na porta da frente, repetiu a mesma coisa com o primeiro guarda. A exemplo dos demais, ele estendeu a caneca para Esteban, que derramou o vinho e esperou at que 
ele bebesse, a fim de se certificar de que morreria tambm. Minutos depois, o homem tambm jazia duro no cho. Esteban afastou o seu corpo da porta e correu para 
fora, rezando para que Diego j estivesse ali.
Diego j estava  espreita. Logo que viu um vulto sair correndo do calabouo, dirigiu-se para l a passos rpidos. A porta estava aberta, e ele entrou. Jogado a 
um canto da parede, o corpo do primeiro guarda apareceu, e ele seguiu avante, direto para a masmorra feminina. No havia ningum l. O guarda dali havia morrido 
junto com o outro, e ele teve que sair  sua procura para buscar as chaves. Foi para a outra masmorra e encontrou os dois cados no cho. Apanhou as chaves dos dois 
guardas e partiu de volta para onde Giselle estava.
Foi experimentando as chaves uma a uma, at que encontrou a que procurava. Abriu a porta com cuidado e passou para o lado de dentro, indo direto para o tronco onde 
Giselle estava amarrada. Ela estava adormecida e no viu quando ele entrou. Diego teve que cutuc-la para que ela despertasse. Giselle abriu os olhos lentamente, 
tentando entender o que estava se passando. Ser que Miguez resolvera aparecer para uma sesso noturna?
No era Miguez. Parado diante dela, Diego a chamava com insistncia:
- Giselle! Giselle! Vamos, abra os olhos. Acorde, Giselle!
- Diego! - sussurrou assustada. - O que faz aqui?
- Resolvi aceitar a sua proposta.
- Que proposta?
- 

- 
- No se lembra? Vim libert-la em troca de seu tesouro.
Enquanto falava, Diego ia tentando encontrar a chave que abria o cadeado que a prendia ao tronco, at que finalmente o achou. Soltou as correntes, e Giselle deixou 
o corpo tombar para frente, tentando sentir a prpria coluna.
- Venha. No h tempo para exerccios agora. Vai ter que andar.
Ele puxou Giselle pelo brao, e ela se levantou a muito custo. O corpo estava todo dodo, mas, graas ao passe revigorante de seu pai, conseguiu se erguer e caminhar. 
Sem pensar muito, segurou o brao de Diego com firmeza e deu dois passos em direo  porta. Foi quando se lembrou da menina que vira chegar no dia anterior. Parou 
abruptamente e voltou-se para a cela onde ela fora colocada. Atrada pela agitao, a menina despertara e a olhava com ar splice.
- D-me as chaves - pediu Giselle num murmrio.
- O qu? Para que quer as chaves?
Diego seguiu a direo do dedo de Giselle e viu a criana.
- Vou lev-la comigo.
- O qu? Ficou maluca? No temos tempo para isso. E depois, uma criana s faria nos atrapalhar.
- Vou lev-la comigo, j disse! Vamos, d-me as chaves!
Muito a contragosto, Diego passou o molho de chaves s mos de Giselle, e ela foi a passos trpegos abrir a cela da menina.
- Venha! - chamou, estendendo-lhe as mos.
Na mesma hora, a criana segurou a mo de Giselle e saiu da cela, ajudando-a a caminhar.
- Como se chama?
- Marisol.
Amparada pela menina e por Diego, Giselle saiu da masmorra. Notou que no havia nenhum guarda por ali, mas no perguntou nada. Diego planejara tudo, e ela no estava 
disposta a perder tempo com perguntas inteis. Do lado de fora, seguiram para uma carruagem parada no final da rua, fora do campo de viso do Tribunal. Diego ajudou 
Giselle e Marisol a subir e tomou as rdeas dos cavalos. Mais que depressa, chicoteou os animais e levou a carruagem para bem longe dali.
Fora da cidade, Diego parou o carro, e as duas desceram rapidamente. Ele levou a carruagem para fora da estrada e ocultou-a atrs das rvores, sentando-se com Giselle 
e Marisol na grama mida.
- E agora? - quis saber Giselle.
- Voc vai a cavalo at Santa Maria. De l, seguir a p at um pequeno povoado chamado Los Lobos. Fica aos ps de uma colina, que voc deve subir at o fim e descer 
pelo outro lado. Logo que alcanar o topo, vai ver uma pequenina praia l embaixo. Desa pela encosta e aguarde. Um barco vir para lev-la em segurana. Na tera-feira, 
ao meio-dia.
- Para onde irei?
- Para Alexandria - ela no contestou, e ele prosseguiu: - Muito bem. Cumpri a minha parte. Agora, cumpra a sua. Diga-me onde est o tesouro.
Com um profundo suspiro, Giselle contou-lhe onde escondera sua pequena fortuna em ouro e pedras preciosas. Embora sua casa houvesse sido revistada, duvidava que 
algum tivesse descoberto esse esconderijo. Ela o ensinou a chegar l pela floresta, para que ele no corresse o risco de ser surpreendido na porta de casa.
- E a garota? - indagou Diego, referindo-se a Marisol. - No vai conseguir com ela.
- No pretendo lev-la comigo. Vou deix-la em Cdiz, com Rbia.
- O qu? Voc endoidou de vez. No vai dar tempo. E se voc perder o barco?
- Vai dar tempo, sim. Sei que vai. Se partir agora e cavalgar sem parar para descansar ou comer, terei tempo de passar em Cdiz e deixar Marisol com Rbia.
- Isso  muito arriscado. E se algum descobrir?
- Duvido muito. Ningum ter motivos para procur-la l. Diego deu de ombros e arrematou:
- Voc  quem sabe. Mas se perder o navio, no me culpe.
- No o culparei. Bem, Diego, agora  hora de partir. Obrigada por tudo, e faa bom proveito do meu dinheiro.
Ela apanhou as rdeas do cavalo que ele soltara da carruagem, montou e puxou Marisol, colocando-a na garupa.

- Acha que poder agentar? - perguntou a ela.
- Sim.
Giselle deu um ltimo sorriso para Diego e chicoteou o animal, que saiu em disparada pelo meio da floresta. Teria que viajar pelos bosques, sempre em meio s rvores. 
Sair pelas estradas era muito perigoso. Em breve, Miguez poria toda a guarda do Tribunal em seu encalo.
Ela apertou a mo de Marisol ao redor de sua cintura e seguiu confiante para Cdiz. No sabia explicar aquela sensao de bem-estar que sentia. No se lembrava das 
palavras exatas de seu pai e desconhecia que iria desencarnar em breve. Mas algo dentro dela lhe dizia que ela caminhava para a liberdade, e a nica coisa que a 
impediria de ser livre seria sua prpria fraqueza, que poderia acorrent-la novamente aos grilhes de seus inimigos.
A viagem at Cdiz foi desgastante e cansativa, principalmente para Giselle, que sentia o corpo todo doer por causa das torturas. Alcanou o castelo encoberta pelas 
sombras da noite e ainda precisava atravessar os portes sem chamar a ateno. Chamou insegura, mas os guardas nem desconfiaram quando ela disse que vinha de Sevilha 
e trazia um recado de monsenhor Navarro para Rbia.
Os portes foram abertos, e Giselle entrou, cobrindo o rosto com o manto e procurando permanecer fora do alcance da luz. Um dos guardas foi chamar Rbia, que veio 
atender, ainda meio sonolenta. Mas logo reconheceu, no salo principal, a silhueta magra de Giselle. Olhou-a com estranha emoo, mas, contendo o mpeto de se atirar 
em seus braos, falou para o guarda com estudada moderao:
- Pode ir agora. Obrigada.
Esperou at que o guarda se afastasse, para s ento correr para ela.
- Rbia... - sussurrou Giselle em lgrimas.
- Oh! Giselle, graas a Deus que est bem! - tornou a outra, estreitando-a em seus braos. - Como foi que saiu da masmorra?
- Diego no lhe contou?
- Diego? No. Por qu? O que ele tem a ver com isso?
- Onde  que ele est?
- Em Sevilha... Por qu?
- Foi Diego quem me soltou.
- Diego? Mas como? Como foi possvel?
- Ainda no sei bem. S sei que os guardas estavam fora do caminho, e ele entrou na masmorra e me soltou.
- Meu Deus! Ento foi por isso que ele viajou a Sevilha, dizendo que tinha negcios a tratar com seu tio. No me disse nada.
- Talvez no quisesse preocup-la. Ele se arriscou muito.
Giselle preferiu omitir a parte do tesouro. Mesmo que tivesse perdido tudo, era grata a Diego por t-la ajudado a fugir e no pretendia causar nenhum desentendimento 
entre ele e Rbia. Estirou a mo para a menina, que permanecera parada um pouco mais atrs, sem se mover, e puxou-a para junto de si, falando com ternura:
- Esta  Marisol.
- Muito prazer, Marisol - cumprimentou Rbia, dando-lhe um beijo na face e encarando Giselle com uma interrogao no olhar.
- Trouxe-a comigo. Tirei-a do calabouo.
- Uma criana! O que ela fazia l?
- Marisol me disse que seu pai era mdico e foi surpreendido dando-lhe lies de anatomia. Ela falou algo sobre um livro com gravuras...
- Que horror! Prenderam uma criana por causa disso? Mas que disparate! Uma menina...
- No se iluda Rbia. Nem as crianas so poupadas da sanha assassina desses padres.
S agora Giselle compreendia isso. Fora preciso sentir na carne a dor das torturas para entender a crueldade que significava a Inquisio. Fora preciso ver com seus 
prprios olhos a dor de uma criana para compreender que nada no mundo poderia justificar tamanha atrocidade.
- O que pretende fazer? - tornou Rbia, ainda espantada.
- Fugir. Diego me arranjou a fuga. Mas no posso levar a menina comigo. Por isso a trouxe aqui. Gostaria que cuidasse dela para mim.

- 


- E os pais dela?
- O pai est preso, e a me foi morta ao tentar defend-la. Rbia fitou Marisol, toda encolhida, agarrada  saia de Giselle. A menina parecia mesmo um anjo, de to 
linda, e o corao de Rbia se enterneceu. Rbia era uma mulher boa e generosa, e logo se comoveu com a sorte daquela criana. Abaixou-se perto dela e falou com 
carinho:
- Voc  uma menina muito bonita, Marisol. Tem os olhos de mar e o sol nos cabelos.
Marisol sorriu para ela, e Rbia ficou encantada. A menina parecia ter um magnetismo especial, que a foi envolvendo e fazendo com que ela se apaixonasse.
- Ento? - insistiu Giselle. - Vai cuidar dela para mim?
-  claro que vou. No se preocupe Giselle, cuidarei dela como se fosse minha.
- Sei que  perigoso, mas no tinha outro lugar para lev-la. Deix-la nas mos dos carrascos, isso jamais poderia fazer.
- J disse para no se preocupar. Darei um jeito. Vou escond-la por uns tempos, at que possamos ajeitar tudo e partir.
- Vocs vo embora?
- Sim. A Espanha no  lugar para ns. No podemos mais esconder o nosso amor, e aqui ningum jamais nos aceitaria. Na certa, iramos presos tambm.
Giselle precisou conter o mpeto para no pular em seu pescoo e pedir a ela que fossem para Alexandria, onde poderia se juntar a eles e cuidar de Marisol. Ao invs 
disso, franziu a testa e observou com horror:
- No diga uma coisa dessas nem brincando.
- No se iluda Giselle. Se monsenhor Navarro no fosse tio de Diego, aposto que j estaramos presos. Incesto  alta heresia.
- Oh! Rbia sinto muito.
- No  preciso. Vamos embora daqui sem nenhum tipo de remorso. A Espanha, muito mais do que o resto da Europa, se tornou um lugar muito perigoso para se viver. 
Precisamos partir para encontrar a felicidade.
- Para onde vo?
- Ainda no sei. Para qualquer lugar longe daqui. E levarei Marisol comigo.
Giselle comeou a chorar de mansinho, louca para pedir que eles fossem para Alexandria, mas julgava-se to criminosa que no se atrevia a pedir nada para si mesma. 
Ainda mais a Rbia.
- No chore Giselle - consolou Rbia, abraando-a com carinho. - Tudo vai acabar bem.
- Oh! Rbia perdi tudo o que tinha no mundo. As pessoas a quem amava... Todas se foram. Meu pai morreu h muitos anos, Ramon foi assassinado. Esteban no se importa 
mais comigo. E agora, voc tambm vai embora. Sinto-me to s.
- Mas voc agora est livre, e isso  o que importa. J sabe para onde vai?
- Para Alexandria.
- Dizem que l  maravilhoso. Mas tenha cuidado. Procure levar uma vida direita.
- Vou trabalhar Rbia. Voc vai ver. Posso fazer qualquer coisa.
- Talvez convena Diego a irmos para Alexandria tambm. Poderemos viver todos juntos l.
Giselle exultou. Aquilo era tudo o que esperava ouvir.
- Seria maravilhoso... - sussurrou.
Rbia soltou um suspiro sentido e prosseguiu:
- Gostaria que Diego estivesse aqui para que pudssemos acertar tudo...
- No posso me demorar muito. Se a guarda de Miguez me pegar, ser o meu fim.
- Tem razo. Mas no se preocupe com nada. Vou lhe dar dinheiro suficiente para se manter por algum tempo, at arranjar algum trabalho.
Mal contendo a emoo, Giselle se atirou aos ps de Rbia e beijou-lhe as mos, molhando-as com lgrimas de gratido.
- No sei se mereo algum feito voc...
Aturdida e sem jeito, Rbia puxou a mo e fez com que ela se levantasse, abraando-a com ternura.
- Voc  minha amiga, e o amor que sinto por voc est alm de qualquer coisa que voc possa ter feito. Por mais que no concorde com nada do que voc fez, no posso 
deixar de am-la.

A emoo tomou conta de Giselle de forma arrebatadora, e ela desatou num pranto sentido e sincero. Aquele deveria ser o verdadeiro amor, e no os que Giselle experimentara 
at ento.
- Obrigada... - foi s o que conseguiu dizer.
- Bem - retrucou Rbia, tentando no chorar tambm. -  melhor voc se apressar. Logo estaro aqui  sua procura.
Rbia deu a Giselle uma bolsa com muitas moedas de ouro, e elas se despediram calorosamente. Giselle beijou Marisol e acariciou o seu rosto, tranqilizando-a quanto 
ao futuro. Rbia seria uma excelente me para ela. Em seguida, partiu de novo a cavalo, os olhos turvos das muitas lgrimas que derramava.
Seguiu at Santa Maria e de l tomou a direo do pequeno povoado chamado Los Lobos. O povoado era, na verdade, uma pequenina aglomerao de casas numa chapada, 
construdas ao p de uma colina que se erguia ao lado de uma srie de outras colinas. Giselle sabia que, do outro lado, encontraria o mar. Mas chegara um dia antes 
do combinado e teria que esperar.
O cu havia se tornado cinza-chumbo, e ela deduziu que ia chover. Precisava se abrigar. Olhou em redor, mas no viu nenhuma estalagem ou coisa semelhante e acabou 
se ocultando numa pequena gruta, um pouco mais afastada. Rbia lhe dera um pedao de po e queijo, e ela se alimentou vagarosamente, a cabea j tombando de tanto 
sono. Em segundos, adormeceu, ouvindo ao longe o som dos troves, que comeavam a ribombar, e a chuva logo desabou sobre a colina.



CAPTULO 37

O primeiro inquisidor a entrar na masmorra naquele dia foi padre Donrio, que ia ao encontro do pai de Marisol, por cuja priso fora responsvel. Esteban, desculpando-se
com a dor de cabea, no se levantou da cama, e Miguez ainda se ressentia da noite mal dormida ao lado de Blanca. Estava a caminho da masmorra quando viu padre Donrio 
sair correndo e gritando.
- O que foi que houve? - quis saber Miguez, segurando-o pelo brao.
- Esto mortos! - berrou o outro, assustado. - Todos mortos!
- Quem? Quem est morto?
- Os guardas! Todos mortos! Envenenados!
Miguez soltou o brao do homem e correu para a masmorra. A porta da frente estava aberta, e ele seguiu direto para o crcere feminino, cuja porta estava apenas encostada. 
Abriu-a de chofre e olhou para o tronco onde Giselle costumava ficar amarrada. Nada. Ela havia sumido. Nem deu pela falta de Marisol. A menina no era presa sua, 
e ele no estava interessado nela.
Com dio no olhar, voltou correndo para fora. Os soldados j comeavam a chegar, junto com o inquisidor-geral, que se encontrava em Sevilha naquela oportunidade. 
Miguez nem os cumprimentou. Passou por eles feito uma bala e foi direto aos aposentos de Esteban. Ele estava acordado, embora ainda fingisse dormir, quando ouviu 
as batidas na porta. Miguez a esmurrou com fora, e Esteban se levantou para atender, abrindo-a com ar de espanto.

- Miguez! - exclamou com fingida surpresa. - O que foi que deu em voc? Por que vem aqui desse jeito?
- O que foi que voc fez Esteban? - vociferou o outro, entrando apressado no quarto.
- O que foi que eu fiz? Como assim? Eu estava dormindo...
- Foi voc, Esteban, eu sei! No adianta fingir para mim.
- No sei do que est falando. Tem certeza de que est se sentindo bem? Porque eu no estou. Desde ontem, estou com aquela terrvel dor de cabea.
- Pare com isso! A quem quer enganar?
- No quero enganar ningum, mas  que no estou entendendo nada. Por que  que no se senta e me conta o que foi que aconteceu?

Miguez quase o esmurrou. Estava coberto de dio e tinha quase certeza de que aquilo fora obra de Esteban. Contudo, procurou se acalmar e revidou entre dentes:
- Giselle fugiu.
- Fugiu? Mas como pode ser?
- Pensei que voc soubesse.
- Eu? Ora, Miguez, francamente. Como pode pensar que eu tive algo a ver com isso?
- No adianta fingir, Esteban. Sei que foi voc. Os guardas esto mortos, todos os trs. Envenenados.
- Como  que sabe que foram envenenados?
- Pensa que sou estpido? Eu mesmo os vi!
- Miguez, tente se acalmar. Lamento que Giselle tenha fugido, mas no tenho nada a ver com isso.
- Ah! No? Pois se no foi voc, quem  que foi ento?
- Sei l. Talvez um de seus amantes.
- O nico amante que arriscaria a vida por ela est morto. E no creio que a alma de Ramon tenha se levantado do inferno para vir salv-la.
Esteban tomou um gole de seu xarope e sentou-se na cama, apertando as tmporas, que realmente haviam comeado a latejar.
- O que quer que eu faa Miguez? No tenho nada com isso.
- Estou lhe avisando, Esteban. Sou seu amigo e daria a vida por voc. Mas no posso permitir que tripudie sobre a autoridade da Inquisio!
- Da Inquisio ou da sua?
-  a mesma coisa! Eu sou a Inquisio. Voc  a Inquisio!
Esteban engoliu em seco. Ele tinha razo. Agira contra seus prprios princpios, contra a instituio que jurara defender. Tudo por causa de uma mulher. Mas ela 
fora a sua mulher um dia, e agora era praticamente como sua filha. Como abandon-la sem ao menos dar-lhe uma chance de tentar se salvar? Os argumentos de Miguez, 
contudo, eram por demais poderosos para serem ignorados, e ele tornou com angstia:
- O que quer de mim, Miguez? J disse que no tive nada com isso.
- Pois ento prove.
- Provar como?
- D ordens aos soldados para que a capturem.
- Como espera que eu faa isso? Nem sei onde ela est.
- Tenho certeza de que vai descobrir - finalizou, sussurrando bem baixinho em seu ouvido.
Em seguida, Miguez saiu dos aposentos de Esteban e foi para o Tribunal, onde acabou descobrindo que Giselle fugira levando consigo uma menina, de nome Marisol, cujo 
processo se encontrava aos cuidados de padre Donrio. Vrios homens foram mandados  sua procura, sem sucesso, porm. At ao castelo de Rbia haviam ido, mas ela, 
j prevenida, escondera a menina numa cmara secreta, e os soldados nada puderam encontrar.
Em Sevilha, as buscas tambm continuavam. Ningum sabia como Giselle podia ter desaparecido to misteriosamente nem entendiam como os guardas haviam se deixado envenenar. 
Ficou esclarecido que haviam bebido vinho envenenado, e todos se perguntavam quem os teria dado. Aquilo era um disparate. Algum fugir da masmorra era considerado 
uma falta gravssima, e o prisioneiro, logo que capturado, seria sumariamente condenado, pois a fuga j era uma evidente prova de culpa. Por isso, ao ser recapturada, 
Giselle seria considerada culpada e o processo estaria terminado com a sua execuo.
Mas Miguez tinha algo especial para ela. A pedido de Lucena, Giselle teria a mesma sorte que dom Ferno. A fogueira seria pouca. O machado, ento, uma bno que 
ela no merecia receber. No. Giselle precisava sofrer. Depois de longas sesses de tortura, quando seu corpo j no agentasse mais, ele a colocaria na Virgem de 
Nuremberg, e Giselle morreria aos pouquinhos, de hemorragia e infeco, tal qual dom Ferno morrera.
Esteban sabia de tudo isso e queria ao mximo evitar essa morte horrenda. Por isso, ajudara-a a fugir. Mas agora, as coisas poderiam se complicar para ele. Sentiu 
medo do que Miguez pudesse fazer. Por mais amigo que fosse ele estava com raiva, e a raiva costuma levar as pessoas aos atos mais extremos. Ainda que se arrependesse 
depois, Miguez poderia fazer algo que o comprometesse seriamente. Mesmo que no fosse levado ao Tribunal, sua honra seria maculada, e talvez at o papa o destitusse 
de suas funes inquisitoriais. Aquilo seria a runa, uma runa que precisava evitar.
Tomou uma resoluo. Gostava demais de Giselle, mas alertara-a seriamente das conseqncias de sua insensatez. Por vrias vezes a advertira de que no poderia ajud-la. 
Ainda assim, tentara. S que agora, as coisas estavam fugindo ao seu controle. Miguez lhe fazia ameaas veladas, e ele precisava pensar em si prprio.
Levantou-se e foi para o Tribunal. Miguez estava reunido com outros inquisidores, discutindo onde mais poderiam encontrar Giselle, quando Esteban entrou. Os outros 
o olharam de soslaio, ningum tinha coragem de insinuar nada. Nem Miguez fizera qualquer insinuao. Aquilo deveria ficar entre eles.
Com um aceno de cabea, Esteban cumprimentou-os. Miguez pediu licena aos demais e saiu com ele para o ptio externo.
- Ento? - indagou com ar intimidador. - Pensou bem no que lhe disse?
Esteban olhou o outro bem fundo nos olhos e respondeu com voz grave:
- Sim. E j tomei a minha deciso.
- Muito bem. Qual foi?
- Se mandar os homens atrs de Giselle, promete no fazer mais perguntas?
- Prometo.
- No vai querer saber como ela saiu da masmorra nem quem a ajudou?
- No. Pode confiar em mim. Voc tem a minha palavra. Entendo o seu gesto e no vou acus-lo, contudo, no posso permitir-me perder a mulher que mais odiei em toda 
a minha vida. S o que quero  Giselle de volta. Ela agora me pertence!
Falou isso com tanto dio, que Esteban sentiu um calafrio. Lamentava muito por Giselle, mas no tinha como salv-la. Com um suspiro de profundo pesar, finalizou:
- Est certo. Aceito a sua palavra. Deixe tudo comigo e no faa perguntas.
Esteban reuniu os soldados e deu-lhes a indicao do local onde Giselle estaria seguindo as orientaes que Diego lhe dera. O barco foi interceptado ainda no porto, 
e alguns soldados embarcaram. Tudo foi feito com muita rapidez, pois o dia marcado para o encontro j estava bem prximo.
Os homens de Esteban se colocaram dentro da gruta que dava na pequena praia por onde Giselle supostamente desceria para esperar o barco. Com os ventos e a chuva, 
o mar havia se tornado extremamente agitado, com ondas rebentando gigantescas nas rochas diante do promontrio.
Quando Giselle terminou de descer a colina e alcanou a praia, a chuva havia dado uma trgua, e ela estudou com assombro o local em que estava. Era uma garganta 
estreita, perfeita para uma emboscada. Sentiu medo, mas no viu outra soluo. Enchendo-se de coragem, comeou a subir pelas pedras, rumo  faixa estreita que ladeava 
o penhasco e adentrava o mar. Foi quando ouviu um rudo e olhou. Saindo de dentro da gruta, dezenas de homens vinham em sua direo, espadas em punho, prontos para 
matar. Vendo-se sem sada, Giselle comeou a arrastar-se pelas pedras, tentando ultrapassar a montanha e alcanar a plataforma que se erguia na ponta do cabo, alguns 
metros acima do mar revolto. Era perigoso, mas no podia se deixar pegar.




Os homens de Esteban saram em seu encalo, ao mesmo tempo em que flechas comearam a zunir diante de seus olhos. De repente, um dos soldados se adiantou e ps-se 
a segui-la, enfrentando as vagas que espocavam nas rochas. O homem ainda se lembrava das ordens que Esteban lhe dera antes de sair de Sevilha:
- Mate-a. Acerte uma flecha em seu corao. Mas seja rpido. No quero que ela sofra.
Acert-la, era impossvel. O vento no permitia que as flechas a atingissem, e a nica soluo seria alcan-la e lev-la de volta. Ordenaria ento uma execuo 
rpida e depois diria que ela tentara fugir. Monsenhor Navarro no queria que ela sofresse, e ele faria tudo rapidamente.
Mas o mar, atiado pela fria da tempestade que desabara durante toda a noite, no estava ajudando. Nem a ele, nem a Giselle. Em dado momento, seus dedos chegaram 
a roar os dela, mas as ondas foram mais rpidas. De repente, um imenso vagalho a atingiu, e Giselle foi arrastada para o fundo do mar. O soldado ainda tentou segur-la, 
mas em vo. A espuma das ondas logo a encobriu, e Giselle foi tragada pela gua cinza e revolta. Por pouco, ele no fora tambm. Melhor, pensou. Assim no teria 
que correr o risco de padre Miguez no acreditar na sua palavra. Ele a queria viva para a Virgem e talvez no se convencesse de que ele tivera que mat-la para que 
ela no fugisse.
Durante muito tempo, ficou olhando para a espuma branca do mar, agarrado  pedra, com medo at de se mover. Ainda precisava fazer o caminho de volta, o que no seria 
nada fcil. Se por terra a caminhada era difcil, na gua ento, seria impossvel salvar-se. Giselle, quela altura, j se encontrava no fundo do mar, e no havia 
nada que ele pudesse fazer para salv-la. Todos os soldados foram testemunhas de que ele tentara lev-la de volta, mas o mar fora mais forte. Fizera todo o possvel 
para tir-la dali, mas ningum tinha foras contra a fria das ondas.
Ningum desconfiou das ordens de Esteban. O soldado, tampouco, nada dissera, e Miguez sentiu imensa decepo ao receber a notcia de que Giselle morrera tragada 
pelas ondas. Esteban, por sua vez, embora se entristecesse, sentiu-se aliviado por v-la livre daquela morte indigna e cruel.
Naquela noite, depois que recebeu a notcia, Miguez voltou para junto de Lucena cabisbaixo. O que iria lhe dizer? Abriu a porta vagarosamente e sentou-se na sala. 
Imediatamente, Lucena se aproximou e foi logo perguntando:
- E ento? Encontraram-na?
- Sim...
- Excelente...! - s ento percebeu o seu olhar de angstia e indagou alarmada: - O que foi que houve? Ela conseguiu fugir?
- Pior. Ela morreu.
- Morreu? Como?
- Tentou fugir e caiu no mar.
Lucena sentiu raiva e uma grande frustrao. No era aquilo que esperava para Giselle. Queria assistir a sua morte lenta, assim como fora obrigada a acompanhar os 
estertores de seu pai. Mas at isso ela lhe tomara. Roubara-lhe a chance de exultar ante a sua agonia.
- Cadela! - vociferou Lucena, com dio. - At na morte ela me vence.
- No diga isso, Lucena. Voc a venceu. Tomou-lhe tudo. E depois, ela est morta. Voc no. Est viva. Pense nisso, Lucena. Voc est viva!
Um sorriso diablico desenhou-se no rosto de Lucena, que tornou com voz mordaz:
- Tem razo. No vou deixar que a sua morte prematura me roube  alegria da vitria. Em breve poderei reabrir sua taverna, e Manuela continuar a trabalhar l. S 
que para mim.
- Tem certeza de que  isso o que quer? Cuidar da taverna?
- Quero possuir e usufruir de tudo o que lhe pertenceu. Estou at pensando em me mudar para a casa que foi dela. Creio que ningum mais pensa em Blanca, todos a 
julgam mesmo morta. Ningum vai suspeitar que ela esteja viva e morando comigo.
Embora no houvesse conseguido completar a sua vingana, Lucena ficou satisfeita. Tudo o que um dia fora de Giselle agora lhe pertencia. A nica coisa que no conseguira 
lhe tomar fora sua alma.




EPLOGO

Finalmente, quando Giselle, emergiu das guas, inspirou avidamente, embora estivesse certa de que vira seu corpo ser arrastado pela correnteza. Talvez houvesse desmaiado 
por instantes e seu corpo tivesse flutuado at a superfcie, o que lhe deixou aquela sensao esquisita. Ela havia trabalhado com muitos espritos, mas estava certa 
de que o mundo invisvel no poderia ser nada parecido com aquele. Afinal, ainda respirava.
S ento se deu conta de que continuava sendo levada pela correnteza e notou que no havia terra por perto. Como pudera ter sido arremessada to longe? Ao menos 
se livrara dos soldados e dos arqueiros, mas ainda no sabia como faria para voltar. Pelos seus clculos, devia estar muito longe do litoral, e nadar seria impossvel. 
Nem sabia para que lado devesse ir.
Foi quando percebeu uma luminosidade vinda do alto e olhou para cima. Parado um pouco acima de sua cabea, um homem flutuava, envolto em suave luz branca. Giselle 
tomou um susto, mas fixou o olhar, tentando identificar de onde o conhecia. Ele foi se aproximando e colocou-se a sua frente, ainda flutuando alguns centmetros 
acima do mar. Ela o encarou por alguns minutos e, de repente, tudo se fez claro. Quem estava ali era seu pai, e seu olhar bondoso lhe dizia que viera para cumprir 
a promessa que lhe fizera de ir busc-la quando desencarnasse. Giselle levou um susto. Naquele momento, vendo o olhar compreensivo do pai, teve certeza de que havia 
desencarnado, e ele ali estava mos estendidas, pronto para pux-la da gua.
Logo que Giselle pensou em segurar a sua mo, a lembrana de todos os seus crimes aflorou a sua mente. Na mesma hora, puxou a mo, envergonhada, e abaixou os olhos. 
No era digna daquela bno. No exato instante em que aquele pensamento perpassou a sua mente, sentiu que uma horda enegrecida a ia envolvendo. Ainda assim, levantou 
os olhos timidamente para o pai, que a olhava com bondade, ainda com as mos estendidas, num convite mudo e suave para que ela o seguisse.
Era o que ela mais queria. J sofrer tanto! Queria muito partir com seu pai para o mundo que ele habitava. Com certeza, se os anjos e santos viviam em algum lugar, 
era l que seu pai estaria. Sentindo o desejo sincero de Giselle, a horda se afastou temerosa. Eram espritos das sombras, muitos dos quais haviam deixado a carne 
envoltos em dio e desejo de vingana, levados  morte pelas palavras traioeiras de Giselle. Outros eram espritos ignorantes que, durante muitos anos, acorreram 
aos chamados de Giselle, todas as vezes que ela lhes fazia aquelas oferendas macabras na floresta. Mas todos estavam unidos num s propsito: arrastar Giselle para 
as cavernas mais sombrias do astral inferior.
Por maior que fosse o seu poder das trevas, nenhum desses espritos era forte o suficiente para enfrentar o poder da luz. Diante de um ser iluminado feito Ian, eles 
se sentiam intimidados e ameaados, e no tinham coragem nem fora para retirar Giselle de sua presena. S o que podiam fazer era esperar at que Giselle se decidisse. 
Se resolvesse partir com Ian, eles nada poderiam fazer. Contudo, se no conseguisse vencer o pensamento secreto que a culpa lhe trouxera de que deveria ser punida, 
ela mesma acabaria se colocando nas mos deles e no teria fora suficiente para acreditar que no precisava habitar as trevas.
A hesitao durou alguns minutos. Giselle oscilava entre o desejo sincero de se perdoar e a culpa que a atormentava, e tanto Ian quanto os outros permaneceram em 
silenciosa expectativa. A malta, louca para avanar sobre ela. Ian, em orao, tentava alcanar o corao da filha e dizer-lhe que no havia crime que no merecesse 
perdo.
Mas a culpa de Giselle impediu o acesso dos pensamentos do pai e criou uma barreira invisvel, fazendo com que ela acreditasse que no era digna de perdo. Nem dos 
que prejudicara, nem de si mesma. Assim, abaixou a cabea novamente e chorou de mansinho, corao oprimido pela culpa, rompendo o elo poderoso que se havia estabelecido 
entre ela e o pai. Na mesma hora, ele foi-se desvanecendo diante de seus olhos, e Giselle, ligada agora aos espritos das trevas, cerrou os olhos e sentiu todo o 
peso do remorso a lhe corroer a alma, martelando em sua cabea que nenhum rprobo feito ela podia pretender tocar os ps de um esprito de luz.
Imediatamente, Giselle sentiu-se de novo envolvida por aquela horda e foi sugada para o fundo do mar por dezenas de mos que a seguravam impiedosas. Num gesto desesperado 
e aturdido, olhou de novo para cima, e a ltima coisa de que pde se lembrar foi da claridade do dia, que inundava a superfcie, sendo apagada  medida que ela descia 
para as profundezas do mar.
Durante muitos anos, Giselle permaneceu no astral inferior, presa queles mesmos espritos que ajudara a destruir. Dentre eles, dom Ferno era o mais assustador. 
Adquirira um ar de fera e no se cansava de lhe infligir toda sorte de torturas. Aos poucos, ele foi ganhando fora e poder, e acabou conquistando uma posio invejvel 
dentro da hierarquia das trevas.
Mas no h trevas que no se dissipem, assim como no h culpa que no alcance o perdo. Os muitos anos de sofrimento no umbral trouxeram a Giselle o desejo de se 
perdoar e se modificar. Queria muito sair dali e reencontrar o pai. Nunca mais vira nem Rbia, nem Ramon, nem Esteban. Giselle se sentia extremamente s. No queria 
mais fazer parte daquele mundo de lama e de sombras.
Em silncio, orou aos cus, pedindo a Deus que permitisse que seu pai fosse ajud-la novamente. Aps a sincera orao, a luz se fez presente ao seu redor, e Ian 
tornou a aparecer envolto no mesmo halo de luz branca em que se acostumara a v-lo. Giselle chorou por longos minutos, com medo de se aproximar. Mas Ian, tocado 
pelo seu sentimento, aproximou-se e estendeu-lhe a mo. Giselle a tomou timidamente, e o pai a envolveu num abrao amoroso e confortador. Cabea encostada em seu 
peito, Giselle chorou. No conseguia falar.
Ian compreendeu o seu pranto sofrido e alisou os seus cabelos. Em seguida, passou a mo sobre a sua testa, e Giselle foi sentindo uma leve e suave sonolncia, suas 
plpebras foram pesando, e ela sentiu que o corpo todo amolecia nos braos do pai. Adormeceu profundamente, e Ian a envolveu novamente, volitando com ela em direo 
ao cu estrelado.
Quando despertou, foi com alegria que Ian a recebeu.
- Como est, minha filha? - perguntou ele, acariciando seu rosto.
Giselle ficou olhando para ele por alguns minutos, sentindo os olhos midos de lgrimas. Apanhou a sua mo e beijou-a com fervor, falando entre soluos:
- Sinto-me bem, pai. Parece que renasci.
- E renasceu mesmo. Voc hoje experimenta uma nova vida. No porque esteja livre das trevas. Mas porque a sua alma no pertence mais quele lugar.
- Oh! Pai! Por que tive que ser to m?
- No diga isso, Giselle. Ningum no mundo  mau. Os que erram, o fazem por ignorncia.
Giselle pensou durante alguns segundos, com olhar entristecido, at que retrucou:
- E os outros? O que foi feito deles?
- Assim como voc, esto tentando entender. Sei que voc est querendo  saber de Ramon. Fique sossegada. Ele est por perto e, em breve, poder v-lo - Ian fingiu 
no notar o rubor que lhe subia s faces e prosseguiu: - Esteban tambm veio para c, aps longo perodo de desespero nas trevas...
- Esteban... Durante todo o tempo em que permaneci nas trevas, jamais o encontrei.
- Isso porque a sua conscincia ainda o atormenta muito, principalmente no que se refere a voc. No teve coragem de encar-la e amargou muitas culpas, mas agora 
se mostra arrependido e pede uma nova chance para se modificar.
- E Rbia?
- Rbia est muito bem. Est encarnada no momento, tentando ajudar Diego em suas relaes com o mundo material. Ele ainda  muito apegado aos falsos valores da riqueza 
e dos prazeres fceis.
Giselle silenciou novamente, com medo de fazer novas perguntas, temendo respostas que no sabia se estava pronta para ouvir.
- E... Os meus inimigos?
Com um sorriso entristecido, Ian respondeu:
- Lamentavelmente, alguns, como Lucena, Miguez e Ferno, ainda se julgam seus desafetos e alimentam desejos de vingana.
- Sei disso - tornou acabrunhada, sentindo um calafrio. - Ainda guardo vivas na lembrana as torturas que gostavam de me infligir. Foi difcil escapar de sua vigilncia 
e da priso em que encerraram meu esprito.
- Nem to difcil. No momento exato em que voc desejou isso de corao, a ajuda concretizou-se veloz. E voc foi logo socorrida e trazida para c.
- Imagino que eles devam estar inconformados. Sabem onde estou?
- Fazem uma idia. E essa idia os fez pensar. Miguez e Lucena esto a um passo de vislumbrar a luz da verdade e j comeam a se questionar sobre tudo o que lhes 
aconteceu. Quanto a dom Ferno... Bem, ele ainda est renitente em seus propsitos de vingana e dio. No se conforma de hav-la perdido, e creio que vai levar 
ainda alguns anos at que abandone o importante cargo que ocupa na hierarquia das trevas.  muito difcil, minha filha, para os espritos que conquistam importncia 
nas trevas desapegarem-se de seu poder. Vivem na iluso do poder e do orgulho e no querem perder essa posio, porque sabem que, do lado da luz, no existem cargos 
mais ou menos importantes do que outros. Todos so iguais em importncia.
- E Blanca?
- Blanca  uma alma nobre. Foi muito bem recebida aqui e hoje trabalha auxiliando os espritos que desencarnam nos autos de f e nas rodas de tortura.
- 

- 
- O mundo ainda est nas mos da Inquisio? - indagou perplexa.
- Lamentavelmente, minha filha, a Inquisio ainda h de reinar por mais alguns anos.
- Por que, pai? Por que tanto sofrimento?
- Nada no mundo acontece por acaso. A Inquisio, assim como as guerras e outras catstrofes, serve a um propsito divino. Muitos espritos a ela acorreram na tentativa 
de compreender e refazer atitudes do passado, experimentando situaes semelhantes quelas nas quais se viram envolvidos por seus instintos mais primitivos. De um 
lado e de outro, h espritos comprometidos com os horrores das muitas guerras, das arenas, dos sacrifcios. Vtimas e algozes lutam para compreender o valor do 
amor, do respeito e do perdo. So espritos infantis, que apenas agem de acordo com o estgio de evoluo em que se encontra a humanidade.
- A humanidade parece ainda estar bem longe da evoluo.
- A humanidade caminha para o crescimento. Desde que o homem pisou na Terra pela primeira vez, vem lutando para evoluir, em todos os sentidos. Existem muitas diferenas 
entre o homem de hoje e o da pr-histria, por exemplo. O homem de ontem no conhecia o fogo, o ferro, a espada. Tambm no sabia o que era amor, amizade, perdo. 
Vivia por seus instintos e para seus instintos. Se algum o ameaava, respondia com violncia e agresso. Matava-se porque no se conhecia o valor da vida alheia, 
mas apenas o de sua prpria vida. O homem de hoje, apesar de ainda guardar muito desse primitivismo, j foi se socializando e criou normas que o auxiliam a conviver 
com seus semelhantes. S que o egocentrismo ainda perdura, trazendo a sede de poder, e falsos valores de moral e religiosidade imperam na mentalidade humana. Deus 
no quer a morte de suas criaturas. Quer que elas aprendam a se amar. Ningum precisa matar para defender o nome de Deus, porque Ele  inatingvel pelos atos humanos. 
Porque  amor em essncia, e o amor tudo compreende e perdoa no se ressentindo das atitudes infantis de quem ainda no conhece os verdadeiros valores do esprito. 
Mesmo que voc o repudie ou o ofenda, Deus jamais se zangar ou a punir. Ao contrrio, lhe enviar cada vez mais ondas vibrantes de amor, para que voc possa despertar 
o amor dentro de voc e crescer.        
- Mas por que tem que ser assim? Por que precisamos errar e sofrer para aprender a amar?
- Ningum precisa errar muito menos sofrer. O amor precisa ser despertado e estimulado, porque j existe em essncia dentro de cada um de ns.   
- , mas hoje sei que o que fiz no foi certo. Minha conscincia me acusa de meus crimes a todo instante. Como poderei no sofrer para pagar por tudo o que fiz?
- Se voc consegue compreender a razo de seus atos, no precisa sofrer. Quanto a pagar, essa  uma compreenso errada das verdades divinas. Ningum deve nada a 
ningum, a no ser a si mesmo. No  s porque voc matou que vai precisar morrer. Vai morrer se quiser. Mas, se conseguir entender por que matou, libertando-se 
da culpa e se perdoando, no vai precisar ser assassinada por ningum. Ao contrrio, vai buscar caminhos mais teis, salvando vidas, por exemplo, devolvendo ao mundo 
aquilo que ajudou a tomar.
- Como fazer isso, pai? A culpa  um tormento...
-  verdade. Mas precisamos aprender a nos libertar dela.
- No  to fcil. Ainda que eu consiga me perdoar, como obter o perdo daqueles que prejudiquei?
- Se voc se perdoar de verdade, nenhum esprito conseguir atingi-la, e voc servir de exemplo para que ele a perdoe tambm. Mas no se iluda Giselle. Perdoar 
os nossos inimigos  muito mais fcil do que perdoar a ns mesmos. Ns passamos pela vida com a inteno de aprender, mas todo aprendizado no deve passar s pela 
mente.  preciso que adentre o corao. Quando voc racionaliza,  como se decorasse a lio e a repetisse, simplesmente porque aprendeu daquele jeito. Mas quando 
aquele ensinamento se abriga no corao,  porque voc alcanou a compreenso verdadeira e no vai mais precisar repetir para se convencer. Aquela experincia, alm 
de desnecessria, j no  mais til para voc.
-  isso o que o mundo est tentando aprender?
- Esse  um momento de transio, onde muitos espritos receberam a chance de se libertar da animalidade e dar um salto para o futuro. Mas muitos ainda no esto 
prontos e no conseguem se desprender dos sentimentos mais primitivos, como o dio, o orgulho, a vingana. So espritos ainda muito egocntricos, porque s o que 
conseguem desejar so o seu prprio bem-estar e o daqueles que lhes so mais caros. Mas ainda no conseguiram internalizar a necessidade do bem comum. No sabem 
ainda reconhecer em seus semelhantes os mesmos sentimentos que tambm possuem. So como feras que matam para sobreviver. Por maldade? No, por instinto. Porque, 
para elas, a nica coisa que importa no mundo  a sua sobrevivncia. Ningum pode acusar um leo de crueldade, porque a nica forma que ele conhece de saciar a sua 
fome  matando. Matar  da sua natureza.
- Um leo ser sempre um leo. No tem inteligncia, no tem raciocnio.
- Mas a alma animal que nele habita, um dia, vai encontrar um novo jeito de se manifestar e se apresentar ao mundo, e vai retornar em outro corpo mais evoludo. 
A lei de evoluo  eterna, e a vida que anima o leo tambm  impulsionada para evoluir. Quando isso acontecer, ela deixar de ser leo e voltar numa forma feldea 
j mais adiantada. A espcie, contudo, continuar existindo, para que muitas outras formas de vida animal, que abandonaram formas ainda inferiores, possam vivenciar 
aquela nova experincia, at que alcancem a compreenso e a maturidade que aquele instrumento busca lhes dar. Tero ento conquistado novo aprendizado, importante 
para o grupo do qual fazem parte, e continuaro indo e vindo, trocando de forma, at que um dia estaro aptos  individualizao.
- E os homens?
- Evoluem at que alcancem a perfeio relativa que  prpria deste mundo. Um homem ser sempre um homem, mas, diversamente dos animais, se utiliza da mesma forma 
fsica em seus processos de evoluo. O esprito que anima a forma nominal, ao desencarnar e reencarnar continuar assumindo a forma humana, mas ter evoludo algo 
de seu intelecto e de sua moral. O homem j est apto a raciocinar e sentir,  um ser individualizado, consciente de si mesmo, embora ligado ao todo do qual escolhesse 
fazer parte. Quando um homem aprende, est auxiliando no aprendizado de toda humanidade. As novas idias surgem dos grandes gnios, mas as suas obras no permanecem 
reclusas no seu estreito limite de existncia. Ao contrrio, saem para o mundo e passam a pertencer a toda humanidade.
Giselle permaneceu algum tempo pensando. Havia tantas coisas que no conseguia entender! Mesmo as palavras de seu pai soavam estranhas para ela. Entretanto, uma 
coisa havia compreendido: a necessidade de aprender os verdadeiros valores do esprito. No queria mais permanecer nas trevas da ignorncia, agindo como um animal 
em busca da satisfao de seus instintos.
- O que poderei fazer para me modificar? Prejudiquei muitas pessoas com a minha ignorncia pai, e sinto necessidade de auxiliar no crescimento da humanidade. Queria 
devolver ao mundo o que ajudei a tirar de tantas pessoas, muitas, de cujos rostos nem consigo mais me lembrar.
- Seu corao est sentindo a necessidade de crescer, e isso  muito bom. Mas no se apresse. Estude com calma as possibilidades e trace planos para o futuro. Mas 
lembre-se: h pessoas que conviveram com voc e com as quais voc ter que se entender. Ser que, quanto a elas, esse desejo ainda perdura?
- No sei... No havia pensado nisso.
- Pois pense. Planeje sua prxima reencarnao tendo em vista a necessidade de perdo e de aprimoramento. Voc ainda no se perdoou Giselle, e sabe disso. E a culpa 
poder ser um entrave ao seu crescimento.
- Creio que tem razo, pai. Mas o que poderei fazer? No quero continuar carregando esse peso.
- Por isso  que lhe disse para pensar. Projete a sua vida futura em trs nveis: um individual, outro coletivo e outro universal. Trabalhe a sua individualidade, 
analisando seus sentimentos, os seus processos de dor e de culpa, os seus desejos e tudo o mais que se refira somente a voc. Seja sempre sincera consigo mesma e 
procure no mistificar a sua essncia. Alm disso, integre-se ao grupo no qual escolher nascer. Aprenda a ser filha, me, esposa, amiga. Vivencie todas essas posies 
tendo em vista as suas necessidades e a de seus semelhantes, sem abrir mo do que lhe pertence, mas sem desrespeitar o que no  seu. Saiba reconhecer o seu direito 
e o direito alheio, e procure compreender aqueles que no conseguirem alcanar os mesmos valores que voc. Eles no sero nem melhores nem piores do que voc. Apenas 
podero estar em outro nvel de compreenso, no qual voc, fatalmente, um dia tambm j esteve. E, como  de seu desejo, escolha uma atividade voltada para o mundo 
em geral. Seja mdica, religiosa, professora, artista. O que voc quiser e o que mais lhe agradar. Mas faa algo que atinja vrias pessoas, pessoas desconhecidas 
que podero se beneficiar de suas obras. Agindo assim, voc estar colaborando mais diretamente com o universo, levando s muitas almas aquilo de que elas mais necessitam: 
alvio, carinho, conhecimento, beleza... E sua ajuda ser imparcial, porque voltada para aqueles que voc nem conhece. Assim como voc tirou dos que no conhecia, 
poder estar auxiliando esses mesmos desconhecidos naquilo que lhes for mais necessrio no momento.
As palavras de Ian tocaram fundo o corao de Giselle. Ela possua conscincia do quanto ainda era primitiva e desejava mudar. Sabia que muitos de seus antigos companheiros 
estariam imbudos dos mesmos propsitos, mas outros no conseguiriam compreender e permaneceriam ainda atados ao dio e  vingana. Mesmo assim, estava disposta 
a tentar. Se no conseguisse, tentaria de novo, e de novo, e de novo. At que estivesse pronta para realmente dar um passo  frente e evoluir.
Finalmente, estava em paz com o seu corao...


Fim









 

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